Por: Nicolau Trevisani
Ao longo da minha trajetória no futebol, atuei em diferentes funções e contextos: análise de desempenho em categorias de base (São Paulo FC), futebol profissional no Brasil como analista de desempenho e scout (São Paulo FC) e, atualmente, como scout internacional na América do Sul (. FC Dallas -MLS). Essas experiências não aconteceram de forma isolada. Pelo contrário, acabaram se conectando em algo que considero central hoje: a forma como observo o jogo e organizo critérios para apoiar a tomada de decisão.
O trabalho no ambiente formativo me ensinou a olhar para o desenvolvimento ao longo do tempo, respeitando maturidade, contexto e processo. Já no futebol profissional, a pressão por resultado imediato trouxe outra camada importante: a necessidade de transformar informação em clareza rápida para a comissão técnica. No scouting, especialmente em um contexto internacional, esse olhar precisou se ampliar ainda mais — compreender o jogador não apenas pelo que ele faz, mas pelo ambiente em que faz, pelo nível de exigência competitiva e pela adaptação necessária a novas realidades.
Foi a partir dessa circulação entre áreas que uma pergunta passou a guiar meu trabalho: o que diferencia uma boa observação de uma observação que realmente ajuda a decidir melhor? No futebol, vemos muitos dados, vídeos e relatórios. Mas nem sempre isso reduz ruído. Muitas vezes, apenas adiciona camadas de complexidade a decisões que já são difíceis.
Na prática, passei a valorizar menos o evento isolado e mais a frequência com que o jogador consegue decidir bem em diferentes contextos. Observar como ele se posiciona antes de receber, como reage ao erro, como sustenta a leitura sob pressão ou em vantagem no placar. Esses detalhes dizem mais sobre adaptabilidade e consistência do que um lance bem-sucedido destacado em vídeo.
Esse olhar também muda a forma de projetar. Não existe jogador bom ou ruim fora de contexto. Existe adequação — entre perfil, ambiente, modelo de jogo e tempo de maturação. Ignorar essa relação costuma gerar erros caros, seja no desenvolvimento, na contratação ou na expectativa criada em torno de um atleta.
Por isso, hoje entendo trajetória profissional não apenas como um conjunto de experiências, mas como a construção de um método. Um método que conecta observação, interpretação e decisão. Que respeita o lado humano do jogo sem perder rigor técnico. E que busca ajudar clubes e profissionais a enxergar melhor o que está diante deles — reduzindo ruído e aumentando consistência em um ambiente onde decidir bem, mais do que acertar sempre, é o verdadeiro diferencial.
Ter um método capaz de organizar, solidificar e dar sentido às informações só foi possível graças à formação acadêmica, mas, sobretudo, às diferentes experiências vividas ao longo do caminho. O jogo e o jogador estão ali para todos verem. Observar com método, porém, é o que realmente qualifica a informação — e faz diferença na prática profissional.



Uma resposta em “Entre observar e decidir: a importância do método”
It’s great to see someone explain this so clearly.