Universidade do Futebol

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10/06/2018

(Re) Estruturando o modelo de formação – Parte 3

Por onde começar o ensino?

Como pretendemos (re)estruturar o nosso futebol, não podemos trabalhar ao acaso implementando os mesmos conteúdos e métodos de treino nos diferentes escalões. Por assim dizer, desde a iniciação os jogadores deveriam passar por um processo de formação coerente, com objetivos, estratégias e conteúdos adequados. Neste processo, é essencial que os princípios de jogo estejam presentes.

Por definição, os princípios de jogo são basicamente um conjunto de normas que orientam a tomada de decisão dos jogadores e por isso são colocados como conteúdos centrais dentro do processo de ensino/aprendizagem e devem ser ensinados de forma explícita, começando pela organização do centro de jogo – favorecendo a aprendizagem dos princípios fundamentais– e evoluindo progressivamente para o ensino dos princípios específicos de organização coletiva, ou seja, de aspectos fora do centro de jogo.

Exemplificação do centro de jogo

 

Como podemos ver na figura acima, trata-se do centro de decisão e ação do jogo e daqui derivam os princípios fundamentais, que são aqueles comportamentos inerentes ao jogo, que se manifestam indiferentemente do modelo de jogo adotado. Aqui nos deparamos com situações de jogo que podem variar desde um simples 1×1 até situações de 3×3, com ocorrências mais espontâneas e comportamentos mais imprevisíveis, podendo-se observar situações similares, mas nunca iguais.

Com poucos jogadores participando diretamente do jogo, a base desta ideia recai, novamente, num aspecto muito importante no que diz respeito à formação: a densidade de ações. Isto importa, pois, um grande número de ações ajuda-o praticante a conhecer melhor onde centrar a atenção, proporcionando informação suficiente para tomadas de decisão mais rápidas e acertadas. Neste sentido, conforme aumentam as habilidades decisionais, as habilidades de execução e de rendimento também aumentam.

Veremos então, que cada princípio de ataque corresponde a um princípio de defesa, e em função do que ocorre no jogo, todos os jogadores devem orientar seus comportamentos em função destes oito princípios (seis princípios individuais e dois princípios coletivos):

Progressão

Objetivos: criação de vantagem espacial e numérica, atacando o espaço ou o adversário, preferencialmente em direção à baliza adversária. Basicamente, fazer com que o centro de jogo progrida em direção à baliza adversária.

Comportamentos: atacar a bola e direcioná-la para a baliza adversária. Livre de oposição, progredir em direção à baliza adversária e tentar a finalização. Em caso de oposição, atacar o defensor na tentativa de ultrapassá-lo (1×1) ou criar uma situação de superioridade numérica (2×1) e decidir qual a melhor condição para se chegar à baliza adversária o mais rapidamente possível.

O princípio da Progressão se caracteriza pela evolução do jogo, em situações onde o portador da bola consegue progredir em direção à baliza adversária, em busca de áreas do campo que oferecem maior risco ao adversário. A ação de progredir no campo de jogo começa antes mesmo do contato com a bola, ou seja, o jogador deve ir de encontro (atacar) à bola e direcioná-la para onde desejar, mas preferencialmente em direção à baliza adversária. Uma das ações técnicas de suporte, a condução deve ser realizada com a maior velocidade possível e com muitos toques na bola, proporcionando um melhor controle da mesma. Fintas, dribles e o passe são outras ações técnicas que favorecem o ganho de espaço e a criação de uma situação vantajosa para finalização.

 

Contenção

                                                                           

Objetivos: impedir a progressão do atacante adversário, parar ou atrasar o ataque ou contra-ataque do adversário, impedir a finalização à própria baliza e recuperar a posse da bola.

Comportamentos: diminuir rapidamente o espaço em relação ao portador da bola. Se posicionar entre o adversário, a bola e a própria baliza. Tentar orientar o adversário para as linhas laterais ou para próximo de outro defensor.

