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Destinos cruzados

A seleção do tema para o presente artigo foi difícil de ser definida. Inúmeros fatos ocorridos no esporte durante os meses de maio e junho forneceram excelentes temas a serem discutidos. A tentadora possibilidade de escrever sobre derrota do Brasil para a Venezuela em um amistoso nos Estados Unidos (será que alguém viu esse jogo?) seria uma excelente opção. A final de um campeonato que é o caminho mais curto para se chegar a Libertadores era outro tema instigante, ainda mais, quando a final foi entre o Sport Recife (representante do Nordeste que eliminou equipes tradicionais do futebol brasileiro) e o todo poderoso Corinthians, que mesmo na segunda divisão do Campeonato Brasileiro encontrou uma forma simples e rápida de dar a volta por cima.

No entanto, a derrota em Recife acabou com o sonho e devolveu o timão a realidade da Série B. Também poderia escrever sobre a belíssima quinta colocação em que se encontra a seleção brasileira nas Eliminatórias, sem falar, na convocação para a Olimpíada do jogador Ronaldinho Gaúcho pelo técnico, ou melhor, presidente Ricardo Teixeira.

Apesar desses fatos riquíssimos enquanto temas para a construção do artigo, optei por discutir a aposentadoria de Guga e a relação desse fato com o momento pelo qual passam dois jogadores de futebol que freqüentemente estiveram em destaque, os Ronaldos.

No dia 25 de maio de 2006, Gustavo Kuerten entrou pela última vez em quadra para a partida individual (ainda jogaria o torneio de duplas) que poderia ser a sua última partida, o que realmente veio a acontecer. Perdeu na primeira rodada de um torneio que o consagrou, afinal, foi tricampeão de Roland Garros.

Aos 31 anos, Guga, que ocupa ao lado de Maria Esther Bueno o posto de melhores tenistas do país, aposentou-se. O tênis profissional que o consagrou, que o transformou em milionário, que o permitiu investir em um Instituto que leva o seu nome, também o levou à aposentadoria. O nível competitivo que o esporte profissional exige fez com que nos últimos anos Guga jogasse com inúmeras dores pelo corpo. Seu corpo já não agüentava mais a rotina extenuante do que é ser um atleta de alto rendimento.

Outro jogador com uma carreira tão brilhante quanto a de Guga é Ronaldinho Gaúcho. Apesar de inúmeros sucessos nos campos de futebol, o consagrado jogador do Barcelona encontra-se numa situação que certamente não imaginou que poderia passar. Sempre cobiçado pelos maiores clubes do planeta, o grande ídolo do futebol perdeu espaço. Inúmeras contusões, mero coadjuvante em alguns jogos o colocaram em xeque. A torcida do Barcelona que o tinha como salvador da pátria pouco o via resolver os problemas da equipe e o que é pior, o maior rival do time catalão foi o campeão da temporada 07/08, sendo que o Real Madrid venceu as duas partidas do campeonato contra o Barcelona (no primeiro turno, dia 22/12/07, venceu por 1 a 0 em Barcelona e no dia 07/05/08 venceu por 4 a 1 em Madrid).

O próprio presidente do clube catalão, Joan Laporta, afirmou que o jogador não interessa mais ao time: “Dissemos a ele que ele precisa de novos desafios. É normal que, quando ciclos acabem, as pessoas mais emblemáticas se retirem “.

Não só nos times ele tem sido questionado. Na seleção brasileira está longe de ocupar a condição de jogador que faz a diferença, como já aconteceu na Copa de 2002. Agora mais um fato inusitado em sua carreira, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, convocou o jogador para os Jogos Olímpicos de Pequim e apenas comunicou o técnico Dunga. Sempre considerado unanimidade, estará no grupo olímpico por imposição e não pelo seu desempenho futebolístico. Atualmente se recupera de contusão e espera um rumo para o seu destino.

Tudo indica que irá se juntar às estrelas brasileiras do Milan. Enquanto o time milanês aguarda o retorno de Ronaldo, o “Fenômeno” (ou seria ex-fenômeno?), aos gramados. O consagrado Ronaldo passa por mais um momento delicado da sua fantástica carreira. Contundido desde fevereiro, no joelho esquerdo, seu corpo parece indicar que está no limite. Ainda abalado pela nova contusão o jogador afirmou que o seu […] coração quer voltar a jogar, mas meu corpo está dando sinais de que está cansado, de que sofreu muito “

Sua recuperação acontece no Rio de Janeiro e no mês de maio voltou às manchetes devido a um envolvimento com três travestis. Ouviu-se o seguinte: “com o dinheiro que ele tem, o que foi fazer com três travetis?” ou “sempre teve aos pés as mais cobiçadas modelos” e por aí vão as frases que questionam e tentam entender a atitude de Ronaldo. Uma de suas principais patrocinadoras, a Nike, ameaçou rescindir o contrato vitalício que possui com o jogador. Tudo por conta do mau exemplo que o craque gerou com esse episódio. Lembre-se que os jogadores considerados craques são colocados numa condição de não humanos e que por isso devem sempre agir de maneira exemplar.

A imagem do ídolo é carregada de uma série de obrigações. Pelo fato de serem admirados, têm como responsabilidade dar o exemplo, afinal, um grande número de pessoas são influenciadas por suas atitudes. […] Imagem midiatizada e distante da idéia de que aquele jogador é uma pessoa que tem as mesmas obrigações e deveres que todos cidadãos (GIGLIO, 2007, p.142).

Não nos esqueçamos que essa mesma empresa de material esportivo já foi acusada de manter trabalho escravo. Conforme o jornalista Xico Sá afirmou:

Ora, ora, ora, que moral tem a Nike, que já teve a imagem envolvida em trabalho escravo no fim do mundo, ou católicos dirigentes do Milan, com toda a hipocrisia que esse qualitativo já embute, para lhe dar puxão de orelha?

A grande questão de todo o imbróglio é que não nos interessa (ou não deveria interessar) o que Ronaldo faz em sua vida particular. O que faz em campo ou o que faz para recuperar a forma física para voltar aos gramados é que deve ser debatido. E isso vale não só para o Ronaldo, vale também para qualquer outro jogador que tem a sua vida particular transformada em debate público. Segundo Mattos

Entre os jogadores, Ronaldo ganhou suporte. Houve quem ligasse para o atleta no Rio. Quem falou com ele, ontem, relatou que o sentiu deprimido. “O meu ídolo será sempre o Ronaldo”, afirmou Alexandre Pato à TV Sky, na Itália. “Ele é tranqüilo, é um grande amigo.”

Além de serem milionários, atletas bem sucedidos, mundialmente conhecidos, todos mantêm institutos para assistir aos menos favorecidos. Esses institutos são uma maneira encontrada para amenizar o fim da carreira. Funciona também para reforçar o vínculo com a memória da infância e do local de onde saíram (principalmente no caso dos jogadores de futebol).

Portanto, o que aproxima os três atletas? O que os aproximam é o destino ao qual estão vinculados. O mundo do esporte de alto rendimento é constituído por ciclos, mesmo para os grandes ídolos. Já atingiram o auge da carreira e ao caminhar para o final dela, aos trinta e poucos anos, a decadência torna-se um fato real, pois não há como competir com os novos talentos que logo ocuparão seus lugares. Está é a grande dificuldade dos atletas que se aproximam da aposentadoria, sair de cena e deixar o posto de ídolo para seus sucessores.

Claro que os Ronaldos ainda têm um bom tempo de carreira (Ronaldinho Gaúcho tem 28 anos e Ronaldo Nazário tem 31 anos), mas em breve seus corpos dirão (ou já parecem dizer) o que Guga tanto ouviu em seus últimos anos de carreira: até que ponto vale a pena prorrogar a aposentadoria? Lembra-se de Romário e a sua busca midiática pelo milésimo gol? Ou já esqueceram dele? Pois é, o ciclo sempre se fecha. Quando um sai de cena, muitos outros serão promovidos ao espetáculo principal.

Bibliografia

GIGLIO, Sérgio S. Futebol: mitos, ídolos e heróis. 2007. 160f. Dissertação (Mestrado em Ed
ucação Física) – Faculdade de Educação Física. Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2007.
MATTOS, Rodrigo. Escândalo ameaça futuro e as receitas de Ronaldo. Folha de S. Paulo. 01 de maio de 2008.
SÁ, Xico. Um chute na canela da moral. Folha de S. Paulo. 02 de maio de 2008.

* Mestre em Educação Física pela Unicamp e integrante do Gief (Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol); do Gepefic (Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação Física e Cultura) e do Memofut. Contato: ssgiglio@gmail.com

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O Adamastor

Há quem lamente a sina de ser pequeno. Eu, por mim, não vejo que seja mal por aí além – desde que nisso se invista em grande.

Ironicamente, porém, só costumamos fixar-nos no grande precisamente por sermos pequenos – que o grande é-o naturalmente. Do mesmo modo que uma das principais características do pobre é a sua fixação na inveja dos que são ricos. Fixação e inveja: outros nomes do complexo de inferioridade, de impotência.

