Categorias
Colunas

O campeonato do “Será?”

O Campeonato Brasileiro já teve duas rodadas, mas ainda é impossível fazer qualquer prognóstico sobre o desfecho. Mais do que isso: é inviável avaliar propostas, ideias ou perspectivas em uma competição marcada pelo “será?”. Passados cinco meses de 2016, os principais clubes do país ainda não têm qualquer noção do que vai acontecer com eles no restante da temporada.
Será que Muricy Ramalho volta ao Flamengo? O comandante foi afastado por um problema médico, é verdade. Mas se estiver apto a continuar no clube, será que haverá sustentação? Os resultados não ajudam (principalmente a vexatória eliminação na segunda fase da Copa do Brasil), e o futebol praticado pela equipe rubro-negra tampouco serve como esteio. Para completar, o clima é ruim (o elenco está longe de ser fechado, a interação com a cúpula é ruim e a própria diretoria tem rachas).
Se Muricy voltar e todos esses problemas forem solucionados, será que o Flamengo vai manter Paolo Guerrero. O centroavante peruano não está tão valorizado quanto outrora, mas ainda desfruta de popularidade no mercado e pode ficar ainda mais cobiçado se fizer boa Copa América. Ele é apenas um exemplo de atleta que combina situação instável no time atual e boa janela de exposição para buscar um trampolim de saída.
Há outros casos como Guerrero. Será que Gabigol, Lucas Lima e Ricardo Oliveira voltarão ao Santos? Se voltarem, será que encontrarão um time com pontuação suficiente para almejar boas colocações no Brasileiro? Será que os três entrarão em uma equipe voltada às primeiras posições ou terão de tirar o time alvinegro da parte inferior da tabela?
E o Corinthians? Será que Elias volta da Copa América? Será que Felipe vai embora (o zagueiro tem proposta do Porto)? Será que a diretoria encontrará reforços? Será que o time repetirá o elã encontrado em 2015 e arrancará após mudanças no elenco durante o certame?
Será que Paulo Bento emplacará no Cruzeiro? Será que ele terá tempo de incutir nos atletas da equipe mineira um pensamento de futebol tão distinto do que praticavam os antecessores? Será que a diretoria apostará nessa mudança?
E Marcelo Oliveira no Atlético-MG? Será que ele repetirá no time alvinegro o sucesso que teve no Cruzeiro? Será que poderá aproveitar a enorme lista de qualidades combinadas no elenco que a equipe montou no início de 2016? Será que terá nomes como Robinho e Lucas Pratto até o fim do ano?
Será que o Palmeiras de Cuca encontrará uma cara? Será que o treinador vitorioso poderá dar fim à instabilidade que tem marcado o elenco alviverde nas últimas temporadas? Será que a diretoria seguirá a sanha de mudanças e contratações?
Será que o Internacional de Argel manterá a aposta na molecada? Será que reforços contratados para este ano servirão como referências ou acabarão relegados como Alex? Será que Argel terminará a temporada?
Será que o mercado chinês levará mais gente? Será que aparecerão outros destinos possíveis na próxima janela de transferências? Será que Grafite seguirá liderando o Santa Cruz e funcionando como referência técnica?
Será que o campeonato terá uma média de gols tão baixa quanto a da primeira rodada? Será que as bolas morrerão tanto na rede quanto aconteceu na segunda rodada? Será que haverá uma evolução técnica?
O excesso de perguntas é esclarecedor em alguns aspectos. O Campeonato Brasileiro é imprevisível (também) porque sofre influência de uma enorme quantidade de fatores externos (calendário, interesse de times de fora, desvalorização da moeda, times quebrados, dirigentes sem convicção e afins). Mais do que irregular, o que nem sempre é sinônimo de um torneio emocionante.
O Campeonato Brasileiro é uma síntese de alguns dos problemas mais claros do futebol no país. Uma competição que não tem times consolidados, ídolos seguros ou propostas que sirvam como bases vive em constante crise de identidade. E comunicação sem identidade é sempre bem menos eficiente.
Esse Frankenstein chamado Campeonato Brasileiro é um torneio composto por várias pequenas fases. Vence o time que tiver mais estabilidade entre todo esse período, o que nem sempre representa a melhor equipe.
Depois da última temporada do Campeonato Inglês, muitas pessoas no Brasil questionaram sobre a possibilidade de um Leicester aparecer no país. Dada a bagunça, isso não é tão difícil. Pouco provável mesmo é surgir um time que tenha proposta definida, estilo acima dos resultados e compromisso com um estilo institucional, incluindo todas as áreas, bem comunicado a todos os integrantes do processo. Entre Leicester e Barcelona, não é difícil imaginar qual teria mais dificuldade para florescer na terra do futebol.

