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18/09/2019

Sobre o lugar do modelo de jogo na formação do caráter

O poder do jogo jogado numa educação que não acaba
Fabinho, hoje no Liverpool: educado nos modelos de jogo e no método do Paulínia FC. (Foto: Reprodução/ig)

 

Todos nós estamos acostumados, em algum nível, a ouvir que nosso trabalho no futebol não deve apenas formar atletas, mas deve também formar pessoas. Se vocês me dão o privilégio da leitura regular, sabem que normalmente escrevo diversas coisas neste sentido, particularmente aqui e nesta outra coluna. Ao mesmo tempo, preciso dizer que esses discursos soam muito bonitos, às vezes são fáceis de se verbalizar, mas podem mais ficar na esfera do politicamente correto do que na esfera das condutas práticas.

Por isso, hoje gostaria de falar um pouco sobre a importância do modelo de jogo neste processo de ‘formação do caráter’ (admita todos os sinônimos aqui). Como de costume, escrevo algumas inquietações, que deixo vocês trabalharem como quiserem.

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Ainda que possa soar repetitivo, acho importante começarmos pelo seguinte: quando falamos de modelo de jogo, estamos falando de tática, mas não necessariamente estamos falando de estratégia. Por quê? Porque, em linhas gerais, o modelo de jogo ocupa um lugar entre a tática e a estratégia. Está abaixo da tática desde que entendamos tática como ‘(…) a gestão (posicionamento e deslocamento/movimentação) do espaço de jogo pelos jogadores e equipes’ (p.26), como conceituaram os professores Israel Teoldo, José Guilherme e Júlio Garganta, no livro ‘Para um Futebol Jogado com Ideias’. Ou seja, qualquer manifestação individual, grupal ou coletiva será tática – ainda que não apenas tática. Por outro lado, o modelo está acima da estratégia uma vez que tem um caráter transversal, atravessa o processo, direciona qual será o caminho de uma dada forma de jogar, enquanto a estratégia tem um caráter mais pontual, específico, de curto prazo, situacional. Ou seja, um modelo de manutenção da posse e progressão ao alvo via superioridades no setor da bola no corredor central pode acontecer num 4-3-3, num 3-4-3 ou num 1-8-1. A estratégia é posterior ao modelo.

Talvez eu não tenha sido explícito, mas aqui já temos um primeiro ponto importante. Se o modelo está acima da estratégia e se queremos discutir o papel do modelo de jogo na formação do caráter, temos então que nos desvencilhar de alguns mantras limitantes. Por exemplo, houve uma época em que se dizia coisas do tipo ‘jogar com três zagueiros na base’ seria um crime, porque times com três zagueiros seriam mais defensivos (sic), porque se perderia a figura do camisa dez (sic) e vários outros porquês. Mas se o que é definitivo no jeito de jogar de uma equipe é o modelo, podemos portanto jogar com dezoito ‘zagueiros’ e mesmo assim sermos ofensivos. O que quero dizer é que, independentemente dos mantras, creio que o processo de especialização deva ser realmente marcado exatamente por um período de experimentação, de encontro, de desencontro, mas especialmente por um período de descoberta, porque essa descoberta é descoberta do jogo, mas especialmente é descoberta de si. O atleta se descobre, como pessoa, dentro do jogo. Fazendo uma, duas, três, várias funções diferentes, ocupando posições diferentes, podendo tomar decisões diferentes dos outros (especialmente nos modelos que permitam alguma liberdade posicional), enfim… experimentando tantas possibilidades quanto for possível, exatamente para enriquecimento do próprio acervo.

Talvez aqui cheguemos a um primeiro denominador comum, se pensarmos na formação do caráter: é recomendável que os modelos de jogo dentro do processo formativo (ou o modelo de uma única temporada) deem aos atletas a chance de experimentar possibilidades, de inventar novas soluções, de se provar na adversidade e se afirmar no conforto. Na essência, que os modelos deem aos atletas a chance de se descobrir.

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Durante o processo formativo, especialmente nos primeiros anos da especialização, tenho alguma convicção que a escolha do modelo de jogo pelo treinador é fundamental na formação do caráter do atleta. Por quê? Porque ainda que não nos esteja claro, qualquer modelo de jogo carrega uma série de valores, de crenças e de conhecimentos que sustentam o nosso pensamento e a nossa prática. Inclusive, este é um exercício que podemos fazer agora: quais você acha serem os valores que estão por trás do modelo de jogo da sua equipe?

