Universidade do Futebol

Colunas

02/09/2017

A autonomia do jogador

“É decidindo que se aprende a decidir.” (Paulo Freire)

Olá, caro leitor.

Alguém de vocês já fez, ou faz, aulas para aprender a tocar algum instrumento? Eu já fiz! Por um curto período de tempo (pretendo retomar um dia, não necessariamente neste instrumento) fiz aulas de violão. Em função de uma série de fatores não dei continuidade, na época ainda não trabalhava com o esporte, porém, algumas posturas didáticas do meu professor me fizeram refletir bastante e influenciam na minha ação como professor/treinador hoje.

Meu antigo professor me apresentou as bases de qualquer canção, as notas musicais, utilizou algumas músicas prontas para que eu pudesse começar a dominar as notas tanto em relação ao conhecimento declarativo (ouvir e reconhecer), como também em relação ao conhecimento processual (tocar). E sempre me dizia que era importante que dominasse as notas e pudesse reproduzi-las, a fim de que, na sequência, começasse a usar minha criatividade e predileções para compor minhas próprias músicas. Ele não estava tão preocupado se eu fosse tocar rock, música clássica ou sertaneja, simplesmente queria que eu fosse capaz de tocar e produzir música por mim mesmo.

Trazendo esta situação para o jogo de futebol, é notória (e imprescindível) a grande importância que tem se dado à tomada de decisão dos jogadores em uma partida (nas colunas “Tomar decisões, algo simples e complexo” e “Como você está formando ‘Jogadores Inteligentes’?” trago algumas reflexões sobre o tema). As principais e mais recentes pesquisas apontam que um jogador tem de tomar cerca de 2 mil decisões em um jogo de 90 minutos, enquanto que uma pessoa num dia “normal” toma cerca de 8 mil decisões. Podemos dizer que a densidade de tomada de decisão em um jogo é muito alta, portanto, é altamente plausível que se dê muita atenção à qualidade destas decisões.

Agora, o que são boas decisões?

Poxa, Danilo! Boas decisões são aquelas que aproximam a equipe de cumprir a lógica do jogo, marcar mais gols do que o adversário!

Ok, concordo. Porém, são muitas e distintas as decisões que podem conduzir a isso!

Um jogador pode decidir pegar a bola, sair driblando os adversários e fazer um gol. Um defensor pode decidir dar um “chutão” para frente e a equipe conseguir marcar um gol. Ou a equipe decidir iniciar uma sequência de movimentações e trocas de passe que culminem em colocar a bola dentro do gol adversário. E aí, qual destas decisões é a melhor?

Algumas vezes já ouvi as expressões “jogador de joystick” e “treinador de Playstation”, fazendo alusão a jogadores que só agem segundo os comandos do treinador e a treinadores que buscam ter o controle total sobre todas as ações dos jogadores. Será que a todo momento é necessário que o treinador fique dizendo o que deve ser feito e que os jogadores só ajam de acordo com aquilo que lhes é dito?

Nos últimos anos tem se discutido muito a respeito das decisões que os jogadores tomam no jogo, em mecanismos para se qualificar e potencializar estas decisões, em desenvolver a autonomia dos jogadores. Mas, como direção e comissão técnica, estamos realmente preparados para isso? Ou a cada decisão diferente daquilo que consideramos certo, mesmo que a mesma tenha sido eficaz para a situação, sabemos lidar com isso? Ou nossa resposta a essa decisão vai somente de acordo ao resultado dela? Por exemplo: um jogador tem a opção de dar um passe vertical curto para outro logo a sua frente, mas arrisca e tenta fazer uma inversão através de um passe longo. Duas decisões aceitáveis e com seu grau de produtividade. Se o jogador acerta a inversão, lhe damos os parabéns e se erra lhe cobramos por não ter feito o passe curto? Estamos realmente dando o poder para os jogadores tomarem as próprias decisões ou através dos treinos e abordagens só lhe damos a opção de tomar determinadas decisões que desejamos.

