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Começou com jogadores do Vasco, que entraram em campo em jogo da Série B do Campeonato Brasileiro carregando uma faixa sobre apoio do clube à aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte (LFRE). No último fim de semana, times como Chapecoense, Sport, Botafogo e Flamengo repetiram o gesto. O Coritiba também, mas com uma sutil peculiaridade: os atletas não carregaram o banner. Com um gesto simbólico, o elenco do time paranaense mostrou que é possível se posicionar politicamente sem apelar para o confronto.

A LFRE é um dispositivo de refinanciamento da dívida fiscal dos clubes brasileiros. A lei impõe contrapartidas, mas não exige mudanças drásticas na gestão e nem cria mecanismos para um controle severo desse retorno. E aí existe um risco enorme para o esporte: se for aprovada sem alterações no texto, há um risco de os débitos das equipes serem extintos sem que o país ganhe algo com isso. Algo como um prêmio pela má gestão que se arrasta há décadas.

Há enorme pressão de clubes, federações e de congressistas ligados à “bancada da bola” para que a lei seja aprovada urgentemente. O governo já admitiu via Ministério do Esporte que “é possível que times quebrem” se o dispositivo não for alinhavado ainda neste ano. E o que os atletas têm a ver com isso?

Na sexta-feira, o zagueiro Paulo André, que desde fevereiro defende o Shanghai Shenhua, publicou na rede social Facebook um texto que questiona exatamente isso. O jogador, líder mais proeminente do grupo Bom Senso FC, usou o exemplo do Vasco e cobrou que os atletas deixassem de ser “inocentes úteis”.

“Chegamos ao cúmulo da inocência e da exploração. Tudo nos parece normal, rotineiro, inerente ao meio em que vivemos. Dizemos uns aos outros: ‘Ah, deixa para lá, sempre foi assim’. E alguns cartolas, por sua vez, chegam no limite da malandragem, da lei de Gerson”, escreveu o zagueiro.

Os jogadores do Coritiba deram um exemplo. O time paranaense entrou em campo com uma faixa de apoio à LRFE, mas o objeto foi carregado por funcionários do clube. Os atletas não colocaram a mão.

O Coritiba pode ser favorável ao dispositivo, mas os jogadores têm o direito de pensar de outra forma. E se o fizerem, têm o direito de se posicionar. A questão é: quantos são os atletas que realmente estão preocupados com o futuro do esporte que lhes dá sustento?

A lógica é muito clara na questão da LRFE, mas vale praticamente para todas as questões que permeiam o cotidiano da modalidade. Para ficar em um exemplo simples: quantos jogadores repensaram seu comportamento (dentro e fora de campo) depois dos exemplos da Copa de 2014? Quantos adotaram novas condutas depois da goleada por 7 a 1 que a Alemanha impôs ao Brasil?

Responsabilizar dirigentes e gestores é uma necessidade, mas tratá-los como único mal do esporte é apenas um reducionismo conveniente. É cobrar dos outros uma mudança que só será possível quando for sistêmica.

É por isso que o Bom Senso FC renovou esperanças em 2013, quando foi criado. O grupo reuniu atletas que queriam repensar o esporte e trabalhar por um futebol melhor. Os jogadores resolveram entender que são parte de um processo e que isso não se limita às quatro linhas.

Essa consciência precisa atingir também outras classes. Jornalistas não podem seguir apenas falando na necessidade de mudanças se seguirem adulando dirigentes inadvertidamente ou se esquecerem do papel transformador que a mídia tem. Mais uma vez: qualquer mudança no esporte só vai ser possível quando todos entenderem que são partes de um processo complexo.

O futebol brasileiro precisa desesperadamente de mudanças. Isso está claro, e os resultados recentes apenas escancararam isso. Mas nenhuma alteração contundente vai acontecer enquanto se limitar a uma classe ou a uma esfera.

Jogadores podem carregar faixas sobre a LRFE se concordarem com isso e defenderem a aprovação da lei como está. Jornalistas podem calar sobre isso se também forem favoráveis ao dispositivo. Desde que essa seja a posição deles, e não apenas uma omissão.

A lógica acima vale para qualquer classe e para diferentes discussões. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) criou uma série de problemas recentemente por causa de problemas em seu sistema de registro de atletas. O colapso foi público e vexatório, mas talvez tivesse mais reações se houvesse um movimento articulado entre atletas, advogados, gestores, clubes, federações, mídia e até torcedores. Ninguém pode ser excluído de discussões pertinentes para o futuro coletivo.

A questão é que a lógica coletiva não é a que norteia a gestão do esporte no Brasil. As lutas são individualizadas, mesmo quando em classe. Basta ver o que acontece com a negociação de direitos de mídia do Campeonato Brasileiro: desde a implosão do Clube dos 13, times conseguiram aumentos significativos e adotaram negociações solo. Isso aumentou consideravelmente a distância de faturamento e concentrou receita nas mãos dos mais poderosos. E o bem do futebol?

Times pequenos perceberam isso e já começaram a cobrar mudanças. Agora, contudo, falta força política para isso. Não há um fórum em que a força das equipes seja equiparada, independentemente do potencial econômico ou esportivo.

Pode parecer utópico, até porque essa não é uma característica apenas do esporte, mas o futebol precisa pensar como classe. E isso só vai ser possível quando todos entenderem a força que têm. Os jogadores do Coritiba deram uma aula disso.

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