Universidade do Futebol

Guilherme Costa

24/09/2013

Quando o campo fala

Líder da temporada 2013/2014 do Campeonato Espanhol, o Barcelona jogou fora de casa contra o Rayo Vallecano no último sábado e venceu por 4 a 0. O resultado positivo, porém, não impediu um revés da equipe catalã, que teve menos posse de bola do que o rival.

O Barcelona ficou com a bola em 49% do jogo de sábado. O Rayo Vallecano, 51%. O time catalão não tinha menos posse do que um rival em partidas oficiais desde 7 de maio de 2008, quando foi goleado pelo Real Madrid por 4 a 1.

Nesse ínterim, o Barcelona disputou 316 jogos e conquistou 16 títulos. Foram 228 triunfos (72,2%), 58 empates (18,4%) e 30 reveses (9,4%) em que os catalães dominaram mais a bola do que qualquer adversário.

O saldo de gols do período também é impressionante: o Barcelona marcou 822 vezes no período em que foi soberano na posse de bola. Nesses mesmos 316 jogos, o time foi vazado apenas 262 vezes.

Na pré-temporada que antecedeu as disputas de 2013/2014, o Barcelona já havia tido menos posse de bola do que o Bayern de Munique, time comandado por Pep Guardiola, técnico dos catalães no auge desse período vencedor. No entanto, isso foi registrado em uma partida amistosa.

Contra o Rayo Vallecano, não havia a ressalva de se tratar de um amistoso. Tampouco o alento de ser uma equipe extremamente poderosa e comandada pelo treinador que resgatou o estilo holandês-catalão de o Barcelona jogar.

Guardiola ficou no Barcelona entre 2008 e 2012. Ele foi substituído por Tito Vilanova, que era auxiliar e comandou a equipe catalã até este ano.

Quando um problema de saúde impediu Vilanova de seguir no Barcelona, o time não repetiu a iniciativa de buscar em seu quadro de funcionários um profissional. Em vez disso, contratou o argentino Gerardo “Tata” Martino, ex-Newell’s Old Boys.

Foi o Barcelona de Tata Martino o responsável pela queda da longeva soberania da equipe na posse de bola. Em pouco tempo, o argentino mudou de forma contundente a postura dos catalães. O toque de bola insistente e o jogo horizontal ganharam companhia de lançamentos e objetividade na definição dos lances.

“A posse da bola é sempre importante para o Barcelona, assim como era para o Newell’s Old Boys. Quando uma equipe atinge a excelência no futebol, é natural que as pessoas falem sempre sobre o estilo que assegurou isso”, ponderou Martino em entrevista coletiva após o jogo de sábado.

Depois do triunfo por 4 a 0 sobre o Ajax na primeira rodada da fase de grupos da Liga dos Campeões da Uefa, o uso das bolas longas já havia chamado atenção. Na época, Martino disse que estava tentando apenas “adicionar algumas coisas ao repertório do Barcelona”.

O jogo mais incisivo pode ser benéfico para o Barcelona. Se o time catalão seguir pressionando a saída de bola de seus rivais e associar a retomada da posse a uma definição rápida, terá mais espaços do que encontrava na versão “mais paciente”.

A lógica é clara: o Barcelona pré-Martino era eficiente, mas levava mais tempo para definir os lances. Com isso, tinha de encontrar espaços em defesas mais bem postadas.

A marcação pressão e o contragolpe são eficientes porque proporcionam superioridade numérica em ações ofensivas. A velocidade de transição e definição é determinante para estipular o tamanho dessa soberania.

Na teoria, portanto, o Barcelona está adicionando elementos positivos ao jeito de a equipe jogar. Com a adição de bolas longas e uma transição mais rápida, Martino cria um time que pode ser mais seguro e letal.

Contudo, o risco que o Barcelona de Martino corre é contrariar o que se transformou em essência da equipe. Os catalães podem ser igualmente eficientes e igualmente vencedores, mas não seguirão sendo especiais se abdicarem do que os tornou únicos.

Guardiola não inventou um jogo de o Barcelona jogar, mas reuniu uma série de características que geraram orgulho na torcida catalã em times anteriores. Mais do que vencer, o grupo que ele moldou traduzia o que a torcida esperava ver em campo.

A pergunta, portanto, é o que motiva de verdade o torcedor no esporte profissional. O adepto quer vencer a qualquer custo ou quer ver no campo de jogo, independentemente da modalidade, atletas que representem o que ele pensa sobre o esporte?

Pense em quantas vezes você viu, em diferentes modalidades, atletas serem aplaudidos porque fizeram, a despeito do resultado, o que o público queria ver. Pense em quantos derrotados conseguiram simpatia, respeito e até um carinho da torcida.

O objetivo explícito do esporte é vencer, mas o esporte não seria o que é se não tivesse metas tácitas. É uma atividade em que valem inspiração, sonho e representatividade. O Barcelona dos últimos cinco anos mostrou isso. Martino pode até criar uma equipe mais eficiente, mas o início dele contradiz a essência do clube.

Até o momento, o discurso de ampliar o repertório tem sido eficiente. Se o Barcelona mantiver a rotina de vitórias, Martino ganhará argumentos muito contundentes.

Em algum momento, porém, técnico e diretoria precisarão questionar o que desejam fazer no futebol. O campo fala, e os recados do Barcelona de Tata Martino até aqui não são nada animadores.

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