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01/08/2018

Sobre a medicina do bom treinador

Pequenas intervenções para um jogar de qualidade
Jürgen Klopp (Fonte: The Week/Jan Kruger-Getty Images)

A medicina do bom treinador está ao alcance dos olhos, mas ver não basta. O treinador, como já observamos anteriormente, precisa crer que é uma espécie de médico, cuja responsabilidade está para muito além dos três pontos do fim de semana. Sua responsabilidade está na promoção da mais plena saúde dos atletas e da equipe, na contínua formação da persona que antecede os jogadores. Assim como um médico age sobre o corpo para curar uma dada moléstia, cabe ao treinador agir sobre o espírito, sobre as ideias de cada atleta e do grupo, pois atletas não são máquinas que devem gerar resultados, mas são indivíduos que precisam realizar-se no seu pleno potencial.

Mas como isso é possível? Em primeiro lugar, cabe a treinadores e treinadoras, tão logo iniciem seus respectivos trabalhos, fazer uma anamnese do seu grupo. Anamnese é outra ideia trazida pelos gregos, e significa nada mais do que lembrança, recordação: o primeiro passo para a cura do doente estaria na recordação do caminho que o levou até à doença. Isso só é possível através de um bom diálogo e das perguntas certas. Por isso a dialética, também no futebol, é uma ferramenta imprescindível, assim como a pergunta. Repare que a anamnese, nesta perspectiva, não é um processo vertical, mas uma tratativa que demanda esforço de treinadores e atletas, em conjunto. Da mesma forma como a sociedade precisa uma educação que forme governantes, o futebol também precisa de atletas que saibam ser treinadores, quando necessário for.

Feita a anamnese, cabe ao treinador intervir. A intervenção do treinador, em linhas gerais, ocorre no processo de treino. Ao medicamento de longo prazo, que tende a agir sobre uma determinada causa, ao longo do tempo, nós podemos chamar de modelo de jogo. É por isso que a anamnese é um processo vital: pois se nela houver um equívoco, pode ser que todo o trabalho seja perdido. Como um bom médico, o treinador precisa ter em vista que sua ação se dará em duas grandes frentes: acrescentar o que está em falta e retirar o que está em excesso. Assim como uma dada medicação pouco faz em doses mínimas, ou pode ser um veneno em doses elevadas, o treinador precisa agir, no processo de treino e de jogo, em busca do equilíbrio, da justa medida, pois quaisquer alterações, para cima e para baixo, ainda que soem promissoras, tendem a ser absolutamente perniciosas durante o processo e podem se voltar contra o próprio treinador, à sua revelia.

Assim como um organismo vivo só funciona a partir da interação entre os seus sistemas e respectivos órgãos, a medicina do bom treinador precisa contemplar inteiramente que, no jogo, tudo é um, e que as separações que fazemos são meramente didáticas. No momento ofensivo está o momento defensivo, na transição ofensiva também está o comportamento pós-perda. Ou seja, o processo de treino deve ser estritamente cuidadoso com as fragmentações, pois quanto mais separado o processo, mais distante ele estará da essência do jogo. Além disso, é preciso enxergar para além do que os olhos veem: assim como uma cefaleia não significa, necessariamente, um problema na cabeça, uma equipe que apresenta um determinado sintoma pode ter a natureza da sua moléstia em outro lugar, completamente diferente. É por isso que, para além do sentidos, é preciso afiar o espírito, pois também no jogo o essencial é invisível aos olhos.

Treinadores e treinadoras não estão sozinhos. Assim como um bom cirurgião é impotente se não estiver bem auxiliado, o treinador pouco pode fazer se não tiver, ao seu lado, pessoas da mais estrita confiança e qualidade. Neste sentido, me parece absolutamente razoável que o treinador, na sua medicina, esteja amparado por homens e mulheres, das mais diversas áreas e com as mais diversas experiências, com perfis distintos do seu e, não raro, melhores do que o próprio treinador nas tarefas que lhes cabem. Se o treinador tiver na sua equipe perfis estritamente similares ao seu, terá então um grupo de especialistas, fluente em um relativo grupo de moléstias, mas incapaz de tratar aquelas que fogem do seu conhecimento. O treinador não deve (não pode) saber de tudo, mas pode saber mais, caso decida não saber sozinho.

