Universidade do Futebol

Mauro Beting

17/01/2011

História em jogo – Liga dos Campeões – Final 1961 – Benfica 3 x 2 Barcelona

Você já viu na série “História em Jogo” as cinco conquistas do Real Madrid, de 1956 a 1960.

Agora, veja o Benfica vencer o Barcelona na primeira grande surpresa da história do torneio. Não que o time português não fosse ótimo – era. Mas a equipe blaugrana tinha um ataque poderoso – que mandou quatro bolas nas traves encarnadas e quadradas.

Dizem, até, que esse festival de bolas reboteadas sem entrar na meta levou a Fifa a adotar, nos anos seguintes, as traves cilíndricas de hoje.

Conheça mais uma grande final da Liga dos Campeões.

E, nesta coluna, em breve, veja quase todas elas, comentadas lance a lance.

Saiba agora como foi a derrota mais doída da história do Barcelona.

Não apenas pela partida em si. Também pelo fato de, mesmo tendo eliminado o Real Madrid nas quartas, não conseguiu o título que o rivsal merengue conquistara por cinco vezes seguida até ser eliminado pelo Barça.

Título que o clube culé só conheceria em 1992.

Cartaz oficial da final da Liga dos Campeões de 1961

 

LOCAL – Wankdorf Stadium, Berna, Suíça. 31 de maio de 1961. 19 horas.

O mesmo palco da final da Copa-54, perdida pela Hungria de Kocsis e Czibor, atacantes do Barcelona. Não por acaso, a direção do clube português fez questão de ficar na mesma concentração (Spiez) onde ficou a Alemanha, antes da final daquele Mundial. Inclusive pagando por quartos já ocupados, onde os hóspedes foram regiamente desalojados só para manter a escrita.

O JOGO – O Barcelona chegava como favorito à decisão, na Suíça. Em 1960, campeão espanhol apenas pelo maior número de gols marcados contra um Real Madrid que viria a ser penta europeu (eliminando o próprio Barça na competição europeia de 1960), o Barça mantinha em maio de 1961 o ataque poderoso, e uma defesa discutível (o que também o levara a perder o título espanhol daquele 1961). Tão forte seguia o time blaugrana que eliminou o Real Madrid, nas quartas-de-final de 1961, pela primeira vez da história madridista numa Liga. Barça que só perdeu um jogo naquela semifinal, contra o Hamburgo. Até perder a decisão polêmica para um cirúrgico Benfica (pentacampeão português, de 1960 a 1965), num dos maiores massacres já vistos por uma das equipes mais azaradas (até então) da história da Liga. Em condições normais, o Barça teria goleado o quadro português. Acabou perdendo. Como diria o húngaro Czibor ao deixar mais uma vez o gramado do Wankdorf derrotado (e de novo por 3 x 2, como na final de 1954): “Nunca mais ponho os pés neste estádio maldito”.

Quase que algo similar aconteceu com o presidente benfiquista, Maurício Vieira de Brito. No auge da pressão espanhola na segunda etapa, chegou a passar mal e desmaiar de emoção. Mas, como o time encarnado, sobreviveu bravamente. Teria apenas recobrado os sentidos no vestiário, acordado pelos atletas em festa. A eles teria dito que não teria sido ruim morrer naquele dia, por aquele motivo. “Agora, depois de ver tudo que conquistamos, até não seria tão ruim morrer”.

Veja a campanha das equipes na Liga dos Campeões Europeia de 1906-61

Veja os gols da final de 1961, em Berna

 

Duas equipes postadas no WM. com intensa movimentação da turma de frente, especialmente a linha brilhante ofensiva do Barça

COMEÇOU – Barcelona ataca à esquerda, com seu tradicional uniforme azul e grená; Benfica ataca à direita das imagens da TV, com sua não menos belíssima camisola encarnada.

