Universidade do Futebol

Rodrigo Azevedo Leitão

23/02/2014

Futebol, o talento e a equipe: o todo maior do que a soma das partes ou as partes potencializadas pelo todo?

A última coluna que publiquei aqui, recebeu um bom número de comentários (http://www.universidadedofutebol.com.br/Coluna/12419/Marcacao-no-futebol-a-gestao-do-espaco-defensivo-na-relacao-%E2%80%9Ceu-adversario%E2%80%9D). Por isso, nas próximas semanas, vou escrever um ou mais textos, seguindo as sugestões e respondendo as dúvidas encaminhadas pelos leitores, que por email ou facebook enviaram suas mensagens.

Na coluna de hoje, o que pretendo, é debater um pouco, algumas ideias que envolvem um outro tema – também mencionado no último texto.

Tentarei então explorar um pouco o conceito de inteligência de jogo dentro da ideia de um “pensamento sistêmico”.

Já está bem estabelecido na literatura científica e é consenso em boa parte do ambiente futebolístico, que na formação de uma equipe de futebol, organizada para jogar em alto desempenho, o treinador deve conseguir fazer com que a “performance” coletiva do time seja superior a “simples soma” dos talentos individuais que o compõe.

Em outras palavras, e parafraseando/adaptando Edgar Morin, o “todo” (o todo é a unidade complexa = equipe) deve ser maior do que a soma de suas “partes constituintes”.

Pois bem.

Por menos pretenciosa que essa ideia (da relação entre o “todo” e as “partes”) possa parecer, ela tem contribuído, Brasil à fora, para a reformulação do pensamento a respeito do olhar sobre o jogo, e assim também, sobre a preparação do futebolista para o jogar.

E ainda que os benefícios dessa reformulação fiquem mais claros apenas no médio prazo, é fato que hoje, a discussão sobre o futebol como fenômeno complexo está bem mais adiantada do que dez anos atrás.

Não há dúvidas porém, que o fato de estar mais adiantada não exclui a realidade de que há ainda muito para evoluir. Estamos no início do caminho (uma pena). Mas ao menos a caminhada foi iniciada, e quem sabe, em breve, não se transforme em uma corrida.

Mas quero chamar a atenção para algo que, por vezes, em nome de uma visão pseudosistêmica acaba por “cartesianar” (licença poética: tornar cartesiano) a unidade complexa (o todo, a equipe), tornando-a exclusivamente mais importante do que suas partes constituintes (os jogadores).

Ora, pensar na constituição de um “todo” que seja maior do que as “partes” que o compõe, não exclui a ideia de potencializar a ação e a interferência dessas partes sobre ele (o todo).

Em outras palavras, isso quer dizer, que é necessário que as potencialidades das partes, devam ser desenvolvidas ao máximo dentro das relações que elas estabelecem com as outras partes (os outros jogadores) e com a equipe.

Então ao invés de uma ideia geral de que a força do “todo”, superior à soma das “partes”, deva se estabelecer em detrimento das potencialidades dos indivíduos (das partes propriamente ditas), poderíamos pensar em algo como a maximização do indivíduo e do “todo” (a equipe) ao mesmo tempo!

Por isso, se a operacionalização das ações organizadas de uma equipe são a expressão de uma inteligência coletiva de jogo, e na solução dos problemas emergentes durante as partidas, essa inteligência é fruto das interações entre os jogadores que compõe essa equipe, é evidente que o “todo” é resultado final da composição dessa inteligência e dessas interações.

Ao mesmo tempo, se as ações coletivas se manifestam guiadas por referências que dão identidade ao todo coletivo, são e serão sempre resultado de leituras individuais que os jogadores fazem circunstancialmente ao longo do jogo.

E essas leituras individuais, por mais que sigam orientações coletivas, jamais perderão a particularidade e subjetividade, e deixarão de representar as habilidades e capacidades ímpares ao indivíduo/jogador.

Portanto não é a ideia de que o “todo” (equipe) precisa ser maior do que a soma de suas “partes” constituintes (jogadores), que deveria servir de referência para nossos olhares sobre o jogo, ou sobre a operacionalização dos treinos que vamos propor.

A ideia que deveria nos referenciar é a de que a unidade complexa (a equipe/o todo) deve maximizar as potencialidades das partes e ser ao máximo, maior do que a soma simples de cada uma delas.

Parece simples? Trivial? Ou polêmico?

Façamos uma reflexão a respeito disso… E vejamos se mesmo quando colocamos à frente premissas que envolvem o pensamento sistêmico, por vezes não acabamos por nos afastar dele…

Por hoje, é isso…

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