Universidade do Futebol

Guilherme Costa

29/09/2014

Mãozinha

O Campeonato Brasileiro de 2014 já teve 25 rodadas. O Cruzeiro, líder e principal candidato ao título nacional, está seis pontos acima do Internacional, seu próximo adversário. Abaixo deles, três pontos separam os times que figuram entre o terceiro e o sétimo posto da tabela. Há equilíbrio e houve bons jogos. E nenhum desses assuntos ocupa tanto espaço em entrevistas coletivas ou em debates esportivos quanto a arbitragem. Se há uma marca na atual temporada do principal torneio de clubes do país, essa marca é a interferência de juízes.

Um motivo preponderante para isso é a repercussão de uma determinação da Fifa. Preocupada com a subjetividade em marcações de bola na mão, a entidade que comanda o futebol mundial orientou árbitros a reduzir a interpretação. Em pelo menos dois cursos ministrados neste ano, juízes brasileiros receberam a incumbência de separar apenas “movimentos naturais” de “movimentos antinaturais”. A ideia era reduzir a incidência de decisões baseadas na “intenção”.

Segundo levantamento do canal fechado ESPN, a média de pênaltis por rodada aumentou 150% no Campeonato Brasileiro depois da Copa de 2014. Outra conto número, aferido pelo site UOL, é igualmente alarmante: o torneio teve 43 infrações até a 22ª rodada, número comparável aos das principais ligas do planeta (a última temporada da Premier League teve 87 pênaltis, por exemplo), mas 37,2% das penalidades marcadas no Brasil são polêmicas.

Tomemos, então: a Fifa mudou uma orientação, e isso fez disparar o número de pênaltis no Brasil. Além disso, mais de um terço das penalidades anotadas no país são pelo menos discutíveis. Falta critério e falta compreensão sobre os critérios.

Sobre a nova orientação da Fifa, o mestre Tostão definiu perfeitamente. “Se pela nova regra foi correta a marcação do árbitro a favor do Corinthians, a regra é burra”, comentou o colunista do jornal “Folha de S.Paulo” a respeito de um lance da vitória alvinegra por 3 a 2 sobre o São Paulo, em 21 de setembro. “Os Zé Regrinhas querem acabar com a subjetividade, a interpretação e o bom senso. É impossível criar tantas regras para tantas situações diferentes. A interpretação é necessária e importante, no futebol e na vida”, completou.

A discussão que nos cabe, portanto, não é sobre a regra ou sobre lances específicos. Há dois aspectos que têm passado à margem desse debate, mas que são fundamentais para qualquer evolução oriunda das polêmicas.

O primeiro ponto é a formação. Enquanto a preparação de árbitros e auxiliares no Brasil for alicerçada no físico ou em decisões mecânicas, os absurdos seguirão. Não é suficiente que as pessoas conheçam os problemas e uma lista padronizada de soluções. É fundamental que elas entendam o contexto e que estejam preparadas para tomar decisões.

Nesse aspecto, comparo à debilidade de formação de árbitros a um problema recorrente nas categorias de base do futebol brasileiro. Jogadores têm conhecimento empírico advindo de uma mistura entre talento, formação cognitiva propícia e repertório. Quando chegam aos clubes, aliam a isso uma série de atribuições mecânicas. Eles tomam decisões em campo por razões praticamente inatas ou porque são preparados para responder de forma pronta a cada situação.

Um jogador sabe o que fazer e como se posicionar quando a bola chega a determinada posição do campo. Muitas vezes, porém, não entende como ou por que fazer isso. Ele sabe resolver o problema, mas não sabe por que solucionar assim.

O mesmo vale para muitos árbitros: se a orientação da Fifa é vetar a subjetividade, eles cumprem e marcam penalidades em praticamente todas as bolas que batem nas mãos de defensores. Em muitos casos, falta discernimento sobre situações básicas.

Depois de cada jornada do futebol brasileiro, nenhum assunto é tão comentado quanto a arbitragem. Enquanto o debate for baseado em lances e não pensar em como a formação dos juízes pode mudar, contudo, o assunto está longe de sair da pauta.

A pauta, aliás, nos leva ao segundo ponto de discussão sobre o tema. Por que a arbitragem é tão debatida? Em que isso contribui para o jogo?

Decisões da arbitragem geram polêmicas, e essas polêmicas são exacerbadas por análises contaminadas por clubismo. São os assuntos de bares e restaurantes no dia seguinte, e é natural que a mídia explore isso. De forma simples, discussões sobre erros ou acertos de juízes geram audiência e despertam interesse.

Para técnicos e jogadores, a arbitragem é um importante subterfúgio. “Nosso time perdeu, não criou e tem pouca capacidade para trocar passes. A defesa é lenta, o meio-campo é pouco criativo, e o ataque é pouco eficiente. Ainda assim, a derrota só aconteceu porque o árbitro anotou um impedimento absurdo aos 20min do segundo tempo, quando o adversário vencia por 3 a 0 e nós estávamos começando uma reação”. Com exceção da análise exageradamente honesta do início, é comum ouvirmos explicações e análises parecidas em praticamente todas as partidas no Brasil. A reclamação virou algo inerente ao jogo.

Não sou favorável a nenhum tipo de censura, e é bom deixar isso claro antes de qualquer avanço no raciocínio, mas já passou da hora de os responsáveis pelo futebol brasileiro enxergarem o mal que isso faz à imagem do jogo. A Fifa propagou durante anos uma visão deturpada sobre o assunto, baseada na premissa de que a polêmica ajuda a difundir o esporte, mas o resultado é bem diferente disso.

A questão é que as discussões sobre arbitragem mostram dois problemas de comunicação do futebol brasileiro: falta planejamento e falta conteúdo. Ninguém se preocupa com o que técnicos, jogadores e dirigentes dizem no dia a dia, ainda que isso seja contra a imagem do campeonato. Ninguém se preocupa, tampouco, com a criação de temas que preencham essa agenda.

O curioso sobre o primeiro problema é que o Brasil tem um histórico de repressão quando as coisas saem do controle. O Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) denuncia o atacante Emerson Sheik, do Botafogo, por falar às câmeras de TV que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) é uma vergonha. No entanto, nada é feito com técnicos e jogadores que reclamam de marcações de árbitros em praticamente todas as rodadas – e aqui não entra um debate sobre a razão na reclamação ou na denúncia; a discussão é apenas sobre a diferença de tratamento.

Comentaristas de arbitragem costumam dizer que o bom juiz é o que chama pouca atenção. Ora, mas como um profissional pode ser coadjuvante se os holofotes estão constantemente direcionados a ele? Como tirar da linha de frente alguém cujas decisões são minuciosamente escrutinadas e debatidas? As coisas simplesmente não batem.

Já passou da hora de o futebol brasileiro se preocupar institucionalmente com o que se fala sobre ele. Já passou da hora de o país do futebol ter um plano de comunicação para o assunto que domina os dias posteriores às rodadas. Se quisermos evoluir, precisamos deixar de falar de arbitragem e falar um pouco de futebol.

Em tempo: A CBF vai fazer na próxima quinta-feira (02) uma reunião para discutir amplamente a arbitragem. Participarão jogadores, juízes, auxiliares e jornalistas. Que esse seja um primeiro passo para uma padronização entre expectativa e realidade, afinal.

Em tempo – II: Este texto não é uma defesa de árbitros ou das decisões que eles tomaram no Campeonato Brasileiro. Também não é um ataque à categoria. O ponto aqui é outro: se quisermos o bem do futebol, precisamos falar um pouco mais sobre o jogo. 

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