Categorias
Sem categoria

Carta a um jovem atleta

Prezado atleta,

São grandes as chances de não nos conhecermos pessoalmente. Na verdade, talvez você nem saiba da minha existência, como eu posso não saber da sua. Mas de um ponto de vista prático, isso não faz muita diferença. O bom leitor sabe que um pingo é letra. O fato de não sabermos um do outro com detalhes não impede que saibamos um do outro. Lembre-se disso no futuro.

Você ainda é muito jovem, embora não tenha a exata noção do que significa a juventude. Na verdade, a própria noção da juventude só vem com o tempo. E tempo é aquilo que, hoje, você tem e não tem: por um lado, você não tem tempo porque de fato ainda viveu muito pouco, juntou poucos anos no quebra-cabeças da vida e ainda está grávido ou grávida da vida adulta – e talvez nem saiba disso. Por outro lado, ainda te resta demasiado tempo de vida: a vida que ainda não veio é muito grande e comprida, de modo que, sim, você tem muito tempo. Isso é motivo de alegria! Mas também deve ser motivo de cuidado.

Talvez você já tenha ouvido, aqui e ali, alguém dizendo que o atleta morre duas vezes. O atleta morre quando deixa de ser atleta e morre quando deixa de viver. Às vezes, uma coisa é igual a outra. Mas às vezes não, e quero que você repare nas diferenças entre os dois casos: a morte do atleta, salvo uma lesão grave ou algum outro problema extraordinário, geralmente é uma escolha: um acordo com o próprio corpo ou com a própria vida em que os dois, enviando sinais recíprocos, decidem que aquele tempo, o tempo de atleta, acabou (esse tempo, aliás, geralmente acaba rápido). No caso da morte de uma pessoa, infelizmente não se trata de uma escolha: da mesma forma como não se escolhe nascer, também não se pode escolher o contrário. É justamente por isso, pela sua responsabilidade enquanto atleta, que você não pode ser cúmplice do arrependimento: enquanto atleta, faça tudo o que puder. O depois é uma ilusão, o antes também. O tempo que te existe é o tempo do agora.

Pode ser que você se ache muito bom – talvez até muito melhor do que os outros. Ou pode ser que não, que você não se ache tão bom assim – talvez pense ser muito pior do que todos os outros. Nos dois casos, você provavelmente está errado. Se não se acha tão bom assim, você certamente não se conhece o suficiente: veja bem, não existe outro exemplar seu no mundo. Por isso, não te cabe ser igual aos outros – é preciso ser quem você é. Aquilo que te falta geralmente serve para esconder as coisas que te sobram: se te falta o drible, talvez te sobre o passe. Se te falta o passe, talvez te sobre potência. Se te falta potência, talvez você seja um líder. E se não for um líder, você pode se preparar para sê-lo. O que você não pode é acreditar no mundo quando ele disser que você não é nada: o mundo é especialista nisso, ele fará o possível para te afastar de quem você realmente é, mas cabe a você escolher entre acreditar consistentemente nele ou não. Por outro lado, se você estiver no primeiro grupo, dos que se acham bons demais, saiba que você está em desvantagem: comparado aos outros, o seu tombo pode ser muito maior. Para saber se você é realmente especial, trabalhe muito. Ninguém se torna especial de véspera.

Da mesma forma, não se esqueça dos porquês que te fazem ser atleta e seja honesto consigo mesmo. Você quer ser atleta ou quer apenas os holofotes? Você quer ser atleta ou quer apenas enriquecer (não se esqueça, aliás, que é possível ter muito dinheiro e não ser rico)? Você está disposto a eventualmente ganhar pouco, não ganhar nada? Ser rejeitado uma, duas, três, dez vezes? Trabalhar eventualmente nas piores condições possíveis? Você se importaria em passar toda uma carreira como anônimo, finanças moderadas, motivado especialmente pelo coração? Se não, veja bem, não se sinta mal: apenas lembre-se de que, infelizmente, há poucos ingressos para as melhores festas – e sim, muita gente boa não costuma frequentá-las. O peso que a vida faz sobre a gente é maior do que o peso que a gente faz sobre a vida. E o bom marinheiro, você sabe, não reclama do mar – ele apenas navega. O esforço não é dispensável, mas mesmo o maior dos esforços pode ser insuficiente. E isso não deve ser motivo de lamento, mas de orgulho.
Aliás, muita gente dirá que tudo só depende de você. Não é verdade.