Vem isso a propósito da Eurocopa da nossa desilusão – note-se que só veio a desilusão porque estávamos iludidos.

Facilmente nos ocorre o episódio bíblico do exército filisteu. E bem sabemos por que se tornou famoso o pequeno e jovem David – por ter vencido miraculosamente o gigante Golias. O pequeno David tornou-se, assim, no símbolo da excepcionalidade – ele venceu o gigante contra todas as expectativas, exceto as de uma pessoa muito especial e decisiva: dele próprio.

Portugal foi davídico nos descobrimentos, foi-o igualmente em Aljubarrota. Venceu contra todas as previsões, ancorado, porém, no êmbolo de todo e qualquer sucesso: a férvida crença de que podia vencer.

O Adamastor é obra de descrentes, dos “velhos do Restelo” que achavam que havia um inferno que humano algum podia vencer. Para esses, o monstro era real e a seus pés soçobrariam fatalmente todos os que teimassem enfrentá-lo.

Ora, nesse Europeu, os nossos novos navegadores mostraram-se, desde logo, sem rumo. E como chegar se não se sabe para onde ir? Zarparam em força, é verdade, e pareciam marear à bolina – e o meu povo rejubilou de esperança. Mas logo entraram nas contas do medo: “Vamos tentar ficar em primeiro para evitar a Alemanha”, esquecendo que não há melhor maneira de atrair uma coisa do que temê-la. E, nesse caso, era o próprio comandante que, alto e bom som, criava o seu Adamastor, ao eleger a Alemanha como o Golias que só por milagre haveriam de vencer. Ainda se fosse lá mais para frente, mas agora, já. isso não. E assim vieram a cair, asfixiados pelo aperto do seu próprio terror.

Também Espanha tinha o seu Adamastor muito especial – A Itália, a quem não vencia, em jogos oficiais, desde 1920. Mas, da mesma maneira que Júlio César, que atravessando finalmente o rio Rubicão pôde lançar os seus exércitos contra Roma, assim também os novos centuriões de Espanha avançaram, vencido o monstro, a caminho do céu – que é o espaço da libertação de todos os medos. A vitória de Espanha dá-se no íntimo da alma muito antes de acontecer no relvado.

Nome desse feito: resgate ao seqüestro do medo. Ao contrário, os nossos rapazes que mais pareciam entretidos numa colônia de férias, mal soou o alarme desataram a fugir, qual rataria. E, à boa maneira do chicoespertismo que nos caracteriza, cada um passou o tempo a tratar da sua vidinha.

Ao contrário do modelo organizacional do movimento da “formiga” (Marco Dorigo) dos alemães, em que cada um se doava diligentemente à causa do coletivo, os nossos exibiram a tradicional ratice, que é cada um aviar-se como pode. É agora claro que a sua cabeça esteve sempre ocupada realmente (Real Madrid) com os milhões (e com os milões, a Inter e o outro).

Nesse jogo decisivo foram mais que tudo dois tipos de mentalidade que se defrontaram. De um lado, o paradigma mental da vitória, a familiaridade com o êxito, enfim, uma cultura de sucesso. Do outro lado, a cultura do improvável, do “era bom, mas é demais”, do “é difícil, mas vamos tentar”. É por isso que a expressão mais utilizada pelos futebolistas portugueses é a de que “agora há que levantar a cabeça”. Pois é, mas só levanta a cabeça quem a tem baixa, quem dobra a cerviz – é, enfim, uma cultura da humilhação. E, depois, aquele nosso entranhado sebastianismo – o de nos encomendarmos sempre aos santinhos da nossa devoção!

Comprazemo-nos numa certa relação idolátrica com o real. E todos nos lançamos, pressurosos, nos braços do nosso novo ídolo, Cristiano Ronaldo, esquecendo o que já constatara Moisés – que os ídolos têm pés de barro. Nesse caso, o ídolo tinha o pé aleijado. Pois é, mas era preciso manter o amuleto em campo – como se fosse de algo do outro mundo que nos pudesse vir o milagre.

Acabou a Euro 2008. Já em 2004 sucumbíramos sufocados pelo medo de perder. Neste ano o sofrimento foi menor – não tivemos que esperar, com o seu quê de masoquismo, pelo último jogo. Arranjamos logo maneira de encontrar um Adamastor que, com algum indecoroso júbilo até, nos justificasse a derrota e nos tirasse este peso de cima. E, dessa vez, até tivemos um bônus extra: ganhou a Espanha. E contentamo-nos com espreitar à socapa, pelo buraco da fechadura, a festança do vizinho do lado.

Mas, no fundo, é, ainda e sempre, a velha mania de ter medo de ser feliz, de nos assustarmos com o céu e de darmos graças por poder, ao menos, imaginá-lo.

Foi essa mentalidade de “vira-lata” que os nossos irmãos brasileiros conseguiram definitivamente enterrar com Garrincha e Pelé, há 50 anos, na Suécia.

Porque a grandeza não se recebe de ninguém – cria-se.

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Washington, o Fluminense e o Sobrenatural de Almeida

O futebol é uma caixinha de surpresas. Todo boleiro conhece essa frase, usada tanto por vencedores quanto por derrotados; talvez por isso Nelson Rodrigues, dramaturgo, jornalista e apaixonado pelo Fluminense, criou uma figura capaz de personificar fatos do esporte bretão.

Em outubro de 1968, Nelson Rodrigues escrevia no Jornal O Globo: “Amigos, dizia Horácio que há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia. Esta aí uma clara alusão ao Sobrenatural de Almeida (…) Os idiotas da objetividade não vão além dos fatos concretos. E não percebem que o mistério pertence ao futebol. Não há clássico e não há pelada sem um mínimo de absurdo, sem um mínimo de fantástico (…) O curioso é que o Sobrenatural de Almeida andava sumido. Ou melhor dizendo: não tinha imprensa”.

A partida de volta entre Fluminense e São Paulo, no Estádio do Maracanã, pelas quartas-de-final da Copa Libertadores da América de 2008, é um bom momento para a reafirmação de Sobrenatural de Almeida, que, criado justamente para explicar certos “acasos”, pode nos ajudar a entender que essa partida tem um valor além da vaga às semifinais da competição, revelando então que fora das quatro linhas há muito mais em jogo do que se pode pensar.

Descrever o que aconteceu naquela quarta-feira no Rio de Janeiro é desnecessário, mas é necessário escrever que o time de Renato Gaúcho cravou seu lugar não só na história de seu clube, mas também no imaginário coletivo de uma legião de seguidores do Fluminense.

“Jogo, logo existo”, diria Eduardo Galeano; e Washington passou a existir na memória do torcedor carioca não só pelo gol da classificação, mas antes mesmo de entrar em campo.

Sem marcar nenhum gol havia oito partidas, o atacante apelidado de “Coração de Leão” – referência à superação após cirurgia cardíaca – recebeu uma carta de incentivo de um torcedor. Nela, a pessoa indicava a ele o filme “Desafiando Gigantes”, história de um treinador de futebol americano que, depois de enfrentar crises profissionais e pessoais é desafiado por um desconhecido a acreditar no poder da fé, descobrindo assim a força da perseverança para vencer.

O atacante, que tem essa questão religiosa viva dentro de si, mostrou a seus companheiros de equipe o filme na concentração horas antes do jogo. Por mais que muitos não acreditem em certas coisas, a história mexeu com seus companheiros, que passaram a acreditar que era possível vencer a outra equipe, considerada provável campeã do torneio continental.

É por isso que o imprevisível é uma singularidade do futebol, fazendo até que uma equipe considerada mais fraca consiga vencer outra supostamente mais forte. Assim, o evento futebol passa a ser uma narrativa na qual o que conta não é saber o que aconteceu, mas sim a essência do fato. E Nelson Rodrigues, em outro momento, escreveu: “E o Sobrenatural de Almeida estava ali, provando que o futebol é mais do que puro e simples futebol. Qualquer clássico ou qualquer pelada tem aura”.

E a aura desse jogo foi caracterizada pela superação técnica e física de um homem que, em 90 minutos, transformou-se no herói da partida: Washington Stecanela Cerqueira, um brasiliense de 33 anos, que fez história na Ponte Preta, clube paulista, depois se transferiu para Atlético-PR e para o Japão e voltou ao futebol brasileiro para ser ídolo.

Quanto ele precisou percorrer e acreditar que chegaria a um momento como esse? Quantas foram as negações sobre sua qualidade no momento em que se descobriu cardíaco e diabético? Quantas foram as lágrimas no gramado mais conhecido do mundo, após o último gol do Fluminense, gol da classificação de seu time pela primeira vez a uma semifinal de Libertadores?