Pacientes são diferentes entre si (razão pela qual um mesmo medicamento, para uma mesma moléstia, pode não ser eficaz para dois indivíduos diferentes) e os próprios pacientes nunca são os mesmos – mudam ao longo do tempo. Isto significa que a medicina do bom treinador presume que não há uma solução inequívoca, não há um antídoto, uma kryptonita que deflagre as fraquezas do jogo e, assim, nos faça senhores dele. Treinadores e treinadoras, como pacientes que também são, devem perceber que o mundo é movimento, que tudo flui, razão pela qual diferentes trabalhos precisam de diferentes respostas e diferentes atletas precisam ser tratados na sua singularidade. Você haverá de convir que nada disso é fácil, há personalidades absolutamente diferentes em jogo, motivo por que treinadores e treinadoras também precisam de treinamento contínuo, formal ou não, para que saibam adotar, se necessário, uma postura camaleônica, pois o treinador que evita mudar ao longo do tempo se torna previsível – suas equipes idem. E a previsibilidade, como você bem sabe, não é dos mais eficazes medicamentos para o jogo.

Assim como a estética do paciente não deve ser o fim último de um bom médico (pois a boa estética não necessariamente significa boa saúde), a beleza de uma equipe não deve ser um fim em si mesmo para treinadores e treinadoras, pois a beleza do corpo pode esconder as agruras da alma, e a beleza de uma equipe também pode esconder sua real situação. Isso não significa, veja bem, um tratado sobre a feiura: significa que a medicina do bom treinador visa promover a saúde de um determinado jogar, e quanto mais saudável, mais belo tende a ser. Tendo em vista um dado modelo de jogo e suas variações estruturais, parece razoável afirmar que a beleza não está em um dado modelo apenas, mas está (potencialmente) em todos, e irá se expressar quanto melhor estiver o espírito de um determinado modo de se jogar.

Se o modelo de jogo é a medicação essencial e as estruturas são subjacentes a ele, perceba que a medicina do bom treinador pode dar um passo à frente, pensando em mais mudanças estruturais a cada jogo (linha de cinco, linha de quatro, losangos, triângulos…) desde que o modelo esteja suficientemente consolidado. As mudanças de estrutura podem ser amparadas pelo modelo. Já o inverso não é verdadeiro.

Mas sobre isso conversamos outro dia.

Comentários

  1. Luiz Mendes de Lima disse:

    De novo o bacharel Hudson Martins. Com outro artigo provocador, desafiador e propositor. Eu realmente não sei até onde poderia ir o espaço para um intercâmbio de idéias mais aprofundado com o autor e que, eventualmente, poderia trazer para a mesma dança(sic) outros leitores interessados. Então, deixo aqui a oportunidade para os moderadores do Universidade intervirem e esclarecerem essa questão do espaço. (A propósito Hudson, o autor que Você esqueceu de mencionar na frase “o essencial é invisível aos olhos” é Antoine de Saint-Exupéry em “O Pequeno Príncipe”). De minha parte, tenho dúvidas: não estou certo de que exista uma essencialidade no caso do jogo de futebol e –também para o caso do jogo– o fato de tal essencialidade não ser perceptível à retina não implica, se for o caso, de que o mecanismo de uma partida, sua dinâmica reveladora, não possa ser conhecido ou até mesmo explicado pelo uso da imaginação. Estou falando da nossa capacidade de abstrair do “real complicado” aquelas variáveis que realmente contam(aquilo que “faz a diferença”, como se diz nos meios esportivos). E, daí, montar um modelo matemático para o futebol. Este homeomorfismo seria tão extraordinário para simular um jogo real que os esquemas táticos e treinos seriam daí em diante considerados como quantités négligeables nas comissões técnicas dos clubes. Enfim, a ciência, particularmente as exatas, entrando de sola no futebol. Só pra saber! Tal proposta estaria de acordo com os propósitos do site Universidade do Futebol? Com a palavra o professor Paulo Medina…

    • Olá, Luiz! Começando pelo fim, me parece que partimos de pontos diferentes: um das ciências exatas, outro da Filosofia. Me parece um terreno bastante fértil. Sobre a citação, não me esqueci: não me agradam citações explícitas (soam petulantes), razão pela qual elas sempre estão em itálico, implícitas. Fico feliz que você tenha percebido.

      Sobre a essência, também não estou certo. Mas me agrada essa cosmologia dos gregos, essa percepção de que existe uma razão além da nossa. Imagino que no futebol não seja diferente. Mas estou longe das certezas.

      Sobre o intercâmbio de ideias, estou absolutamente disponível no hudsonrmp@gmail.com.

      Grande abraço!

  2. Luiz Mendes de Lima disse:

    Hudson! Já mandei um e-mail para iniciarmos o diálogo. Sim, acho que podemos aproveitar os gregos. Até já pensei em usar uma assertiva de Heráclito que -eu juro!- tem tudo a ver com o os jogos de futebol. Afinal, o futebol não é o terreno mais propício a toda sorte de controvérsias e especulações? Por exemplo: meu time é muito melhor que o seu! Alguma dúvida? Um abraço!

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