É sabido que equipes como o Barcelona possuem uma linha de pensamento de jogo bem definida, assim como uma metodologia de treinamento que induz, desde muito cedo nas categorias menores, seus jogadores a tomarem decisões de acordo com a filosofia que o clube defende. E longe aqui de julgar se isso é bom ou ruim, mas sim, pontuar que no Barcelona isso ocorre de forma estruturada, planejada e consolidada há muito tempo e que, ainda assim, não limita totalmente as decisões de seus jogadores. Agora, quantas equipes no Brasil tem algo similar a isso ou estão construindo algo nesse sentido? E de acordo com a nossa cultura e história, nossos melhores jogadores foram e são aqueles mais criativos e autônomos ou aqueles que só reproduziam o que os treinadores lhe pediam/pedem?

Meu antigo professor de música, queria me preparar para conhecer mais de música, aprender a tocar e, assim, de acordo com a minha vivência musical, poder tocar aquilo que me agrada, que me satisfaz, não importando se o estilo de música tocada, necessariamente fosse aquele que mais lhe agradava. Queria me preparar para tocar bem música, seja ela qual for. Será que nós estamos preparando nossos jogadores para tomar somente as decisões que nós queremos ou os estamos conduzindo para serem capazes de reconhecer e avaliar o cenário, para então tomarem as próprias decisões, pautadas no contexto em que estão inseridos, na experiência que possuem e tendo autonomia naquilo que fazem?

Estamos preparados e somos capazes de lidar com as decisões dos nossos jogadores, sobretudo com aquelas que divergem daquilo que esperamos? A orquestra toca segundo a batuta do seu regente, porém, ainda nela, existem espaços para as improvisações dos músicos.

Como lidamos com as decisões dos nossos jogadores que são diferentes do que desejávamos e/ou não tem a eficácia que deveriam?

Até a próxima!

Comentários

  1. Rogers disse:

    Excelente, parabéns professor.

  2. Marcelo disse:

    Bom dia!
    O assunto é essencial!
    Vc vê nas categorias de base diferentes condutas, desde campeonatos oficiais a não oficiais. Como é um esporte de massa, todo mundo acha que sabe. E este é um dos motivos da confusão em torno de uma partida. Seguir um modelo serio como o Barcelona traz segurança tática ao jogo, ainda que saibamos que jogadores como messi e Neymar tenham um poder de criação que está acima da obediência tática, e portanto, devem ter a autonomia necessária para sair do formato. Mas por outro lado, já não temos tantos jogadores como Neymar, e a falta de um esquema tático como linha de produção, por esta razão, não mais se justifica. E os jogos vão ficando monótonos, sem vida. O equilíbrio deve ser buscado, assim como a busca e a preferência pelo talento nas categorias de base, não só no meio de campo e ataque, mas em todos as posições, pq o DNA do futebol brasileiro tem justamente como força a qualidade de improviso. Sem isso deixaremos de ser brasileiros, importaremos esquemas táticos europeus, treinamentos que não fazem parte da vida cotidiana dos atletas, e o risco de nos perdemos nesta estrada é grande.

    • Olá Marcelo!
      Nesta coluna trato especificamente da postura dos treinadores/professores perante as decisões tomadas pelos seus jogadores. Neste aspecto, independente do modelo seguido, seja o do Barcelona como você exemplificou ou o de qualquer outra equipe, saber lidar com as diferentes e inúmeras tomadas de decisão tomadas por nossos jogadores é habilidade fundamental para os treinadores/professores, sobretudo quando se fala de categorias de base.
      Você adentrou um pouco mais na questão referente a qualidade técnica dos jogadores, assuntos que também tratei nas seguintes colunas:

      https://universidadedofutebol.com.br/brasil-o-pais-do-futebol-arte/

      https://universidadedofutebol.com.br/crise-tecnica-do-futebol-brasileiro/

      Grato por sua contribuição!

      • Marcelo Rocha disse:

