Estudo de caso: o que os(as) jogadores(as) consideram um bom treino?

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Por: Nicolau Trevisani

Grande parte das discussões sobre metodologia de treino no futebol costuma partir da visão de treinadores, pesquisadores ou modelos teóricos de treinamento. Entretanto, uma pergunta relativamente simples raramente aparece com a mesma frequência: o que os próprios jogadores consideram um bom treino?

Com o objetivo de explorar essa perspectiva, foi realizada uma pequena investigação qualitativa com 51 atletas de futebol, homens e mulheres, com diferentes trajetórias dentro do esporte. Entre os participantes há atletas profissionais de diferentes níveis competitivos, ex-atletas e jogadores em formação, incluindo atletas com experiência internacional e passagens por seleções nacionais.

Como critério metodológico, foram considerados apenas participantes a partir de 15 anos de idade, garantindo que todos possuíssem pelo menos experiência em categorias de base estruturadas ou trajetória competitiva formal no esporte.

A pergunta central foi direta:
O que é um bom treino para você? Quais elementos precisam estar presentes para que um treino seja considerado bom?”

A partir das respostas coletadas, foi possível identificar padrões recorrentes na percepção dos atletas. Esses padrões foram organizados como pilares do treino, ou seja, elementos que apareceram de forma consistente nas respostas dos jogadores e jogadoras.

Mais do que substituir princípios metodológicos ou modelos teóricos de treinamento, esses pilares ajudam a lembrar algo fundamental: o treino existe para o jogador. Entender o que gera sentido para quem vive o jogo diariamente pode ser uma das formas mais eficazes de aumentar o engajamento da equipe, fortalecer vínculos dentro do grupo e tornar o processo de treino mais significativo na prática.

Pilares identificados pelos atletas

Competitividade — 70,6%
A competitividade foi o elemento mais citado pelos atletas. Para muitos jogadores, um bom treino precisa ter desafio real, disputa e estímulo competitivo, aproximando o ambiente de treino das emoções presentes na partida.

Relação direta com o jogo — 36,7%
Outro ponto recorrente foi a importância de que os exercícios se aproximem da realidade do jogo. Muitos atletas destacaram que treinamentos mais conectados com situações reais de partida tornam o treino mais significativo e facilitam a transferência para o jogo.

Intensidade e ritmo — 30,6%
Diversos jogadores apontaram que um bom treino é aquele que mantém ritmo elevado e poucas pausas, permitindo maior envolvimento físico e mental durante as atividades.

Aprendizado e tomada de decisão — 30,6%
Outro elemento bastante citado foi a presença de atividades que estimulem o raciocínio e a tomada de decisão. Os atletas valorizam exercícios que os coloquem diante de problemas de jogo e os obriguem a pensar e reagir rapidamente.

Participação ativa — 26,5%
A sensação de estar constantemente envolvido no treino, participando das ações e tocando na bola com frequência, também apareceu como um fator importante para que o treino seja considerado produtivo.

Clareza na comunicação do treinador — 26,5%
Por fim, muitos atletas ressaltaram a importância de explicações claras e objetivos bem definidos dentro do treino. Quando os jogadores compreendem o propósito das atividades, tendem a se envolver mais com o processo.

Algumas tendências observadas nas respostas

Embora esses pilares apareçam de maneira bastante transversal entre atletas em formação e atletas profissionais, algumas tendências interessantes foram observadas nas respostas.

Entre atletas com experiência profissional, apareceu com maior frequência uma preocupação relacionada à clareza estratégica do treinamento, especialmente na conexão entre os exercícios realizados e o modelo de jogo do treinador ou o plano de jogo da equipe.

Para esses jogadores, um bom treino tende a ser aquele em que as atividades fazem sentido dentro da organização coletiva da equipe, permitindo compreender como aquilo que está sendo treinado será aplicado na partida.

Já entre atletas em formação, embora esses aspectos também apareçam, observou-se maior ênfase em elementos ligados ao processo de aprendizagem individual, como evolução técnica, repetição de ações, participação nas atividades e compreensão das tarefas propostas.

Esse resultado não deve ser interpretado como oposição entre os grupos, mas possivelmente como reflexo das diferentes fases de desenvolvimento do atleta. À medida que o jogador acumula experiência competitiva, sua percepção sobre o treino tende a incorporar cada vez mais dimensões estratégicas e coletivas do jogo.

Síntese dos pilares identificados

Competitividade — 70,6%
Relação com o jogo — 36,7%
Intensidade — 30,6%
Aprendizado / tomada de decisão — 30,6%
Participação ativa — 26,5%
Clareza do treinador — 26,5%

Considerações finais

Os resultados sugerem que compreender o ponto de vista dos atletas pode ser uma ferramenta extremamente valiosa para o desenho de processos de treino mais eficazes.

Isso não significa abandonar modelos metodológicos ou princípios teóricos de treinamento. Pelo contrário: significa reconhecer que tão importante quanto qualquer princípio metodológico é compreender o que gera sentido para quem está dentro do campo.

Quando o treino consegue alinhar lógica metodológica, desafio competitivo e significado prático para o jogador, cria-se um ambiente mais favorável para o desenvolvimento técnico, tático e humano dentro do futebol. Em última análise, o treino existe para o jogador. E escutar quem vive o jogo diariamente pode ser um dos caminhos mais poderosos para tornar o processo de treino mais engajador, mais significativo e potencialmente mais eficaz.

Nicolau Trevisani Frota atua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional..
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/nicolau-trevisani-frota-67609b1b0/

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