Categorias
Conteúdo Udof>Artigos

Os campeões brasileiros e o desempenho nas fases iniciais do formato mata-mata

Sai ano e entra ano, a consolidação do sistema de pontos corridos no Campeonato Brasileiro recebe críticas de alguns dirigentes, comentaristas e torcedores saudosos dos tempos de mata-mata. Para alguns, o modelo anterior confere maior emoção à disputa pela sequência de jogos decisivos na fase final e por ampliar a quantidade de aspirantes ao título ao longo da competição.
Visando oferecer mais dados ao debate, um grupo de profissionais do esporte, alunos da 5ª Turma do curso de Gestão Técnica no Futebol da Universidade do Futebol, realizaram um levantamento sobre a era do mata-mata no Brasileirão e analisaram alguns pontos específicos:

  • Na fase inicial desses Brasileirões, como foram as campanhas das equipes campeãs?
  • O mata-mata, de fato, apresenta um incremento no número de candidatos ao título em relação à disputa por pontos corridos?
  • Durante o mata-mata, quantas e quais equipes viveram o “conto de fadas” de acabarem campeãs após participações tímidas na fase de classificação?

Os resultados que estão representados no infográfico abaixo permitem algumas conclusões específicas sobre o modelo antigo e o seu “senso de justiça”, se é que tal termo cabe em uma modalidade tão dinâmica como o futebol.
Conto de fadas
Em apenas quatro dos 32 campeonatos sob esse modelo, ocorreram os chamados “contos de fadas” – de uma equipe pouco cogitada, após a fase inicial, conquistar o título. Nessa categoria foram indicadas as equipes que terminaram a fase inicial de classificação com campanha inferior à 8ª colocação: Vasco (15º em 1974), Guarani (20º em 1978), Grêmio (16º em 1981) e Coritiba (16º em 1985). Corinthians (7º em 1990) e Santos (8º em 2002) também se aproximam desta categoria.
Domínio do G-4
Todavia, sabemos que nem só de casos especiais é feito o futebol. O levantamento permitiu observar que apesar de todo o discurso de mais imprevisibilidade do mata-mata em relação aos pontos corridos, a equipe de melhor campanha na fase inicial se sagrou campeã do certame em 31,25% dos campeonatos entre 1971 e 2002. A porcentagem se torna ainda maior e mais relevante quando se observa que mais de dois terços dos campeões (68,75%) tiveram uma campanha de G-4 na fase de classificação.
Camisa pesada e influência “do eixo”
Outros aspectos muito debatidos nas calorosas conversas sobre pontos corridos x mata-mata envolvem uma suposta influência do eixo Rio-São Paulo nos confrontos decisivos. Por seu papel preponderante junto à mídia e à CBF, os clubes desses Estados seriam supostamente favorecidos pela atuação de uma pressionada arbitragem em detrimento à uma maior qualidade de adversários fora do eixo. Flamengo (com seus cinco títulos) e Vasco (com quatro títulos), de fato, são os maiores vencedores sem terem feito a melhor campanha na fase de classificação – o que, claro, não significa algum tipo de benefício pela atuação da arbitragem em jogos decisivos. Para alguns, tais números representam o peso da camisa.
Seja você um defensor da regularidade dos pontos corridos ou um apaixonado pelos jogos finais decisivos do formato anterior, os dados mostram que uma campanha de qualidade é fundamental para a equipe se sagrar campeã. No mata-mata, é claro, o bom desempenho na reta final é fundamental para o título, enquanto nos pontos corridos não há distinção da importância dos pontos conquistados na primeira ou na última rodada.
EstudoBrasileirão_ 1_j (1)
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
*Alunos da turma V do curso Gestão Técnica no Futebol