Depende uma parte de você e outra parte do mundo. Não é por acaso que existem companheiros, existem adversários, existe uma equipe de arbitragem, existem os outros profissionais de um clube, existe a imprensa, existe a sua família e existem os seus amigos, existem pessoas que gostam de você e torcerão incansavelmente pelo seu trabalho, assim como existem pessoas que não gostam de você e, saiba disso, não torcerão nem um pouco pelo seu trabalho. Você percebe que, exceção feita a você mesmo, não te cabe controlar nada do resto? Não brinque de fantoches com a vida e não tente ser mais, nem menos: de novo, seja exatamente quem é. Assim, te será possível separar o que deve e o que não deve ser feito, o que merece e o que não merece a sua atenção (e quem a merece ou não), saberá jogar o jogo de abrir mão.

Isso fará toda a diferença na sua vida enquanto atleta. Não se trata de ser mais, mas de ser melhor. O excesso (inclusive de ambição) é perda.
E talvez agora, depois dessas linhas, você perceba que não, de fato nós não nos conhecemos, mas que sim, nós sabemos algumas coisas. O fato de não sabermos um do outro com detalhes não impede que saibamos um do outro.

Lembre-se bem disso no futuro.

Categorias
Conteúdo Udof>Colunas

O bom jogador de hoje

Quando somos crianças e jogamos futebol nos mais diversos ambientes, o melhor da turma é aquele que tem o gesto técnico mais bonito, mais apurado: o melhor é aquele que dribla mais, que chuta melhor, que faz mais gols e etc. Se pegarmos o futebol profissional “antigo” – de cerca de quinze, vinte anos atrás – isso quase sempre também acontecia. O grande jogador era aquele que mais aparecia pra torcida, que dava ‘caneta’ nos adversário, que dava chapéu e por aí vai.
Essa máxima não se alterou por completo. Explico: o talento sempre vai prevalecer. O jogador que desequilibra será bem-vindo no futebol de qualquer época. Mas duas coisas importantes mudaram: esse jogador talentoso passou a ser ainda mais reverenciado quando usa sua técnica em prol da equipe e aquele jogador que pouco aparecia, que não tinha um jeito de tocar na bola e até de correr tão plasticamente dentro do padrão, mas que apresenta uma eficácia gigantesca pra resolver problemas, passou a ser mais valorizado.
O contexto tecnológico nos permite observar jogos e jogadores do mundo todo. É possível contabilizar jogadas e movimentos com e sem a bola de todos. E mais: se algum lance nos impressiona voltamos rapidamente a imagem e destrinchamos todos os pormenores. Diferentemente de antes que um “olheiro”, por exemplo, ia pelos campos desse mundo e tinha uma, no máximo, duas impressões do jogador.
Esse avanço na análise nos leva a saber quais jogadores resolvem os problemas de maneira mais eficaz em todas as fases do jogo. Nos permite observar quem faz a leitura correta das jogadas. Conseguimos saber quem toma as melhores decisões. Quem se comunica melhor com o jogo, companheiros de equipe e tira vantagem disso diante dos adversários. Com isso, os treinamentos tendem a evoluir e se não é possível e talvez nem mais necessário aprimorar o gesto técnico em sua plasticidade é totalmente inteligente criar mecanismos para os jogadores terem respostas mais rápidas e eficientes ao que o jogo apresenta.
Esse ponto específico da tecnologia com o avanço da análise quantitativa e qualitativa é um fractal de vários aspectos do jogo que mudaram. Há inúmeros outros. Mas a valorização de jogadores que no “futebol antigo” eram tidos, talvez, como ‘desengonçados’  ao correr, passar, driblar e chutar, mas que com um olhar mais criterioso e amplo nos revelam coisas surpreendentemente positivas e complexas é uma das grandes vitórias do futebol tido como moderno.