O adjetivo de ser herói (guardião ou protetor do time) ou ídolo (imagem da divindade a ser respeitada) nesse momento não importa. O que vale é o que o placar não confessou após o apito final do jogo: o renascimento de um homem, que com seus problemas de ‘humano’ superou palpites técnicos e táticos.

E, em uma partida como essa, considerada épica pelos cronistas do futebol, nem Nelson Rodrigues (o torcedor) nem Sobrenatural de Almeida (o jogador) poderiam deixar de entrar em campo.

* Jornalista, pesquisadora do tema “Crônica Esportiva”, membro do Gief/USP e do Memofut.

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Novas práticas de organização da cultura popular

Resumo

Falamos sobre as “escolinhas de futebol”, entidades privadas, franquias de clubes profissionais, que passam a ensinar a prática do futebol mediante contraprestação econômica. Com essa proposta objetivamos apontar em qual contexto socioeconômico torna-se possível o seu surgimento e como esse contexto influencia no envolvimento futebol-jogador, interferindo no processo de cultura. As discussões promovidas referem-se às atividades desenvolvidas pelo futebol profissional do Estado de São Paulo, Brasil e esse trabalho é resultado de pesquisa e de observação de campo em uma franquia do São Paulo Futebol Clube, sediada na cidade de Taubaté, interior paulista. Na oportunidade, analisamos os documentos jurídicos, administrativos e de marketing da franquia; realizamos entrevistas com dois treinadores e com o proprietário da mesma. Por trata-se de fenômeno recente que se enquadra nas tendências das Leis Zico e Pelé, elaboradas para “modernizar” o futebol no Brasil, esse movimento incorpora o lucro, a classe média, a urbanização e reivindica assumir o centro de uma “reengenharia” na organização do lazer popular: o futebol.

Introdução

A proposta deste trabalho é a de investigar as chamadas “escolinhas de futebol”, entendidas como entidades privadas, franquias de clubes profissionais, que passam a ensinar a prática do futebol mediante contraprestação econômica. Essa prática se traduz em um dos aspectos das transformações administrativas na estrutura do futebol profissional, promovendo interferências significativas no processo cultural de uma prática popular.

Essas interferências desencadeiam novos comportamentos e orientações de ordem sociocultural que colocam na cena esportiva o debate sobre a tensão tradicional versus moderno, presente em diversos trabalhos que tratam da antropologia urbana, em especial às vinculadas ao esporte.

As “escolinhas” nascem, enquanto movimento social, em face da “modernização” do futebol, caracterizadas dentro de perspectivas urbanas, como conseqüência, inclusive, do modo de vida das cidades, de atividades individualistas e competitivas presentes em nossa realidade e de práticas de consumo.

Com relação à “modernização” , não implica, necessariamente, em antecipar o fim de socializações tradicionais, de prática ou inserção ao jogo de bola com os pés, mas implica sim em restrições ou limites aqueles que não possuem a senha dos mundos contemporâneos: a capacidade de consumir.,

Neste texto partimos das concepções contidas no conceito mundos contemporâneos, elaborado por Marc Augé, em face do surgimento de novos fenômenos sociais de nosso tempo (mídia, formas de comunicação, rituais políticos, resignificação das representações sociais e simbólicas etc.). Embora não seja um argumento específico constituído a partir relações socioculturais produzidas no mundo do futebol, pensar com base na sugestão de Marc AUGÉ (1997: p. 186) requer o pressuposto inicial de que as relações individuais e coletivas nesse espaço perpassam pelo consumo e pelo espetáculo.

Equivale afirmarmos que o esporte não fica isento desse processo e, no caso das “escolinhas”, estes elementos são preponderantes ao entendimento do fenômeno. Aqui seria o caso de consignarmos que as atividades desencadeadas pelas “escolinhas” compreendem um conjunto constitutivo de outras representações e ritos sociais ao futebol, no que diz respeito à prática e à formação do jogador, e às pessoas que o cercam. As conseqüências de tais transformações abrem campo para os seguintes questionamentos: em qual contexto socioeconômico tornou-se possível o surgimento das “escolinhas de futebol” e como esse contexto influencia culturalmente em mudanças significativas no envolvimento futebol-jogador.

Portanto, objetivamos revelar o contexto socioeconômico desencadeador de mudanças culturais em um jogo popular, de rua e dos terrenos baldios.

No campo, durante os meses de janeiro a maio de 2000, monitoramos as atividades desenvolvidas pela franquia do São Paulo F.C. (São Paulo Center), sediada na cidade de Taubaté, SP. Durante o monitoramento, entrevistamos dois professores-técnicos de futebol empregados pela franquia, inclusive ao seu proprietário. Todos os passos foram combinados com análise dos documentos jurídicos, administrativos e de marketing relacionados às “escolinhas”, de um modo geral, disponibilizados pelos Clubes São Paulo F.C. (São Paulo Center), S.C. Corinthians Paulista (Chute Inicial) e S.E. Pameiras (Academia do Futebol).

Dois argumentos são importantes para justificarmos a escolha do lúcus da pesquisa. O primeiro, referente a escolha da franquia São Paulo Center do São Paulo F. C. sediada na cidade de Taubaté, tendo em vista a importância que o clube dá ao sistema organizacional, na perspectiva de clube-empresa, de marketing e de venda de sua marca. Para muitos é o clube tem a melhor infra-estrutura e administração esportiva do Brasil. O segundo, relaciona-se a proposta do deslocamento do eixo da grande São Paulo para o interior do Estado. Nesse aspecto, tivemos a pressuposição de que nas cidades de médio porte, com características mais conservadoras, porém com um certo desenvolvimento urbano e industrial, também aparecem as atividades sociais, culturais, esportivas e de lazer vinculados ao modo de vida urbano dos grandes centros.

De posse desses dados, privilegiamos o olhar dos entrevistados e, nesse prisma, buscamos explorar as mudanças de sentido e de significado entre futebol-sociedade-formação do atleta/praticante. Pelo olhar dos entrevistados, as franquias apresentam-se como um movimento importante, na medida em que se cria a expectativa de um ideal de ascensão social, em que se estabelece como um novo veículo de acesso a bens ligados à prática esportiva e a serviços de lazer. No argumento dos entrevistados destacamos ainda que as “escolinhas” atuam como um espaço de possibilidades diversas (entretenimento, consumo, sociabilidade etc) e de expressões corporais saudáveis à formação do inscrito. Tudo isso com a idealização de que os nossos filhos estão longe da insegurança das ruas e das drogas.

É a partir dessa pressuposição que pretendemos entender as “escolinhas de futebol” como um fenômeno recente que se enquadra nas tendências das Leis Zico e Pelé e dos movimentos de privatização do Brasil, datado do início dos anos oitenta, estando devidamente incorporado em suas atividades o lucro, a classe média, a urbanização. Em outros termos, elas reivindicam, em certo sentido, assumir o centro de uma nova na organização de um lazer popular: o futebol.

A profissionalização: aspectos e sentidos

A profissionalização do processo de formação do jogador de futebol redimensiona o sentido do lazer, deixando um simples “jogo de bola” de ser prazeroso e essencialmente lúdico. Em um sentido mais romântico, o esporte profissional extraiu a ingenuidade do “jogo”, sem tirar a possibilidade de o torcedor e o jogador terem a paixão pelo “jogo”.

Com todas as transformações em curso, aqui nos interessa evidenciar, apenas, os novos processos de formação do jogador de futebol, em especial as escolinhas de futebol, franqueadas, sem desconhecer a existência de outras formas e práticas de formação. No Brasil, é certo no imaginário comum que o jogador advinha de terrenos baldios, da periferia, dos campos de várzea, das ruas e das praias para os clubes, poucos eram de classe média ou alta. As indicações (dos olheiros, de diretores e de amigos) e as peneiras eram as fórmulas principais de seleção de jogadores e os clubes ainda têm esses sistemas de seleção.

No entanto, com o processo iniciado pelo São Paulo Futebol Clube e a partir das observações realizadas na franquia São Paulo Center de Taubaté, a formação do jogador es
ta alinhada aos interesses mercadológicos de privatização do lazer e às novas gestões organizacionais do futebol que centram, no caso das franquias, em uma estrutura empresa/lucro, restringindo a possibilidade de o esporte ser, inquestionavelmente, veículos exclusivos de realizações profissionais.

Resultado do surgimento da profissionalização administrativa do futebol, impulsionada pela Lei Zico e Lei Pelé, as “escolinhas de futebol”, franquias dos grandes clubes, coloca em questão o “ideal” da mobilidade social por intermédio da carreira esportiva. Esse movimento coloca em questão também o modo de formação de jogadores, ainda que seja no refluxo das transformações impulsionadas por esse processo.

Essas duas questões ficam mais visíveis quando projetamos as repercussões do artigo 27 da Lei Pelé. Esta Lei determina ao futebol postulações empresariais, com fortes vínculos (e relações) capitalistas, criando em sua volta uma verdadeira empresa que vai desde a formação do jogador até as sociedades anônimas.

