Os princípios e a leitura de jogo

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Durante o recesso dos campeonatos europeus, os olhares se voltaram para o futebol brasileiro. E tanto nos campeonatos nacionais, como nos estaduais de divisões inferiores, poucos minutos de acompanhamento por jogo são suficientes para a constatação de que muitas de nossas equipes estão aplicando princípios de jogo de maneira incoerente e os jogadores executando (demasiadamente) leituras de jogo equivocadas.

Os estudos do futebol apontam que para uma equipe apresentar/manter um bom desempenho ela deve convergir (e ter coerência) em seus princípios de jogo para cada um dos momentos do jogo. Tais convergências e coerências (que não podem perder a relação com o Todo e com a Lógica do Jogo) fazem com que os comportamentos individuais e coletivos pretendidos sejam mais facilmente aplicados e, dessa forma, o sistema-equipe se mantenha mais organizado.

É comum observar equipes que pretendem jogar em posse, mas não têm os onze jogadores posicionados no campo de ataque para circular a bola enquanto buscam a finalização. Sem os onze jogadores no ataque, as coberturas ofensivas, a superioridade numérica e a formação de triângulos (que dão coerência ao jogar em posse) ficam mais difíceis. Facilitar o comportamento de manutenção da posse implica zagueiros com qualidade de jogo no campo ofensivo, quesito raramente observado em nosso futebol.

Também é comum observar equipes que, dentro de casa, estão operacionalmente orientadas para buscar a recuperação da posse de bola. Com pressões individuais, ausência de referências espaciais ou atitudinais para a pressão e excessiva distância entre linhas, este comportamento se mostra, frequentemente, pouco eficaz.

Já fora de casa, observam-se equipes orientadas para impedir progressão. Para dar coerência a este princípio, a gestão do espaço entre bola e alvo, a recomposição, a boa flutuação e o direcionamento para setores de menor risco são fundamentais. O que se observa, porém, é um acúmulo desordenado de jogadores próximos à bola, a negligência ao espaço e a atenção excessiva ao adversário como referência para marcação.

Quanto à transição ofensiva, para aquelas equipes que buscam a retirada vertical do setor de recuperação, pedem-se leitura e passe de quem recuperou a posse, um balanço ofensivo bem posicionado e jogadores que buscam deslocamento ofensivo para receberem a bola em setores mais próximos do alvo adversário. É mais comum, no entanto, a falta de recurso técnico-tático para a transição, o mau posicionamento dos jogadores responsáveis pelo balanço ofensivo, que ignoram sua função defensiva quando se encontram à frente da linha da bola e a lentidão dos jogadores distantes dos setores de recuperação que dariam sentido à pretendida retirada vertical.

E na transição defensiva, para as equipes que buscam a recuperação imediata, ao invés de serem detectados a pressão coletiva de espaço e tempo na região em que se perdeu a posse de bola e o rápido mecanismo de fazer campo pequeno a defender, a prevalência é de ataques isolados à bola, combinados com perdas preciosas de segundos para mudanças de atitude por parte de alguns jogadores.

Toda esta incoerência na aplicação dos princípios de jogo exemplificados evidenciam os graves problemas de leitura de jogo que acometem o jogador brasileiro. Num olhar direcionado para as individualidades do sistema é certo que para o mesmo problema os jogadores apresentem quatro, cinco ou seis respostas diferentes. A equipe joga apenas um jogo e a diferente leitura expressa pelos jogadores resulta numa unidade coletiva desorganizada. Um grande passo para o insucesso de um treinador.

Enquanto nos nossos treinos não predominarem a resolução de situações-problemas, vinculadas ao Todo e à Lógica do Jogo, o cenário não irá mudar. Enquanto não buscarmos uma leitura de jogo coletiva e maiores previsibilidade e ordem aos imprevisíveis problemas do jogo, nosso desempenho seguirá minimizado. Teremos, por exemplo, que suportar scouters do futebol europeu debocharem do futebol brasileiro ao mencionarem que nosso jogo está taticamente ultrapassado, de seis ou sete Copas atrás. Ou então, corroborar com Tostão que aprecia o jogo europeu, pois vê mais jogadores procurando o passe.

Chegamos ao triste ponto de, neste ano, uma equipe comemorar um título tendo vibrado durante o jogo ao se desfazer da bola com um chutão.

Percebam que a discussão parou na coerência dos princípios. Imaginem se nas análises forem consideradas suas inter-relações…

O nosso futebol merece mais! Capriche no seu treino!

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br
 

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