        ok. Deixei em uma das duas materias apenas um simples mas talvez essencial comentario. As vezes buscamos formulas magicas e tecnologia de ponta para nossos problemas profissionais e pessoais, e a soluçao muitas vezes está ali proximo. Não ha como negar que o que nos conduzia naqueles momentos aureos era o dom, a vocacao…nao se constroi dom, nao se fabrica jogador, e talvez justamente pq se está querendo fabricar é que nao funcione. Alem do que, precisamos de espelho, de referencia, tenho um filho de 13 anos que jogou comigo desde os 1 ano e meio, canhoto, joga o estadual paulista de campo. Alem de ter jogado nos campos do rj qd jovem, estadual carioca etc etc.. É preciso estimular a molecada pro futebol sem que almejem antes o dinheiro, ha que se voltar no tempo para fazer como fez a alemanha, mas a nossos moldes, buscando a essencia. Como comer uma feijoada brasileira a moda lusitana? nao sera possivel…O mundo globalizou, os meninos assistem futebo, espanhol, agora frances…nao ha mais referencia brasileira, tirando neymar para os atletas de base de 9/11/13 anos…antes um zagueiro era referencia, um lateral, um volante…precisamos de uma clinica de futebol, que vá tratar os fundamentos…o assunto pra mim é tao serio que o estilo nacional de jogar deveria ser obrigatorio, tombado como patrimonio nacional e pq nao dizer mundial
        por isso meu filho sempre assistiu jogadas de craques de 70 a 2017…para pelo menos compreender um pouco da nossa historia

  3. Grande professor Danilo , tudo bom ?

    A cada abordagem de sua coluna, me recordo de muitos acontecimentos vivenciados neste período em que estou atuando em escolas de futebol .

    Um desses acontecimentos foi o seguinte. Era uma manhã de sábado, e se enfrentavam duas escolas cujas bandeiras eram dos dois maiores clubes de Curitiba/PR, categoria sub 09, final de um torneio. Os pais dos meninos por toda cultura envolvida em relação aos clubes, pela rivalidade, tentavam influenciar diretamente na decisão dos meninos no jogo assim como sempre acontece quando se trata de futebol e principalmente com formação de atletas.

    O jogo foi bastante competitivo, muita disputa dos meninos, chances de gol para os dois lados, enfim, perdemos o jogo por 3×2.
    Neste jogo, eu estava como treinador principal, e fora as orientações e correções básicas que faço com os meninos, principalmente nesta idade, procuro deixar que em jogos os meninos tomem suas decisões sem precisar que o professor fique narrando o jogo para eles a todo momento. Pelo lado oposto, o treinador da equipe adversária não parava de falar um minuto, e fazia com que os seus atletas tomassem as decisões que ele achava a correta, tirando a autonomia dos atletas.

    Após o término do jogo, o pai de um atleta que eu comandava veio dialogar comigo, cobrando que os professores quase não falavam com os atletas, que ele não ouviu nenhum “grito” do professor com os meninos, e que ele sentiu os meninos muito nervosos.
    Quando respondi que a escola tinha como uma de suas propostas, independente do resultado, formar bons cidadãos e formar atletas, mas que sobretudo daríamos liberdade para que os atletas tomassem duas decisões, ele achou ruim, disse que os atletas são obrigados a escutar os mais experientes, que os treinadores devem cobrar constantemente seus atletas.

    Enfim, pode ser que palavras como tomada de decisão e autonomia estejam fora da realidade dos pais, porém a gente sabe que para o desenvolvimento completo dos jovens atletas, esta liberdade para executar ações faz parte de todo o caminho que eles irão percorrer. Como estimular a criatividade, a resolução de problemas, a pró-atividade dos jovens se não dermos autonomia a eles não é mesmo ? .

    Parabenizo mais uma vez seu trabalho, sua excelente coluna e os temas abordados. Sempre uma referência para nosso trabalho.

    Abraço e até a próxima.

    • Olá Rafael!
      Grato por compartilhar esta rica experiência conosco! É uma pena a postura do outro professor e o baixo nível de compreensão do processo de formação por parte do pai.
      Visto que, como vocês expôs, as escola em que trabalha possui diretrizes claras de condução do trabalho, talvez uma alternativa para conscientizar os pais seria a realização de reuniões pedagógicas com eles, no intuito de conscientizar dos processos que norteiam o trabalho da escola, apresentando os objetivos e motivos do caminho escolhido. Realizamos isso no Paulínia Futebol Clube e obtivemos excelentes resultados quanto a cooperação dos pais.
      Até!

  4. Fabio Facioni disse:

    Trabalho na cidade de Três Passos Rio grande do Sul com escola de Futebol a 18 anos. Penso que os metodos de treinamento e objetivos de cada categorias deve ser apresentado para os pais a cada trimestre assim o projeto fica mais solido e todos os interessados comprendem o processo.

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