O princípio da Contenção se caracteriza pela ação de oposição do defensor sobre o portador da bola com o intuito de impedir a progressão do adversário, defender a própria baliza e recuperar a bola. A ação de conter a progressão do adversário (i.e., pressionar o adversário) começa no momento em que a posse de bola é perdida. Imediatamente, o defensor deve se posicionar entre o portador da bola e a própria baliza e diminuir rapidamente a distância entre os dois. A ideia passa por pressionar o atacante o mais longe possível da própria baliza, possibilitando recuperar a bola mais próximo à baliza adversária, ou atrasar a ação ofensiva adversária e com isso ganhar tempo para reorganizar a equipe defensivamente e impedir a finalização contra a própria meta.

 

Cobertura Ofensiva

Objetivos: apoio ao companheiro com bola, possibilitando uma situação de superioridade numérica (2×1) ou uma linha de passe de segurança. Manutenção do equilíbrio defensivo em caso de perda da bola.

Comportamentos: posicionar-se atrás e ao lado do portador da bola, de forma que o defensor não possa cortar a linha de passe (manter a superioridade numérica – 2×1). Em caso de perda da bola, auxiliar o companheiro a tentar recuperá-la.

O princípio da Cobertura Ofensiva se caracteriza pelo apoio dos companheiros de equipe ao portador da bola (criação de superioridade numérica). Trata-se de uma linha de passe de segurança (atrás e ao lado) com o objetivo de proporcionar a continuidade no jogo ou, uma possibilidade de linha de passe à frente, após uma movimentação de infiltração (Mobilidade). Defensivamente, a ideia passa pela função de contribuir ao equilíbrio defensivo e por beneficiar as primeiras ações defensivas em caso de perda da posse de bola favorecendo uma posterior transição defensiva.

 

Cobertura Defensiva

Objetivos: apoiar o companheiro que marca o adversário com bola (1×2). Evitar a todo o custo a inferioridade numérica. Entrar em contenção caso o 1º defensor seja ultrapassado.

Comportamentos: posicionar-se atrás e ao lado do 1º defensor, de preferência em direção ao corredor central, dando maior proteção à própria baliza. Pressionar o atacante, caso este ultrapasse o 1º defensor. Em caso de igualdade numérica (2×2), ficar atento às movimentações do 2º atacante e decidir qual a melhor condição para defender a própria baliza.

O princípio da Cobertura Defensiva se caracteriza pelo apoio dos companheiros de equipe ao jogador que pressiona o adversário com bola, evitando assim, situações de 1 contra 1 e de inferioridade numérica. O ideal é realizar a Cobertura Defensiva em superioridade numérica (1×2), pois facilita o combate às ações do ataque, uma vez que a preocupação se foca basicamente no portador da bola. Em caso de recuperação da posse de bola, o jogador que realiza a Cobertura Defensiva deverá criar uma linha de passe imediatamente.

 

Mobilidade

Objetivos: desequilibrar ou romper a estrutura defensiva adversária. Criar, ocupar e utilizar espaços livres à frente da linha da bola (linhas de passe para receber a bola). Criar superioridade numérica constantemente.

Comportamentos: movimentações de apoio ao companheiro com bola (linhas de passe para manutenção da posse de bola) ou de ruptura da organização defensiva adversária (linhas de passe em profundidade).

O princípio da Mobilidade se caracteriza por uma grande variabilidade de comportamentos, partindo da iniciativa dos jogadores de ataque sem posse de bola em criar linhas de passe (desmarcações de apoio ou de ruptura da estrutura defensiva adversária) e ocupar os espaços livres em busca de posições ótimas para a recepção da bola. Além disso, as movimentações favorecem o aparecimento de espaços livres e situações ofensivas bastante vantajosas (p.e., situações de 1×1, 2×1 e 1 contra o goleiro).