Categorias
Conteúdo Udof>Colunas

Sobre os jogos do passado e o risco do anacronismo

O Brasil de 1970: um desses times para muito além do anacronismo. (Foto: Divulgação/Reprodução: Daily Maverick)

 
Outro dia, no meu perfil numa dessas redes sociais, escrevi rapidamente sobre este hábito, especialmente cultivado em razão da quarentena, de analisar jogos antigos, de clubes e seleções. É uma questão não exatamente problemática em si: pelo contrário, eu mesmo tenho assistido e produzido algum material sobre alguns desses jogos. Até porque, como disse o Ángel Cappa, treinador argentino, citado lá no Pep Guardiola: A Evolução, “o futebol do futuro está no passado”.
É claro que uma frase dessas acaba sendo capciosa, porque pode sugerir um certo saudosismo – o que não é verdade. Os que leem as coisas que eu escrevo sabem que, a meu ver, muito disso que se chama, às vezes com uma certa ansiedade, de ‘futebol moderno’, pode ser menos ‘moderno’ do que parece, menos ‘evoluído’ do que parece. Pode ser uma mera aparência, uma ressignificação própria deste tempo, às vezes refém de interpretações potencialmente equivocadas. É aqui, aliás, que gostaria de traçar alguns limites nessas análises de jogos do passado.
Basicamente, há dois riscos muito evidentes nessas aventuras: vamos chamar o primeiro problema de problema da profundidade. E vamos chamar o segundo problema de problema do anacronismo. Eles não estão separados.
No caso do problema da profundidade, o que fica subentendido (ou, às vezes, o que é dito literalmente) é que não havia muito conhecimento e, portanto, não havia muita ‘profundidade’ nas análises e no entendimento do futebol que se tinha no passado – como se tudo o que se disse e tudo o que se fez fosse apenas um amontado de crendices e superstições, que não teriam nenhuma validade hoje em dia. Ao mesmo tempo, também fica subentendido que a nova geração de analistas, treinadores e profissionais do futebol em geral, da qual nós supostamente fazemos parte, essa sim estaria preparada com ferramentas adequadas de conhecimento, seria capaz de enxergar mais e melhor do que os ‘antigos’ e, portanto, teria mais ‘profundidade’ no entendimento do jogo em comparação a um passado não muito distante.
Sinceramente, é um raciocínio que me soa pretensioso e absurdo em muitos níveis. Mas gostaria de chamar a atenção especialmente para um ponto: uma das grandes diferenças no processo formativo das novas gerações que trabalham com futebol talvez esteja nisso que chamamos de processos formais de ensino-aprendizagem. Hoje, tanto treinadores quanto analistas de desempenho, preparadores físicos, gestores, jornalistas e curiosos têm à sua disposição cursos e mais cursos formais, nos quais geralmente há uma literatura disponível para pesquisa, registros escritos do que se pretende discutir. Num passado recente, há cerca de vinte anos, isso não era uma prioridade, o saber de treinadores e profissionais em geral era, via de regra, um saber da experiência. O que fica subentendido em algumas dessas análises que não me descem muito bem é que os saberes formais são muito mais importantes e significativos do que o saber da experiência, e que aqueles que se baseiam nas próprias experiências seriam, automaticamente, exemplos de ‘atraso’ e de ‘superficialidade’ (um equívoco enorme, mas não vou me alongar neste ponto por aqui).
É justamente a pretensão decorrente de um ou outro processo formal de aprendizagem, associada com uma certa ansiedade profissional (de mostrar, o mais rápido possível, que não fazemos parte do grupo dos ‘atrasados’), que faz aparecer o segundo problema, que é o problema do anacronismo. Basicamente, o sujeito anacrônico é aquele que alimenta expectativas e projeta cenários de uma dada época para outra. E quando não as encontra, julga a outra época a partir da régua do seu próprio tempo. Isso fica claro quando se diz, por exemplo, que uma equipe X era ‘desorganizada’, que uma equipe Y ‘não tinha amplitude’ ou que um atleta Z foi profissional numa época em que ‘era mais fácil jogar futebol’. É claro que o sujeito que assiste regularmente ao futebol de hoje pode sentir-se desconfortável ao assistir um jogo antigo, como um jovem guitarrista de hoje em dia talvez ache lenta uma melodia do Jimi Hendrix, ou um jovem cineasta ache enfadonho um filme do Ingman Bergman. Mas o problema não está no jogo, nem na música, nem no filme: está no vício adquirido pelos nossos olhos, pelos nossos ouvidos e pelo nosso corpo, demasiado acostumados a certos estímulos, e incapazes de simplesmente apreciar os outros sem julgá-los (erradamente) pela régua do nosso tempo.
Aqui, aliás, está um ponto bastante central, que posso até retomar em breve: é preciso um certo cuidado para não transformarmos impressões subjetivas em supostas verdades absolutas (exemplo: o ‘futebol antigo’ era mais ‘lento’). Se defendermos, como parece que queremos defender, uma superação disso que chamamos de inatismo e disso que chamamos de empirismo, se queremos realmente investir em métodos e pedagogias baseadas nisso que chamamos de interacionismo, então precisamos considerar que o conhecimento se faz na inter-ação, na relação sujeito/objeto, de modo que o olhar e a ação dos sujeitos não devem ser ignorados, mas são determinantes na construção dos nossos conhecimentos. Daí que seja um absurdo, aliás, sugerir que o futebol deve se apoiar somente na ‘objetividade’ – é um entendimento deturpado do que significa construir conhecimento e, na mesma esteira, das atribuições humanas na articulação de conhecimento numa sociedade encharcada de informação, como é a nossa.
Mas sobre isso, falamos em breve.
 

