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22/05/2019

Sobre a quebra da marcação por encaixes

Algumas notas sobre a criação de espaços em Liverpool x Wolverhampton
Sadio Mane: fuga do setor para criar o próprio espaço. (Foto: Carl Recine/Action Images)

 

Há pouco mais de um mês, conversamos aqui sobre a quebra da pressão por encaixes. Naquele texto, discuti especialmente a importância dos pontas na superação do pressing de equipes que decidem, ao subir as linhas, adotar uma marcação individual no setor.

Hoje, gostaria de propor um debate parecido, mas agora pensando na quebra das individuais por setor de equipes que se defendem em bloco médio/baixo em um 5-3-2. Para isso, vou me basear no primeiro gol do Liverpool contra o Wolverhampton, marcado por Sadio Mane, na última rodada da Premier League, há alguns dias.

Vejamos.

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Até os 17 minutos do primeiro tempo, o Liverpool não havia criado situações claras de gol. Ao meu ver, isso se deu principalmente em razão da organização defensiva do Wolverhampton. Vamos falar sobre ela.

Como já sabemos, o Wolverhampton estava disposto em um 5-3-2. Mas o sistema é apenas uma parte da ideia: neste jogo, a equipe de Nuno Espírito Santo partiu de referências diferentes nas duas primeiras linhas defensivas. Enquanto a linha de três meias, composta por Rúben Neves, João Moutinho e Dendocker, tinha uma clara referência zonal, preenchendo os espaços ao sabor do movimento da bola, a primeira linha, composta por Doherty, Bennett, Coady, Boly e Jonny, era muito mais condicionada por referências individuais no setor, especialmente o trio de zagueiros, em razão dos danos em potencialmente causados pelo trio Mané – Origi – Salah. Neste sentido (e guardadas todas as proporções), a escolha defensiva dos Wolves me lembrou muito a recente escolha de Jorge Sampaoli, na vitória do Santos sobre o Grêmio, em Porto Alegre: igualdade numérica no meio com referências zonais e tentativa superioridade numérica próximo à área, com referências individuais no setor.

Uma grande diferença é que, no caso dos Wolves, os alas tinham dupla preocupação. Como Robertson e Alexander-Arnold têm liberdade para subir (inclusive ao mesmo tempo), provavelmente a instrução para os alas era pressionar o lateral adversário quando a bola estivesse no seu setor e acompanhar o movimento da linha caso a bola estivesse no setor oposto. Esta dinâmica (entre a primeira e segunda linhas, e dentro da própria linha) me parece um excelente exemplo do caráter ambíguo e contingente de qualquer sistema defensivo. Defesas não precisam ser puras, orientadas por um mesmo comportamento, (zona/individual no setor/individual), mas podem ser ambíguas, podem ser como um amálgama que reflete duas ou mais referências diferentes.

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Como dizíamos, o Liverpool passou 17 minutos sem claras chances, mas quando criou a primeira, abriu o placar. Aqui, indico que você assista ao gol (especialmente no ângulo que começa aos 0:57), que comentarei em detalhes abaixo.

O trio ofensivo do Liverpool, lembre-se, tinha Origi no comando de ataque, na vaga de Roberto Firmino, lesionado. Isso tem um claro impacto na organização ofensiva, uma vez que Firmino, cada vez mais adaptado à uma espécie de ponta de lança, tem enorme inteligência para encontrar ou criar espaços às costas dos volantes adversários – características diferentes das de Origi. Ao mesmo tempo, buscar a bola metros atrás é um recurso fundamental para confundir as defesas que marcam por referências individuais por setor. E aqui podemos entender este primeiro gol do Liverpool.

Um dos motivos porque o Liverpool tinha dificuldades para construir é que o trio Mané – Origi – Salah mantinha-se mais baseado no espaço, mais obediente, de modo que não fossem necessários enormes esforços dos defensores, já que os movimentos da linha de três meias adversários impedia que a bola chegasse em boas condições ao ataque. É importante citar, me perdoem se não ficou claro, que Mané e Salah jogam mais próximos da área, buscam as diagonais, deixando os corredores abertos para os laterais. Por isso faz sentido recorrer às individuais por setor no trio de ataque.

No início da jogada, Mané recua vários metros (por intuição ou por instrução externa, acredito na primeira), e recebe a bola ainda antes da linha de três meias do Wolverhampton, entre os corredores central e esquerdo. Isso tem dois reflexos imediatos: I) faz com que haja superioridade no meio-campo (4 v 3) e II) deixa o zagueiro responsável por Mané (Bennett) em uma situação desconfortável, porque agora precisa acompanhar o movimento da bola ao mesmo tempo em que acompanha o próprio Mané, à distância, com os olhos.

Depois de receber a bola, Mané faz uma rápida inversão, forte, à meia-altura. Decisão inteligentíssima, pois permitiu que ganhasse um ou dois segundos em comparação ao tempo que seria preciso caso a bola fosse invertida pelo alto. O passe de Mané busca Alexander-Arnold, pela direita. O passe rápido deixa o trio de meias do Wolverhampton sem ação, assim como Jonny, que até dois segundos atrás estava fechando a linha e agora precisa, rapidamente, pressionar o lateral. Tudo acontece muito rápido, o ritmo da jogada aumenta (seguindo o próprio modelo) e quando Arnold vai ao fundo, há um fato, em especial, que define toda a jogada.

Salah está na área, logo a frente de Bennett, que supostamente marcaria Mané. Por motivos óbvios, assim que Arnold ameaça o cruzamento, Bennett vai exatamente em direção a ele, sabendo da sua letalidade naquele setor do campo. Veja bem, isso não é exatamente um equívoco do zagueiro. Na verdade, é um problema cuja raiz está naquele início da jogada, de que falávamos acima. No lugar de Bennett, na tomada de decisão imediata, provavelmente todos nós tomaríamos a mesma decisão, ou algo muito parecido. Ao seguir Salah, Bennett não percebe o que se passava às suas costas: Mané chegava de fora da área, livre de marcação, de frente para o gol.

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O grande detalhe da individual por setor está menos no indivíduo e mais no setor. Este setor, este espaço até onde um jogador pode ser perseguido, não é fixo, não é objetivo, não é mensurável. Ele é dependente do jogo, dos problemas, das circunstâncias, é contingente.

Por isso sou muito favorável ao movimento constante dos pontas na organização ofensiva, exatamente para provocar o defensor, ver até onde ele vai, deixá-lo desconfortável, enquanto que, ao mesmo tempo, seja possível criar apoios por dentro, às costas dos volantes, causar desequilíbrios pelos lados (caso os laterais acompanhem até o fim), seja possível usar o equilíbrio dinâmico inerente ao jogo em favor de quem ataca.

Na verdade, isso significa não apenas testar os limites de um dos marcadores. Significa testar a estrutura defensiva adversária como um todo.

 

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