2min – O centroavante brasileiro Evaristo só não abre o placar em belo voleio porque o lateral-direito português Mário João salva sobre a linha fatal portuguesa, depois de lance pela esquerda do ponta-esquerda húngaro Czibor, remanscente da Seleção de Ouro da Hungria da metade inicial dos anos 50. PLACAR VIRTUAL – 1 X 0 BARCELONA

5min – Barça atua, como o Benfica, num WM. Mas o time espanhol, dirigido pelo espanhol Enrique Oraizola, varia quase para um 4-2-4, com o recuo do médio-direito Vergés. O meia-direita húngaro Kocsis era quase um centroavante, mais ou menos como brilhara na Hungria da primeira metade dos anos 50. Evaristo saía da área como o falso centroavante Hidkeguti daquele time espetacular. Mas tinha maior presença de área e faro de gol o brasileiro. Czibor cortava bem pela meia esquerda, como atuara em parte da Copa-54 pela Seleção de Ouro húngara. Kubala, a partir da ponta direita, também se mexia por todo o ataque, deixando o espaço para a entrada em diagonal de Luis Suárez, talvez o maior jogador espanhol de todos os tempos. O camisa 10 catalão organizava a marcação, criava o jogo, e ainda adorava cair pela direita. Todo o ataque se mexia. E muito bem.

10min – O imenso armador português nascido em Moçambique cai machuado. Coluna é retirado nos ombros pelo centroavante Águas. Não havia maca no estádio. Publicidade estática era pouca. Mas sempre com cartazes e placas do chocolate Toblerone.

11min – Bons goleiros, mas com péssima reposição Costa Pereira e o eterno Ramallets, remanescente espanhol da Copa-50, então com 37 anos. O espanhol não usava luvas.

12min – Sensacional lance de Evaristo pela meia esquerda, que o médio-direito Neto não consegue conter. Os meias Santana (pela direita) e Coluna (pela esquerda) poderiam ajudar um pouco na contenção daquele aluvião catalão. Além da qualidade técnica, espantava a velocidade da equipe da Espanha. 2 x 0 em chances para o Barça.

13min – Depois de três minutos fora, retorna Coluna, ainda a meio-pau.

14min – 3 x 0 – O médio-esquerdo Garay chuta de longe e perde boa chance, em falha do bom goleiro Costa Pereira, de grandes defesas e enormes falhas. Esta, ele quase deixou passar por baixo do corpo. Ninguém marca no meio-campo português.

17min – 4 x 0 em chances para o Barcelona. O incansável Kubala passou por três como quis, e tocou de canhota às costas do lateral-esquerdo Ângelo para Kocsis bater para boa defesa de Costa Pereira. Um massacre culé até agora.

20min – GOL. 1 X 0 BARCELONA. KOCSIS. CABEÇA. DENTRO DA ÁREA. Na quinta chance catalã, o gol merecido. Kubala derivou da ponta para a meia direita e, na jogada manjada e difícil de ser marcada, tocou para Suárez penetrar pela ponta direita. O camisa 10 cruzou no segundo pau para o impressionante Kocsis fazer o de sempre. Talvez o maior cabeceador da história do futebol nundial. Não apenas pela técnica e posicionamento. Também pela impulsão impressionante. Evaristo passou pela bola, mas o húngaro conferiu e abriu o placar. Belo e merecido gol.

22min – Benfica enfim joga. Coluna, recuperado da lesão, aparece para brilhar em Berna. Que jogador. Que categoria. Articulando a partir da esquerda, conta com a mobilidade, técnica e eficiência do ponta-direita José Augusto. Um que já saía da ponta para, como Kubala, armar por dentro, e pensar o jogo encarnado. Havia sido escolha pessoal do treinador Béla Guttman.

25min – Barça passa a apenas especular no contragolpe de enorme velocidade e categoria. Talvez fosse melhor insistir à frente, porque o sistema defensivo catalão não era grande coisa. Ainda pior que o do grande Real Madrid pentacampeão europeu sem precisar de uma grande defesa.

27min – O excelente zagueiro-central português Germano salvou o que seria o segundo gol de Kocsis, na sexta chance do Barça. Uma jogada belíssima desde o meio-campo blaugrana. Não parecia haver dúvida de qual time seria o vencedor na Suíça, apesar dos esforços do impressionante central Germano.