Categorias
Conteúdo Udof>Colunas

Força mental no futebol

É possível analisar um jogo de futebol a partir de várias maneiras e pontos de vista. Podemos falar da parte técnica, tática, física, emocional e até social, espiritual e daí por diante. Nunca julgo o que é certo ou errado. Prefiro olhar o que funciona e o que não funciona. Até o que é bonito e feio é relativo pois depende de conceitos pré-estabelecidos por cada um.
Um ponto que para mim tem grande relevância e em vários momentos das discussões é deixado de lado é o aspecto mental do jogo. A personalidade de um jogador, de um técnico e até a personalidade coletiva de uma equipe é fundamental para o resultado final. Em campo se vê o lado mais marcante de cada um. E isso pode ser positivo, mas também negativo. Se é em campo o que se é na vida. Por exemplo, um jogador quando pressionado irá reagir dentro das quatro linhas da mesma maneira que reagirá na vida pessoal quando também estiver pressionado, independentemente da natureza dessa pressão.
Fazendo um exercício prático disso que estou colocando: Romário seria o centroavante que foi se tivesse uma maneira diferente de encarar a vida? Ou ainda Emerson Sheik faria o que fez na final da Libertadores de 2012 pelo Corinthians contra o Boca Juniors se fosse uma pessoa acanhada e tímida? Eu poderia citar inúmeros exemplos, não só esses de reações positivas, mas também outros de jogadores que se apequenam e somem frente a situações-problemas do jogo.
Uma equipe é campeã por inúmeros fatores e o emocional é um deles. Procurar entender o comportamento global de um jogador é fundamental para decidir contratá-lo ou não. Um atleta é bom de fato quando responde de maneira assertiva as situações que para ele se apresentam. Muitas vezes, vai decidir partidas e campeonatos não o que tem o gesto técnico mais apurado e sim aquele que tem uma mentalidade forte e inabalável.
 

