Universidade do Futebol

Eduardo Barros

01/12/2012

Copa do Mundo de 2014: seremos campeões?

Para a maioria dos brasileiros a conquista do hexacampeonato mundial é uma obrigação. Jogando em casa e com Neymar no elenco, resta ao treinador convocar mais vinte e poucos jogadores e motivá-los, com seu espírito vitorioso, a fim de que o talento nato dos nossos atletas apareça. Precisamos desses talentos para decidir as partidas nos equilibrados jogos que, atualmente, só podem ser definidos através de jogadas individuais.

O trecho anterior é somente um exemplo dos milhares de equívocos que são pronunciados e praticados dia após dia em nosso futebol.

E você, profissional (ou não) da modalidade, como se posiciona diante desses equívocos? Colabora para que eles aconteçam? Simplesmente observa e caminha para a direção que lhe for mais conveniente em determinada situação? Ou defende e pratica, arduamente, mudanças em todos os âmbitos deste esporte?

O futuro do futebol depende, diretamente, do nosso posicionamento. Optar pelo caminho da mudança, norteado pelo necessário processo de transformação do futebol brasileiro, é um dos desafios de quem pretende seguir carreira neste mercado que, como muitos outros, é influenciado constantemente por conflitos administrativos, políticos, de interesses e de disputa pelo poder.

Todos estes conflitos impactam na área técnica da modalidade. A demissão de Mano Menezes é um exemplo recente deste impacto, neste caso, de grande magnitude. O fato é que, maiores ou menores, tais impactos definem um cenário atual repleto de limitações e complicações que atrasam a evolução do nosso futebol. Como exemplos deste cenário, acompanhem os tópicos abaixo:

• Pouquíssimos profissionais do futebol foram formados no ano de 2012. Num país que possui milhares de treinadores, quais são as políticas educacionais para capacitarmos os gestores de campo? Entendam que a solução não está nos cursos de graduação em educação física. Precisamos de iniciativas e formações específicas (de qualidade) para a modalidade.

• Alguém que pretende trabalhar com futebol, mas não está inserido no mercado por não ter sido ex-atleta, não teve (ou teve mínima) oportunidade de entrevista de emprego no presente ano. Seguramente seu CV não faz parte do banco de dados da maioria dos clubes de futebol brasileiros, pois tudo isso é desnecessário, uma vez que as contratações acontecem quase que exclusivamente por indicações e influências.

• Os trabalhos de pré-temporada para os estaduais 2013 já começaram e muitas equipes negam-se a fazer amistosos, pois estão em períodos de somente treinos físicos. Dentre esses treinos, encontram-se os tiros de 1.000 metros e os treinos na “caixa de areia”.

• Clubes tradicionais do futebol brasileiro ainda não contam com um departamento de análise de jogo e participam de uma das melhores competições do futebol nacional sem um conhecimento aprofundado do adversário e, inclusive, da própria equipe. Equipes vencem, empatam e perdem sem conhecerem os reais motivos para os respectivos resultados.

• Em tempos de gestão eficaz, na busca por melhores resultados mesmo com redução de custos, clubes gastam milhares de reais acomodando jogadores em hotéis de luxo como única alternativa possível para aumentar o nível de concentração dos jogadores na tentativa de escaparem do rebaixamento.

• Por mais que um determinado profissional estude, se capacite, faça estágios, cursos e dirija uma equipe com sucesso, um ex-jogador sempre, mesmo sem qualquer capacitação além de ter sido atleta, está mais credenciado para uma função técnica.

• Na grande maioria dos clubes, em todas as categorias, o único valor considerado é o do resultado de campo. Egos “inflados”, incapacidade administrativa e pressão criada pela nossa cultura, são elementos que contribuem para a valorização excessiva da vitória.

• Elencos inteiros são formados a partir de interferências diretas de agentes, empresários e dirigentes em função de benefício financeiro próprio e não na busca do melhor para o clube.

• A troca de comissões é uma constante e raríssimos são os clubes que oferecem plano de carreira. O seu trabalho pode ser interrompido (e será em algum momento) ainda que as vitórias apareçam.

Entender o cenário e ainda assim estabelecer um posicionamento favorável às mudanças é tarefa para poucos. Ter resiliência e persistência são características indispensáveis na tentativa de sobrevivência que compreende a luta diária de quem opta por esse caminho.

Felizmente, neste mesmo cenário (composto por limitações e complicações) é possível “enxergar uma luz no fim do túnel”, pois projetos de sucesso, mesmo que isolados, surgem no heterogêneo futebol brasileiro. Enderson Moreira, Ricardo Drubscky, Ney Franco e Tite são bons exemplos para identificar tais projetos. Bons argumentos, bons estudos e, principalmente, bom futebol!

Voltando à seleção brasileira, é melhor evitar qualquer opinião a respeito do substituto de Mano Menezes. O tempo (sempre ele) dirá se o preferido pelo povo era a melhor opção.

E para todo o povo, fiel torcedor e assumido treinador, pouco importa o que faremos até junho de 2014. Se após a competição o título for brasileiro, do alto da nossa arrogância, ostentaremos a hegemonia do futebol com seis títulos mundiais. Não terá importância o como, com quais métodos (se novos, ou novo-velhos) ou com qual treinador.

Já para os profissionais do futebol, que se importam muito com os acontecimentos até a próxima Copa e também com os acontecimentos futuros, deixo uma reflexão análoga aos conhecimentos sobre o jogo. Se nele tentamos dar maior previsibilidade a um ambiente que, por característica, é imprevisível, a fim de que nos aproximemos das vitórias, o conhecimento sobre o atual cenário nos permite opinar sobre o desempenho previsto do Brasil na Copa de 2014.

Fica, então, a questão: seremos campeões?

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br

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