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Vários pontos chamaram atenção na entrevista coletiva que o técnico Rogério Ceni concedeu no último domingo (25), no estádio do Morumbi, pouco depois de o São Paulo ter empatado por 1 a 1 com o Fluminense. O resultado fez com que a equipe paulista chegasse a cinco partidas consecutivas sem um resultado positivo no Campeonato Brasileiro e fez da zona de rebaixamento uma possibilidade real para as próximas rodadas, o que deflagrou uma onda de reclamação de torcedores. Houve vaias nas arquibancadas e protesto em frente ao portão que dá acesso aos vestiários.

Diante de ambiente tão conturbado, Ceni disse que “não vai se entregar”, mas já admitiu que suas ambições estão mais direcionadas à próxima temporada. Lembrou que o São Paulo ainda está se movimentando para definir o elenco – na última semana, por exemplo, houve negociações como a transferência do zagueiro Maicon, que rumou para o Galatasaray, e as contratações do defensor Arboleda, do meia Jonathan Gómez, do volante Matheus Jesus e do meio-campista Petros. Outros nomes, como o zagueiro Aderlan, ainda podem ser anunciados nas próximas horas.

O que mais chamou atenção, no entanto, foi outro ponto: sem querer, Ceni ofereceu uma das explicações mais contundentes sobre o bom momento do Corinthians, que somou 26 pontos em 30 possíveis e lidera o Campeonato Brasileiro – no domingo, o time comandado por Fabio Carille bateu o Grêmio, segundo colocado, em Porto Alegre.

Questionado sobre o que tem faltado ao São Paulo, Ceni recorreu ao equilíbrio do futebol nacional. Disse que há uma equidade de forças e que sua equipe tem feito bons jogos, mas acumulado placares adversos. Citou partidas contra Cruzeiro, Ponte Preta e Corinthians, reveses, para dizer que seu time esteve muitas vezes perto de resultados diferentes.

O São Paulo é, segundo o serviço de estatísticas Footstats, o time com mais posse de bola no Campeonato Brasileiro. Também é o quinto na lista dos que mais precisam de finalizações para balançar as redes – são 9,3 chutes a cada gol, quando o Corinthians precisa de apenas 2,3 em média.

Tem sentido a ideia de Ceni, portanto. O São Paulo tem argumentos para dizer que propõe o jogo e que controla as partidas em alguns setores do campo. Falta eficiência, o que pode ser corrigido apenas com um pouco mais de tranquilidade. É o famoso “quando a bola começar a entrar…”.

No entanto, a teoria do comandante são-paulino também expõe um dos motivos para a atual fase do São Paulo. Existe uma notória questão de tranquilidade, e as finalizações são apenas reflexo disso, mas o time tricolor em 2017 é um exemplo do que proporciona a ausência de uma cultura futebolística.

É aí que o Corinthians serve como contraexemplo. O time de Fabio Carille emula hoje todas as características que forjaram vitórias em temporadas passadas, nos períodos em que Mano Menezes e Tite trabalharam no Parque São Jorge. Exceção feita ao segundo semestre de 2013, todos os momentos ruins do time alvinegro desde 2008 aconteceram quando a diretoria ignorou esse perfil e contratou treinadores dispostos a impingir rupturas culturais – Adilson Batista, Cristóvão Borges e Oswaldo de Oliveira.

O Corinthians de Carille é sóbrio, prioriza a defesa, tem um nível extraordinário de atenção e coordenação na última linha e consegue aliar a esse perfil uma gigantesca eficiência no ataque. Sofre pouco, vê poucas bolas rondando o gol defendido por Cássio e sabe aproveitar os espaços oferecidos por rivais que tentam furar esse bloqueio.

É o sucesso do Corinthians um dos principais motivos para o futebol brasileiro estar acompanhando atualmente uma explosão de times que abdicam da posse de bola. Construir jogo demanda e tem uma série de riscos, e os paulistas mostraram que é possível vencer com menos emoção.

São apenas dez rodadas de Campeonato Brasileiro, é claro, e em pouco mais de um quarto de competição é impossível dizer que o Corinthians segurará a toada até o fim da temporada. Contudo, já é possível dizer que a equipe alvinegra reencontrou com Carille a cultura futebolística que moldou seus momentos mais prolíficos na década, e entender que sua essência é um dos pilares para qualquer trabalho de construção.

No futebol brasileiro de hoje, talvez só Santos e Fluminense tenham questões culturais tão arraigadas. São times alicerçados em revelações e em jogos de velocidade proporcionado pelo ímpeto dos moleques – sim, causa e efeito muitas vezes se confundem nesse processo.

Rogério Ceni tem poucos meses como treinador e ainda carece de maturidade na nova profissão que escolheu. Pode até ter identificado bem o equilíbrio vigente no Campeonato Brasileiro em 2017, mas falhou ao tentar diagnosticar por que o Corinthians tem se mantido acima do bolo. Existe uma cultura que funciona ali – e que também funciona em Santos (quinto colocado) e Fluminense (oitavo colocado), times que superaram momentos claudicantes quando definiram um perfil em que apostar.

O São Paulo pode dar impressão de estar perto de amealhar resultados melhores do que o retrospecto recente, mas existem outras questões sobre o trabalho de Rogério Ceni. O comandante neófito ainda não conseguiu dar uma cara ao time – e ele não é o único responsável pela ausência de cultura, é bom que se diga. Enquanto a equipe não tiver uma cara pronta ou uma essência, sempre vai estar um pouco mais distante do sucesso.

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