28min – Czibor só não ampliou porque Germano salvou outra. O ponta húngaro ganhou fácil de Mário João, depois de lindo e inteligente e solidário passe de Evaristo, que abriu jogo na direita para Kubala cruzar e o lateral português Mário João falhar. Quem batia os escanteios pela esquerda era o destro Kubala.

28min – GOL. 1 X 1 BENFICA. JOSÉ ÁGUAS. PÉ DIREITO. DENTRO DA ÁREA. Depois de 7 chances do Barça, um gol do Benfica. José Augusto veio da direita para o meio, mais uma vez sem grande marcação do lateral-esquerdo Grácia ou do médio-esquerdo Garay, e tocou para Coluna. O genial armador do Benfica descobriu de canhota o polivalente ponta-esquerda Cavém, que ganhou fácil do fraco lateral-direito espanhol Foncho. Ele foi ao fundo e, na saída precipitada e afobada do experiente Ramallets, tocou para dentro da área. Águas chegou antes do central Gensana e fez o gol que pareceu em posição legal.

32min – GOL. 2 X 1 BENFICA. GOL CONTRA – OFICIAL – DE RAMALLETS. Segunda chance portuguesa, segundo gol. Este, muito discutível. O médio-direito Neto joga no melê, o médio-direito Verges se atrapalha todo, sozinho, e cabeceia pata trás. A bola sobe muito, encobre Ramallets, e bate na trave esquerda do goleiro espanhol, que foi mole para o lance. Muito bem colocado, o árbitro suíço Gottfried Dienst (o mesmo que errou junto com o bandeirinha soviético ao confirmar o gol cuja bola não entrou, na final da Copa-66) se atrapalhou tanto quanto a zaga espanhola. Na hora ele deu o gol. Nem precisou errar com o bandeirinha. Depois de bater na quadrada trave esquerda, a bola passou por sobre a linha de meta, e até cal levantou. O atacante Águas preferiu celebrar o gol mais do que tentar colocar a bola de fato para a rede, quando ela passou à frente da meta. Como era praxe por aqueles anos, pouco se reclamou. O meia português Santana ainda correu atrás da bola para tentar conferir o lance, mas parou quando viu o árbitro confirmando um gol que pareceu não ter acontecido. Apesar da pouca reclamação espanhola – o que também era saudável costume, então.

41min – Sensacional arrancada de Coluna até receber falta feia do médio-direito Verges. Lance para cartão amarelo (se ele já existisse). Depois do segundo gol, o Benfica equilibrou a partida.

42min – Kocsis cabeceia, Mário João salva pela segunda vez sobre a linha. Primeiro lance de perigo do Barça depois da bolha de gols portuguesa.

Segundo milagre do lateral-direiro Mário João, salvando o peixinho que parecia fatal de Kocsis

42min – José Augusto passou por três e bateu para bela defesa de Ramallets. Melhora o Benfica, à medida em que o meia-direita Santana cresce no jogo. Vagamente lembra o grande armador rubro-negro Adílio, dos anos 80.

INTERVALO – Grandes 20 minutos do Barça, Benfica achou dois gols em 4 minutos (um mais que discutível), e jogo terminou equilibrado. Placar injusto pela bola e pela ação da arbitragem.

 

PLACAR VIRTUAL 1O. TEMPO – BARCELONA 8 X 3 BENFICA

SEGUNDO TEMPO

2min – Santana pega mal de canhota e joga fora. Benfica volta melhor e equilibra a partida.

5min – Grande lance de Kubala, como se fosse meia-esquerda. Toca para Evaristo, que limpa três e abre para Luisito Suárez pela ponta direita. Lindo de ver o jogo do Barça. Pela técnica, velocidade e movimentação.

7min – Czibor tabela com Evaristo, recebe livre, mas isola de canhota. Barça volta ao ritmo natural. 9 x 4 em chances para o time espanhol

8min – José Augusto supera Grácia mas pega mal.

