Universidade do Futebol

Colunas

13/08/2017

Refletindo sobre a troca de comando técnico

Será que realmente a prática de troca rotineira de treinadores nos clubes, é a forma mais adequada para buscar o melhor desempenho das equipes dentro de campo?

Atualmente ainda convivemos, dentro do futebol brasileiro, com as rotineiras trocas de comando técnico nos clubes. A incorreta percepção de que trocar o técnico resolve os problemas atuais de desempenho, ainda é prática comum na atuação de muitos dirigentes dos clubes de futebol.

Porém, será que realmente eles acreditam nessa prática como a forma mais adequada para buscar o melhor desempenho de suas equipes dentro de campo?

Bem, eu acredito muito que a escolha de um comando técnico, poderia ser encarada como um processo seletivo profissional, onde seriam considerados vários aspectos para uma melhor seleção do profissional que comandará uma determinada equipe, tais como, por exemplo:

– Perfil comportamental do técnico;

– Experiência profissional;

– Aderência de valores do profissional com os valores do clube;

– Crença do profissional no projeto apresentado pelo clube.

Mas apenas esses parâmetros na seleção seriam suficientes para se esperar o elevado desempenho em campo? Acredito que não, pois penso que se deve dar alguns passos antes da referida seleção do profissional que comandará tecnicamente o time. A gestão pode e deve ter elaborado um ou mais projetos para o futebol do clube, com definição de objetivos de curto, médio e longo prazos, para os quais serão associadas metas a serem atingidas ao longo do desenvolvimento do trabalho em si.

Se faz fundamental que o clube saiba gerenciar muito bem as expectativas de todos, quanto aos projetos planejados, bem como, sobre os resultados esperados para o clube. Não gerenciar as expectativas é algo complicado, pois coloca em situação delicada toda a estratégia de gestão e invariavelmente acarreta numa pressão desnecessária na comissão técnica, a qual responde pelo desempenho do time dentro de campo.

Mas é claro que, além da gestão do clube fazer o que lhe compete, o técnico ao ser selecionado também tem sua parcela de contribuição efetiva para buscar promover uma rápida assimilação do seu trabalho e da sua forma de liderança, junto ao grupo de jogadores. Ele poderá construir uma relação de confiança e empatia, para poder promover ou estabelecer um ambiente de alta performance, no qual ele possa apoiar o desenvolvimento da equipe, bem como desafiá-la, nas doses certas ao longo do trabalho realizado. Então, para esse trabalho do técnico, dois passos são importantes para que se conquiste a confiança:

  1. Criar uma genuína e autêntica relação um-para-um com os atletas;
  2. Conseguir empatia através de um olhar incondicional sobre a realidade do time e dos atletas.

Assim, penso que podemos compreender a troca do comando técnico como apenas uma pequena parcela de incongruência da gestão esportiva, visto que antes da própria seleção em si, precisamos definir e divulgar qual ou quais projetos serão executados para o futebol, bem como reconhecer os valores do clube e alinhar as expectativas de todos os envolvidos. Para então buscar um profissional que possa ser uma parte integrada, engajada e efetiva na execução do(s) projeto(s) que irão levar o clube ao patamar desejado, no contexto do futebol nacional e mundial.

Até a próxima.

Comentários

  1. Benê Lima disse:

    No Brasil do futebol, trocar treinador virou um dispositivo de ‘transgenia’ da gestão de projetos, que por sua vez acopla-se ao planejamento estratégico.

    Sugiro, sem discordância em relação às ideias do articulista, que apreciemos tanto a situação da seleção inicial do treinador para tocar um trabalho desde o início de uma temporada, quanto a do treinador que sequencia o trabalho de outro. Convenhamos, tal situação exige treinadores com diferentes perfis, mesmo que possamos encontrar num mesmo profissional os dois perfis.

    Outra coisa que sugiro, é que esclareçamos o que vem a ser essa tal “crença do profissional no projeto apresentado pelo clube”.

    Ao que me consta, os treinadores vivem fundamentalmente do cumprimento de metas, todas elas de curtíssimo e curto prazo, por mais que os integremos como parte da engrenagem do planejamento. Quero crer que passar de fase numa competição, a conquista de vaga para uma outra competição como Sul-Americana ou mesmo Libertadores, isso não representa projeto, e sim o alcance de uma meta ou objetivo.

    Não podemos, em sã consciência, sermos contra planejamento e um mínimo de estabilidade e sustentabilidade para os treinadores. Contudo, há momentos em qualquer competição em que nada mais resta como opção que a troca. Sobretudo pela impossibilidade de se trocar dirigentes e demais departamentos que lidam diretamente com o futebol.

    Tenho reparado ainda uma grande dificuldade na maioria dos clubes brasileiros, de profissionais que possam avaliar o trabalho (metodologia e desempenho) dos treinadores para além dos resultados de campo, e esse me parece um fator ainda mais complicador para a manutenção do trabalho.

    Abraços.

    Benê Lima, Cronista Esportivo.

Deixe uma resposta