Metodologia, Tempo e Vida

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Uma reflexão, como aquelas de sono interrompido, por inquietações pedagógicas, onde o pensamento não para. Às vezes, é nesse intervalo entre o descanso e o despertar que algumas perguntas insistem em aparecer.

O que sustenta, de verdade, aquilo que chamamos de metodologia quando o tempo passa?

Costumamos tratar metodologia como algo novo, organizado, limpo, quase perfeito. Como uma bola recém-tirada da caixa. Mas será que ela se sustenta por ser nova ou por já ter atravessado o tempo? Será que aquilo que ainda não foi colocado em jogo consegue, de fato, sustentá-lo?

Talvez a melhor representação de uma metodologia não seja um manual, um plano fechado ou um conjunto de regras. Para mim, metodologia é uma árvore. Um ser vivo. Algo que carrega o peso do tempo, que cria raízes profundas, que sustenta um tronco firme e que se permite ramificar em diferentes direções. Uma árvore cresce, mas não cresce negando aquilo que já foi. Ela cresce porque permanece.

Quando um jogador chega ao elenco profissional, ele se depara com algo que, muitas vezes, não viveu plenamente durante sua formação: a diversidade. Diversidade de idades, de histórias, de experiências e de tempos de vida. No processo formativo tradicional, ele quase sempre compartilhou o campo com meninos da mesma idade, do mesmo ano, do mesmo recorte. Um ambiente controlado, organizado, previsível.

Mas o futebol profissional não é assim. A vida não é assim.

Pelé jogou uma Copa do Mundo sendo um menino, compartilhando o mesmo ambiente com senhores. Homens com família, com dores, com histórias longas. E ele ali, um garoto. A pergunta que se impõe não é apenas onde Pelé se formou tecnicamente, mas onde ele aprendeu a conviver com essa diversidade.

Na rua.

Na rua não existe categoria. Existe jogo. O mais velho ensina sem perceber, o mais novo aprende observando, e todos precisam se adaptar. A rua não separa por idade; ela organiza por respeito, leitura de jogo e sobrevivência. Antes de preparar para o alto rendimento, a rua prepara para o convívio. Para a escuta. Para o tempo do outro.

Talvez o maior equívoco dos nossos processos de formação seja confundir desenvolvimento com novidade. E esquecer que, no futebol e na vida, o que sustenta não é o que brilha, mas o que permanece.

Metodologias vivas, como árvores, não têm pressa de parecer modernas. Elas se preocupam em ser verdadeiras.

E talvez seja isso que a rua sempre soube fazer melhor.

Inspirações e referências:

João Batista Freire, Wilton Carlos de Santana, Danilo Augusto Ribeiro

Thiago Filla de Almeida é Profissional de Educação Física especializado em metodologia de base, com experiência na coordenação da iniciação esportiva do Avaí Futebol Clube. Atualmente, atua no Relacionamento Institucional do Instituto Futebol de Rua, onde trabalha para ampliar o impacto do esporte como ferramenta de transformação social, conectando projetos e parcerias em todo o Brasil.
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/thiago-filla-de-almeida-0098b3152

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3 respostas em “Metodologia, Tempo e Vida”

Parabéns, por isso e outras que o futebol se sustenta, teoria e prática alimentar a esperança em ser jogador bem sucedido, sensacional seu pensamento.

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