9min – GOL. 3 X 1 BENFICA. COLUNA. PÉ DIREITO. FORA DA ÁREA. Golaço do imenso Coluna. Com Eusébio, Figo e Cristiano Ronaldo, a quadra dos craques históricos portugueses. Cavém cruzou da esquerda, a zaga espanhola rechaçou, José Augusto preparou para Coluna acertar belo sem pulo de fora da área, no canto direito de Ramallets. Como era costume, os repórteres invadiram o gramado para registrar o autor da façanha. Sexta chance do Benfica, terceiro gol português.

10min – Kubala só não diminuiu na sequência por conta de grande defesa de Costa Pereira.

10min – Kocsis quase faz de cabeça, mas a bola vai para fora. Impressionante a impulsão do húngaro.

12min – Santana domina de fora da área e a bola raspa o travessão. Jogaço aberto como o placar em Berna.

20min – Kocsis dá um belo voleio e manda por cima. Recuo excessivo do Benfica, com os pontas José Augusto e Cavém muito atrás. O centroavante Águas, que gosta de sair da área, também está distante da área, pressionado pelo crescimento (quase desespero) do Barça.

21min – Kocsis sobe e quase cabeceia o satélie soviético Sputnik. Na sobra, Evaristo rola para Czibor perder outra chance dentro da área. Sem substituição, parece que o Benfica definha fisicamente.

23min – Neto entra feio num rival e o estádio inteiro vaia. Árbitro suíço deixa o jogo seguir.

23min – Czibor cruza, Germano cabeceia para trás em sua primeira falha, atrapalha-se com Costa Pereira, e a bola sobra limpa para Evaristo cabecear na trave esquerda, e não pegar o rebote, mesmo na pequena área. Dos mais perdidos gols da história!

25min – Kubaa matou no peito pela meia direita e bateu de canhota, naquela floresta de pernas encarnadas. Houve um desvio que levou a bola até a trave direita, dela para a trava esquerda, e o rebote nas mãos do goleiro português. Em três minutos, três bolas na trave do Benfica!

26min – Resposta do Benfica. José Augusto entrou livre mas bateu por cima.

26min – Coluna veio desde o meio-campo e só não fez um golaço porque Gensana prensou na hora certa.

30min – GOL. 2 X 3 BARCELONA. CZIBOR. PÉ ESQUERDO. FORA DA ÁREA. Enfim o segundo gol blaugrana. Golaço do ponta húngaro, num belo sem pulo. No abafa, o lateral Foncho tocou para Czibor acertar um voleio no ângulo direito de Costa Pereira. Quase o goleiro catou, e quase Mário João salvou pela terceira vez sobre a linha. Tudo ainda indefinido.

36min – Excesso de preciosismo impediu empate de Czibor. Na marca penal, de canhota, ele chutou pela quarta vez na trave. A terceira na trave esquerda do gol maldito para os húngaros; a meta onde, em em 1954, Rahn fez o gol da virada alemã. Lindo lance de Kocsis, feia saída de Costa Pereira, que largava demais a meta portuguesa. 17 x 9 em chances para o time espanhol.

42min – Cansados, os barcelonistas não conseguem mais chegar perto da barricada bem armada pelo bravo time do Benfica.

FIM DE JOGO – Mesmo pressionando, embora sem o mesmo ritmo, não deu para o Barcelona. Preciso, o Benfica ganhou o primeiro título europeu para o futebol português. O segundo viria logo depois, sem deixar dúvidas, contra o poderoso Real Madrid, em 1962.