Contudo, esta trajetória não é tranqüila e a todo instante vê-se tensões entre o tradicional e o moderno. Aqui, os termos tradicional e moderno são utilizados para referirmos aos modos de atuação em torno da Instituição futebol. Portanto, atrasado é tradicional e o novo (a transformação do clube em empresa e suas derivações de informação e tecnologia) é o moderno.

Dentro do foco temático, salientamos que a existência de movimentos transformadores à formação do jogador indica, inclusive, na possibilidade de uma re-ordenação e re-enquadramento ao modelo de seleção e agenciamento de atletas de alto rendimento. Ao falar sobre o surgimento do fenômeno “escolinha de futebol”, o perfil do atleta inclui a classe média. Esse modelo, longe de ser o único, começa a ganhar corpo, apresentando como um veículo capaz de formar atletas de reposição ao mercado e ocupar o tempo livre dos filhos da classe média.

Em conseqüência, falar sobre o fenômeno das franquiadas significa deslocarmos a discussão da formação do jogador profissional para o consumo dos bens produzidos em torno do futebol, pois as escolinhas se apresentadas como um espaço de “educação” esportiva, também educa ao mercado, ao trabalho e, como parte de emissão/recepção das idéias/valores ali produzidos, ao consumo.

No que diz respeito a formação do jogador profissional, a tendência do futebol é a de adequar-se às novas exigências do tempo atual. Tais exigências apontam para a revisão dos “modelos tradicionais” de seleção, de formação da mão-de-obra e para reiventar, a partir das novas formulações estruturais e organizativas em marcos mercadológicos, as perspectivas do futebol mercado e lucro.

As escolinhas: das ruas, dos terrenos baldios aos gramados sintéticos

Falaremos das chamadas “escolinhas de futebol”, enquanto modelo de excelência na formação do jogador de futebol, cujos objetivos são formação-venda do jogador e o ensinamento da prática esportiva profissional, mediante contra-prestação econômica. Empresas com fins lucrativos, filiadas às marcas dos clubes profissionais, que ensinam exclusivamente os jovens a jogarem, respeitando os fundamentos e as técnicas do jogo profissional.

Entender “escolinha de futebol” passa pelo pensar na re-organização do futebol. A partir dos anos oitenta ex-jogadores profissionais abrem “escolinhas”, na intenção de auferir lucro e ter espaço de trabalho no próprio esporte, para, depois, despertar os clubes a criarem a idéia de franquia ou da marca, adequando à lógica da reestruturação institucional em torno do futebol profissional.

No sentido econômico e dentro das tendências atuais, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, foi o primeiro jogador a criar um modelo de “escolinha”. O fato ocorreu nos Estados Unidos, já nos anos oitenta, pois os americanos e a Fifa queriam explorar o futebol naquele país. Pelé foi uma espécie de “garoto propaganda” da difusão do futebol nos Estados Unidos. Como jogador, após encerrar sua carreira oficialmente no futebol, atuou no Cosmos de Nova York e articulou na estruturação, em termos de base, do soccer americano.

Na verdade, o movimento “escolinha”, em termos de formação do jogador, não é acontecimento “novo” ou inédito no mundo do futebol. Na Espanha e na Argentina, por exemplo, as “escuelas deportivas” existem desde os anos setenta. O inédito é a venda da marca São Paulo Futebol Clube, Sociedade Esportiva Palmeiras, Sport Club Corinthians Paulista: as franquias.

Na tentativa de explicarmos o que vem a ser “escolinhas de futebol”, entende-se que elas possuem os seguintes aspectos: (A) a formação e a venda da mão-de-obra produzida; a busca pelo alto rendimento dos alunos; a relação clube-franquia e seus reflexos; e, adequação à disciplina das regras do “jogo” e à ordem social vigente e (B) a organização do lazer dos filhos da classe média; e, aspectos pedagógicos e didáticos.

No que tange ao item “A”, as “escolinhas” renovam o processo de formação e impõem um elemento a mais, de cunho comercial-empresarial, adequando às novas tendências impostas com o advento da Lei Pelé (Lei n° 9615/98).

Nem todas as “escolinhas de futebol” têm o objetivo de formar jogador para vendê-lo posteriormente. Algumas delas permanecem em auferir lucros sendo suporte de lazer à classe média, em princípio . O modelo mercado-lucro não é o único, pois existem outros modelos de caráter social. Contudo, não se pode negar que o fenômeno está aí e apresenta-se com um modelo de excelência com possibilidade de selecionar jogadores ao futebol profissional, aos olhos de muitos.

Não há uma discussão aprofundada sobre a relação jurídica-comercial entre clube e franquia, no que se refere a comercialização dos alunos das escolinhas. Enquanto franquias dos grandes clubes de futebol, as escolinhas visam expandir uma marca e ganhar um sentido empresarial. Seguramente, diferem das formas convencionais de agenciamento de jogadores.

Como se dá a relação jurídica franquia e clube? No caso do São Paulo Futebol Clube, primeiro clube a fazer este tipo de empreendimento, sabe-se que a relação se dá pela concessão do uso da marca e em contrapartida o concessionário da marca recebe instruções sobre os métodos de treinamento e marketing. Dentro das estratégias de marketing incorporam-se as visitas ao Centro de Treinamento dos Clubes, a possibilidade dos alunos assistirem alguns jogos da equipe profissional, terem contato com os jogadores, incluindo os autógrafos, e a participarem de clínicas, dentre outras atividades.

O valor de uma franquia gira em torno de 5 a 20 mil dólares, valores cobrados para o uso da marca São Paulo Futebol Clube, Sociedade Esportiva Palmeiras, Sport Clube Corinthians Paulista. O empresário além de pagar pela franquia ou o uso da marca, encaminha mensalmente um percentual do faturamento ou das mensalidades efetuadas, girando em torno de 5% (cinco por cento) a 20% (vinte por cento). No caso da São Paulo Center, unidade de Taubaté, o valor é de 10% (dez por cento) do faturamento.

Por outro lado, mesmo inexistindo contratos expressos sobre o agenciamento do atleta, a franquia se obriga, cavalheirescamente, em encaminhar os jogadores de alto nível aos testes no clube vendedor da marca, preferencialmente. A obrigação se desfaz caso o clube dono da marca não aprovar o jogador testado.

O proprietário da marca fica com a exclusividade de testar ou de liberar o jovem formado pela franquia. Resta aos negociantes, conforme depoimentos coletados, confeccionar as regras jurídicas da relação comercial. Esse sistema empresarial, tanto as franquias como os centros empresariais de treinamentos, que aponta para ser “modelo” à formação do jogador profissional de futebol.

No que tange ao item “B”, não é novidade
que pessoas abnegadas formavam equipes de ruas, de bairros, de comunidades, longe das pretensões profissionalizantes. Essa movimentação era uma forma de prática de iniciação ao “jogo” e, em muitos casos, os abnegados tinham vínculos com clubes amadores ou com atividades advindas da várzea. Os garotos “formados” nesse processo eram recrutados, selecionados e agenciados ao futebol profissional. Nesse sentido, essas práticas poderiam ser consideradas como uma forma de “escola”.

Sabe-se que do final dos anos sententa em diante as organizações de futebol e recreativas começaram a contratar professores de educação física e ex-jogadores de futebol para ampliarem o lazer dos filhos de seus sócios e a ensinarem a garotada à prática do esporte mais popular em nosso país: o futebol.

Até, então, falar de “escolinha de futebol” era coisa de criança sem habilidade ao “jogo”, geralmente com pouca disposição à prática. A “escolinha” era o espaço apropriado para os garotos que não sabiam jogar futebol, mas tinham a vontade e a carteira social do clube. Nos jogos de rua, esse garoto só jogava quando era o dono da “bola”.

Com a expansão urbana e a diminuição dos espaços para a prática do jogo de bola, com o medo da violência das ruas, com o lazer tecnológico em plena ampliação e com inúmeras outras preocupações sociais, o lazer e o tempo livre passam a ser organizados a partir da lógica empresarial e do consumo. As franquias são exemplos desse processo. Porém, elas não são só isso, ou seja, têm relevantes papéis pedagógicos e didáticos (econômicos, culturais, sociais, corporais, imaginários e simbólicos) na constituição e na formação do sujeito-aluno.

Além do comprometido com o ensino dos fundamentos do futebol, observa-se que as franquias estão comprometidas com a reestruturação do lazer e se adequando às exigências das regras do “jogo” e à ordem social vigente. O aluno, independente de seus objetivos, é educado às exigidas que cercam o futebol. Podemos dizer que o papel esportivo e social da “escolinha” é o de formar pessoas integradas às coisas do esporte. Na escolinha o aluno aprende a educar seu corpo, a respeitar o adversário, a jogar futebol e suas técnicas e, sobretudo, os valores difundidos naquele espaço de relações.

