Universidade do Futebol

Gustavo D’Avila

23/10/2014

Seleção de talentos no futebol: ainda uma revisão necessária

Num momento em que muito se fala sobre a necessidade de uma renovação do futebol no Brasil, em que alguns programas de televisão falam sobre a seleção de talentos no futebol, resolvi resgatar uma reflexão feita há algum tempo e que trata justamente sobre o tema seleção de talentos esportivos.

Minhas principais reflexões na ocasião eram sobre se ainda realizamos no futebol uma seleção através de processos exclusivamente empíricos e percepções intuitivas de olheiros. Além de questionar se com esta forma de seleção na base não deixamos muitos talentos de fora desta seleção. Penso que estas ainda são muito pertinentes nos dias atuais.

Sabemos que muitos dos que tentam uma carreira no futebol, muitas vezes estes buscam principalmente uma oportunidade de sobreviver num universo social tão excludente. Não creio que não serão mais utilizados complementos intuitivos e percepções pessoais no processo de seleção, principalmente em situações mais distantes dos grandes centros e que não contam com apoio adequado para este procedimento de seleção, até porque isso é cultural no Brasil. Mas será que por ser hábito e cultura no país, nós não poderemos avançar e termos métodos mais estruturados, regulares e confiáveis para este trabalho?

Ao considerarmos apenas a observação técnica e a característica física do mesmo, desconsiderando as características psicológicas e perfis comportamentais destes, será que não temos um fenômeno, que muito se repete no universo corporativo, de selecionarmos talentos pelas suas competências técnicas e nos esquecermos de avaliar seu perfil comportamental?

Será que não estamos cometendo um equívoco ao selecionarmos os talentos sem avaliar se o perfil comportamental destes estão de acordo com as expectativas do clube, em relação ao papel que este atleta exercerá na equipe e também em relação à cultura e valores da instituição esportiva? Em muitos destes casos, o atleta frequentemente deixa de ser utilizado e tem sua carreira comprometida, se transferindo de clube em clube sem reproduzir a esperada performance esportiva. Sem falar nos clubes, que muitas vezes desperdiçam as chances de compreender este cenário e aprender para evoluir, por pura falta de atenção adequada ao assunto.

Penso que devemos somar as análises técnicas, físicas e fisiológicas, as análises de perfil com o objetivo de definir perfis comportamentais pretendidos pela instituição esportiva. Com isso, torna-se possível mapear perfis de alto rendimento baseado no desenho de perfis de atletas de resultados reconhecidamente de alto rendimento e sucesso profissional.

Ao se espelhar alguns destes perfis, pode-se compará-los aos perfis dos potenciais talentos e a partir daí poderemos compreender se este tem potencial, em termos comportamentais, para se tornar um atleta de alta performance no futebol. Partindo deste ponto, será possível inclusive compreender como desenvolver melhor este talento rumo ao seu estado da arte no que tange ao desempenho esportivo.

Quem se mantiver apenas no processo intuitivo para selecionar seus talentos estará perdendo mercado para demais instituições esportivas, ainda mais num mercado em que desenvolver talentos é um investimento muito mais rentável do que adquirir talentos prontos. E neste cenário uma estratégia de seleção dos talentos, bem como no planejamento estratégico das carreiras destes atletas se tornará fundamental para os clubes.

Na próxima coluna comentarei sobre uma fase de transição muito importante para os atletas de futebol: a transição da fase amadora da carreira para a fase profissional. É nela que muitos atletas ficam pelo caminho e vamos refletir por que isso acontece.

Até lá!
 

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