PLACAR VIRTUAL 2O. TEMPO – BARCELONA 9 X 7 BENFICA

PLACAR VIRTUAL FINAL – BARCELONA 17 X 9 BENFICA

O Benfica campeão da Europa pela primeira vez

ATUAÇÕES

BENFICA – Mesmo pressionado quase todo o jogo pelo rival, soube explorar o contragolpe, e se defender com a sorte de levar quatro bolas na trave, e ganhar um gol da arbitragem. NOTA 7

COSTA PEREIRA – Alto para a época (1m88), experiente aos 30 anos, alternava grande defesas com enormes falhas. Saía bem do gol. Mas exagerava e, por vezes, atrapalhava os companheiros pela falta de concentração. Nascido em Moçambique, foi o grande goleiro português. Sete vezes campeão nacional, não disputou a Copa-66, quando Portugal foi terceiro colocado. Estava em má forma. Decisivo no segundo rempo em Berna. NOTA 8

MÁRIO JOÃO – O lateral-direito salvou dois gols sobre a linha. Mesmo levando um baile de Czibor, foi essencial nesses lances. Jogou na seleção nacional. Esteve 5 anos no Benfica. Era semiprofissional. NOTA 7.

GERMANO – O melhor zagueiro português de todos os tempos. Possivelmente, à época, o melhor central europeu. Rápido, técnico, inteligente, forte. Bom por cima e por baixo, tinha recuperação impressionante. Compensava a marcação frágil de sua equipe (e daqueles tempos) com irrepreensível posicionamento na área. Um monstro em Berna. Jogou de 1960 a 1966 no Benfica. Na Copa da Inglaterra, era o capitão até se machucar contra a Bulgária. Faria muita falta à excelente seleção da Pantera Negra Eusébio. Em Berna, a pedidos dos companheiros, não se barbeou para a final. NOTA 8.

ÂNGELO – O lateral-esquerdo português sofreu com Kubala e com Luisito Suárez caindo às costas dele. Pela intensidade e qualidade do rival, até que conseguiu se virar. Jogou 14 anos pelo clube do coração, que o impediu de, no começo da carreira, atuar pelo Porto. Ele só queria vestir a camisola do Benfica, onde também jogou como meia-esquerda. Atuou pela seleção portuguesa por 9 anos. NOTA 6.

NETO – O médio-direito e zagueiro português tinha apenas 20 anos na decisão. E a missão de tentar parar o cerebral Luisito Suárez. Pela raça e aplicação, conseguiu se superar. Participou do lance do gol concedido a Ramallets (?!) e correu demais o jogo todo. NOTA 7.

CRUZ – O médio-esquerdo deveria acompanhar mais Kocsis ns incursões na área encarnada. Poderia dar um pé maior na marcação no meio-campo. Mas pouco foi visto, atrás, no meio, e mesmo mais à frente. Foram 11 anos pelo clube, mais 7 pela seleção dos Tugas – incluindo a Copa-66. Oito títulos nacionais. Atuava também como zagueiro-esquerdo. NOTA 5

SANTANA – O meia-direita nascido em Angola começou devagar, como todo time benfiquista. Talvez honrando o apelido de “Molengão da Catumbela” dado pela torcida encarnada. Foram 14 anos de Benfica, e algumas poucas partidas pela seleção nacional. No segundo tempo, foi determinante pelo ritmo que deu, e pela ajuda na contenção. Ótima segunda etapa – NOTA 8.

COLUNA – Um monstro. Pesado. Forte. Porém técnico, muito técnico. Chegou a atuar de centroavante, no início da carreira. Inteligente, raçudo, o autêntico armador de antigamente, área a área. Sem a bola, um volante; com a bola, um raríssimo e finíssimo meia, com resistência física excepcional. Sabia pensar o jogo, organizar o time, desarrumar o rival. Conhecido como o Monstro Sagrado, ele nasceu em Moçambique, na cidade de Inhaca (isso mesmo). Mas, com ele, não tinha tiriça, nem inhaca. Jogava demais. O tempo todo. Foi Benfica de 1954 a 1970. Ganhou 10 títulos nacionais, além dos dois europeus pelo Benfica. Foram 8 gols em 57 jogos por Portugal, em 13 anos servindo os tugas. Foi presidente da Federação Moçambicana de Futebol e Ministro dos Esportes do país, de 1994 a 1999. Atuou ainda dois anos no Lyon. E poucos, na história, foram tão bons e eficientes quanto ele. NOTA 9.