 

Equilíbrio

Objetivos: manter a estabilidade e o equilíbrio da estrutura defensiva. Impedir que os atacantes em mobilidade recebam a bola sem oposição. Buscar uma superioridade numérica defensiva no Centro de Jogo ou ao menos garantir a igualdade numérica. Apoiar os companheiros que executam as ações de Contenção e Cobertura Defensiva.

Comportamentos: ajustar rapidamente o posicionamento defensivo em relação às movimentações dos adversários, impedindo a criação de situações de superioridade numérica. Cobrir espaços livres e marcar eventuais linhas de passe, sempre protegendo a própria baliza.

O princípio do Equilíbrio se caracteriza por movimentos que permitam superioridade, ou ao menos garantam a igualdade numérica dos jogadores de defesa no Centro de Jogo e podem ser detectadas a partir da disposição equilibrada dos jogadores entre adversário, bola e a própria baliza, realizando assim a cobertura dos espaços e de eventuais linhas de passe.

 

Espaço

Objetivos: ampliar o espaço de jogo efetivo da equipe para poder originar desequilíbrio na defesa adversária. Facilitar as ações coletivas da equipe, favorecendo a criação de situações de superioridade numérica.

Comportamentos: imediatamente após recuperar a bola, ampliar o espaço de jogo ofensivo em largura e profundidade. Ocupar os melhores espaços oferecendo linhas de passe que propiciem situações de superioridade numérica.

O princípio do Espaço se caracteriza pela estruturação e racionalização das ações coletivas ofensivas para dar maior amplitude ao ataque. Parte-se do pressuposto de que os outros jogadores da equipe atacante, principalmente aqueles que se situam fora do Centro de Jogo, devem buscar por posicionamentos mais distantes do portador da bola, criando espaços que podem beneficiar as ações ofensivas (p.e., situações de 1×1 ou de superioridade numérica). Este aumento do espaço de jogo efetivo condiciona a tomada de decisão que, dentre outros fatores, é influenciada pela distância entre atacante de defensor.

 

Concentração

Objetivos: reduzir o espaço de jogo efetivo da equipe adversária aumentando a proteção da própria baliza. Facilitar a recuperação da posse de bola mediante à um incremento da pressão no Centro de Jogo devido à uma maior proximidade dos defensores.

Comportamentos: imediatamente após perder a bola, diminuir rapidamente o espaço de jogo em largura e profundidade. Posicionar-se entre o adversário e a própria baliza. Ocupar o espaço de forma a garantir um correto posicionamento das linhas defensivas e favorecer a criação de superioridade numérica defensiva.

O princípio da Concentração se caracteriza pela estruturação das ações coletivas defensivas com o intuito de aumentar a proteção à baliza e restringir o espaço de jogo, obrigando o adversário a jogar em espaços reduzidos. Desta forma, busca-se facilitar as ações defensivas com criação permanente de superioridade numérica, dificultando as ações ofensivas do adversário. O bom cumprimento dos princípios defensivos aliado ao aumento de pressão no Centro de Jogo, permite à equipe em defesa condicionar o jogo ofensivo adversário para zonas de menor risco do campo de jogo.

No próximo texto falaremos sobre ocupação do espaço e os princípios de organização coletiva!

Comentários

  1. boa diogo este assunto

  2. Tadeu disse:

    Excelente texto professor, a respeito do centro de jogo, qual o raio aproximadamente eu considero para um centro de jogo aceitável para um bom êxito da tática.

    • Olá, Tadeu!
      Ótima pergunta!
      Quando falamos de êxito da tática, estamos falando de tomadas de decisão ajustadas ao momento. Obviamente, tais decisões acompanhadas de bons gestos técnicos e por fim superando a oposição do adversário. Desta forma, temos um êxito técnico-tático e no resultado do jogo.
      Seguindo o raciocínio, quanto menor o espaço e o tempo maiores serão as dificuldades para decisões mais acertadas e gestos técnicos mais refinados para quem ataca.
      Ou seja, a metragem interfere mas não irá resolver a questão.
      Caso ainda queira abordar o assunto, fique à vontade para encaminhar mais mensagens.

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