Universidade do Futebol

Geaf

07/08/2014

Ser treinador de futebol

Treinador, no seja no âmbito futebolístico ou em qualquer modalidade esportiva, se refere à alguém com profundo conhecimento do jogo, suas regras, da metodologia e com boa capacidade de oratória. Pelo menos, essa é a imagem que as pessoas têm dessas pessoas que se enveredam pela difícil trajetória de prosperar no cargo mais visado do futebol.

No entanto, construir uma carreira como esta, em que nos deparamos com culturas, pessoas, lugares e situações diferentes por diversos momentos, bem como relações variadas com torcida, imprensa, atletas, dirigentes, Staffs técnicos e ainda a própria família, exige um esforço especial no sentido, não apenas de aprofundar conhecimentos técnicos, mas principalmente de ampliar possibilidades e conhecimentos. A vastidão passa a ser tão importante quanto a profundidade.

Como defende o professor Manuel Sérgio: "Quem só sabe de futebol, nem de futebol sabe". Neste sentido, cabe ao treinador buscar sua formação também na filosofia, na sociologia, na antropologia e por quê não, na ciência política.

Manuel Sérgio afirma que a filosofia "serve para não aceitar como óbvias e evidentes todas as coisas, todas as ideias, todas atitudes, sem uma atitude crítica problematizadora". Desta forma, pensar criticamente passa a ser um exercício revigorante, considerando que o pensamento pode desconstruir um reducionismo enraizado em quem trabalha com esporte de rendimento.

A sociologia, com isso, contemplaria o estudo da modalidade esportiva de maior abrangência global da história, ou seja, que atravessou países e continentes se tornando esse fenômeno que conhecemos. O futebol, por esta área de conhecimento, precisa ser entendido bem além das quatro linhas, sob todas as condições que o cercam e influenciam as pessoas e seu ambiente de trabalho. O saudoso antropólogo Darcy Ribeiro no programa de TV, Roda Viva, disse que "futebol é o único reino em que o povo sente sua pátria", ou seja, não se pode negligenciar o futebol como fenômeno social, não se pode esquecer que não é uma modalidade "privada".

Com isso, torna-se clara a justificativa do estudo das questões antropológicas relacionadas ao jogo, ou seja, entender questões étnicas e familiares como caminho para entender o ser humano e o mesmo em determinados contextos.

Vítor Frade, reforça a necessidade de vastidão de conhecimento, quando justifica que o futebol é um fenômeno AntropoSocial, pela interferência no indivíduo como alteração, não só funcional, até estrutural, portanto Antropo. Não é exclusivamente social no sentido sincrônico e reforça ao afirmar que é uma incorporação, estar em grupo, em comunidade. Ou seja, a prática transcende aos aspectos técnicos.

E o que a ciência política tem a ver com futebol? Primeiro vamos conceituar ciência política:

"Ciência política consolida a ciência do Estado e a ciência do governo como poder político, buscando a revelação dos fatos pertinentes ao acesso, ao exercício e à limitação do poder no âmbito do estado. Ela pode ser considerada a ciência primordial por enfocar a revelação dos fatos sob concepção total da existência compartilhada de indivíduos e organizações que constituem as coletividades humanas"(Farias Neto, 2011)

Assim, é preciso entender que clubes de futebol são instituições, consolidadas na vida das pessoas que gastam recursos em nome da paixão. Movimenta milhões de pessoas, tendo, com isso, atenção especial do Estado. A dimensão de sua importância é maior do que imaginamos, não nos dar o direito de entendermos esse esporte apenas como um meio de atingirmos os altos patamares salariais, claro, se quisermos realmente deixar um legado e dar a devida importância à carreira que escolhemos. O futebol não pode ser "assim mesmo" como citam alguns tradicionalistas, nem pode se resumir a dinheiro como defendem os gananciosos que frequentemente invertem os valores e os fatos que levaram o futebol ter tamanha expressão mundial.

Finalizo este post afirmando que é preciso maior preocupação com a formação profissional e não resumi-la ao conhecimento técnico, aos cursos de capacitação ou especialização existentes (quem têm sua importância), é preciso ampliar a percepção e reforçar o pensamento crítico. 

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