JOSÉ AUGUSTO – Foram 10 anos de Benfica, mais 10 de Portugal. Bom trabalho como treinador, depois (foi vice-campeão da Minicopa-72, disputada no Brasil, pela seleção portuguesa). Virou um bom treinador também pela capacidade tática, técnica e física demonstrada no gramado, como um ponta-direita moderno, que sabia driblar, cruzar e finalizar, e ainda rodar o meio-campo. Na final de Berna, mesmo quando o Benfica não esteve bem, sempre manteve o ótimo nível, além de ajudar na contenção ao ataque espanhol. NOTA 8

ÁGUAS – O centroavante e capitão benfiquista marcou o primeiro gol, e ajudou bastante no trabalho sem bola. Foram 13 anos de clube, e mais 10 de seleção. Não era muito veloz e técnico, mas funcionava ali dentro. Marcou 11 gols em 9 jogos da Liga. Pai de Rui Águas, bom atacante do Benfica e do Porto, nos anos 80 e 90, e da cantora pop Lena D’Água, de relativo sucesso nos anos 80. NOTA 6

A festa do capitão erguendo o primeiro troféu europeu para um clube português, a primeira Liga sem ser do Real Madrid

CAVÉM – O ponta-esquerda atuava no meio-campo e até na lateral. Foram 15 anos de clube, e três de seleção. Nesse período, só não atuou de goleiro. Muito rápido, longe de ser um craque, era útil taticamente pela versatilidade. Disse que entrava sem fazer a barba em campo quando um personagem de seus sonhos, meio careca e bidogudo, pedia a ele que não se barbeasse. O sonho “deu cerrto” na conquista do bi europeu. NOTA 7.

BÉLA GUTTMAN – O treinador húngaro é um dos personagens mais importantes da história do futebol mundial. Trabalhou no Milan, São Paulo, Porto, Benfica e Peñarol. É um dos mentores da transformação do WM para o 4-2-4, que nasceu na Hungria e virou febre mundial a partir do Brasil campeão mundial em 1958, dirigido por Vicente Feola, assistente de Guttman no São Paulo campeão paulista de 1957. Mas, mesmo assim, preferiu optar naquele temporada de 1960-61 pelo retorno do WM na equipe encarnada. Polêmico, personalista, um José Mourinho da época, teria dito aos atletas, na véspera da final, que, para vencer o ótimo Barcelona, “bastava que eles ouvissem e fizessem em campo tudo que ele havia pedido”. Guttman gostava de ficar no máximo dois anos num clube (“o terceiro é sempre fatal”). Tanto que deixou o clube português em 1962, depois de conquistar o bi europeu. Dizem que pediu mais dinheiro aos cartolas do Benfica. Ao não receber, teria imprecado contra a associação, dizendo que “não voltaria a ser campeão europeia nos próximos 100 anos”. Desde 1963, mesmo chegando mais três vezes às finais da Liga, a “maldição prossegue”. NOTA 8.

Costa Pereira, Coluna, Neto, Germano, José Augusto, Angelo, Mário João, Santana, Cruz, Cavém e José Águas

BARCELONA – Uma das melhores vice-campeãs da história da Liga. Mandou em quase toda a partida, mas perdeu para um time de ótima qualidade (tanto que o Benfica seria bicampeão em 1962, e vice, em 1963). O que sobrou de qualidade à frente, faltou em defesa, sorte e uma arbitragem melhor. NOTA 7

RAMALLETS – Onze anos de Espanha (e três também pela seleção da Catalunha), titular da seleção finalista da Copa-50 (quando estreou na meta espanhola durante o Mundial). Foram 15 de Barcelona. E ótimas atuações. Mas não fez uma boa partida em Berna. Se a bola não entrou naquele segundo gol português, que também não foi “contra”, Ramallets também foi mal no lance. Ele tinha 37 anos. E esperava terminar melhor a carreira. “Depois daquele gol estranho, nunca mais fui o mesmo. O Sol realmente me atrapalhou naquele lance”. NOTA 6.

