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14/01/2019

Comunicação interna

Principal novidade do mercado de técnicos de futebol no Brasil em 2019, o argentino Jorge Sampaoli precisou de pouco tempo para estremecer consideravelmente a relação com a diretoria e com parte do elenco do Santos. Em menos de um mês, o treinador já se consolidou como um exemplo preciso de como a falta de cultura de comunicação organizacional interfere nas decisões e no rendimento das equipes em âmbito nacional.

No último domingo (13), após empate por 1 a 1 em amistoso com o Corinthians, Sampaoli foi incisivo nas críticas e cobranças. Reclamou da falta de reforços – a única contratação confirmada até o momento é o atacante venezuelano Yeferson Soteldo –, citou a história do clube e apontou necessidades para adequar o grupo de atletas às características de jogo que pretende imprimir. Um exemplo disso é o goleiro: a despeito de Vanderlei ser um dos expoentes técnicos da equipe alvinegra, o comandante argentino, que reconheceu a qualidade do jogador, pediu à diretoria um nome para a posição que seja mais afeito ao uso dos pés na construção dos lances. Sampaoli sabe que Vanderlei é um dos melhores da posição no país e que é um ativo importante para o Santos, mas prefere um jogador que seja menos refinado e se ajuste melhor a seu modo de pensar.

O mesmo vale para outros reforços: segundo José Carlos Peres, presidente do Santos, o treinador fez pedidos que dificilmente se encaixarão no orçamento alvinegro e reluta em abrir mão dessas escolhas porque outros atletas teriam mais dificuldade de acerto no sistema que ele imagina implantar na Vila Belmiro. No entanto, esses anseios de Sampaoli esbarram na condição financeira desfavorável.

Além de não ter o mesmo potencial de arrecadação de outros times da elite nacional (Flamengo e Palmeiras, principalmente), o Santos encara em 2019 uma série de questões de fluxo de caixa advindas do novo modelo de distribuição de receita dos contratos de cessão de mídia. Na equipe alvinegra, como em praticamente todos os times das duas principais divisões do futebol nacional, o ano que se inicia agora é um gigantesco exercício de planejamento e uso contido do que entra em caixa.

A questão é que não foi esse o cenário que o Santos vendeu para Sampaoli. O técnico já falou que a diretoria alvinegra havia considerado ao menos oito reforços para moldar o elenco de 2019. Ainda que Peres tenha afirmado a jornalistas no domingo que duas dessas contratações estão perto de acontecer, existe aí uma diferença considerável de perspectiva.

Outro episódio que escancara o problema de comunicação na relação entre Santos e Sampaoli é que o técnico argentino incluiu Ronaldinho Gaúcho na lista de ídolos do time paulista. O ex-jogador, um dos maiores nomes do futebol brasileiro nas últimas décadas, jamais vestiu a camisa da equipe litorânea.

Em pouco tempo, a história de Sampaoli no Santos já serviu para mostrar que faltou preparação e que faltou cultura organizacional. O treinador deveria ter sido mais bem orientado sobre a história, o atual momento e as possibilidades da equipe. Esse gap entre o que ele pensa e a realidade do time só contribui para atrapalhar o ambiente e debelar o trabalho que deveria ser totalmente orientado em uma só direção.

Em grandes empresas, é comum que existam departamentos ou profissionais focados apenas na transmissão de valores, objetivos e ideais da organização para todos que fazem parte do dia a dia. Ainda que as funções não sejam diretamente relacionadas ao público ou ao consumidor final, os colaboradores são sempre os melhores comunicadores do que a companhia tem a dizer.

É fundamental, portanto, que todo colaborador saiba o que a empresa vende, a quem vende e a quem gostaria de vender. Quais são os objetivos, quais são os potenciais e quais são as debilidades da marca, por exemplo. Tudo isso demanda ações constantes e assertivas, que vão muito além de um quadro de avisos ou de um e-mail geral.

Também existe uma necessidade clara de que todos entendam por que a empresa faz o que faz. A própria existência da marca passa por uma transmissão adequada de seus valores.

Essa necessidade é ainda maior quando o funcionário foge do esquema padrão – quando vai morar fora ou precisa vender um produto novo, por exemplo. Se ele não entender a realidade e os objetivos, o processo todo acaba prejudicado.

Sampaoli é estrangeiro, e por si só carrega uma resistência (equivocada, diga-se) no futebol brasileiro. Também tem ideias claras, mas que não são de simples execução e que nem sempre transitam no caminho mais fácil. Se ele não for corretamente orientado e não tiver a real noção do que o Santos é atualmente, porém, todos esses senões serão ainda maiores.

 

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