Universidade do Futebol

Rodrigo Azevedo Leitão

01/12/2013

Os chutões, o português José Mourinho, a beleza de jogar futebol e a lógica do jogo

Na próxima semana, vou inaugurar nesse espaço a publicação de textos (pelo menos dois de cada quatro no mês) que tentarão responder a determinado tipo de questão temática enviada a mim pelos leitores, a partir do email da Universidade do Futebol (rodrigo@universidadedofutebol.com.br).

Então, qualquer questão que envolva o jogo de futebol e ideias que incorporem conceitos como “tática”, “fisiologia e/ou bioquímica do jogo”, “teoria do jogo”, “complexidade”, “organização sistêmica”, e temas relacionados, será muito bem-vinda.

Os emails deverão chegar até quarta-feira de cada semana, e após análise das questões, uma será escolhida para dissertação e debate.

Hoje, ainda sem a inauguração do mencionado acima, quero chamar a atenção para um ponto de vista que, estou certo, deve gerar alguma polêmica. Por isso, tentarei ter todo o cuidado possível – sem deixar de dizer aquilo que quero efetivamente dizer.

Faz poucos anos, em um memorável jogo de Uefa Champions League, a Internazionale de Milão vencia, na Itália, já na fase de “mata-mata”, o jogo de ida contra o FC Barcelona (que era na época a grande equipe europeia a ser batida).

O time italiano, dirigido por José Mourinho, conseguia naquele momento o que parecia impossível para a maior parte das equipes, jogadores e treinadores da competição – levar vantagem sobre o time catalão.

Na época escrevi dois textos a respeito do confronto; um sobre o jogo na Itália e um sobre o jogo na Espanha (na Espanha a Internazionale, com um jogador a menos em boa parte da partida acabou sendo derrotada, mas por um placar que eliminou o FC Barcelona).

Pois bem.

Muitas foram as críticas ao treinador português naquele momento. Da Espanha, Holanda e França, um grande número de matérias contestavam a maneira de jogar do time italiano para vencer o jogo.

Tudo porque a Inter abdicou da bola. Quando a tinha sob sua posse efetiva, tentava rapidamente com dois ou três passes chegar ao ataque. Quando isso não era possível, ela (a bola) era lançada nas “costas” da linha de defesa do time catalão, em uma tentativa de subir a marcação e recuperá-la nas proximidades da sua meta ofensiva.

Na maior parte do jogo, mais vezes a bola foi lançada ao espaço descrito, do que foram construídas sequências ofensivas rápidas e apoiadas para se chegar ao campo de ataque.

Aos olhares treinados para ver a beleza do jogo apoiado, com passes rápidos e muita mobilidade em todas as direções do campo, o jogo apresentado pelo time de Mourinho não possuía nada de belo.

Para a imprensa portuguesa em geral e para os torcedores da equipe italiana, ao contrário, foi um belíssimo e estratégico jogo. Muitas vezes. o resultado final de uma partida parece dizer muito pouco a respeito daquilo que foi (e é) o jogo. Mas só parece!!!

Como já mencionei outrora, o futebol é mais um jogo de como aproveitar chances do que um jogo de como criar oportunidades. Há beleza nisso… Mas tudo depende de como olhamos para essa “beleza”.

E, além de beleza, há muito, mas muito conteúdo de jogo nisso!!!
Isso é um fato tão concreto como o de que a maior parte das análises de jogo, por exemplo, quando percebem a posse de bola, a percebem apenas quando ela é efetiva (e por que não quando ela é a “posse a distância”, ou a “posse sem bola”?)…

Outro fato concreto, também como exemplo, é a percepção de que as bolas lançadas (ou por que não, chutadas) à frente são uma “aberração” do jogo…

Não estou defendendo uma concepção “A” ou “B” de se jogar (e nem tão pouco os “chutões”)… Não, não é isso!!!

Estou querendo, mais uma vez (a terceira nesse ano!) chamar a atenção para o fato de que sob o ponto de vista da lógica do jogo, a beleza, os conteúdos, e a inteligência para jogar não estão subordinados as estratégias de jogo, modelos de jogo, ou ao que intimamente ou culturalmente achamos bonito – estão subordinados sim, ao JOGO propriamente dito, no cerne, na sua essência!

O ambiente, a cultura, os modelos (e outras coisas mais) são caminhos (alguns dos inúmeros) para chegar ao jogo – eles não têm fim neles mesmos e, portanto, não é para nenhum deles que devemos perguntar o que é o JOGO.

Devemos perguntar sobre o jogo ao próprio JOGO!

E ainda que isso pareça abstrato ou filosófico demais, convido a todos que estão lendo esse texto a refletirem sobre o assunto…

Por hoje é isso!!!

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