Universidade do Futebol

Mauro Beting

29/09/2008

Quem quer centroavante?

Você pode torcer pelo Romário Futebol Clube e ainda ficar lamentando a ausência de um camisa nove. De um “matador”. Goleador. Artilheiro. Centroavante. Pivô. Referência de área. Um comandante de ataque. Um fazedor de gols. Aquele grosso que empurra a bola para dentro com qualquer parte da anatomia. Aquele jogador que não faz o gol quando a bola passando pela área. Aquele pé que falta para balançar a rede.

Você sabe de quem estou falando e sonhando. Mas, na boa: é realmente preciso sempre ter um centroavante para ser feliz?

Para ficar em um só ótimo exemplo da história do futebol brasileiro: o São Paulo multicampeão de 1991 a 1993 não tinha centroavante: jogassem três à frente (Muller, Macedo e Elivélton) ou duplas de atacantes ou meias (Muller e Elivélton; Macedo e Muller; Cafu e Muller; Palhinha e Muller), não havia um nove típico no ataque são-paulino bicampeão sul-americano e mundial. O Telêcolor do Morumbi virou referência de time a ser reverenciado por não ter a tal de referência de área. Um time que funcionava e chegava a encantar. Sem centroavante.


Telê não tinha um centroavante típico no time campeão mundial

(Não foi a primeira vez que Telê Santana “revolucionara” na genial carreira de boleiro e técnico; em campo, nos anos 50, ele foi um ponta-que-não-era-ponta; no banco, em 1982, instituiu inspirado rodízio de craques pela ponta direita brasileira na Copa da Espanha, apesar da birra da imprensa de então, e até de um personagem do Jô Soares).

A França-98 ganhou de um Brasil de Ronaldo com um atacante de área. Ou pior: com um camisa nove nota zero: Guivarc’h tinha alguma noção do que deveria fazer com a bola, mas jamais entendeu que aquele retângulo branco defendido por um goleiro com uniforme diferente do dele era para ser molestado. A França ganhou o mundo metendo três gols no Brasil com um centroavante medíocre. Para ser gentil.


Guivarc’h era o centroavante campeão mundial. Era mesmo?

Equipes boas têm artilheiros como o incansável Túlio Maravilha, que será o goleador da Série B, e deverá levar o Vila Nova de volta à primeira divisão nacional. Mas um time já foi rebaixado no Brasileirão mesmo fazendo o artilheiro da competição: no BR-07, Josiel, hoje centroavante do Flamengo, fez 20 gols pelo Paraná. E não conseguiu salvá-lo da segunda dos infernos.

Mesmo os campeões nem sempre consegue fazer os artilheiros: Dario (Atlético-MG, 1971), Roberto Dinamite (Vasco, 1974), Flávio (Inter, 1975), Dario (Inter, 1976), Zico (Flamengo, 1980 e 1982), Careca (São Paulo, 1986), Túlio (Botafogo, 1995), Paulo Nunes (Grêmio, 1996), Edmundo (Vasco, 1997) e Romário (Vasco, 2000). Apenas 11 campeões fizeram os goleadores do Brasileirão, desde 1971. Neste século, nenhum time conseguiu. Ainda.

Nem por isso eles podem ser desprezados. Artilheiros como os veteranos Kléber Pereira e Alex Mineiro (campeões brasileiros pelo Atlético Paranaense, em 2001) fazem ótimo BR-08 por Santos e Palmeiras. Promessas como Keirrison e Guilherme (mais um meia-atacante que um goleador) desempenham muito bem. São nomes fortes de mercado e objeto de consumo imediato. Mas não são premissas básicas para grandes campanhas. O Grêmio faz um campeonato além da encomenda com Perea e Marcel na frente, que não arrancam suspiros nem dos professores das pranchetas.

Mas não é preciso ter um Evair ou um Jardel para brigar por títulos. (Embora fosse muito mais fácil explicar os canecos nas galerias).

Para interagir com o autor: maurobeting@universidadedofutebol.com.br

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