Três pilares da tomada de decisão no futebol

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Por: Nicolau Trevisani

Nos textos anteriores, falei sobre como vínculo e ambiente ajudam o atleta a acessar estados de presença que se aproximam do Flow. Hoje, queria olhar para outro ponto dessa cadeia: o que acontece dentro do cérebro nos instantes que antecedem a decisão — e como isso aparece concretamente no jogo.


Antônio Damásio, em Sentir e Saber, descreve que a consciência surge quando o cérebro integra sinais do corpo com informações do ambiente. Essa integração é rápida e, embora pareça intuitiva, segue uma lógica muito concreta.

No futebol, isso aparece em três movimentos internos.


O primeiro é emocional. Regiões como a amígdala e a ínsula avaliam o momento antes mesmo de o atleta ter clareza consciente. Se o corpo está em alerta, a percepção encolhe e o jogador tende a escolher saídas de segurança. Quando o corpo está mais regulado, a leitura se expande — o atleta enxerga mais possibilidades, não apenas ameaças.

O segundo movimento é perceptivo. Estruturas que filtram estímulos — como o tálamo — ajudam o cérebro a decidir, em milissegundos, o que realmente importa naquela jogada: o adversário pressionando, o espaço livre, a linha de passe. Em estados próximos ao Flow, esse filtro trabalha melhor: menos ruído, mais relevância.

O terceiro é decisório. Redes responsáveis por avaliar prioridades e conectar emoção com raciocínio — como o córtex pré-frontal — transformam essa leitura em ação. É aqui que a sensação vira clareza. Em termos simples: o jogador decide porque conseguiu interpretar o que sentiu.

Isso fica evidente em um lance comum.
Imagine um zagueiro recebendo a bola sob pressão. Se o corpo dele lê o momento como ameaça, ele devolve rápido, domina mal ou simplesmente se livra da jogada. Mas se o corpo está mais estável, ele percebe o atacante chegando, ajusta o tronco, atrai a pressão e encontra um passe por dentro. A técnica pode ser a mesma; o que muda é como o cérebro organizou aquele segundo.

Quando observamos um jogador, entender um pouco melhor esses processos pode nos ajudar a perceber — de forma sutil e precisa — onde estão de fato as potencialidades e fragilidades de um atleta no entendimento de jogo. Compreender o processo decisório do ponto de vista neural e biológico não substitui a análise tradicional, mas se torna uma ferramenta adicional para identificar coerências, padrões e também as “pontas soltas” que às vezes impedem um jogador de transformar leitura em ação.

No fim, Damásio ajuda a nomear algo que o futebol revela o tempo todo: decidir é o momento em que o sentir se transforma em clareza. E quando esse processo acontece com menos interferência emocional — algo que o Flow facilita — essa clareza dura mais tempo e aparece com mais consistência.

Foto: Sérgio Busquets em ação contra o Real Madrid — Foto: REUTERS/Isabel Infantes

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53 respostas em “Três pilares da tomada de decisão no futebol”

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