Universidade do Futebol

Mauro Beting

04/04/2011

Guarani, 100 anos

O movimento que mais admiro de o Guarani não é a abertura monumental e famosa da ópera de Carlos Gomes. É o solo de Zenon, quando ultrapassou uma barreira vermelha de zagueiros colorados e avançou para fazer um dos três gols da vitória heroica contra o Internacional, no Beira-Rio, no BR-78. Driblou os rivais, superou a linha de impedimento, e começou a botar no mapa daquele Brasileirão uma camisa verde poderosa.


 

Haveria mais. O maestro catarinense bateria uma falta no Maracanã que abateria o Vasco. Daquelas que a gente diz que ele colocou com a mão. Mas foi algo mais para guardar nos olhos. Foi outra obra de arte daqueles arteiros artistas campineiros. Daquele exército caipira do ponta Capitão, daquela companhia de alegria do ponta de nome circense Bozó.

Daquele meia-direita de Seleção Brasileira de Morungaba, o menino Renato. Daquele centroavante ainda mais moleque de Araraquara, o genial Careca cabeludo. Careca por gostar de palhaço. Cerebral por jogar aos 17 anos de idade como se tivesse 17 de Brinco de Ouro. Jeito de gênio, ginga de craque que irritou Leão na primeira decisão no Morumbi e cavou o pênalti que começou a cavar a cova do gigante de verde na decisão do BR-78. Careca que pegou uma carona de Beto Fuscão e fez o gol da vitória por 1 a 0 em Campinas. A vitória do campeão brasileiro de 1978. O primeiro título do interior do Brasil. Dos maiores títulos da história brasileira.

Tinha o mineiríssimo Zé Carlos para comandar aquela tropa campeoníssima no meio-campo. Tinha a mineiridade de Carlos Alberto Silva para dirigir o time do banco. Tinha de quase tudo, tinha para poucos adversários. O Guarani só soube vencer na reta de chegada do BR-78. Quase fez a mesma coisa no BR-86, quando parou diante de um grande rival, e de uma arbitragem infeliz. Quase repetiu o feito no SP-88, mas houve uma Viola no meio do caminho para desafinar a festa.


 

Teve mais Guaranis para lembrar em 100 anos. Teve o de 1994, semifinalista do Brasileirão. Teve o de 1995, o de Djalminha, Luizão e Amoroso, mas o joelho deste impediu que o trio brilhasse. Alguns mais Guaranis foram dos melhores times que vi.

Mas, daí, com o tempo que foi dinheiro demais, executaram o Guarani. Não como se faz pelo mundo nas salas de concerto. Infelizmente, executaram de um jeito que quase não deu conserto. Nos últimos dez anos, mais descensos que acessos, mais acessos de raiva e abcessos administrativos que nomes, times e títulos para contar, não apenas para protestar em cartório.

Não está fácil fazer futebol no Brasil. No interior do Brasil, ainda mais. Mas quem fez a história do país a partir do interior não pode ficar reduzido a um time sem cara, a um clube sem alma, a um estádio esvaziado pela especulação imobiliária, comercial e futebolística.

Eu não quero mais só falar NenecaMauroGomesEdsonMirandaZéCarlosRenatoZenonCapitãoCarecaBozó sem vírgulas e espaços, como um só corpo, como um só timaço. Eu quero falar daqueles tantos times que, como amante do futebol, como palmeirense e como jornalista aprendi não só a admirar e respeitar.

Neneca (goleiro), Edson (zagueiro-esquerdo), Mauro (lateral-direito), Gomes (zagueiro-direito), Miranda (lateral-esquerdo) e Zé Carlos (volante); Capitão (ponta-direita), Renato (meia-direita), Careca (centroavante), Manguinha (meia-esquerda substituto do suspenso Zenon) e Bozó (ponta-esquerda do time campeão de 1978, na decisão no Brinco)
 

Também a temer.

Cada jogo no Brinco, cada visita ao meu estádio, cada partida que, independente da qualidade do time, eu sabia que veria um Bugre bravo e guerreiro.

Não apenas uma série de nomes que guardo na memória enquanto ela ainda me protege. Não quero mais ter de falar só do passado. Quero um presente do Guarani nestes 100 anos. Quero o Guarani de volta. Quero o futuro.

O grande final da obra campineira não pode apenas se encerrar em nosso peito. Vamos tocar essa sinfonia para frente. Vamos tocar o Guarani, não executá-lo. Vamos aplaudi-lo pelos próximos 100 anos.

Como? Não sei. Mas sei que um time que fez o que fez em 1978 pode muito bem refazer a história.

Para interagir com o autor: maurobeting@universidadedofutebol.com.br


*Texto publicado originalmente no blog do autor, no portal Lancenet.

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