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Reflexões: as faltas de jogo (táticas!?), o Campeonato Brasileiro e novamente o Barcelona da "era" Guardiola

Nas últimas duas semanas, assisti a programas esportivos da TV a cabo, debates interessantes a respeito do elevado número de faltas cometidas, nos jogos do Campeonato Brasileiro de Futebol.

Na 19º rodada da competição, por exemplo, segundo texto de Mauro Cezar Pereira, (publicado em http://espn.estadao.com.br), foram 395 faltas em 10 partidas.

A média elevada não é privilégio do Campeonato Brasileiro de 2012. Conforme publicou o ex-árbitro Leonardo Gaciba em seu blog (disponível no www.sportv.globo.com), a média de faltas por jogo vem sendo alta, pelo menos, desde 2008. Os números realmente impressionam:

– Em 2008 = 38,76 faltas por jogo (uma falta a cada 2,32 minutos);
– Em 2009 = 37,22 faltas por jogo (uma falta a cada 2,42 minutos);
– Em 2010 = 35,42 faltas por jogo (uma falta a cada 2,54 minutos);
– Em 2011 = 35,93 faltas por jogo (uma falta a cada 2,50 minutos).

Pois bem. Com números tão marcantes, muitas das discussões sobre o assunto passaram a permear comparações entre o futebol brasileiro e o europeu (no qual, em tese, e de fato, o número de faltas por partida tem sido menor).

Postura e qualidade da arbitragem, conduta e ética dos jogadores, cultura de jogo, formação dos treinadores, atuação da mídia e perfil dos torcedores foram algumas das “variáveis” mais presentes nos debates sobre essas comparações.

Em geral, dados sobre o futebol da Inglaterra, Espanha, Portugal e França, mostraram que a principal competição de clubes profissionais do Brasil tem uma média superior de faltas por jogo quando comparada aos campeonatos nacionais destes países – e também, quando os jogos comparados são os da UEFA Champions League (Liga dos Campeões).

O FC Barcelona, por exemplo, vem apresentando uma média baixíssima de faltas. Na “era” Guardiola então, nem se fale (para que se tenha uma ideia, nas últimas seis partidas disputadas pela equipe na Liga dos Campeões 2011/12, a sua média de faltas por jogo foi de 8,67).

Parece realmente muito baixa certo? (principalmente se comparada com as 39,5 faltas por jogo cometidas na 19º rodada do Campeonato Brasileiro deste ano).

Uma falta a cada 2,28 minutos de jogo, como tem acontecido no campeonato nacional, é muita coisa para um esporte disputado em terreno de área tão grande (aproximadamente de 7000 m2 – 318 m2 por jogador).

Pois bem, voltemos então ao FC Barcelona e façamos agora, antes de prosseguir, um exercício de imaginação.

A equipe catalã, na “era” Guardiola teve no tempo de posse de bola (sempre superior aos dos adversários), uma marca mais do que registrada. Nas últimas seis partidas que disputou na Champions League 2011/12, por exemplo, teve em média, impressionantes 73,5%.

Imaginemos que em um jogo a maior parte das faltas cometidas por uma equipe sejam faltas de defesa e não de ataque. Ou seja, as equipes fazem mais faltas (senão, quase todas) quando estão se defendendo.

Para efeito didático, tentemos aceitar, que aproximadamente 100% das faltas cometidas por um time, ocorrem quando esse time está tentando se defender (protegendo o gol, impedindo progressão do adversário, ou tentando recuperar a bola).

Para efeito didático também, imaginemos que quando é contabilizada a porcentagem de tempo, que se refere à posse de bola de uma equipe em um jogo, estará contido nele, tanto, o tempo que a equipe tem a posse da bola efetivamente com ela em jogo, quanto o tempo, quando a tem (a bola) fora dele (do jogo) em reposições e/ou reinícios.

Isso quer dizer em outras palavras, que devemos imaginar o tempo total de posse de bola de uma equipe, como a soma do tempo de posse, com a bola em jogo e com a bola fora de jogo (em arremessos laterais, tiros de meta, escanteios, faltas, etc.).

Aceitemos ainda, que quanto mais tempo com a posse da bola, menos chances uma equipe tem de cometer faltas (e menos tempo para isso).

E é aí que emerge um dado bem interessante. Se o FC Barcelona teve em média 73,5% de posse de bola nos jogos eliminatórios da Liga dos Campeões 11/12 (como mencionado anteriormente), então esteve com ela em seu domínio por 66,1 minutos, em média, por partida.

Com esse tempo, deu aos seus adversários 23,9 minutos, também em média, de posse da bola.

Então, por jogo, o FC Barcelona teve aproximadamente 23,9 minutos para fazer faltas (contra 66,1 minutos dos adversários).

Com uma média de 8,67 faltas cometidas nessas mesmas partidas, podemos dizer que a equipe catalã, fez, nos seus seis últimos jogos da Liga dos Campeões 11/12, uma falta a cada 2,75 minutos (no último jogo, por exemplo, contra o Chelsea, chegou a uma falta a cada 1,91 minutos).

Impressionante o elevado número de faltas por minuto do time catalão, não?

Mais impressionante ainda, saber que seus adversários nesses jogos cometeram uma falta a cada 5,27 minutos (ou seja, bem menos faltas que o FC Barcelona).

Não quero com esses números, defender as faltas. Claro que não!
O que estou tentando mostrar é que a taxa de faltas da equipe sensação do futebol mundial dos últimos dois ou três anos é bastante alta (é comparável a do Campeonato Brasileiro).

Porém, o fato de ficar muito tempo com a bola sob seu domínio acabou por mascarar essa característica.

Claro, com a bola por muito tempo nos pés, com um grande número de jogadores no campo de ataque, e com muita agressividade nas suas transições defensivas, o FC Barcelona de Guardiola sempre administrou bem os riscos de sofrer contra-ataques, utilizando-se inclusive de faltas.

Mas faltas são faltas, seja no nosso atual “brigado” futebol brasileiro, seja no vistoso futebol catalão.

Não quero com isso, comparar a forma de jogar do time espanhol, com as equipes brasileiras (especialmente tendo a “falta” como variável dependente); e nem tão pouco, justificar as faltas – principalmente porque, excetuando-se a “taxa de faltas”, uma infinidade de outras variáveis pesará a favor da dinâmica de jogo dos catalães.

O que precisamos fazer, efetivamente, nós todos do futebol, independente da área de atuação, é entender pontualmente o que esse número elevado de falta realmente significa para a dinâmica do nosso jogo, para nossa cultura futebolística, para nossa escola, e finalmente, seu significado dentro da nossa história.

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br