O argumento que consideramos é o de que o futebol não é um elemento natural, biológico, nascido com as pessoas. É, na verdade, elemento da cultura que ganha importância e sentido social em nosso meio. Em outras palavras, o que estamos tentando dizer é que o futebol se transformou em um forte sistema simbólico, enquanto conjunto de significados, a partir da cultura, forjando, do ponto de vista do imaginário, o modo brasileiro de ser. Nesse contexto, colabora para constituição de nossa identidade nacional, produzindo e reproduzindo identificações e significantes.

Por outro lado, ao futebol vemos aglutinar um número expressivo de pessoas e podemos dizer que poucas instituições sociais permitem uma identificação simbólica tão forte, emprestando um dos argumentos de Roberto DA MATTA (1982), sob o ponto de vista do torcedor e da relação iniciante-iniciado.

Em síntese, ao tentarmos entender o fenômeno das franquias com ênfase sobre os itens “A” (adequação à disciplina das regras do “jogo” e à ordem social vigente) e “B” (a organização do lazer dos filhos da classe média; e, aspectos pedagógicos e didáticos), demarcamos a existência de novas produções organizacionais restritas à Instituição Futebol e seus desdobramentos socioculturais. Dito de forma diferente, o esporte está repleto de componentes significantes que possibilitam a criação de instâncias que impulsionam desejos, no caso, ligados ao esporte-consumo-empresa-lucro-classe média.

Conclusão

Apontamos que a “escolinha de futebol” não é um fenômeno recente. Recente são os seus aspectos empresarial e lucrativo, ou seja: as franquias. Dentro desse contexto, a reorganização do lazer e do tempo livre, por intermédio do jogo de bola, revela-se em um tema importante para pensarmos os sentidos e os aspectos da modernização do futebol no Brasil.

Pensarmos em tal processo torna-se um exercício para capturarmos novas produções simbólicas e imaginárias, impulsionadas pelas transformações tecnológicas, econômicas, políticas e socioculturais de nosso tempo. O ufanismo pela modernização é muito mais contagiante do que reflexivo. A reflexão acadêmica não deve deixar de se valer dos olhares realistas e compromissados com a crítica, no momento de se fazer leituras sobre esse processo.

Como uma verdade possível, observamos que está ocorrendo uma elitização do acesso dos jovens à profissão de jogador. Necessariamente essa elitização não é determinante, porém, esse acontecimento se traduz em uma exigência do processo empresarial-mercadológico na formação do jogador, cuidando as estratégias de marketing e de re-organização do lazer e do esporte em tomar frente no gerenciamento desse movimento.

Diante deste quadro, consignamos alguns aspectos que facilitam a identificação do que venha a ser franquias ou escolinhas de futebol franqueadas:

– As escolinhas fraqueadas são marcas de grandes clubes, “São Paulo Center” do São Paulo F.C., como exemplo, exploradas por terceiros mediante contrato. O contrato, via de regra, se dá por tempo determinado, renovável ou não, de acordo com a conveniência das partes.
– O valor do uso da marca gira em torno de 5 mil a 20 mil dólares, além dos royalties mensais, em torno de de 5% a 20% sobre as mensalidades.
– As escolinhas são obrigadas a utilizarem os materiais oficiais do concessionário, o que dá a idéia ao aluno da escolinha de que é um jogar do clube proprietário da marca.
– O concessionário dá assessoria e todo suporte (equipamentos, estrutura física, instalações, treinamentos, administrativo etc), pelo mesmo em tese, para promover qualidade da prestação de serviços.
– Há um marketing satisfatório ligando a empresa de ensinar a jogar futebol com o clube concessionário da marca, incluindo visitas periódicas ao estádio, centro de treinamento e acompanhamentos de alguns jogos, em média duas vezes ao ano. Inclusive, acontecem clínicas periódicas oferecidas pelos jogadores do clube às “escolinhas” e durante os contatos dos profissionais com os alunos há possibilidades de autógrafos.
– As escolinhas indicam a existência de um modelo de excelência na formação do jogador de futebol profissional e se predispõem substituir todas as formas de seleção de jogadores ao futebol, pelo menos enquanto idealização de um projeto.

Por fim, vale ressaltar que o clube, os pais e os alunos acreditam que a “escolinha” pode ser um meio de eliminar etapas para o sucesso na carreira ou na seleção dos profissionais. No caso, aos clubes acrescentam sobre a venda de sua marca a venda de produtos esportivos, o ganho de receitas e a vitalização dos torcedores.

Mas, para além desses argumentos, uma coisa é certa: as franquias, escolinhas de futebol, incorporando uma estrutura empresarial, o lucro e a classe média reivindicam, em todos os sentidos, assumir o centro de uma reengenharia na organização do lazer popular.

Bibliografia

AUGÉ, Marc. Por uma Antropologia dos mundos contemporâneos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.
HUIZINGA, Johan. Homo Ludens: o jogo como elemento da cultura. São Paulo: Perspectiva, 1993.
CAILLOIS, Roger. “Jogo e Sagrado”. In: O Homem e o Sagrado. Lisboa: Edições 70, 1988.
PIMENTA, Carlos Alberto Máximo. O Processo de Formação do Jogador de Futebol no Brasil: sonhos, ilusões, frustrações e violências. São Paulo: PUC (Tese de Doutorado- Programa de Ciências Sociais), 2001.
GRANADOS, Santiago Romero.El Fenomeno de las Escuelas Deportivas Municipales: nuevos modelos y necesidades
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FERRER, Antonio Wanceulen. Las Escuelas de Fútbol: organización de la función social y de los aspectos físico-técnicos. Sevilla: Libraria Esteban Lanz Martirez, 1982.
ARCE, Gustavo. El Fútbol: Mucho más que una Pasión… para Infantiles, Juveniles y Mayores. Buenos Aires: Ministerio de Gobierno y Justicia/Instituto Bonaerense del Deporte (s/d).
DA MATTA, Roberto. Universo do Futebol: esporte e sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Edições Pinakotheke, 1982.

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Prazer, meu nome é João

O que seria do futebol sem o técnico? Será que os jogadores conseguiriam se entender em campo sem suas recomendações? Talvez essas respostas sejam difíceis, já que de um modo ou de outro nunca vimos um time sem técnico.

Eduardo Galeano, no livro “Futebol ao sol e à sombra“, fala sobre essa figura que chega a ser quase mítica. Personagem que tanto jornalistas quanto torcedores adoram usar em seus diálogos, textos e conversas de botequim. Galeano afirma: “antigamente, existia o treinador, e ninguém dava muita atenção a ele. O treinador morreu de boca fechada, quando o jogo deixou de ser jogo e o futebol profissional precisou de uma tecnocracia da ordem. Então, nasceu o técnico, com a missão de evitar a improvisação, controlar a liberdade e elevar o máximo o rendimento dos jogadores, obrigados a transformar-se em atletas disciplinados”.

No futebol brasileiro, alguns técnicos marcaram minha pequena “experiência” no mundo do futebol. Quando criança, início da adolescência, Telê Santana. Figura do “avô”, que transparecia docilidade, que sabia transformar um bando de garotos em exímios jogadores, que unia disciplina técnica ao tão sonhado futebol-arte.

Já na metade da década de 90, dois personagens de um mesmo time: Vanderlei Luxemburgo, jovem treinador vindo do Bragantino para fazer história no Palmeiras. Técnico sonhado por dez entre dez torcedores por sua visão tática. Paradoxal: cinco vezes campeão brasileiro e sem título na Copa Libertadores; Luis Felipe Scolari, vindo do sul para se aventurar em terras paulistas, amado por praticamente todos os torcedores do mesmo Palmeiras. Recebeu duras críticas por ser considerado um técnico retranqueiro, de jogo feio e que até mandava bater nos adversário. Em 2002, caiu nas graças do povo brasileiro ao conquistar a Copa do Mundo, com a tão impensada, à época, “família Scolari”.

Nos tempos de hoje, dois extremos: Muricy Ramalho e Mano Menezes. O primeiro, altruísta, de antecipar os fatos dentro de campo, de reproduzir em campo, com quase 100% de acerto, as divagações táticas da prancheta. Folclórico por suas ranhetices e mau-humor com imprensa e afins. O segundo vindo da ‘escola de futebol do sul’, que na visão de muitos, tende a ser mais de força do que técnica. Observador, equilibrado, baixo tom de voz, sempre muito educado em suas respostas. Alguns acharam estranho vê-lo dirigindo o Corinthians, que por si só deixaria qualquer um sob tensão. Mas talvez aí esteja o contraponto para se treinar um time de massa.

Para eles, Eduardo Galeano diria: “o técnico jamais conta o segredo de suas vitórias, embora formule explicações admiráveis para suas derrotas (…) a engrenagem do espetáculo tritura tudo, tudo dura pouco e o técnico é tão descartável como qualquer outro produto da sociedade de consumo”.

Pensando por esse aspecto, me vem à mente uma figura apaixonante, que conheci melhor há pouco tempo. Um homem destemido que Nelson Rodrigues, em uma crônica, chamou de João Sem Medo.