FONCHO – O lateral-direito, como quase todos à época, não apoiava. Era um zagueiro-lateral-direito. Mas, no caso, nem isso conseguiu fazer. E nem era Cavém um todo-poderoso ponta-esquerda. Ao menos era uma pessoal leal. Jamais foi expulso na carreira. NOTA 5

GENSANA – O zagueiro central atuou por 10 anos no clube, mais 5 na seleção. Muito forte, só deixou o Barça por uma lesão no menisco. Não era muito técnico e nem muito veloz. NOTA 5

GRÁCIA – O lateral-esquerdo sofreu demais com José Augusto. Não o acompanhava nas incursões pelo meio, e nem conseguia marcá-lo pela lateral. Foram 14 de Barça, 3 de Fúria (esteve na Copa-62), mais 9 de seleção catalã. Não era técnico, mas foi muito regular. NOTA 5

VERGÉS – Dez anos de Barça, 5 de Seleção, 4 de Catalunha. Médio direito eficiente. Mas mal conseguiu achar o excepcional Coluna em campo, ainda que tenha recuado por vezes para ajudar mais atrás. Infeliz no lance do segundo gol do Benfica. NOTA 5.

GARAY – O médio-esquerdo saía mais para o jogo pela esqueda, até para ocupar o espaço que o imenso Luisito deixava para rodar o campo. Foram 5 anos de Barça, 9 de seleção. Na marcação, sofreu demais com Santana, no segundo tempo. NOTA 6.

KOCSIS – Possivelmente o maior cabeceador de todos os tempos, o ponta-de-lança (meia-direita) Sandor Kocsis era torcedor fanático do Ferencvaros húngaro. Mas fez a carreia pelo país no Honved, o time montado pelo governo para ser base da maravilhosa Seleção de Ouro da Hungria, campeão olímpica em 1952, e vice mundial em 1954. Com o Levante húngaro de 1956, Kocsis e Czibor ficaram na Espanha. E muito bem. Foi Barça de 1958 a 1965. Pela Hungria, em 68 jogos marcou fabulosos 75 gols. É a melhor média de gols da história do futebol de atletas de seleção que atuaram mais de 40 vezes por um país. Só na Copa-54, em 5 jogos, marcou 11 gols. Antes de atuar na Espanha, ele e Czibor atuaram na Suíça, quando foram convencidos pelo compatriota Kubala a se mudar para a Espanha. Na final de 1961, fez gol, dividiu bolas, trocou de função com Evaristo, mais ou menos como fazia com Hidekguti, na Hungria. Difícil defini-lo. Não era centroavante mas chegava e fazia gols como tal. Também não era apenas meia-atacante. Foi um monstro. NOTA 8.

LUISITO SUÁREZ – O meia-esquerda do Barça foi o maior jogador espanhol que vi atuar (ao menos até o final das carreiras de Xavi, Fábregas e Iniesta, e respeitando demais Raúl Madrid). Cerebral, técnico, inventivo, tático, dinâmico, era o autêntico camisa 10 daqueles anos. Ajudava atrás, organizava o meio, e ainda atacava. A passagem da esquerda para a direita era mortal como seus tiros fortes e toques e lançamentos. “El Arquitecto” tinha uma planilha na cabeça. Foi craque europeu em 1960. Nove grandes anos de Barça, outros 9 grandes anos vitoriosos de Internazionale (comprado em 1961, logo depois da final de Berna, por 142 mil libras britânicas – recorde mundial, então, e que ajudou a pagar as dívidas pela construção do Camp Nou; o acerto foi fechado no hotel do Barça pelo presidente Angelo Moratti, da Inter, e pelo treinador Helenio Herrera); pela Espanha, Suárez atuou de 1959 a 1972, comandando a seleção campeã europeia, em 1964. Jogou as Copas de 1962 e 1966. Trabalhou como treinador por 20 anos, até 1995. Em campo, na decisão, foi notável, sobretudo na primeira parte. Pareceu cansar no fim. NOTA 8.

