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17/06/2018

O que significa “Periodização Tática”?

Uma abordagem inicial

A designação Periodização Tática é um bocado agressiva, provocatória, precisamente para se saber que existe uma periodização, e quando se fala neste termo, deve-se saber o que eu estou a querer dizer com ele. Ou seja, é usar um determinado período de tempo para levar a efeito uma determinada ordem, mas se é Periodização Tática esse tempo é gasto para se conseguir dar ênfase ao lado tático, mas mesmo aqui é provocatório no sentido de que a concepção evidencie um tático que não é condizente com o que normalmente se refere. Ou seja é um aspecto meramente organizativo do jogar e intencionalizado, tem a ver com a aculturação de princípios na dinâmica do jogar de uma equipa e se de fato esse jogar tiver qualidade demora o seu tempo a construir. Isto foge a toda lógica da periodização convencional.

             (Vítor Frade[1])

Os conceitos têm o poder de atribuir significados e um sentido comum às palavras, proporcionando que as pessoas estejam na mesma sintonia/frequência, quando escutam ou leem determinadas palavras. Deste modo, evitam-se confusões e más interpretações.

Infelizmente, ao menos no Brasil, a metodologia Periodização Tática (PT), criada e sistematizada pelo professor Vítor Frade ao longo de mais de 40 anos, tem fugido à regra. As confusões conceituais e más interpretações são muitas, começando pelas palavras que compõe o seu nome. Algo que logicamente afeta a sua correta operacionalização e divulgação.

Com frequência o conceito de “tática” confunde-se com “tomada de decisão” ou “estratégia”. Contudo, dentro da perspectiva metodológica em questão, a (supra) dimensão tática se trata de uma organização intencionalizada, porque há uma intenção prévia relacionada à ação/interação, que é condizente com a ideia de jogo, ou seja, com o modo como queremos que a equipe venha a jogar.

Assim, a tática, como refere Frade[1], emerge a partir da relação intencional das ditas dimensões técnica, física, psicológica e estratégica. “Ela não é nenhuma delas, mas sem estas ela não existe, porque ela dimana destas”.

Pegando como exemplo a seleção brasileira que esta semana estreia na Copa do Mundo, sabemos que a ideia de jogo do Tite passa, dentre outras coisas, por garantir que a posse de bola seja assegurada nos dois primeiros terços do campo sem que se corram muitos riscos, privilegiando quem está melhor posicionado para que a bola e a equipe possam progredir juntos no campo, até as zonas de finalização.

Imaginemos uma situação em que o Brasil sai jogando desde atrás e o Casemiro fica sob pressão do adversário assim que recebe um passe do Marcelo. Casemiro domina e passa a bola para trás, para o zagueiro Thiago Silva.

Analisando esta situação, ao receber o passe do Marcelo, o volante Casemiro terá de optar por uma solução dentre as que julgar possível para aquele instante (tomada de decisão: passa a bola para um companheiro mais recuado? Dribla o adversário? Lança a bola para frente para os atacantes?), e termina optando por fazer o passe para o zagueiro Thiago Silva, que recebe a bola com liberdade e poderá dar seguimento à busca de espaços e à manutenção da posse da bola em segurança.

Além do aspecto decisório, neste passe está presente a dita dimensão técnica (gesto motor), o desgaste fisiológico implicado para controlar, comandar e executar tal gesto (e na sua ação posterior – um sprint, por exemplo, para oferecer uma nova linha de passe ao zagueiro), bem como a dita dimensão psicológica, já que Casemiro decidiu em realizar um passe de segurança, tendo como pano de fundo um sentimento (desejo de garantir o êxito na ação).

Facilmente percebemos que dentro da ação/interação de jogo executada por Casemiro, todas as dimensões do desempenho estão inter-relacionadas, e, mais do que isso, estão inter-relacionadas em função de um aspecto da ideia coletiva da equipe, que é a de manter a posse da bola em segurança na saída de bola. Em outras palavras, a ação/interação de Casemiro é intencional, há uma intenção prévia de agir/interagir desta maneira (à um nível macro).

Imaginemos agora uma situação em que o Brasil está marcando a França num bloco médio e a primeira pressão é superada com uma troca de lado da seleção francesa, gerando uma situação de “bola aberta”. Os volantes do Brasil estão longe para pressionar Pogba, que tem a bola controlada, com tempo e espaço para lança-la nas costas da defesa brasileira, visando aproveitar a velocidade do Mbappé e Dembélé.

Assim, a linha de 4 defensores do Brasil corre para trás, em grande velocidade para retirar a profundidade e prevenir o êxito do lançamento do adversário. Miranda consegue realizar o corte da jogada após um sprint de 20 metros.

Assim, tal como no primeiro exemplo, percebemos que as várias dimensões (técnica, física, psicológica, estratégica) se manifestam no mesmo lance, sendo que as ações e interações dos jogadores envolvidos no lance foram decorrentes e coordenadas em função de um determinado aspecto da ideia de jogo do treinador, de uma intenção prévia (neste caso hipotético baixar e proteger as costas, em situações que o adversário tem intenção de lançar e não há possibilidade de pressionar a bola rapidamente), ou seja, o tático que emerge de maneira intencional, deliberada. Se trata, portanto de uma execução (intenção em ato) condizente com a intencionalidade coletiva (intenção prévia).

