Universidade do Futebol

Colunas

15/10/2016

Do you speak English? (Você fala Inglês?)

Qual a importância do domínio de uma segunda língua na formação dos treinadores de futebol no Brasil

Não, leitor, a intenção não é avaliar seus conhecimentos em língua inglesa. Mas a partir do polêmico e acalorado debate que recentemente ocorreu no programa “Bem amigos”, da SPORTV, entre Vanderlei Luxemburgo e os demais participantes do programa, quero trazer alguns questionamentos e gerar reflexão.

A dinâmica do programa em questão gira em torno da presença de um convidado notoriamente reconhecido em seu meio de atuação que debate com os profissionais da casa. No programa em que Luxemburgo participou como convidado, dentre vários assuntos discutidos relacionados ao futebol e sua carreira como treinador, um lhe causou grande desconforto, a formação do treinador de futebol no Brasil. Assunto este, que não causa desconforto somente em Luxemburgo, mas em todos aqueles que atuam diretamente com o futebol no Brasil.

O tema é polêmico e extremamente delicado, mexe diretamente com o nosso ego, toca naquilo em que sempre consideramos ser os melhores (e indiscutivelmente o fomos durante muitos anos), e que para ser discutido de forma proveitosa, é necessário que saibamos reconhecer algumas verdades:

  • Há alguns anos temos poucos jogadores brasileiros sendo os principais protagonistas em grandes equipes europeias.
  • Tanto a nossa seleção como os clubes brasileiros, não têm obtido bom desempenho em competições internacionais.
  • Na principal competição de clubes sul-americana, 40% (15) eram treinadores argentinos e somente 8% (3) eram brasileiros, sendo que havia 5 equipes argentinas e 5 brasileiras na competição.
  • Na última Copa América, dos 16 participantes, 6 eram treinados por argentinos, 2 por alemães, 2 por colombianos, 1 francês e somente a nossa seleção por um brasileiro.
  • Nas 5 principais ligas europeias (Espanha, Itália, França, Inglaterra e Alemanha), não há nenhum treinador brasileiro atuando. Na atual temporada, 2 treinadores brasileiros começam a disputa do campeonato Português: PC Gusmão no Marítimo, demitido após 3 meses, com 4 derrotas em 5 jogos e a não equivalência do seu curso realizado na CBF; Fabiano Soares no Estoril (administrado pela empresa Brasileira TRAFFIC) desde 2015 e que realizou sua formação como treinador na UEFA.
  • A preocupação com a formação do treinador de futebol no Brasil é algo que passou a ser mais amplamente discutido a pouco tempo.
Fonte: globoesporte.com
Fonte: globoesporte.com

Durante o programa, foi levantada a questão da dificuldade com a língua, e apontada por Luxemburgo como a principal razão da falta de treinadores brasileiros atuando nas principais ligas estrangeiras e que isso não é culpa dos treinadores. Porém, este argumento foi refutado pelos presentes, alegando que os treinadores brasileiros não têm o domínio de outro idioma por que não se empenham para isso, visto que nos dias de hoje é mais acessível se estudar outro idioma, e que a grande maioria dos treinadores estrangeiros buscam qualificar-se também no domínio de outro idioma, ponto que não é a via de regra da maioria de nossos técnicos.

E, outra questão fundamental levantada no programa, foi a qualificação dos treinadores através de cursos específicos. Neste ponto, a responsabilidade não recai somente sobre os técnicos. Nosso país não possui a cultura de uma formação dos treinadores no futebol (nosso sistema educacional é falho), excluindo-se as escolinhas de futebol, que são fiscalizadas pelos Conselhos Regionais de Educação Física (CREF), o qual exige dos profissionais a carteira de registro no conselho (obtida pela realização da faculdade de Educação Física ou através de provisionamento pela instituição). Ademais, para aqueles que exercem a função de treinadores nos clubes de futebol profissional (seja na base ou no profissional), a CBF, que é o principal órgão regulador do futebol brasileiro, ainda não exige nenhum tipo de formação específica para a função, o que não ocorre nos principais centros de futebol, onde todos os treinadores são obrigados a realizar um curso de formação específica.

Essa brecha histórica abriu precedentes para se criar essa certa acomodação no meio, porém, há alguns anos, o mercado nacional tem sentido (e cada vez mais) a necessidade de melhor qualificação profissional para função, fato que motivou muitos treinadores a buscarem a graduação universitária em diversas áreas (Fernando Diniz, por exemplo, é formado em Psicologia) e ao surgimento de vários cursos de futebol no país, o que aos poucos, vem mudando essa cultura e impulsionando os profissionais a buscar capacitação.

Fonte: virandojogo.com/ Arte: Felipe Diuana
Fonte: virandojogo.com/ Arte: Felipe Diuana

Porém, por estarmos ainda no processo de desenvolvimento desta cultura, existem alguns entraves que dificultam a inserção de nossos treinadores nos grandes centros, os principais ainda são a não obrigatoriedade de formação específica para a função, e o fato do curso oferecido pela CBF não ser ainda reconhecido em outros países. O curso da Associação Argentina de Futebol (AFA), possui uma estrutura e carga horária diferente do da CBF, o que facilita sua aceitação e equivalência em todos os continentes, facilitando a entrada dos treinadores argentinos em outros países. Alguns treinadores brasileiros têm buscado viajar a Europa para realizar estágios nos clubes e até mesmo o curso UEFA, porém o custo para isso é alto, não sendo uma opção muito acessível a todos.

É, também, importante ter o cuidado de compreender que todo esse movimento e processo de formação não é instantâneo e muito menos finito, um curso de formação específica não é a solução de todos os problemas (ainda que seja para grande parte). A grande maioria de nossos treinadores são capazes de assistir a um jogo e fazer uma leitura do que está acontecendo nesta partida e de como se comportam as equipes, precisamos é ir mais adentro disso tudo, entender que motivos levaram a esses comportamentos, como foram operacionalizados nos treinamentos, que estrutura física e de gestão os clubes devem possuir para facilitar isso, de que forma se controlar efetivamente esse desempenho, quais e em que momento alguns estímulos devam ser oferecidos aos jogadores, etc. A formação do treinador e de todos os que trabalham no clube deve ser contínua.

Sim, a estrutura de futebol do nosso país está aquém em vários aspectos em relação a outros países, nossos profissionais (técnicos, gestores, analistas, etc) podem e devem buscar capacitação. Nosso futebol ainda possui muitas virtudes, se faz necessário reconhecer e combater nossas fraquezas. A internet tem facilitado muito o acesso a diversos conteúdos, não são poucos os sites que disponibilizam de forma gratuita todo tipo de material didático sobre futebol. É possível, já neste momento, se capacitar e melhorar o nível de desempenho (não somente o placar) de sua equipe, oferecer melhores treinos, melhores condições de trabalho à comissão, oferecer um futebol melhor, isso é responsabilidade de todos, desde o treinador na iniciação até o presidente da CBF.

Comentários

  1. Olá colegas! Gostaria de acrescentar que, pelo menos aqui na Bahia, a fiscalização do CREF não existe nas escolas de futebol. Deveria existir, mas, na prática isso não acontece. Vejo aqui, vários projetos e escolas de futebol com profissionais que nem sabem falar o português. Qual a condição que esses profissionais tem para formar cidadãos que jogam futebol em alto nível? Fica a minha contribuição.

  2. Renato Jardim disse:

    Qual o problema com a cbf será? Pq não se adequar? :/

  3. Renato Jardim disse:

    O negócio é fazer o curso a distância de treinador da atfa

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