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O Ceará usou formações alternativas nas duas partidas contra o Tupi-MG, na Copa do Brasil, e ainda assim obteve classificação para as oitavas de final do torneio nacional. Motivo para festa na combalida equipe nordestina, que tenta evitar o descenso na Série B do Campeonato Brasileiro? Nem tanto. O feito dos reservas pode ter servido como uma relevante reserva moral, mas também virou motivo de polêmica. Como avançou no certame, a equipe alvinegra acabou alijada da edição 2015 da Copa Sul-Americana. Foi o suficiente para revolta da diretoria cearense.

A classificação do Ceará para a Copa Sul-Americana havia acontecido por causa do título obtido pela equipe alvinegra na Copa do Nordeste. No entendimento da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), contudo, equipes que avançam às quartas de final da Copa do Brasil não podem participar do torneio continental. O presidente do Ceará, Evandro Leitão, já disse publicamente que discorda desse pensamento e pretende brigar para não ser eliminado.

Antes de mais nada, os critérios de classificação nesse caso são extremamente bizarros. Digno de Tico e Teco, personagens criados pelo escritor José Roberto Torero, o regulamento da CBF prevê que os times eliminados na Copa do Brasil, que é uma competição nacional, ganhem vaga na Copa Sul-Americana, que é continental. O prêmio para uma queda é participar de um torneio mais relevante, com a possibilidade de uma exposição mais ampla e de receitas vultosas – afinal, um evento como o ingresso em um certame internacional, algo raro para alguns clubes, é motivo para incrementos de bilheterias, planos de sócios e outras receitas.

Há um componente ainda mais absurdo nessa história: por determinação da CBF, a Copa Sul-Americana dá uma vaga para a Copa Libertadores se o campeão for um clube brasileiro. É o mesmo prêmio da Copa do Brasil, que tem 13 times da Série A entre os 16 remanescentes, num torneio em que os participantes brasileiros são Brasília, Goiás, Joinville, Atlético-PR, Sport, Bahia, Ponte Preta e Chapecoense. As principais forças argentinas estão fora, os mexicanos estão fora. Que caminho parece mais fácil?

Para algumas equipes, dependendo do planejamento, disputar a Copa Sul-Americana pode ser melhor do que estar nas oitavas de final da Copa do Brasil. Para outras, pode ser apenas um caminho mais viável para chegar à Copa Libertadores. De uma forma ou de outra, as regras da CBF, do jeito que estão postas, criam um cenário que favorece o desprezo à competição nacional.

Mas existe outra coisa que favorece o desprezo: a nossa cultura de comunicação. A Copa do Brasil é uma competição nacional e tem enorme peso, mas virou no Brasil “o caminho mais curto para a Libertadores”. A Copa Sul-Americana, então, é a segunda taça mais relevante do continente. E por que vale tanto? Por um lugar na Libertadores?

A própria Libertadores entra na conta. O maior torneio sul-americano só vale porque é um caminho para o Mundial. E o Campeonato Brasileiro, maior torneio de clubes do país, vale por distribuir vagas na edição seguinte da Libertadores.

A prova de que a questão é cultural é o comportamento dos brasileiros sobre os Jogos Pan-Americanos – a edição 2015 foi realizada em Toronto e terminou no último domingo (26). A cada disputa, a discussão é sempre algo entre o “isso aí não vale nada” ou “esse resultado seria relevante num Mundial ou nos Jogos Olímpicos”.

No entanto, não é esse o contexto relevante em um título. Parte do processo de aprendizado de promoção de eventos é entender que uma conquista vale pelo que ela representa, e não pelos caminhos que ela abre ou pelo que ela representaria em outro universo. Uma conquista tem de ser enxergada como algo único.

Parte do problema nessa discussão é de quem trabalha com comunicação no esporte – nos clubes, nas entidades, nos estafes e nos veículos de mídia. Temos o costume de promover pelo prêmio, e não pela experiência. Isso só diminui o produto.

Essa discussão é antiga na educação. O formato de adestrador – eu mostro algo, você repete, eu dou um prêmio por isso, você fica feliz por receber – é algo que tem perdido espaço drasticamente e que já é visto como um modelo extremamente ultrapassado. Na comunicação do esporte, porém, ainda não paramos para pensar nisso.

O problema é que essa cultura tem um reflexo tão direto quanto nefasto nas receitas. Ainda pensamos em quantidade e não entendemos que prêmios devem ser encarados como experiências, e não como o que dá valor a algo. Ainda vendemos o caminho para algo quando poderíamos estar vendendo a vivência até lá.

Por ser um processo que permeia todos os segmentos envolvidos no esporte – e não apenas no esporte –, é claro que estamos falando de uma modificação extremamente complicada. O que chama atenção, contudo, é que nem sequer existe uma discussão sobre isso. Seguimos vendo a comunicação de finalidade como o único caminho possível no segmento.

Quer ver como isso é endêmico? Pegue qualquer discussão sobre categorias de base. Ainda pensamos no valor que deve existir ali (Disputar títulos ou descobrir talentos?), mas perdemos pouco (ou nenhum) tempo pensando em como deveria ser o caminho.

A cultura brasileira dá um espaço extremamente pequeno para os processos de construção. Ainda somos o país que “só vê novela na última semana”, “pula o meio do livro”, “só vê o último episódio da série” e “só quer saber como a mágica aconteceu”. Temos uma preocupação enorme com as conquistas e com o que elas representam em determinados contextos, mas não valorizamos nada (ou quase nada) as vivências no meio do caminho.

É uma discussão enorme, que envolve muitos lados e que demanda uma série de mudanças culturais complicadas. Para começar, porém, já passou da hora de os organizadores dos nossos campeonatos “venderem” eventos pelo que eles são e não pelas portas que eles abrem.

Afinal, conquista é conquista. A carga emocional e o quanto ela vai ser comemorada não devem depender apenas da relevância e de quantos degraus faltam para o topo do mundo.

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