Universidade do Futebol

Rodrigo Barp

05/11/2012

O sangue fervente de Heleno

“Não existe futebol sem sangue fervendo”, diz Heleno de Freitas, na interpretação de Rodrigo Santoro para a cinebiografia do famoso jogador brasileiro das décadas de 1940 e 1950.

A frase resume, em boa parte, o temperamento do primeiro craque bad boy que o futebol brasileiro viu e fez surgir.

Jogador talentoso dentro de campo e, tanto quanto, fora dele, para se envolver com as mulheres e criar confusão com adversários e companheiros do próprio time.

O maior ídolo do Botafogo antes de Garrincha.

Fugia do estereótipo do jogador-problema dos dias de hoje, pois havia cursado ótimo colégio no Rio de Janeiro, bem como se formara em Direito pela UFRJ.

Além disso, o pai era dono de fazendas de café e isso também lhe proporcionava acesso à alta roda social da cidade na época.

O comportamento sexual promíscuo e uso de drogas o fez contrair sífilis, que o levaram à demência e também à morte.

Algumas das passagens do filme, nesse desenho do perfil do personagem como sendo alguém intempestivo, arrogante, nervoso, intenso, inconsequente, são interessantes como contraponto ao que se vê hoje em dia.

Heleno cobrava atitude dos companheiros, acima de tudo.
 


 

Atitude positiva e desafiadora, para que buscassem algo mais que apenas jogar futebol em troca do salário.

Quando foi transferido ao Boca Juniors, relutou e foi a contragosto, pois o Botafogo era sua paixão candente.

Dizia um jornalista da época que o egocentrismo de Heleno o fazia esquecer que “era apenas um jogador de futebol”.

Ao que rebatia, afirmando que era jogador “do Botafogo”.

O que vemos nos tempos atuais? Afora demonstrações de vontade e garra travestidas de violência e incompreensão do futebol como um jogo inteligente, não se percebe mais a existência de ídolos identificados com os clubes.

Com a seleção brasileira, então…

O cenário altamente mercantilizado deixou valores humanos essenciais muito distantes. À parte dos excessos de Heleno, ele personificava a essência do jogar futebol com grande prazer, envolvimento e identidade com algo maior que a si mesmo.

Os ecos chegam à crise de identidade e de formação de talentos no Brasil. O que acontece antes do campo se reflete dentro dele.

Heleno morreu sem ter disputado uma Copa do Mundo – seu maior sonho.

Precisamos resgatar a paixão que movimenta o futebol brasileiro, desde sua origem e que permeia todo o contexto desse esporte.

Já dizia Nelson Rodrigues que “sem paixão, não dá nem pra chupar um picolé”.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

 

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