Universidade do Futebol

Eduardo Barros

06/09/2015

A manifestação intuitiva da Lógica do Jogo

A tarefa, no papel, é fácil: colocar o implemento móvel do jogo, leia-se bola, no alvo adversário mais vezes do que o adversário coloca na meta da sua equipe.

Na prática, dada à imprevisibilidade e complexidade das relações que constituem o jogo, o gol, evento raro ao longo de 90 minutos, é classificado como a donzela difícil do futebol (Sally e Anderson, 2013).

E enquanto cada uma das equipes tenta cumprir a tarefa, uma leitura instantânea parte de fora das quatro linhas, mais precisamente das arquibancadas, e retrata a capacidade coletiva de resolução dos problemas do jogo. A torcida, que vibra, lamenta, aplaude, critica, canta, xinga, empurra, suspira, empolga, vive e se emociona com o jogo em maior ou menor dimensão. Ao viver o jogo demonstra, mesmo que intuitivamente, se sua equipe está ou não no caminho para a vitória.

Obviamente, a torcida não enxerga o jogo de maneira especializada. Não precisa, afinal, não é sua função. Desvendar complexamente o jogo, composto pelas interações, oposições, sistemas com padrões de organização (e/ou desorganização!?) muito bem definidos e todos os detalhes estratégicos é função, em qualquer que seja a área, dos que recebem para isso. Não é o caso das torcidas…

O fato é que todo este trabalhoso desvendar, construído nos treinamentos, é resumido circunstancialmente pela torcida em cada uma das milhares de jogadas que acontece durante um jogo. O resumo é simples e objetivo: o coro da aprovação ou desaprovação.

Vamos, então, para alguns exemplos:

Um chutão para interceptar um ataque envolvente do adversário é visto com bons olhos pela torcida, que aprova a equipe por ter conseguido evitar uma ação ofensiva do adversário. Já um chutão com a equipe em posse de bola, com possibilidades evidentes de construir um ataque elaborado, é desaprovado.

Jogo empatado e o adversário sobe a marcação na tentativa de recuperar a posse de bola. Sem alternativas de passe vertical, o zagueiro usa o goleiro para manter a posse e dessa forma buscar outras possibilidades de progressão. A torcida responde em tom de aprovação. Jogo empatado e o adversário espera em seu próprio campo. A equipe, com a bola no meio campo, sem alternativas de passes verticais, mas com alternativas de passes horizontais, recua a bola para o goleiro. A vaia da torcida é um sinal claro de desaprovação.

A equipe rouba a bola no meio de campo e dispara um contra-ataque fulminante. O levantar das arquibancadas é a mostra de que a equipe percebeu a exposição do adversário. Se a jogada terminar com finalização, aprovação completa e muitas palmas. A mesma roubada de bola, seguida de desaceleração do jogo e lentidão para fazer a bola chegar ao terço final do campo é correspondida com lamentação por desperdiçar uma jogada potencialmente perigosa. Reprovação unânime!

O drible vertical, quando a equipe tem as linhas de passe fechadas e enganar o adversário é uma das poucas alternativas restantes, é facilmente aprovado. O drible num setor errado, egocêntrico e individualista, seguido de contra-ataque ao adversário é, também facilmente, reprovado.

E a aprovação e reprovação surgem também dos lances que envolvem as finalizações, a falta delas e os gols. O pouco espaço encontrado que permite um chute de fora da área que raspa o travessão, enche de expectativa o torcedor que suplica por mais lances como este. A troca de passes sem objetivo, a falta de movimentações agudas e o avanço do cronômetro sem tentativas de finalização irritam, incomodam e deixam os torcedores impacientes, que se perguntam: “será que eles sabem que precisa chutar em gol”? E, é claro, os gols! Sempre aprovados, mais ou menos comemorados, em função do contexto, do peso e do placar do jogo.

Muitos outros lances, que se sucedem ao longo de 90 minutos, são passíveis de interpretação intuitiva pela torcida em relação ao cumprimento da lógica do jogo. As substituições da comissão técnica, a característica dos passes errados e a postura mais ou menos comprometida dos jogadores são apenas mais alguns exemplos.

A essência do jogo é captada pela torcida. Ao longo dele, a incidência da aprovação e desaprovação pode ser um bom indicador do que a equipe tem feito para se aproximar ou distanciar das vitórias.

O dito popular afirma: “não se deve dar bola para a torcida.” A lógica do jogo contrapõe: “não seria melhor ouvi-la?”

Pensemos nisso! Até a próxima!  

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