Categorias
Conteúdo Udof>Colunas

Sobre os jogos não assistidos (e as coisas que não sei)

Inglaterra de 1966: um exemplo das (várias) equipes que ainda não vi – mas que também me formam. (Foto: Divulgação/Reprodução: diário Mirror)

 
Foi na semana passada, acho que quarta ou quinta-feira, que me apareceu um dos textos mais bonitos a que tive acesso nessa quarentena: este breve ensaio do escritor espanhol Arturo Pérez-Revarte, publicado aqui no Brasil por este excelente caderno virtual que é o Estado da Arte, do Estadão.
Ao longo do texto, o autor vai desenhando um caminho que lembra não apenas dos livros que leu e que lhe formaram ao longo da vida, mas especialmente dos livros que não leu. Sendo que os livros que ele não leu (e que provavelmente não lerá) foram e são tão importantes na sua formação quanto aqueles que já estão lidos. Repare, aliás, no recorte neste ‘livros que não leu’: não se trata apenas dos livros que sabemos que existem mas que não estão conosco. Na verdade, se trata especialmente dos livros que sabemos que existem, que compramos ou pegamos emprestado (ou qualquer outra coisa), que ficam na nossa biblioteca por dias, semanas e anos e que, mesmo assim, acabamos não lendo.
É mais ou menos o que ele diz aqui:
“Quando compreendi que nunca leria todos os livros que gostaria de ler, e aceitei essa realidade com resignada melancolia, mudou minha vida de leitor. Fez-se mais plena e madura, do mesmo modo em que, na primeira guerra que eu conheci, reconhecer que eu também poderia morrer mudou minha forma de ver o mundo. Os livros que eu nunca lerei me definem e me enriquecem tanto como aqueles que eu li.”
O texto inteiro é muito bonito, mas especialmente essa parte é muito significativa. Não pude deixar de pensar neste período em que todos nós, profissionais do futebol em geral, temos assistido alguns ou vários jogos do passado. Seja como passatempo ou como ferramenta de estudo consciente, nos está sendo dada a chance tanto de assistir a jogos que já havíamos visto (agora, com outros olhos) como também de assistir a jogos e equipes que ainda não havíamos visto, talvez não como gostaríamos, mas que, de alguma forma, fizeram e fazem parte da nossa própria formação. E ainda que nos seja possível viver ou reviver esses momentos, é claro que o tempo de vida que nos resta (aliás, é impossível não reconhecer a nossa fragilidade humana, especialmente neste período sombrio) não será suficiente para assistirmos a todos os jogos ou todas as equipes ou todos os atletas que gostaríamos de assistir. A nossa formação é e será pela metade, nunca será por inteiro e – aqui está o ponto em que devemos nos apoiar – isso não é um problema, mas é precisamente a chave de uma vida com sentido. Afinal, do que vive uma vida já completa?
Se não podemos assistir a todos os jogos, nem ler todos os livros, nem escrever todos os textos, nem conhecer todas as pessoas e, portanto, nem fazer tudo o que gostaríamos de fazer, então o nosso processo formativo, profissional e existencial, não precisa se voltar para um ponto de chegada, para um determinado cais, porque ele acontece no caminho, entremeado, acontece pelo meio. Lendo o ‘Variações Sobre o Prazer’, do Rubem Alves, no dia em que escrevo esta coluna, encontro uma citação do Guimarães Rosa, neste livro estupendo que é o Grande Sertão: Veredas, que traduz muito melhor do que eu isso que quero dizer. “O real não está na saída nem na chegada; ele se dispõe para a gente é no meio da travessia…”
Neste período de tanta incerteza, em que seguimos em frente sem muita convicção, talvez seja importante admitirmos este outro lado, e inclusive procurar a beleza nele, pois nós não nos fazemos e não nos faremos (no futebol ou em qualquer outro lugar) somente pelas coisas que temos conosco – o que temos, afinal, é muito pouco. As coisas que sabemos são muito breves perto da infinitude do saber, a nossa grandeza às vezes é muito mais compridez (o Fernando Pessoa disse algo assim, não?) e talvez o nosso peso seja breve perto do peso do mundo. Mas veja bem: isso não é motivo de lamento! É motivo de profunda admiração. As coisas que eu não sei me fazem tanto quanto as (poucas) coisas que eu sei. Se soubesse mais, talvez eu seria menos.
E admirando o que nos falta, talvez encontremos a nós mesmos.
 