Resumidamente, enquanto metodologia de treino, podemos afirmar que a PT proporciona a aquisição de uma forma de jogar específica (em todos os seus níveis), através da operacionalização da ideia de jogo do treinador. Embora a PT seja uma forma de treinar e não de jogar, por motivos lógicos, ela só faz sentido se o treinador possuir uma ideia de jogo coerente e sistematizada para sua equipe. Em outras palavras, o ponto de partida do processo se faz através da definição à priori, por parte do treinador, de como sua equipe, em termos gerais (macro e até mesmo, meso), irá interagir e se organizar durante os momentos de organização defensiva, ofensiva, transições e bolas paradas.

Para transformar estas ideias de jogo (e de tudo aquilo que irá surgir durante o processo, que a comissão técnica julgar conveniente), nos seus diferentes níveis de organização, em funcionalidade e padrão, a PT apresenta princípios metodológicos exclusivos que devem interagir e ser permanentemente operacionalizados em simultâneo (propensões, progressão complexa e alternância horizontal em especificidade) e uma matriz operacional, denominada Morfociclo Padrão.

Como a criação e a consequente aquisição de um jogar[2]por parte dos jogadores, não se faz da noite para o dia, há a necessidade de distribuir temporalmente tal aquisição, ainda que de maneira não linear -em termos gerais a temporada, em termos estruturais e operacionais o Morfociclo, daí o sentido de se falar em “Periodização”, e “Tática” por ser esta a supra dimensão que irá coordenar todo o processo de treino. É a periodização de um jogar.

Importante referir que outra preocupação fundamental desta metodologia é desenvolver, potenciar e maximizar as capacidades individuais (a todos os níveis -técnico, físico incluído) de cada jogador. Afinal, quem joga são os jogadores, e o lado coletivo só existe por causa das individualidades.

Este desenvolvimento individual será alicerçado em função dos propósitos da ideia de jogo. Ao longo da semana serão contemplados os planos macro, meso e micro do jogar, de modo que tal interação contribua para a melhoria do todo. Assim, a aquisição irá se centrar sobre o todo, o quase todo, o pouco mais que o individual e o individual, consoante os diferentes dias do Morfociclo, sempre respeitando uma lógica de desempenho e recuperação, garantindo assim que a aquisição pretendida aconteça, ao passo que os jogadores e a equipe como um todo possam se recuperar relativamente ao jogo anterior e estejam nas suas melhores condições de funcionalidade e fluidez para o próximo jogo, continuamente.

Trata-se de uma metodologia criada para atender as exigências do rendimento superior em que vale a pena o aprofundamento.

…Ao menos de quem pretende falar sobre ela.

 

[1]In. TOBAR, Julian. La Periodización Táctica Es… -1ª ed.- Ciudad Autónoma de Buenos Aires: LIBROFUTBOL.com, 2018

[1]In. MOURA, Fábio Alberto Ramos.O Período Preparatório como espaço privilegiado para a “plantação” do nosso «jogar», de forma a podermos cultivá-lo e enraizá-lo… dentro da lógica da Periodização Táctica!Dissertação de Licenciatura apresentada ao Instituto Superior da Maia. Portugal, 2010.

[2]Jogar: O jogaré o tipo de futebol que uma equipe produz. São regularidades que identificam uma equipe. Escrevo em itálico para diferenciar um jogarde um “Jogo Geral”.

Comentários

  1. JORGE AUGUSTO MARTINS GONÇALVES disse:

    Na minha concepção, futebol é um esporte cujo objetivo é marcar gols. Nesse sentido, deve-se perseguir a perfeição no domínio da bola (no limite, fazer com que o cérebro do jogador identifique-a omo se fosse parte do meu corpo), no passe (curta, média e longa distância) e no drible (entendido como única alternativa que resta para seguir em direção ao gol, haja vista que todos os companheiros que poderiam receber o passe estão marcados). Como fazer isso de forma organizada distribuindo 10 jogadores em um retângulo de 100 x 64 m, levando em consideração que existirão outros 10 adversários com a mesma intensão? Tática. Até ai estou plenamente de acordo. Minha dúvida é qual o limite de tempo que deve-se dedicar ao treinamento tático, de modo a não tornar secundário a perfeição do passe e o uso do drible?
    Eu sou um Matemático aposentado (que utilizou modelos na Área de Transporte). Como matemático achei o artigo fantástico. Mas na adolescência verifiquei que jogar futebol de salão era muito mais fácil do que jogar futebol de campo. Por que? No salão bastava mapear a quadra e esperar um erro de posicionamento dos adversários. Me sentia muito confortável sendo considerado um ótimo jogador de salão e um ponta-esquerda que era terceiro reserva. No entanto, quando assitia uma partida de salão e uma de futebol de campo ficava claro, para mim, que se o futebol de campo fosse jogado como o salão haveria uma grande chance do futebol mudar radicalmente sua estética. Logo, adeus dribles, lançamentos precisos e gols de bicicleta.

    • Marcelo Janin disse:

      Boa noite Jorge.

      Não sou treinador de futebol (ainda), mas assim como você, um apaixonado por futebol que acabou seguindo outro caminho.

      Acho que a resposta a sua pergunta é: Depende.
      Depende de muita coisa, o futebol tem n variáveis. O seu time já está bem tecnicamente? O trabalho do treinador está começando com aquela equipe e ele tem que imprimir seu conceito tático no time? Qual a época do calendário está? Em qual categoria (profissional, sub-20, sub-17) se está treinado?

      Creio eu que para cada resposta diferente as perguntas que eu fiz, vai gerar uma reposta diferente para a sua pergunta.

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