João Saldanha nasceu em Alegre, no Rio Grande do Sul. De família politizada, logo se tornaria membro do Partido Comunista. Amante do futebol desde a infância, pelos ofícios do pai, mudou-se para o Rio de Janeiro na juventude. Lá descobriu os prazeres da vida, entre eles sua paixão pela bola. Foi jogador do Botafogo por alguns anos. Tempos depois, começou sua incursão como treinador de futebol. E todos admiravam aquele franzino homem à beira do gramado com seu cigarro na boca, transformando jogadores em ídolos.

Também se aventurou nas artimanhas da escrita. É, até hoje, um dos mais respeitados cronistas esportivos. Foi apresentador de um programa esportivo na televisão, comentarista amado e venerado por todos os torcedores. Não havia quem fosse ao Maracanã sem o seu radinho de pilha grudado ao ouvido para escutá-lo.

Talvez uma de suas passagens mais importantes na história do futebol brasileiro tenha sido ter assumido o cargo de treinador da seleção nacional nas eliminatórias para a Copa de 70. Depois da campanha pífia em 1966, o brasileiro perdera sua auto-estima “futebolística”. Em 1969 Saldanha, comunista, em meio ao período ditatorial, é convidado pelo então presidente da CBD, João Havelange, a assumir a equipe canarinho.

Havelange alegara à época que convidou Saldanha para o cargo de treinador para que os jornalistas fizessem menos críticas à seleção, tendo um deles no comando. Fato é que, com seu modo próprio de tratar os jogadores, sem grandes frescuras e com uma linguagem muito direta, João Saldanha levaria o time brasileiro à Copa mais famosa de nossa história.

Na biografia escrita por André Iki Siqueira, “João Saldanha – uma vida em jogo“, é claro o saudosismo de Tostão, Gérson. O canhotinha de ouro revelou: “democrata por um lado e disciplinador por outro. As concentrações tão famosas pelo carteado eram muito diferentes sob a batuta de Saldanha. Ele sabia que a rapaziada gostava de jogar baralho. Me chamou e disse: Gersón, você sabe, eu já falei para esses caras: meio-dia, eu quero todo mundo na mesa; Senta na mesa quinze para o meio-dia, e meio-dia eu vou servir o almoço. Quero todo mundo lá. E sete horas da noite quero todo mundo na mesa também. Quem não estiver fica sem almoço e janta”.

Infelizmente, a história de João no comando da seleção não duraria muito tempo. Tempos antes da Copa de 70 ele foi demitido do cargo. Há quem diga que sua saída tenha sido ordenada pelo então presidente Emílio Garrastazu Médici, que queria “escalar” jogadores no time. E assim, Saldanha teria dito uma de suas famosas frases: “o presidente cuida de seu ministério, mas quem toma conta daqui sou eu”.

Outros acreditam que além desse fato, a saída de Saldanha foi inevitável pelas jogadas de bastidores que até hoje assolam a CBF. Daquelas tentativas de criar personagens e ídolos que se reverenciem às ordens superiores e não tenham atitudes próprias. Depois de sua demissão, ele foi substituído por Mário Jorge Lobo Zagallo, que logo quando Saldanha assumiu o cargo da seleção brasileira, fez críticas ao seu sistema de trabalho.

Por sua postura firme e irrefutável, duvido que hoje algum Código Brasileiro de Justiça Desportiva conseguiria “calá-lo”. Ou mesmo se entregaria os pontos, dizendo-se cansado depois de perder algum título pelo Botafogo como fez seu sobrinho, Bebeto de Freitas, após a decisão da Taça Guanabara de 2008. Ele simplesmente diria: “Prazer, meu nome é João”.

* Jornalista, pesquisadora de futebol com o tema Crônicas Esportivas, membro do Gief e do Memofut.

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A relação entre o ambiente e o ´sujeito-torcedor´

Introdução

O espetáculo futebolístico entra em cena. Mais do que a própria prática esportiva, o futebol em seus espaços de consumo [1] é composto por uma gama diversa de elementos simbólicos. Estes ambientes são marcados por holofotes, refletores, câmeras, imagens e sons mas, principalmente, pela atuação de milhares de sujeitos, que em seus mais diversos papéis, participam da orquestração de um ritual presente cotidianamente no interior de nossas vidas.

A intrínseca relação entre a construção identitária do “sujeito torcedor” [2] com os diversos ambientes e esferas, compõe um universo simbólico adjacente ao futebol. Para os propósitos deste artigo, optamos por estabelecer um recorte específico e paralelo da construção da esfera doméstica – a recepção futebolística pela televisão com o fenômeno dos estádios de futebol – local onde os sujeitos se agrupam em coletividades relacionais com este esporte. Assim, tentaremos refletir sobre a relação entre estes dois ambientes de consumo do futebol e a negociação identitária do “sujeito-torcedor”, a partir de princípios sistêmicos, relacionais, interativos, dialógicos.

A recepção doméstica

A partir dos dispositivos intrínsecos à televisão, a recepção do futebol adquire no ambiente doméstico, um status de “construto”. Este conceito pode ser descrito como uma prática construtora de sentidos, de negociações, da captação entre a instância midiática e o sujeito. Importante dizer que a transmissão das partidas pela televisão não é igual ao jogo em si já que é um produto midiático com narrativas específicas, imagens diversas, replays a todos os instantes e múltiplas informações que são alheias à disputa esportiva. A locução dos narradores é recheada de metáforas e expressões entusiasmadas que, aliadas ao som ambiente das torcidas, convidam o sujeito a interagir com o “clima” da partida.

Assim, o ambiente doméstico na recepção de partidas de futebol, gera novas formas de sensibilidade e participação a este “sujeito-torcedor” pois distintamente do ato de torcer nos estádios, proporcionam uma nova forma de experiência que é mediada pela televisão e pelos seus dispositivos. Novos gostos são construídos, completamente distintos da sociabilidade empregada em contato com milhares de outros sujeitos no estádio. O roçar das massas é insubstituível, nos termos de Elias Canneti [3]. E além disso, as transmissões televisionadas desse evento esportivo nos oferecem um grande leque de observações sobre a experiência do futebol midiatizado através do ritual como processo comunicativo. A ritualidade, para Martín-Barbero (2004), é o que “na comunicação há de permanente reconstrução do nexo simbólico: ao mesmo tempo repetição e inovação, âncora na memória e horizonte aberto. É o que no intercâmbio há de forma e de ritmo” (p.231).

Silverstone (1996) amplia a análise da recepção televisionada como uma atividade “essencialmente” doméstica, apontando para três dimensões da domesticidade. Na primeira dimensão, o autor aponta o lar, ambiente onde a presença da televisão e de seus programas diários e reconhecíveis, tem uma forte interferência simbólica na identidade cotidiana das pessoas. A constituição do lar, nesse sentido, oferece uma seqüência de interesses fenomenológicos ao bojo das pesquisas de recepção.

A família, segunda dimensão observada pelo autor, possui um papel mediador em relação à maneira como os conteúdos televisivos penetram e entrelaçam a vida cotidiana de seus usuários. Devemos considerar, é claro, eventos mais diretos onde o seio familiar se estrutura em torno de eventos envolvendo o futebol, em sentidos mais amplos, como uma Copa do mundo, identificando esta esfera como “um espaço cultural, no qual as mensagens da mídia são mediadas” (p.38). Vista como a terceira e última dimensão da domesticidade, a moradia é a unidade econômica e cultural relacionada à esfera doméstica. As moradias podem ser entendidas como espaços de conforto, alicerçados entre o privado e o público.

A experiência no estádio

Diferentemente do ambiente doméstico, o “sujeito-torcedor” nos estádios, participa de uma outra forma de experiência em seu consumo do futebol. Os sujeitos em contato com as torcidas organizadas, por exemplo, transformam os estádios em seus palcos de reconhecimento pois o fenômeno está, justamente, na partilha intersubjetiva dos “sujeitos-torcedores” e na transformação destes indivíduos em massas.

Constrói-se um macrossistema classificatório entre os grupos participantes, através das afinidades e adesões às cores, símbolos, bandeiras e distintivos (Toledo, 1996, p.40). Estes “sujeitos-torcedores” nos estádios acionam os símbolos distintivos e linguagens que marcam a identidade individual de cada um deles mas também do grupo, afirmando visibilidade diante das demais torcidas.

As vestimentas tais como camisas, bermudas, calças, agasalhos, toucas e bonés são símbolos de pertencimento à totalidade, proporcionando visibilidade e reforçando o pacto junto aos demais “sujeitos-torcedores”. A identificação visual dos indivíduos nos estádios é uma forma de configurar a totalidade do fenômeno, ordenando a prática simbólica na inscrição do torcedor. Assim como os cantos entoados em coro junto da cadência imposta pelo ritmo dos bumbos, tamborins, caixas e outros instrumentos que compõem os sonos que ecoam na configuração simbólica inserida no ritual partilhado.