Pensei muito nisso outro dia, quando assisti a um jogo de um grande clube brasileiro, na fase de especialização, em que absolutamente todas as jogadas ofensivas começavam em um lançamento do goleiro para o centroavante. Não era circunstancial, era a regra: em todos os momentos, pontapés do goleiro ao ataque. Os zagueiros não precisavam se preocupar com nenhum conceito ofensivo, e o esforço dos meio-campistas, na maioria das vezes, residia apenas na extensão da musculatura do pescoço, para observar a bola que passava acima e adiante. Veja bem, é claro que respeitamos a escolha dos profissionais, mas quais valores estão por trás de um jogo tão pobre? Que tipo de jogador formamos num modelo desses? Será que formamos jogadores mais inteligentes, mais criativos, corajosos, versáteis, arrojados, persistentes, subversivos, inconformados? Qual é a cicatriz que este jeito de jogar deixa nos meninos num período tão importante da sua formação?

Por outro lado, será que os modelos que desejam marcações mais altas não exigem dos nossos jogadores algum desprendimento, alguma subversão (no sentido de defender-se para frente, não para trás), uma grande solidariedade na ocupação de espaços? Será que os modelos que constroem por baixo desde o goleiro não exigem dos nossos jogadores alguma coragem (às vezes muita), alguma insubordinação para talvez driblar em zonas próximas do próprio gol, alguma atenção para encontrar o momento certo do passe que vai rasgar as linhas adversárias? Ou mesmo os modelos mais defensivos (para não falarmos só de ataque), que baixam o bloco e querem as transições, será que não ensinam alguma resiliência, alguma paciência, alguma capacidade de saber sofrer e de suportar o jogo, como às vezes nos é pedido suportar honradamente o peso da vida, nas suas surpresas e na sua crueza? Será mesmo que nada disso deve ser considerado? Creio que sim – e muito.

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Daí que as potencialidades do modelo não se resumem à especialização. Elas são flagrantes no rendimento. Mas, para pensar nisso, acho que devemos dar um passo atrás.

Como conversamos outras vezes, existe uma noção (geralmente implícita), de que o atleta de rendimento já está ‘formado’, já está ‘pronto’, é um ‘produto acabado’ e a função do treinador, portanto, seria apenas adequar-se ao que o atleta é, ainda que muito do que atribuímos aos nossos atletas esteja mais próximo dos estereótipos do que das evidências. De fato, o atleta que chega ao profissional acumula milhares de horas de prática, tem rápidas respostas para problemas elaborados e, se quisermos um termo do treinamento, tem uma treinabilidade menor, ao menos quando comparados com sujeitos comuns.

Ao mesmo tempo, este atleta ainda está em formação – do ponto de vista esportivo e do ponto de vista humano. Se você preferir, está em formação exatamente porque é humano. E essa incompletude que nos faz humanos permite que um treinador, a quem compete educar pelo jogo, seja capaz de caminhar por lugares inexplorados com qualquer atleta, e o caminho que sugiro para isso é exatamente o modelo. Ou você não acredita que um determinado atleta, que sempre fora taxado de inábil na construção ofensiva, talvez apenas não tenha recebido os melhores estímulos na formação? Ou então um outro atleta, que confiava demais no próprio talento, finalmente está maduro a ponto de trabalhar e dedicar-se como nunca? Ou ainda um outro atleta, que sempre se identificou como meia, agora percebe (pelo modelo) quem tem todas as condições para jogar como um lateral? Se acreditarmos que os atletas (e as pessoas) não mudam, então não precisamos de pedagogia, não precisamos de educação – e portanto não precisamos de treinamento. Por outro lado, se acreditamos na vida, nas potências da vida, então acreditamos nos movimentos da vida e, portanto, acreditamos nos movimentos da formação e nos movimentos da trans-formação.

Que são possíveis pelo modelo e através do modelo.

 

Comentários

  1. Leopoldo Hirama disse:

    Caro Hudson, parabéns pelo texto! Fora a dissertação do Wilton Santana, não havia lido nada a respeito da formação humana no interior do ensino/aperfeiçoamento/treinamento do esporte. Embora eu tenha quase certeza de que destaca sutilezas que a grande maioria dos treinadores não compreende, entendo ser importante avançarmos nesse tema, deixarmos a superficialidade do senso que o esporte por si só ensina valores para uma boa vida e atuarmos de forma intencional e refletida sobre a imensa possibilidade deste fenômeno na construção da personalidade dos praticantes.

    • Grande Leo, obrigado! Sei que a modéstia lhe impede, mas sua tese de doutorado também prestou um enorme serviço neste sentido. Fico feliz pela tua leitura e sei que ainda temos um grande caminho a percorrer, no qual vamos mais aprendendo do que ensinando. Um abraço!

  2. Marcelo Hoelz Veiga disse:

    Muito bom Hudson, achei seu pensamento muito alinhado com nosso documento orientador metodológico (Fluminense) , este seu texto criou estímulos para que nossa prática não se desvie do caminho que foi discutido e traçado, mas uma vez obrigado será útil na conscientização de todos.

    • Marcelo, que coisa boa! Fico feliz pelo comentário e por saber que um clube da grandeza do Fluminense tem levado este assunto adiante. Daí a importância de um documento metodológico, aliás. Muito obrigado pelo retorno, um abraço!

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