KUBALA – O ponta-direita e atacante húngaro de origem eslovaca jogou pelas seleções da Tchecoslováquia (1 ano), Hungria (1 ano), Espanha (8 anos) e até da Catalunha (9 anos). E sempre muito bem, com técnica refinada, inteligência tática, e grande disposição física. Corria muito, driblava muito, chutava muito, suava muito. Batia faltas como poucos à época, na Europa. Em 1999, no centenário do Barcelona, foi eleito o maior craque da história do clube. Filho de pais eslovacos, nasceu em Budapest. De lá saiu para jogar e casar na Tchecoslováquia (também para driblar o serviço militar). Fato que o teria levado a voltar a Hungria, para fazer o mesmo com o exército húngaro. Cigano da bola, só não morreu na tragédia de Superga, acidente aéreo que acabou com o espetacular time do Torino, em 1949, porque não se juntou aos atletas italianos para um amistoso contra o Benfica. Em 1950, acabou saindo de vez da Hungria e foi morar e jogar na Espanha, sendo usado como propaganda política do regime do generalíssimo Franco. No Barcelona atuou por 10 anos, até 1961. Quando pendurou as chuteiras por um certo período depois da derrota em Berna, até voltar a campo e atuar por outros clubes até parar de vez, em 1967. Foi um ótimo treinador, também. Em campo, em Berna, mais uma vez fez de tudo. Armava, driblava, finalizava, abria espaços, e também marcava, já com 33 anos. NOTA 8.

EVARISTO DE MACEDO – O centroavante brasileiro poderia ter sido campeão mundial pelo Brasil em 1958 e 1962 se ainda estivesse atuando no país. Bola ele tinha para ser titular. Além do faro de gol, tecnicamente era excelente. Inteligente taticamente (como comprovou na carreira de treinador, que chegou à seleção brasileira em 1985, e ao título nacional pelo Bahia, em 1988), também fisicamente não parava. Revelado pelo Madureira, foi tri do Rio pelo Flamengo, de 1953 a 1955. Jogou de 1957 a 1962 no Barça, e de 1962 a 1965 no Real Madrid, antes de retornar ao Flamengo. Ganhou 5 títulos nacionais na Espanha. Em Berna, saía da área para tabelar com Kocsis, caía à direita, driblava à esquerda, fazia de tudo. E muito bem. NOTA 8.

CZIBOR – O ponta-esquerda húngaro sabia atuar na outra ponta. Na Copa-54, até meia-esquerda foi, na ausência de Puskás. Sabia muito. Driblador, veloz, técnico, também taticamente recuava e sabia cercar os rivais. Chutava e cruzava muito bem. No Barça, atuou de 1958 a 1961. Na seleção húngara, de 1949 a 1956 (VEJA MAIS DELE, DE KOCSIS E DA MARAVILHOSA HUNGRIA NO MEU LIVRO “AS MELHORES SELEÇÕES ESTRANGEIRAS DE TODOS OS TEMPOS”, PELA EDITORA CONTEXTO). Além de atuar muito bem, fez um golaço, de fora da área. NOTA 8.

ENRIQUE ORIZAOLA – Era assistente de Ljubisa Brocic até a demissão do treinador iugoslavo, por conta dos maus resultados no campeonato espanhol, em janeiro de 1961. Ficou menos de um ano como treinador, carreira que encerraria em 1982. Manteve o Barça no usual WM, mas sem conseguir das consistência defensiva à equipe e, dizem, sem grande comando de vestiário. NOTA 7

GOTTFRIED DIENST – SUÍÇA – O árbitro, ainda que bem colocado, deu um gol para lá de duvidoso a favor do Benfica. Nas poucas vezes em que foi obrigado a repreender por conduta violenta, quase nada fez – como muitos árbitros antes da instituição dos cartões, em 1970. NOTA 4

Foram quatro dias de festa depois do título encarnado

A ideia desta série é de André Rocha e de Gustavo Roman, que providenciaram ideias, informações, análises e imagens.

Quer ver o jogo na íntegra?

Procure gugaroman@hotmail.com

Para interagir com o autor: maurobeting@universidadedofutebol.com.br

 

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