Universidade do Futebol

Guilherme Costa

08/10/2013

Por que tudo que você sabe sobre futebol está errado

Rodrigo Leitão, ídolo e companheiro de coluna aqui na Universidade do Futebol, já havia abordado o tema em texto publicado no dia 22 de setembro deste ano.

Voltei a ouvir sobre o assunto em uma reunião de jornalistas, e essa segunda referência foi suficiente para aguçar demais a curiosidade. Fui atrás do livro “Os números do jogo – por que tudo que você sabe sobre futebol está errado”, de Chris Anderson e David Sally (Editora Paralela, 352 páginas), e desde então ainda não consegui desgrudar da obra.

Anderson chegou a tentar carreira como jogador de futebol, mas atualmente trabalha como professor de estatística na universidade Cornell, situada nos Estados Unidos. Sally também trocou o beisebol por uma vida como docente no ensino superior norte-americano – é funcionário da Tuck School of Business.

Os dois resolveram escrever um livro para esmiuçar o futebol por meio de dados estatísticos. A obra mistura histórias e dados que balizam uma série de conclusões dos autores sobre o jogo.

O livro conta, por exemplo, que o técnico David Moyes era um usuário contumaz de estatísticas quando comandava o Everton na elite do futebol inglês. O trabalho de análise no time de Liverpool é feito por Steve Brown e Paul Graley, que reúnem informações sobre adversários, possíveis reforços e os próprios atletas da equipe.

Antes de um jogo, Brown e Graley analisam vídeos das cinco partidas anteriores do rival do Everton. Buscam padrões e tentam identificar comportamentos que a equipe pode coibir para se aproximar de uma vitória.

Moyes teve trajetória de sucesso no Everton. Deixou o clube no meio deste ano para substituir o lendário Alex Ferguson no comando do Manchester United. No gigante inglês, manteve o apreço por estatísticas e dados analíticos. Até aqui, o resultado disso é o pior início da história do clube na Premier League.

É praticamente impossível ler o livro de Anderson e Sally sem fazer comparações com a história do filme “Moneyball”, obra dirigida por Bennett Miller em 2011. O longa-metragem conta a história real de Billy Beane, gerente do time de beisebol Oakland Athletics em 2002.

Naquela época, os A’s haviam perdido os três melhores jogadores. E Beane, em busca de reposição, apelou a uma metodologia baseada em números e estatísticas. Ele não apenas usou os números, mas interpretou esses dados de uma forma diferente.

Estatísticas são muito comuns no esporte dos Estados Unidos. LeBron James, maior jogador de basquete do planeta, é um fã do assunto. Ele defende o Miami Heat, time da liga de basquete profissional dos Estados Unidos (NBA), e a franquia conta com Shane Battier, outro atleta conhecido por ser muito estudioso.

Em entrevista concedida no ano passado, Battier revelou que ficou impressionado quando conheceu o apreço de James pelas estatísticas. O craque da equipe usa os dados diretamente no jogo – se ele está marcando alguém e esse atleta tem índices ruins em chutes no lado esquerdo, por exemplo, o camisa 6 força o rival a driblar nessa direção.

James precisa acionar o banco de dados mental em vários momentos de um jogo. O basquete é um esporte que envolve decisões urgentes e tem alto grau de exigência. Ainda assim, é possível tirar vantagem dos dados.

A repercussão sobre o livro de Anderson e Sally focou mais os dados que eles levantaram. Os pesquisadores analisaram dez temporadas da Premier League, por exemplo, e concluíram que um time faz um gol oriundo de cobrança de escanteio a cada dez partidas. O baixo aproveitamento sugere que fazer cruzamentos para a área não é a melhor opção nesse tipo de lance.

Os números obtidos pelos autores, contudo, são apenas parte da história. O futebol é um jogo complexo e oferece diferentes caminhos para a vitória. Um time pode optar por controlar a bola até encontrar espaços na defesa rival, por exemplo, ou tentar tomar a posse no campo de ataque e aproveitar um momento em que o adversário esteja menos arrumado. São duas estratégias distintas, que dependem de características e ações distintas.

É possível aproveitar a estatística de forma direta. Se o time rival tem um jogador com aproveitamento muito bom em cobranças de falta, a equipe precisa ser orientada a não cometer infrações que permitam tiros diretos. Esse é apenas um exemplo simples.

No entanto, o grande negócio é entender que tipo de comportamento esses números traduzem. É possível mapear a postura de um time a partir das estatísticas, mas como prever as reações dos atletas rivais às suas estratégias?

Traduzindo em exemplo: você pode identificar por meio de números que o rival tem uma fragilidade quando sai jogando pelo lado esquerdo da defesa. Você pode optar então por uma marcação que force a bola a passar por ali. E quando o lance estiver no setor, você pode adiantar a linha ofensiva para pressionar o adversário.

Tudo isso pode funcionar, mas também pode exigir do jogador pressionado uma decisão que abra caminho para um lance que ele não faria normalmente. Essa é a parte complexa da coisa.

O próprio livro de Anderson e Sally apresenta uma comparação entre vários esportes coletivos. Segundo os autores, o baixo número de gols marcados faz do futebol o evento mais imprevisível entre essas modalidades.

Os autores dizem que o time mais forte vence uma média de 70% dos jogos no handebol. O basquete e o futebol americano ficam um pouco abaixo desse índice, e o beisebol tem triunfos dos favoritos em 60% do tempo. No futebol, a incidência de resultados lógicos é pouco maior do que 50% das partidas.

Com base nisso, os próprios autores atribuem ao futebol um alto grau de imprevisibilidade. É possível mapear eventos e entender caminhos do esporte a partir de dados estatísticos, mas há vários componentes que não podem ser medidos.

Conheci um técnico uma vez que dizia sempre o seguinte: “Não há gol no futebol que não seja ocasionado após pelo menos oito erros do time vazado”. A tese dele é que, se você isolar componentes de um lance que acabou com bola na rede, vai perceber que quase todos os atletas tomaram decisões erradas. Ou que um mesmo jogador teve várias decisões errada.

Ainda não terminei de ler o livro de Anderson e Sally, mas recomendo muito. Eles estudaram, pesquisaram e mostraram uma série de informações que podem nortear o entendimento sobre o futebol. A obra é rica e tem um texto simples, com boa fluência. Não é um amontoado chato de estatísticas.

O que o livro deles não explica – e nem parece ter pretensão de explicar, diga-se – é o componente humano. Números podem reduzir drasticamente a margem de erro, mas as decisões vão seguir sendo tomadas por pessoas.

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