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Não existe um roteiro para oportunidades. Há algumas que aparecem de supetão, como acaso; outras são construídas durante períodos que podem ser curtos ou extremamente longos. O que une essas chances, independentemente da proporção que elas têm, é um fator que se refere a quem as encontra: os mais preparados são os que mais aproveitam.

Existem diferentes formas de preparação ou de treino. O esporte mostra que há caminhos absolutamente distintos para que equipes atinjam níveis parecidos de desempenho. Mas como alguém se prepara para o que não está previsto?

Essa é uma questão que deveria inquietar profissionais em diversos segmentos. O esporte, por exemplo: se um garoto é condicionado desde pequeno a ir até a linha de fundo e cruzar, como ele vai reagir se a única opção for uma diagonal ou um chute?

O improviso, o drible e outros aspectos que sempre caracterizaram o futebol brasileiro são reflexos de um conceito importantíssimo: repertório. Ainda que de forma empírica, a cultura nacional contribui para a formação de atletas com potencial para a resolução de problemas urgentes, independentemente do grau de complexidade.

Conheci uma treinadora de handebol que costumava fazer um exercício curioso: durante a atividade, ela pedia para os atletas trocarem passes até encontrarem espaços para finalizar. Em algum momento, ela pedia para o goleiro adversário deixar a quadra. Os atletas quase sempre seguiam tocando a bola, ignorando a meta vazia.

Em outras palavras: eles estavam condicionados a trocar passes e encontrar espaços na defesa. Tão condicionados que sequer olhavam para o posicionamento do goleiro. Tão condicionados que não percebiam nem a ausência do jogador.

Esse é outro elemento fundamental para o improviso: ter uma noção exata sobre metas. Nenhuma ação inusitada é realmente eficaz se não trabalhar para um objetivo previamente estabelecido. No futebol, por exemplo, o desafio é o gol.

Improvisar não é simples, portanto. É algo que demanda repertório e estabelecimento de metas.

Pois bem: o Brasil está a menos de 24 horas de iniciar o período mais importante da história do esporte nacional. Como exercício de fim de ano, proponho o seguinte: será que o país está realmente preparado para isso?

Não pensem em estrutura física, por favor. Os estádios vão ficar prontos, e isso não se negocia. Poucas obras de infraestrutura vão ficar prontas, e isso não se corrige mais.

A poucos meses de uma Copa do Mundo e a dois anos dos Jogos Olímpicos, a pergunta que fica é: o Brasil está pronto para improvisar? Há repertório suficiente? As metas estão claras?

A impressão é que a resposta para todas as perguntas é uma gigantesca negativa. O Brasil iniciará na próxima quarta-feira a maior oportunidade de sua história, mas fará isso sem ter condição de aproveitá-la. E pior: fará isso sem saber como improvisar.

Só um exemplo besta do mercado dos Estados Unidos. Em um jogo da liga profissional de futebol americano (NFL), neste ano, um atleta se pendurou na trave para celebrar um ponto. Resultado: o aparato ficou totalmente danificado.

Prontamente, uma equipe entrou no campo com um nivelador e ferramentas para o conserto. O jogo ficou parado por menos de dez minutos, e a trave estava totalmente arrumada quando a partida foi retomada.

Agora pense em quanto tempo seria necessário para retomar um jogo do Campeonato Brasileiro se houvesse um problema com uma trave. Qual seria o prazo para a partida ser retomada?

Estou falando apenas de gestão de evento, que é uma parte bem pequena de tudo que os três próximos anos vão representar para o mercado brasileiro. O país tem uma chance de usar o esporte para alavancar uma série de segmentos.

E o que fazer, então? Reconhecer que o país não está preparado e rejeitar a oportunidade? Aproveitar apenas o que for possível e lamentar o que não funcionar?

A discussão é complicada, obviamente. O Brasil ainda tem meses pela frente até o início da Copa do Mundo, mas o impacto do evento no país já começou – ou já deveria ter começado.

Enquanto não discutir metas, porém, o país não vai sequer saber o real impacto dos próximos anos. Não vai nem conseguir medir com precisão o que foi causado pelo esporte.

O Brasil não vai fazer uma Copa do Mundo ruim. Tampouco vai fracassar na organização dos Jogos Olímpicos. Isso nunca esteve em pauta. Enquanto todo mundo pensa em desejos e resoluções para o fim do ano, a provocação que eu faço é: eventos cumpridores são tudo que essas competições oferecem a um país?

Ainda que a economia brasileira tenha desacelerado, é notório o crescimento do mercado de consumo no país. Mais e mais pessoas estão comprando. Tente lembrar de como estavam os shoppings e as lojas na semana que precedeu o Natal.

A ampliação da base de consumidores é um reflexo de um amadurecimento da economia local. Entretanto, qual tem sido o papel do esporte nisso?

É inegável que o esporte é uma plataforma de comunicação extremamente poderosa. É inegável que poucos outros segmentos conseguem mexer tão bem com o aspecto emocional.

Então, como justificar que Palmeiras e Santos, dois dos principais times do principal mercado do país, chegaram ao fim de 2013 sem um patrocinador máster? E que o São Paulo, apoiado pela Semp Toshiba, deve ficar sem o aporte no próximo ano? E que o Vasco, que havia fechado com a Nissan, perdeu o negócio por causa das cenas de selvageria do clube na última rodada do Campeonato Brasileiro?

Como justificar que as camisas do futebol brasileiro estejam nas mãos de marcas como BMG e Caixa Econômica Federal, ondas que são mais ocasionais do que estratégicas?

Como justificar que os principais investimentos no futebol brasileiro nos últimos anos tenham tido como destino a seleção brasileira, a Copa do Mundo e até o Campeonato Brasileiro, mas não os clubes?

O fim do ano normalmente é uma época propícia para reflexões. Espero que o futebol brasileiro aproveite o clima para tentar responder a algumas dessas perguntas. Ainda dá tempo de amenizar o desperdício.

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