Nos estádios de futebol, a experiência do futebol para o torcedor fica ainda mais intensa pela presença física e direta ao evento. Mesmo com a costumeira mediação do aparato midiático (o radinho de pilhas que anuncia ao sujeito todas as informações sobre a partida em questão), os diferentes momentos do jogo assumem uma configuração distinta do ambiente doméstico justamente pela possibilidade da inserção na coletividade. A construção do “sujeito-torcedor”, no estádio, é um processo marcado pela interação coletiva, pelo dialógico, pelos distintos momentos relacionais que se desenvolvem no antes, durante e no pós jogo com os demais sujeitos.

As trocas de símbolos e sinais de significação durante os rituais nos estádios de futebol são atividades discursivas, ou mesmo, práticas narrativas. As linguagens construídas e re-construídas nestas trocas simbólicas tornam-se constitutivas das redes de sociabilidade e fazem parte deste processo de comunicação. O ato de torcer, de tornar-se torcedor, é por si só, uma transmissão de experiências, garantia de construção destas linguagens que sustentam o fenômeno do “sujeito-torcedor”.

Toledo (1996) afirma que estas práticas narrativas são legitimadas porque a subjetividade consciente de um Nós neste universo simbólico formatado nos estádios, interfere na lógica de parte cotidianas e rotineiras na cidade pois ao assumirem preferências pelas cores, símbolos e marcas de cada torcida organizada, estes indivíduos referendam condutas específicas diante de outros grupos, na escola, no trabalho, na vida privada, no próprio cotidiano.

Neste sentido, a rede de sociabilidade canalizada pelo futebol nos estádios, impõe um sistema de diferenciações pode se abrir às negociações, ao indeterminado, à violência ritual (consagrada nos clássicos regionais, por exemplo), à afirmação diante do outro. No estádio, a identidade do “sujeito-torcedor” se constrói, além de outras práticas e processos, nestes rituais partilhados entre o Nós com o Eles. O reconhecimento da diferença como fator propulsor da construção identitária é uma relação social configurada pela ação comunicativa dos sujeitos. A presença do outro é fundamental para a construção dos sentidos.

Conclusões Preliminares

A discussão por onde perpassou o presente artigo é longa e suscinta novas questões que ainda pode
m ganhar fôlego com novas leituras e estudos a serem desenvolvidos. Acreditamos que o válido o certo é que mais do que apontar as diferenças de cada ambiente descrito em sua relação com o “sujeito-torcedor”, o mais valioso desta discussão é reconhecer que o processo identitário fomentado é uma atividade simbólica que invade os diversos níveis e esferas do cotidiano social.

Seja no ambiente doméstico, onde a inserção da televisão na rotina e rituais da vida cotidiana da grande maioria dos sujeitos, torna o futebol um elemento direto na construção do “torcedor”, tanto pela freqüência quanto pela regularidade das transmissões e neste caso é preciso pensar a esfera privada, na transmissão das partidas de futebol, como uma arena de trocas comunicativas e culturais.

Ou mesmo no que concerne ao estádio é bem claro apontar quais são os símbolos, atos e significados que assim como na recepção doméstica, nos indicarão a um processo de configuração identitária do “sujeito-torcedor”.

Giulianotti (2002), afirma que os rituais de pertencimento nos estádios de futebol, assemelham-se a condutas religiosas pois “o estádio oferece o mais profundo ambiente para a adoração. (…) As cores das torcidas denotam sua identidade tribal (…) O entusiasmo é aumentado pelas torcidas rivais pulando e ao mesmo tempo cantando seus hinos” (2002: 37). E como futebol e religião são dois fenômenos presentes nas narrativas dos sujeitos sociais, podemos dizer que independente do ambiente, as identidades se constrõem e re-constrõem nas interações cotidianas.

* Jornalista e Especialista em “Imagens e Culturas Midiáticas” pela UFMG. Coordenador do Cepif (Centro de Pesquisas Interdisciplinares do Futebol) e Bolsista AT do Grupo de Pesquisa em Mídia e Esfera Publica (EME) do PPGCOM – UFMG. Contato: andrempaim@yahoo.com.br.

Notas

[1] É preciso deixar explícito que o verbo consumir, neste artigo, não recebe conotações comerciais, no sentido de uma oferta e de compra. A noção de consumo do futebol parte de uma experiência de recepção, de captação, de atividade e negociação do sujeito.
[2] Em minhas pesquisas, venho trabalhando com esta noção de “sujeito-torcedor”, a partir do processo de negociação identitária (a partir de re-leituras, re-significações e re-apropriações) entre sujeitos com a instância midiática, mais especificamente no processo de recepção televisionada de partidas de futebol. Neste artigo, entretanto, tentarei estender este conceito para a esfera pública, pois acredito que os estádios de futebol são locais que fomentam a construção de identidades, sejam estas coletivas ou individuais.
[3] CANETTI, Elias. Massa e poder. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Bibliografia

BARBERO, Jésus Martín. Ofício de cartógrafo. Travessias latino-americanas da comunicação na cultura. São Paulo: Edições Loyola, 2004.
GIULIANOTTI, Richard. Sociologia do Futebol – Dimensões históricas e socioculturais do esporte nas multidões. São Paulo: Nova Alexandria, 2002.
SILVERSTONE, Roger. Por que estudar a mídia? São Paulo: Loyola, 2002.
TOLEDO, Luiz Henrique. Torcidas Organizadas de Futebol. Campinas, SP: Autores Associados/Anpocs, 1996.

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Fora do Jogo

O nome desse artigo é o mesmo do filme que está em cartaz em alguns cinemas de São Paulo. Fora do Jogo é uma produção iraniana que trata da exclusão das mulheres no esporte mais popular do planeta: o futebol. O nome do filme, em inglês, é Offside. Esse termo inglês foi utilizado por muito tempo no Brasil, até ser traduzido como impedimento.

Pretendo nesse texto fazer uma associação entre exclusão das mulheres iranianas e da possível “punição” que a bandeirinha brasileira Ana Paula – que está estampada nas capas da revista masculina Playboy do mês de julho – poderá sofrer. O que está por trás da questão retratada no filme e do desdobramento da atitude da Ana Paula é a velha questão do futebol como um espaço reservado masculino.

No Irã as mulheres não podem assistir aos jogos de futebol, pois há uma lei que as impedem de freqüentar os estádios. O que o filme mostra, num tom até documental, é a tentativa de muitas mulheres em assistir a partida das eliminatórias, contra a seleção do Bahrein, que valia uma vaga na Copa do Mundo da Alemanha de 2006. A gravação do filme aconteceu ao mesmo tempo em que o jogo se passava e mostra a tensão das mulheres que não conseguiram burlar o sistema e foram “presas” pelos seguranças. Presas porque são colocadas numa espécie de “cercadinho”, atrás das arquibancadas. De lá só conseguem ouvir os gritos da torcida, o que faz aumentar ainda mais a ansiedade.

Apesar de existir uma lei que as proíbe as mulheres de irem aos estádios, muitas, inconformadas com essa medida, tentam assistir à partida disfarçadas de homens. A proibição acontece porque as mulheres não devem ser colocadas diante dos palavrões que os homens falam nesses locais; não devem estar em um local em que há predominância do sexo masculino; enfim, consideram que as mulheres devem ficar com a família.

No Brasil, diferentemente do Irã, as mulheres freqüentam os campos de futebol. Atualmente, conquistaram espaços que antes eram exclusivos dos homens: o trio de arbitragem. Há um código estabelecido no futebol de que os árbitros devem ser xingados. Tão logo pisam no gramado, já recebem as saudações da torcida. Quando o jogo inicia, nunca conseguem agradar os dois lados, e muito menos as torcidas.

Com a entrada das mulheres nesse campo que era exclusivo dos homens, elas não conseguiram mudar o quadro estabelecido de que o árbitro deve ser xingado. O que aconteceu é que foi acrescentado uma série de “elogios” quanto ao seu corpo. Termos como gostosa, linda e muitos outros foram incorporados no repertório lingüístico dos campos de futebol.

Em pouco tempo de carreira, Ana Paula conseguiu conquistar um grande espaço no cenário futebolístico brasileiro. Iniciou em 1998 e após três anos fez sua estréia no Campeonato Paulista da primeira divisão. Chegou a compor o trio de arbitragem em algumas finais (Paulista 2003, 2004 e 2007; Copa do Brasil 2006) e participou do jogo válido pelas quartas-de-final da Olimpíada de 2004.

Após conquistar seu espaço nos campos de futebol, em 2007 cometeu sucessivos erros em algumas partidas (São Paulo x Santos e Botafogo x Figueirense) e foi suspensa pela Comissão de Arbitragem da CBF. Afastada dos grandes jogos chegou até atuar como árbitra de um jogo de várzea. Nesse ínterim, foi reprovada no teste físico promovido pela Federação Paulista de Futebol.

