Por: Rafael Castellani & Sebastián Acevedo Vásquez
Não é raro nos depararmos com notícias que envolvem disputa entre dois ou mais clubes de futebol por um atleta. Para além das questões de objetivação e coisificação do atleta que marca esse tipo de situação, o que baliza esse processo e merece destaque é que frequentemente os desejos e necessidades do próprio jogador são negligenciados ou ficam em segundo plano.
Se entre atletas profissionais, adultos, esse processo já merece nossa atenção e crítica, imaginem quando o centro da disputa é uma criança!
Recentemente, nos deparamos com mais uma notícia, publicada no globoesporte.com, sobre o jovem Lucas Flora, que recentemente foi alvo de disputa entre Palmeiras e Corinthians. Flora, como tem sido chamado pela imprensa, é um garoto de 12 anos que ganhou destaque nacional pelo grande talento e habilidade demonstrados jogando futsal pelo clube alvinegro, sobretudo pela divulgação das suas jogadas nas redes sociais, nas quais já possui mais de 400.000 seguidores.
Este é o mesmo menino que, há poucos meses, foi noticiado em parte da imprensa como o instrumento de vingança entre Palmeiras e Corinthians. Em coluna do Portal R7, o colunista Cosme Rímoli afirmou que o Palmeiras, em retaliação ao fato da diretoria do Corinthians tentar, por três vezes, a contratação do coordenador técnico da base do Palmeiras, responsável pela revelação de grandes talentos, dentre eles o Estevão e o Endrick, iria “contratar” o promissor jogador, à época, uma criança de 11 anos de idade, oferecendo à sua família uma alta quantia em dinheiro, mais do que o dobro do valor oferecido pelo Corinthians.
A palavra “contratar” está propositalmente entre aspas, afinal, tanto a FIFA, quando a Lei Geral do Esporte, proíbem que crianças menores de 14 anos assinem contrato de formação ou profissional com clubes de futebol. Assim sendo, acordos celebrados com jovens menores de 14 anos não possuem validade desportiva. Tratando-se, à época, de uma criança de 11 anos, podemos destacar ainda a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Convenção sobre os Direitos da Criança, que garantem os direitos integrais da criança, dentre eles, que o esporte seja uma ferramenta de desenvolvimento, e não um mecanismo de exploração precoce.
Nestes casos, podemos evocar, por exemplo, o artigo 24 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, o qual garante a prática do futebol como lazer, priorizando o brincar; ou o artigo 32 da Convenção sobre os Direitos da Criança, que versa sobre a proteção contra a exploração econômica do menor. Ou então, se trazermos para análise o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a nova Lei Geral do Esporte, de 2023, está claro que qualquer contrato de trabalho só pode ser celebrado a partir dos 16 anos de idade e, no caso do futebol, o contrato de formação a partir dos 14 anos.
Para além das questões contratuais e normativas, o que nos interessa neste texto é saber quando é que vão devolver à criança o jogo, a brincadeira e o prazer pela prática do futebol.
Quando somos crianças, só pensamos em jogar bola e nos divertir. Entretanto, tal comportamento toma outra proporção e complexidade quando só a criança pensa que o futebol é somente um jogo de bola e o entorno vê nela oportunidades para melhoria financeira do clube, de ascensão social da família, para obter rendimentos com a representação do atleta e contratos com patrocinadores; assim, transformam essa criança em um “mini adulto”, fazendo-a assumir responsabilidades e lidar com pressões que não cabem na vida de uma criança que deveria, de fato, estar brincando de futebol, descalça na rua (em seu sentido amplo, conforme defendido por João Batista Freire), com as amizades próprias de uma criança de 12 anos.
Todos nós já fomos crianças e sabemos que se isso não for uma expressão de trabalho infantil, “bate na trave”; tudo com a ciência dos clubes e daqueles que se dizem interessados em gerenciar a carreira da criança.
E se o menino desistisse de jogar bola pela pressão a qual está sendo submetido? Será livre dessas responsabilidades assumidas ou terá que responder a um “dono”? Toda e qualquer criança deveria ter seus direitos garantidos, inclusive o direito de não querer voltar a jogar bola. O tamanho do contrato não pode ser maior do que o direito da criança em vivenciar sua infância e brincar em todas as etapas da sua vida.
Parafraseando uma música da banda Natiruts, “deixem o menino jogar!” É preciso tratarmos as crianças como crianças. Isso significa garantirmos sua segurança (física e emocional), o acolhimento de suas necessidades e interesses, reconhecendo-a em seu contexto, individualidade e integralidade.
Flora não é uma joia, ou seja, não é um produto ou mercadoria valiosa que precisa ser lapidada, como frequentemente é noticiado pela mídia e dirigentes. Flora é um broto; uma criança que precisa ser regada para florescer e se desenvolver. Ser regada a respeito, acolhimento, amor, diversão, prazer…
Quando falamos em diversidade de plantas de uma determinada região, estamos falando da flora de uma área. A flora de cada habitat é bastante peculiar e, ao mesmo tempo, distinta e está diretamente relacionada com fatores como temperatura, radiação luminosa, regime de chuva e solo. No Brasil, a flora é bastante rica, principalmente pela diversidade de ecossistemas existentes.
A Flora sempre se desenvolve no seu tempo, no seu ciclo; cada espécie é uma criança com sonhos e para que exista florescimento, precisamos garantir um contexto propício para a sua evolução e fortalecimento, como esperamos que seja o futuro de Lucas Flora e de toda e qualquer criança. Um contexto regado a amor, empatia, competência e compromisso ético pelo que fazemos, pela liberdade de expressão, pela colaboração com o ecossistema e com um futebol mais humano, lúdico, ecológico e menos mercadológico.
[1] https://ge.globo.com/futebol/times/corinthians/noticia/2026/04/14/corinthians-marca-reuniao-para-debater-futuro-de-flora-ausencia-em-torneios-incomoda-familia.ghtml. Acesso em 14/04/2026.
[2] https://esportes.r7.com/prisma/cosme-rimoli/palmeiras-por-vinganca-tirou-revelacao-de-11-anos-do-corinthians-rival-tentou-levar-o-descobridor-de-13062024/. Acesso em 14/04/2026
[3] Conceito Flora: https://brasilescola.uol.com.br/biologia/flora.htm


Uma resposta em “Sem conseguir ser criança, Flora não floresce”
Trata-se de crime. Mas no futebol pode.