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31/07/2019

Sobre como os treinadores deveriam ser

Um pouco das distâncias entre a expectativa e a realidade da arte de treinar
José Mourinho, há dez anos: exemplo de como os treinadores deveriam ser. Ou não? (Reprodução: Trivela)

 

Aqui e ali eu ouço um discurso, às vezes explícito, às vezes não, discurso que tem um objetivo claro: dizer como treinadores e treinadoras deveriam ser. Repare que não se trata de como os treinadores poderiam estar, nem do que os treinadores poderiam fazer. A conversa é sobre como os treinadores deveriam ser.

Sem perceber, mesmo nós, treinadores e treinadoras, tomamos este discurso como verdadeiro. E é claro que isso tem impactos na nossa formação. Não apenas na nossa formação profissional, mas na nossa formação como gente. Nas nossas ideias, nas nossas decisões, no que fazemos no mundo da vida.

Vamos pensar sobre isso. Acho um ponto importante.

***

Tem muita gente dizendo como os treinadores deveriam ser. Dessa gente que diz como os treinadores deveriam ser, alguns já foram treinadores, outros não. Alguns foram atletas, outros não foram, alguns são jornalistas, outros não são, alguns fazem análise – outros deveriam fazer. Alguns são mais sensatos, outros menos. E os treinadores são seu alvo principal. As crianças se divertiram? Ah, é porque o treinador não inventou. O sub-15 está bem? É que o grupo é muito bom, essa geração é fera. O sub-17 perdeu? Perdeu, mas a treinadora quis inventar, devia ter fechado a casinha, não tinha conversa. O sub-20 goleou? Rapaz, se colocasse qualquer um ali o time ganhava, os moleques são demais. Se o profissional vai mal das pernas, não existe calendário, não há lesões, não há transferências entre concorrentes no meio do campeonato, não há salários atrasados, não há falhas individuais, não há estudo nem bons profissionais no clube, não há nada: o que existe é o treinador ruim, atravancando o caminho dos outros.

Tem gente que diz que os treinadores deveriam ser modernos. Tem gente que diz isso sem ter um certo conceito de modernidade, mas não importa: os treinadores devem ser modernos, devem falar termos modernos, devem usar roupas modernas, devem usar sistemas modernos, devem conhecer todos os jogadores modernos, devem saber as escalações e as transferências dos clubes modernos, devem ter opiniões e argumentos modernos, devem ler livros modernos (os clássicos são perda de tempo), de preferência sobre futebol, além de blogs e podcasts modernos, dessa gente que pensa o jogo, ainda que o pense menos do que pensa, mas é preciso ser moderno, e quem não parece ser moderno, quem não responde rápido, quer não corre à frente do relógio, então está atrasado, está defasado, não serve para ser treinador.

Há quem diga que os treinadores deveriam ser organizados, montar times organizados, os conteúdos organizados e apreendidos, todos os ciclos (micro, meso e macro) perfeitamente calculados, as estruturas muito claras, as posições muito claras, as funções de cada jogador claramente definidas, como em uma fábrica. Os jogadores cuidando do juego e da posición, especialmente os pivotes (en español), porque existem fronteiras para cada jogador, e ultrapassar as fronteiras é quebrar a ordem, não é moderno. Ao mesmo tempo, este mesmo treinador deveria saber demais (e mostrar que sabe) do caos, da incerteza, da ambivalência, da complexidade, da não-linearidade, dos fractais, de todos os termos que emprestamos das áreas vizinhas (ainda que não gostemos muito de estudá-las a fundo), mesmo que esses termos possam estar no extremo oposto daquela ordem, das estruturas, das posições, dos espaços fechados, dos modelos rígidos, daquilo que dizemos aqui e ali, às vezes porque queremos dizer, às vezes porque querem que a gente diga. Se o treinador não faz ordem, não faz caos, não faz os dois (e a régua para os dois é só o resultado), então ele não fez nada, ele está errado, não está preparado, é melhor outro treinador, ele não.

Também há quem diga que os treinadores deveriam se formar só para a elite. Ou seja, os treinadores deveriam fazer um plano, planos de carreira, não para trabalhar nas categorias de base, não para se sentirem bem e reconhecidos por seu trabalho com crianças e jovens, meninos e meninas, categorias mistas, mas sim para chegar à elite, para se mostrarem para mundo, para fazerem sucesso. Essa gente que pensa assim, pensa no rendimento, pensa que o empate no rendimento é a crise do futebol brasileiro, não pensa muito na base, ou pensa de vez em quando, não pensa na formação humana, não pensa muito nos cidadãos, isso é bobagem, vamos pensar nos craques, vamos engordar o gado. Por isso, o treinador deveria mirar lá em cima, só depende dele, é só se esforçar, temos que renovar o quadro. Mas também precisa ter experiência, tem que ter muita experiência, esses jovens não aguentam o tranco, o vestiário é difícil, sabe como é. E também devem cuidar da saúde, ser treinador é perigoso, devem comer bem, dormir bem, acordar bem cedo, tomar um chá de hibisco com agrião, mas também tem que dormir tarde, têm que trabalhar bastante – mas tem a adrenalina, não dá para dormir – que isso rapaz, é assim mesmo, a pressão existe, vamos em frente.

Também tem gente que diz que o treinador deve ser educado, que o treinador deve ser grosso, que o treinador deve ter estudo, que o treinador não precisa estudar, que o treinador tem que ser mais velho, que o treinador tem que ser mais jovem, que tem que se vestir bem, mas o fulano tá de paletó nesse calor, ele quer aparecer? que os times do treinador têm que ter amplitude, têm que ter profundidade, têm que ter simetria, têm que sair bonitos nos mapas de calor, têm que atacar o espaço entrelinhas, têm que estar com as linhas próximas, mas esse treinador é retranqueiro demais, tem que jogar o time para frente, o DNA do clube é outro, tem de atacar bem, tem de jogar bonito – mas esse sujeito é burro, está inventando demais, por que não fez o arroz com feijão? tem que colocar os meninos da base, mas calma, ele colocou o menino da base? por que colocou o menino da base nesse jogo, rapaz? não era para colocar o menino da base, vai queimar o moleque, esse treinador está perdido, ele não dá conta, ele não é intenso, tem que mudar isso daí.

E aí, muita gente sabe como os treinadores deveriam ser. Ainda que eles mesmos não o sejam, nas suas profissões. E os treinadores, sem perceber, às vezes sentem que deveriam ser aquilo mesmo.

Mas para os outros.

E para o bom entendedor, um pingo é letra.

 

Comentários

  1. Lucas Gaviolla disse:

    Bom texto! Um pensamento de muitos profissionais que anseiam por esse desabafo. Pois hoje em dia, no senso comum, todos parecem entender de futebol profissional, desde a criança torcedora na escola, ao senhor que acompanha os jogos em barzinhos com os amigos, até a pessoa que assiste a uma partida inteira, apenas três vezes ao ano.
    Pior de tudo é que ainda é super concentrada a cobrança em cima do treinador, que muitas vezes arca sozinho com o resultado (quando negativo) de dezenas de profissionais ligados ao time/jogo.
    Mas como eu tento aceitar, é mais fácil culpar e trocar um técnico do que X jogadores, ou outros cargos desde comissão técnica à diretoria, porque as formas de contrato trabalhistas são diferentes ou recisão mais cara.

  2. Infelizmente o futebol brasileiro é imediatista. Independentemente do perfil do treinador, seja este, mais cauteloso ou mais ousado, se os resultados não aparecerem, é treinador quem acaba perdendo o emprego.

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