Diante de tantos problemas encontrados nos últimos tempos no futebol, resolveu aceitar o convite da revista masculina “Playboy”, mesmo que isso cause problemas no meio futebolístico. O presidente da Comissão de Arbitragem da CBF, Edson Rezende, reprovou a atitude da auxiliar: “Acho que profissionalmente isso não vem a acrescentar nada. Uma pessoa pública deve evitar alguns comportamentos”.

Lembramos que o futebol é um espaço dominado pelos homens e que nos campos de futebol são permitidas algumas atitudes que fora dele são reprimidas. Caso a bandeirinha volte a atuar, terá que estar preparada para ouvir alguns elogios à sua performance fora das quatro linhas. Os comentários podem não ficar somente na torcida, já que os jogadores também podem tecer comentários no sentido de tentar desestabilizar a assistente.

Dunning (1992) afirma que o esporte é uma das principais áreas reservadas masculinas. Analisa os jogos populares medievais e acredita que essas práticas estavam vinculadas à estrutura da sociedade da época, onde a violência era uma característica mais regular e manifestada no dia-a-dia. Para ele, esses jogos expressavam o regime patriarcal daquela sociedade. Os espaços que eram controlados pelos homens serviam para reforçar a masculinidade e denegrir a imagem das mulheres.

Moura (2005) vai mostrar que nos EUA o futebol tornou-se um esporte feminino. Nessa sociedade, outros esportes ocupam e dividem a paixão dos americanos: o beisebol, o futebol americano e o basquetebol. Nesses esportes, afirma o autor, são reforçados os valores da sociedade e do imaginário americano que estão ligados à masculinidade.

Segundo Franzini (2006), apesar do envolvimento cada vez maior das mulheres com o universo do futebol, a identidade masculina criada e constantemente reafirmada ao longo da história da bola no Brasil ainda faz com que boa parte das mulheres sequer se reconheça no jogo – “coisa de homem”.

O que aproxima as mulheres iranianas da trajetória da assistente Ana Paula é a possibilidade de estar fora do jogo. Enquanto as iranianas são proibidas de freqüentar espaços onde predominam os homens (leia-se futebol), Ana Paula poderá ter sua carreira prejudicada por conta das fotos para uma revista masculina.

O que está por trás dessas duas sociedades é a luta das mulheres em busca de um espaço igual ao dos homens. Lutam para que um dia seja normal ter mulheres xingando e torcendo nos campos de futebol do Irã tanto quanto ser normal uma mulher pública posar nua e não ser reprimida moralmente.

* Mestre em Educação Física pela UNICAMP e integrante do Gief (Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol); do Gef (Grupo de Estudos sobre Futebol da Unicamp), coordenado pela profª. Drª. Heloísa Reis e do GEPEFIC (Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação Física e Cultura), coordenado pelo prof. Dr. Jocimar Daolio. Contato: ssgiglio@gmail.com

Referências Bibliográficas

Dunning, Eric. O desporto como uma área masculina reservada: notas sobre os fundamentos sociais na identidade masculina e as suas transformações. In: ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992.

FRANZINI, F. Em posição de impedimento: as mulheres no país do futebol. ComCiência. Revista Eletrônica de Jornalismo Científico, v. 79, p. 8, 2006. http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=16&id=154

MOURA, Eriberto L. O futebol como área reservada masculina. In: DAOLIO, Jocimar (org.). Futebol, cultura e sociedade. Campinas: Autores Associados, 2005.

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Pequenas lembranças, grandes acontecimentos

Agora em julho relembramos e vivemos dois momentos antagônicos para o futebol brasileiro: os 25 anos da tão comentada “Tragédia do Sarriá” e a vitória, até certo ponto, inesperada de nossa seleção brasileira na Copa América, na Venezuela.

Esses momentos são antagônicos porque em 1982 éramos os grandes favoritos para a conquista do Mundial da Espanha e, no entanto, esbarramos na agilidade de Paolo Rossi em dominar e acertar três vezes o fundo do gol brasileiro. Na Copa América, a seleção com as renovações que não agradam a grande parte de especialistas e torcedores estava fadada às criticas e comparações e o pior, a ser considerada apenas coadjuvante numa competição em que, até a decisão, a seleção argentina deu show com os pés e era a grande favorita.

Não tenho referências afetivas de 1982, pois não era nascida. Apenas vi cenas e li textos daquele dia considerado por Alberto Helena Júnior, grande jornalista, o fim do futebol-arte. Essa discussão entre futebol-arte e futebol-força, ou de resultados, é extensa, por isso não a faço completamente neste texto. Mas ela serve de pano de fundo para comentar sobre como nossas referências no futebol são criadas e recriadas em cada momento.

“As experiências não se transmitem. Cada um faz do seu jeito”, já dizia Tostão em uma crônica. E essas experiências podem ser construídas em três níveis:o real, o simbólico e o imaginário. O real, segundo o famoso psicanalista Lacan, é o mundo da natureza, dos instintos e dos desejos irracionais. E que, para o homem evoluir, ele precisou reprimir seus instintos e criar o mundo do simbólico, da civilização e da cultura. Esse é o mundo em que vivemos na maior parte dos tempos.

Símbolo é o que idealizamos e o que representamos. E se fizermos uma comparação com o futebol, nossas escolhas pelos times e por um sistema tático pode demonstrar o quanto, durante os 90 minutos de jogo, a nossa vida se transforma. Somos o “outro” e vice-versa. Mas não há como viver todo o tempo simbolizando e representando. Sorte nossa que existe o mundo imaginário para contrapor. Mas às vezes, os mundos simbólico e imaginário travam um duelo dentro de nossos sentimentos.

Vejamos…

Lendo nesses últimos dias alguns artigos, deparei-me com esta afirmação de Armando Nogueira: “É uma refinada bobagem dizer que o futebol bonito, bem jogado, é incompatível com a vitória. E que, pra ser campeão, é preciso jogar o futebol avarento que se viu agora na Copa do Mundo”. Bom, você pode dizer que isso é um tanto quanto óbvio. Muitos treinadores já disseram que o que importa é ganhar, é o resultado. Mas pasmem: essa afirmação é de uma coluna de Armando no jornal O Estado de S. Paulo em 1994, na época do tetracampeonato. E o que isso significa? Que não adianta mesmo o brasileiro se chatear com as escolhas de nossos técnicos. Foi assim em 94, foi assim em 2006 e está sendo assim com Dunga, capitão justamente do tetracampeonato.

É o velho anti-jogo que acaba não valorizando o “jogar bonito”, que visa apenas o resultado final. Um futebol-força que valoriza o preparo físico do jogador que chega, muitas vezes, a virar uma batalha campal, cheia de atritos, faltas. O jogo torna-se monótono, como vimos em muitos jogos da Copa do Mundo, na Copa América, como vemos durante o Brasileirão deste ano.

Sabe o que mais me preocupa na “nova” fase do jogar futebol brasileiro? Que jornalistas e torcedores elejam os mais belos gols da rodada, aqueles feitos de fora da grande área, como do Hernanes, no jogo contra o Cruzeiro. Como se esse tipo de gol, bonito sim, fosse ‘arte´. Longe disso. Mas gol é sempre gol, não é? Gol significa estar à frente do placar ou esboçar uma reação em cima do adversário, não é? Gol é a alegria de nós torcedores, não é?

E o gol se transforma num momento mágico. Como escreve Eduardo Galeano, autor do livro “Futebol ao Sol e à sombra”: “O gol é o orgasmo do futebol. E como o orgasmo, o gol é cada vez menos freqüente na vida moderna. (…) O entusiasmo que se desencadeia cada vez que a bola sacode a rede pode parecer mistério ou loucura (…). O gol, mesmo que seja um golzinho, é sempre goooooooooooolllll na garganta dos locutores”.

Ah! As lembranças, o nosso imaginário coletivo… Elas têm a capacidade de “fazer história”. E essa memória, afetiva ou “sentida”, me relembra uma aula na época da faculdade, na qual minha professora falava da importância da memória com centro de tradição. Ela dizia que, para uma coisa se tornar parte de nossa cultura ela deverá ser transmitida de geração a geração e que a paixão do brasileiro pelo futebol-arte só foi possível pois as histórias do esporte foram contadas e recontadas através dos tempos, seja por um pai ao filho, do avô ao neto ou mesmo por meio da impressa.

Talvez esteja aí uma primeira possível resposta para o nosso “não-aceitamento” que o futebol moderno seja mais de força do que arte. Não é o que temos como referência, não é o que nos acostumamos a ver.

Enfim, posso não ter muitas referências vividas de alguns momentos importantes do nosso futebol, mas as tenho “sentidas” e revividas ao longo de meus 24 anos. Que possamos, sempre, ter boas histórias pra contar. E que cheguemos aos 80 e poucos anos olhando para o passado não com saudosismos, mas sim ver que tudo valeu a pena.

* Julyane Stanzioni é jornalista e mestrando em Antropologia na PUC-SP