Universidade do Futebol

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14/08/2017

Posição tática ou função tática?

"Apesar de ainda haver grande bagagem intuitiva como pano de fundo nas exibições dos times em campo, o jogo assumiu características personalizadas muito mais evidentes e necessárias que antigamente"

O Grêmio-2017, do Renato Gaúcho, faz um excelente Campeonato Brasileiro.

Com vários jogos observados, não há como contestar: os tricolores do sul estão jogando muito bem.

Um ponto que nos chama a atenção é como um “onze”, quase sempre formado por quatro volantes, e um centroavante que não obedece aos padrões da posição, consegue dar fluência a um jogo tão eficiente. Defendem e atacam com naturalidade e/ou leveza, além de muita qualidade.

Esmiuçando o detalhe da escalação do Grêmio, constatamos uma grande quebra de paradigma tático no futebol brasileiro. No conceito popular jogar com três volantes sempre foi sinônimo de postura defensiva. Isto já causou desemprego a muitos treinadores. Imagina um time jogando com quatro volantes. É muito para a cabeça do brasileiro!

O convite que eu faço é que caminhemos rumo a reflexão da grande mudança tática conceitual que traz essa nova forma de pensar e agir sobre o jogo: POSIÇÃO ou FUNÇÃO, como abordar o jogo e escalar jogadores nos espaços e ações em campo?

No que diz respeito a distribuição das “peças” em campo – o que sempre deu nome aos sistemas táticos de jogo – surge uma nova concepção, um novo modo de pensar e agir: as “posições táticas” de origem dos jogadores não são mais importantes que as “funções” a serem desempenhadas em campo num dado modelo de jogo.

O jogo, de alguns anos para cá, passou a ser construído ao invés de intuído! Passou a ser algo novo e único, ao invés do antigo “acomodar de qualidades” (características) dos jogadores em um sistema para esperar o encaixe. Nesse modo tradicional de jogar, o máximo que se consegue em termos de inovação, é dar um pouquinho mais do mesmo nas táticas de um jogo tão complexo!

Apesar de ainda haver grande bagagem intuitiva como pano de fundo nas exibições dos times em campo, o jogo assumiu características personalizadas muito mais evidentes e necessárias que antigamente.

Além disso, treinar hoje em dia no futebol, representa construir formas de jogar que elevam prioritariamente a abordagem tática como a grande protagonista do contexto. Há duas ou três décadas atrás tínhamos semanas recheadas de treinos físicos e técnicos comandando o foco dos conteúdos ministrados.

Baseado em conceitos e princípios táticos, parte da abordagem moderna do jogo, cada treinador constrói a sua forma de postar e atuar em campo. Tudo que se usava antigamente continua sendo útil aos treinadores, mas como complementos a uma engenharia mais complexa e que leva em consideração, principalmente a natureza complexa do próprio jogo.

Enquanto isso, voltando ao exemplo do Grêmio, a “posição tática de origem” tem menos relevância no jogo moderno que o “desempenho tático” que os jogadores realmente podem produzir em campo. Parece a mesma coisa, mas faz muita diferença. O futebol de alto nível no mundo já pratica isto com mais naturalidade e há mais tempo.

Se levarmos em consideração estes novos conceitos, teremos muitas surpresas positivas. Os exemplos de goleiros que hoje são convidados a participar do início da construção do jogo das suas equipes são claras evidências deste fenômeno. Portanto, não será o maior número de jogadores desta ou daquela posição que determinará a característica de cada jogo. Os jogadores, em seus espaços, ou no espaço em que melhor adaptam suas características, entram em campo com propósitos de desempenhar funções que fazem fluir um determinado modelo de jogo.

O professor Victor Frade, ilustre figura mundial em metodologia de treinos para o futebol, disse certa vez: “às vezes me perguntam o que é inteligência de jogo. Quando vês um jogo, vês logo se está lá ou não”. Quer dizer, “ideia de jogo” é algo que se sobrepõe ao poder das individualidades no futebol.  Isto é, e sempre foi, a principal chancela para análise do jogo de uma equipe!

Costumo externar a amigos: – o bom de se trabalhar no futebol brasileiro é que há tudo por fazer sempre! Quando conquistamos algum progresso, seja em qualquer âmbito ou clube, é corriqueiro ter que reconquistar terreno, pois as coisas se perdem muito facilmente no ambiente futebolístico brasileiro. Quem é brasileiro sabe do que estou falando!

Quanto ao Grêmio do Renato Portaluppi, fica a certeza que a equipe, jogando como está, obedece a um modus operandi especial para a construção do seu jogo. São muitos conceitos táticos modernos que ilustram em campo sua dinâmica. Construindo e ou escalando o seu time, o treinador gaúcho desenvolveu um perfil de jogo de muita qualidade.

E o Corinthians, do Fábio Carille?

Calma! Este é um assunto para daqui a pouco!!

Até a próxima!!

Comentários

  1. Acredito que apesar das transformações que o futebol vem tento, em aspectos gerais, uma coisa não necessariamente ficou “para trás” enquanto a outra vem como “algo super novo”.

    Na minha concepção, é imprescindível que você conheça SIM as características dos teus jogadores e a partir disso proponha um esquema, um sistema, porém, o que não vi ser mencionado da forma como imaginei ler é que, hoje em dia o futebol exige que os jogadores possuam uma capacidade de leitura do jogo mais dinâmica, mais abrangente, que o jogador (a) seja volátil.

    Então, volto a dizer, as duas coisas andam juntas mas se faz necessário, pelo menos ao meu ver, que as comissões deem subsídios pra esses mesmos jogadores com características positivas e negativas possam desempenhar ações/funções de forma polivalente, como o esporte tem exigido.

  2. maicon disse:

    esse nao ganhou nada

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