Universidade do Futebol

Eduardo Barros

30/04/2011

A leitura do jogo de futebol

Caros leitores,

quatro meses do ano de 2011 se passaram e o futebol, como sempre, já proporcionou aos atletas, profissionais, torcedores e mídia esportiva, inúmeras emoções. Nesse período, equipes foram rebaixadas, técnicos demitidos, jogadores afastados, torcedores trocaram agressões e escândalos foram revelados.

É fato que situações positivas também ocorreram, como negociações milionárias, revelações de novos talentos (no campo e fora dele) e acessos conquistados.

Com as fases finais dos Estaduais, dos principais campeonatos europeus, confrontos de Copa do Brasil, Libertadores da América e Champions League, as próximas semanas “prometem”. Jogos importantes ocorrerão na disputa do primeiro lugar, tanto no futebol brasileiro, como no mundial.

Equipes que estão em busca do título obviamente tiveram melhor desempenho comparado aos seus adversários. Desempenho que, em cada jogo, de cada equipe, em cada país, é absolutamente mensurável. Conhecê-lo, para todos profissionais envolvidos com o trabalho técnico do futebol, é importante para observação de tendências, compreensão de comportamentos de jogo que podem levar à vitória e para atualização profissional (sobre atletas, equipes e treinadores) em seu mercado de trabalho.

Posto isso, o que considerar e como analisar qualitativamente o desempenho de uma equipe utilizando poucos recursos tecnológicos?

Dos milhares de profissionais do futebol existentes no Brasil, é certo que a grande maioria não dispõe ou não tem acesso a ferramentas sofisticadas de análise de jogo. Infraestrutura, softwares modernos (com ótima relação custo x benefício para os clubes) de análises quantitativas, ilhas de edição de imagens ou então departamentos de dados digitalizados, são realidades de poucos e privilegiados profissionais. No entanto, com conhecimentos específicos, um computador, uma cópia digital simples de um jogo, papel e caneta, a possibilidade de análise de comportamentos de uma equipe é significativa.

O ponto de partida (que para muitos “especialistas” já é o ponto final) compreende a plataforma de jogo utilizada. Observando-a, entende-se em quantas linhas (zagueiros, volantes, meias, atacantes) uma determinada equipe distribui seus jogadores no espaço de jogo e também se ocorrem alterações posicionais entre os momentos do jogo e, até mesmo, ao longo da partida.

O passo seguinte compreende a observação das regras de ação de cada jogador. Analisar as características táticas, técnicas, físicas e emocionais, ofensivas e defensivas, perceber a área de atuação predominante, além de tentar observar a repetição de comportamentos nos diferentes momentos do jogo, evidenciam questões importantes de uma equipe para cada função exercida. Aliada a uma observação individual, é fundamental o entendimento da organização coletiva da equipe.

Na fase defensiva, é importante compreender como ela age em relação aos princípios operacionais defensivos, analisando setores do campo e atitudes predominantes de recuperação da posse de bola, além dos mecanismos coletivos de impedir progressão e de proteção do alvo. Também defensivamente, é possível perceber em qual linha imaginária do campo (1, 2, 3, 4 ou 5) se inicia a marcação e qual sua forma adotada: zonal, individual, mista, ou então, individual na zona.

Ainda na análise da organização defensiva, é possível identificar a quantidade de jogadores atrás da linha da bola em cada região do campo, a distância entre linhas da equipe, a velocidade da flutuação entre a bola e o alvo, a realização de pressing ou pressões zonais e até a eficiência das coberturas defensivas.

Na transição ofensiva, o comportamento coletivo predominante da equipe pode ser interpretado. Para cada setor do campo em que ocorrer a recuperação pode-se diferenciar a manutenção da bola neste setor, a retirada horizontal, ou então, a retirada vertical da zona de recuperação. Por mais que todas as imagens do jogo não identifiquem a posição exata dos responsáveis pelo balanço ofensivo, a quantidade de jogadores e uma posição aproximada são perfeitamente possíveis de serem identificadas.

Já no momento ofensivo, a tarefa é a interpretação dos comportamentos em relação à posse de bola, progressão e ataque ao alvo, que refletem as aplicações dos princípios operacionais de ataque. Analisar o tipo de ataque predominante (contra-ataque, ataque rápido ou ataque posicionado), e também se ele ocorre com utilização de estruturas fixas, móveis, ou então, sem referências posicionais, é necessário.

Finalizando a organização ofensiva, há a quantificação das linhas de passe abertas para cada jogador, a criação e ocupação de espaços entre linhas do adversário, a análise da amplitude e profundidade empregadas, a quantidade de jogadores à frente da linha da bola, os mecanismos de movimentação capazes de gerar superioridade numérica, além da criatividade no 1×1.

Na transição defensiva, observar se o comportamento da equipe está voltado para a recuperação imediata da posse de bola, ocupação de setores específicos do campo para posterior recuperação, ou então, se alguns jogadores atacam a bola e os demais realizam recomposição. Assim como no balanço ofensivo, que impossibilita análise integral pela filmagem, é permitida uma visão parcial da quantidade de jogadores e forma geométrica do balanço defensivo.

Em uma análise de jogo, não pode faltar atenção para as situações de bola parada. Nestas ações (mais “fáceis” de se aproximar do cumprimento da lógica do jogo), ofensivamente podem-se observar: jogadas ensaiadas, batedores oficiais, quantidade de jogadores e distribuição do espaço na grande-área.

Defensivamente, as análises permitem enxergar se a referência de marcação é zonal, mista ou individual.

Diante do que foi apresentado, fica claro que sem o conhecimento tático do jogo de futebol, quaisquer análises de jogo (principalmente aquelas que se limitam às questões técnicas e ao resumo dos gols) serão superficiais. Quanto mais jogos você assistir, mais aperfeiçoada ficará sua leitura de jogo. Quanto mais jogos de uma mesma equipe você assistir, maiores as possibilidades de compreensão de seu modelo de jogo.

Não se esqueça de considerar a situação na competição, o tipo de confronto, o placar do jogo, o placar do jogo anterior, a expectativa criada pela imprensa, a pressão da torcida, o estado do campo, as condições climáticas, os conflitos entre treinadores, a relação treinador-atleta, entre outros fatores que podem modificar o “jogo da cabeça de cada jogador”.

Muitas equipes do futebol brasileiro já possuem analistas de desempenho. Tal função é primordial em uma comissão técnica, pois é quem registra o cumprimento do modelo de jogo pela equipe, além do desempenho e comportamento dos adversários – informações imprescindíveis para o estabelecimento de uma contra-estratégia. É bom saber que cresce o número de analistas voltados às questões tática-estratégica-organizacionais do jogo. As próximas semanas “prometem”!

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br  

Comentários

  1. PJ Pires disse:

    Bons pontos de vista que me fazem pensar o futebol de uma maneira que nunca tinha pensado antes. Um ótimo texto.

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