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13/03/2019

Sobre a grandeza do jogo real

Um breve olhar sobre a dificuldade do jogo jogado
Jurgen Klopp, treinador do Liverpool: futebol não é videogame, ainda que se normalize o contrário. (Divulgação: goal.com)

 

Alguns dias atrás, viralizou entre os colegas este vídeo, por onde gostaria de começar nossa conversa de hoje. Jurgen Klopp, treinador do Liverpool, foi questionado sobre um suposto conservadorismo em recente clássico contra o Everton, pela Premier League. Já nos minutos finais, trocou Sadio Mané por Adam Lallana, o que não foi muito bem uma vez que Lallana, grosso modo, não é atacante.

A resposta de Klopp – que consegue ser espirituoso mesmo quando fala sério – foi bastante interessante: futebol não é Playstation. De fato, futebol não é Playstation. Mas não sei se dizer isso, mesmo que em uma base regular, seja suficiente para cultivarmos um debate mais rigoroso e mais realista. Especialmente quando falamos de treinadores e treinadoras, brasileiros ou não.

Vamos pensar um pouquinho melhor.

***

No ano passado, tangenciei esta mesma questão quando escrevi sobre a diferença entre o jogo ideal e o jogo real. Em linhas gerais, me preocupava (e ainda me preocupa) o fato de estabelecermos réguas demasiado idealistas para um jogo que se organiza a partir de uma lógica própria. A complexidade do real é um choque quando comparada à perfeição das ideias.

A metáfora do videogame é especialmente interessante, não apenas porque dialoga com toda uma geração (em uma ou duas décadas, praticamente todos os treinadores serão herdeiros dos jogos virtuais), mas porque evidencia algumas das fragilidades no nosso debate. Por exemplo: uma das características de jogos como FIFA, Pro Evolution Soccer e similares, é que neles está normalizada a possibilidade de ser alguma coisa entre o treinador e o jogador. Digo alguma coisa porque, ao contrário do treinador na realidade, nos jogos virtuais é possível decidir a ação a ser tomada pelo jogador (o que, não se esqueça, não é possível no jogo real) e, além disso, nos jogos virtuais é possível não apenas decidir por um, mas por todos os jogadores em campo – de acordo com o modo escolhido para jogar. O jogo virtual permite uma espécie bastante particular de onipotência que pode saciar temporariamente, mas que em nada se aproxima do imprevisto, da causalidade, do complexus que são parte do jogo real.

Assim, os jogos virtuais, para além de alimentar uma espécie de conforto, acabam naturalizando o fetiche da causa/efeito. Nas minhas configurações, se eu aperto o quadrado, sei que vou chutar a gol. Se aperto L2 e faço alguma manobra no analógico direito, sei que darei um drible. Mas como treinador de fato, não há nenhuma tecla a ser pressionada. Se digo para que meus jogadores tenham coragem, isso será suficiente? Se troco um meia por um atacante (supondo que os rótulos atribuídos aos atletas fossem corretos) isso fará do meu time mais ‘ofensivo’? Se ao invés de dois, me fossem dados sete pulmões, eu seria portanto mais saudável? Qualquer organismo busca o equilíbrio. Uma equipe de futebol, como organismo vivo que é, deseja o mesmo. Mas, ao contrário dos nossos idealismos, o equilíbrio não se dá a partir de delírios quantitativos (quanto mais/menos, melhor). O caminho é outro.

Daí a importância de olhar para a grande barreira que separa a virtualidade do real: a inteligência, nos jogos virtuais, é artificial. É programada, dependente de eventos anteriores, é causa/efeito. Mas a inteligência do jogo jogado não é assim, ela é humana. Sendo humano, o jogo jogado será sim acerto, será desejo, pensamento e paixão, mas também será, ao mesmo tempo, equívoco, limitação, indecisão e, especialmente descontrole. Quanto maiores forem as ilusões de controle alimentadas por todos aqueles que vivem do futebol, creio que maiores serão as frustrações. Se lhe resta alguma dúvida, faça uma rápida análise da sua vida nos últimos anos e conte quais foram, de fato, as decisões unicamente dependentes de você, desde o início. Não me surpreenderia se fossem poucas.

O jogo virtual é pequenino. O jogo real é grande demais. Quanto mais evitarmos os reducionismos, de qualquer natureza, melhor. Por isso, embora talvez sem má-fé, a pergunta do colega seja realmente inaudível para determinados treinadores, pois após um certo período não é mais concebível encarar o futebol como um cálculo, cujas fórmulas estão postas. Se o futebol se fizesse de fórmulas, elas todas teriam meia-vida curtíssima. E seria necessário reinventá-las, recalculá-las a todo instante. O que já se faz, aliás.

E que não impede que elas sejam engolidas pela pluralidade do humano.

Comentários

  1. Luiz Mendes de Lima disse:

    A linha de coincidências sobre o modo de ver o jogo de futebol que mantenho com o autor -a julgar claro pelas suas idéias nos artigos que escreve- é bastante extensa e me agrada de verdade. Mas as nossas dissidências não são menos formidáveis. Por exemplo, o que ele assevera (recomenda? no último parágrafo do seu escrito não posso aceitar, de jeito nenhum! Vejamos alguns aspectos. Evitar os reducionismos? Ora, se como diz, o jogo real é grande demais, aí mesmo é que precisamos recorrer a algum tipo de modelo reducionista que possa descrever o objeto. Aliás, é para isso que servem os modelos. Ao encarar sistemas complicados,-o futebol é um bom exemplo- dos quais se diz que possuem a propriedade da “explosão combinatória” o uso de um modelo reducente é altamente recomendado. Sob pena de sucumbirmos ou sermos esmagados pela grandeza do objeto e daí descambarmos para a capitulação. (Como fazem muitos treinadores quando dizem que foram ao limite, que deram tudo de si, mas que o futebol é indevassável, uma verdadeira caixinha de surpresas, etc, etc.). E o que é isso? “…não é mais concebível encarar o futebol como um cálculo”? O autor se equivoca, de novo. Tudo, mas absolutamente tudo, é da ordem do cálculo. Melhor dizendo, da apreensão pela matemática. O alcance de uma fórmula ou de um teorema é imortal. (Se a Terra fosse varrida de nossa galáxia por causa de uma hecatombe qualquer, o Teorema de Pitágoras seguiria valendo, mesmo sem um mortal para apreciá-lo em sua grandeza)..
    Para finalizar: nem é preciso reinventar as fórmulas a cada jogo. Basta aplicá-las a cada jogo, pois todos são iguais, na sua essência. Mais do que isto, aliás. Conviria recalcular o jogo toda vez que um treinador promovesse uma daquelas indefectíveis “mexidas”, pois estas têm o poder de transmutar os elementos, ao transformar água em vinho e vice-versa, como dizem os narradores e comentaristas esportivos. Caro Hudson Martins (do qual sou devedor de alguns comentários) V. tem desde agora o benefício da dúvida.

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