Universidade do Futebol

Eduardo Barros

11/08/2012

A várzea forma melhor que os clubes brasileiros?

Certa vez encerrei uma de minhas colunas com a seguinte pergunta: a várzea forma melhor que os clubes brasileiros?

Na ocasião já deixava em pauta (para reflexão) um tema que tem, com os Jogos Olímpicos de Londres, um momento bem pertinente para abordá-lo.

No futebol masculino, dois atletas brasileiros tem se destacado na campanha que levou a seleção à final dos jogos diante do México.

O primeiro deles é Leandro Damião, que até a final havia marcado seis gols e estava isolado na artilharia da competição. Numa busca da história profissional do atleta, que tem 23 anos, podem ser extraídas algumas informações interessantes.

Reprovado em diversas peneiras de grandes clubes do futebol brasileiro, o atacante conseguiu espaço no futebol catarinense e foi uma das revelações do campeonato estadual de 2009 pelo Atlético de Ibirama-SC.

Havia ingressado no clube aos 18 anos, já em fase final de formação, e em menos de duas temporadas foi negociado junto ao Internacional-RS. Com a manutenção de seu desempenho e dos gols, num curto espaço de tempo chegou à seleção brasileira.

Com seu poder de posicionamento-remate, Leandro Damião integra a reduzida lista dos melhores centroavantes do futebol brasileiro na atualidade (que ultimamente, além de meias, também tem recorrido a atacantes estrangeiros).

Ver que um atleta chegou à seleção brasileira sem ter passado um período de formação em qualquer categoria de base (ao menos assim é a informação divulgada) permite alguns questionamentos e reflexões: será que os clubes brasileiros não estão conseguindo formar jogadores de alto nível para compor seu elenco principal e, inclusive, o da seleção?

Quais competências de Leandro Damião foram adquiridas na várzea que permitem que o atacante seja um dos melhores da função no futebol nacional?

É possível sistematizar o ensino de tais competências na base para aumentar o número de jogadores com potencial para servir à seleção brasileira?

Será que os clubes brasileiros, muitas vezes, retiram o Jogo dos nossos atletas e fragmentam o futebol (e os treinamentos) em suas quatro vertentes, distantes da realidade competitiva? Será que este não pode ser um dos grandes motivos da ausência de melhores jogadores no nosso futebol?

Mudando de assunto para o segundo atleta, menciono Neymar e suas atuações nos jogos olímpicos. Após um período de desempenho não excepcional, em que foi bem marcado na Libertadores pelos adversários estrangeiros das fases finais e pelo Corinthians (que tem os melhores princípios de jogo defensivos do futebol brasileiro), mais de um veículo de comunicação elogiou o atleta.

Segundo a mídia esportiva, mesmo diante da sua limitação de análise de jogo, mas respaldada pela opinião de Mano Menezes, o jogador está mais coletivo, solidário e evitando o drible (e a consequente perda) quando bem marcado.

O fato é que muitos têm afirmado que o período que Neymar tem passado com a seleção tem feito bem para o seu crescimento profissional.

Sabemos que o tempo em que os atletas ficam com as seleções, seja de base ou principal, são curtos e que muitas vezes o tempo de preparação para as competições são insuficientes. Diante disso, no tempo que está no cargo, Mano Menezes tem tentado desenvolver uma cultura de jogo que seja aplicada do sub-15 à seleção principal. Em médio-longo prazo este trabalho pode trazer resultados (não me refiro somente às vitórias). Enquanto isso, Neymar logo voltará ao seu clube e, se mal orientado, velhos comportamentos de jogo podem vir à tona.

Para facilitar o trabalho de Mano (e ele já afirmou isso em várias oportunidades), é urgente o desenvolvimento nos clubes de uma Filosofia condizente com os princípios de jogo do futebol moderno. Infelizmente, ainda vemos vários exemplos de projetos embrionários, ou então, inexistentes.

Se o cenário dos clubes assim permanecer, logo terei que publicar outra coluna. Desta vez, intitulada:

A seleção forma melhor que os clubes brasileiros?

Seria somente mais uma inversão de valores do nosso confuso futebol!

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br
 

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