Revisitando a interpretação da terapia no futebol

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Por: Nicolau Trevisani

Em diferentes textos aqui na Universidade do Futebol, já abordamos a importância do estado de flow como um dos elementos que ajudam a compreender o desempenho em campo. Esse estado, associado a níveis elevados de concentração, clareza e envolvimento com a tarefa, não surge de forma aleatória — ele é influenciado por múltiplos fatores, entre eles a forma como o atleta percebe, interpreta e reage às demandas do jogo. Nesse contexto, ampliar o olhar sobre o papel da terapia no futebol se torna relevante, não apenas sob um viés clínico, mas também como parte de um processo mais amplo de desenvolvimento e potencialização de desempenho individual e consequentemente coletivo.

Ainda é comum que o acompanhamento psicológico seja associado principalmente ao tratamento de dificuldades, como ansiedade, insegurança ou momentos de queda de rendimento. Esse papel é importante e, em muitos casos, necessário. No entanto, limitar a terapia a essa função reduz sua contribuição dentro do ambiente esportivo. O trabalho psicológico também pode atuar de forma contínua, ajudando o atleta a lidar melhor com as exigências do jogo, a sustentar níveis de atenção e a responder de maneira mais consistente em situações de pressão.

Na prática, esse impacto pode aparecer de diferentes formas, sempre considerando as particularidades de cada indivíduo. Alguns atletas podem se beneficiar de um trabalho voltado à relação com o erro, conseguindo se reorganizar mais rapidamente durante a partida. Outros podem desenvolver maior clareza na tomada de decisão, especialmente em contextos de alta exigência. Há também aqueles que buscam maior estabilidade ao longo de uma competição. Esses exemplos não são regras, mas possibilidades — e reforçam a ideia de que não existe um único caminho, mas sim a necessidade de compreender o atleta em sua individualidade.

Esse cuidado se estende também às diferentes etapas da trajetória esportiva, sem que isso represente uma divisão rígida ou universal. Em momentos iniciais, por exemplo, é importante que pais e responsáveis compreendam que o desenvolvimento do atleta vai além do aspecto técnico, incluindo dimensões emocionais e cognitivas que influenciam diretamente sua relação com o jogo. Ao longo da carreira, as demandas se transformam, e a forma como cada atleta responde a elas também varia. Por isso, mais do que definir em que momento a terapia deve estar presente, talvez seja mais produtivo entendê-la como um recurso disponível ao longo de todo o processo, ajustado às necessidades de cada indivíduo.

A literatura ajuda a sustentar essa relação entre mente e desempenho. Em “Flow: A Psicologia do Alto Desempenho”, Mihaly Csikszentmihalyi destaca como determinados estados mentais favorecem a execução em ambientes desafiadores. Já em “Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar”, Daniel Kahneman demonstra como, sob pressão, nossas decisões tendem a seguir caminhos mais automáticos e sujeitos a vieses. No futebol, essas ideias ajudam a compreender que o desempenho não depende apenas do que o atleta sabe fazer, mas da sua capacidade de acessar esse repertório em situações reais de jogo.

Dentro desse contexto, a formação que busquei ao longo da minha trajetória — partindo da análise de jogo e do scouting, e avançando para um aprofundamento na psicologia — permite construir um olhar mais sistêmico sobre o atleta. Essa integração entre o entendimento do jogo e dos processos mentais amplia a capacidade de identificar tanto lacunas quanto potencialidades, contribuindo para uma leitura mais completa do desempenho. Um olhar que pode agregar tanto na avaliação do jogador, enquanto scout, quanto na compreensão mais ampla do atleta dentro do processo de desenvolvimento.

A abordagem sistêmica, na minha visão e convicção, se prova cada vez mais necessária para atender às demandas complexas do futebol e do esporte de alto rendimento nos dias atuais, nas diferentes funções que impactam no jogo.

Nicolau Trevisani Frota atua como Scout para América do Sul no FC Dallas (MLS) e North Texas SC. É graduado em Psicologia, com pós-graduação em Gestão de Pessoas e em Metodologia do Treinamento no Futebol. Possui experiência em scouting, análise de desempenho e identificação de talentos, com atuação prévia no São Paulo FC, da base ao profissional..
Linkedin: https://www.linkedin.com/in/nicolau-trevisani-frota-67609b1b0/

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