Categorias
Conteúdo Udof>Colunas

O atraso do futebol brasileiro

No futebol contemporâneo, globalizado e acessível a todos que queiram aprender e evoluir, as informações e tendências circulam muito rápido. Com uma pouca pitada de esforço e curiosidade é possível acompanhar o que os melhores treinadores do mundo fazem e criam. Mas mesmo assim, o futebol brasileiro ainda evolui em um ritmo muito lento se comparado aos demais. Talvez porque a grosso modo ainda não tenhamos tanta curiosidade. Ou podemos ter sede de aprender, mas não beber das fontes corretas de conhecimento, aquelas realmente capazes de fazer nosso futebol melhorar. Podemos, em algum momento, ter a dose certa do desejo de aprender, adquirir conhecimentos válidos, porém pecar na interpretação e implementação dessas informações. Enfim, mesmo com um nível absurdo e inédito de conhecimento disponível, o nosso futebol parece estar sempre defasado ao que de melhor acontece na elite mundial.
Claro que tudo isso se dá por muitos fatores. Mas tenho observado alguns que tem me chamado a atenção. Há alguns anos passamos a devorar a literatura portuguesa, por exemplo. Entretanto com um pouco de atraso. Quando José Mourinho explodiu no cenário mundial obras e mais obras foram produzidas a respeito das ideias e principalmente da metodologia que ele usava para transporta-las do treino para o jogo. Só que esse atraso, somado a dificuldade até natural de absorver uma nova forma de enxergar complexamente o jogo e adaptá-la as especificidades do cenário brasileiro, fez com que não acompanhassemos essas tendências em tempo real.
Na prática, ainda estamos falando de modelo de jogo, princípios e sub-princípios de ataque, defesa e transições, sendo que a nata do futebol mundial está em um outro patamar. Ao passo que ainda tentamos enxergar no jogo amplitude, profundidade, compactação e etc, os melhores técnicos do mundo trabalham do indivíduo para coletivo. Explico: o foco hoje está em formar jogadores mais inteligentes, que resolvam os problemas do jogo com a máxima eficácia e menor gasto de energia possível.
Outro exemplo: estamos falando muito de intensidade. Equipes intensas, defesas intensas, ataques intensos e etc. Sendo que para nós intensidade ainda quer dizer correr muito; só olhamos para o aspecto físico do jogo. Porém o alto nível mundial fala de intensidade complexa, em que a parte física está aliada a técnica, a tática e a cognitiva. Um time intenso não precisa necessariamente correr mais do que o outro. Um jogador intenso não é o que mais se desgasta. Ou para você Lionel Messi não resolve os problemas do jogo na mais alta intensidade técnica e mental mesmo sendo um dos jogadores que menos corre em campo?!
Se falo tanto em complexidade não posso pontuar que se melhorássemos só em alguns pontos teríamos o melhor futebol do mundo. É sistêmico, multifatorial. Todavia, se nossos treinadores, auxiliares técnicos e preparadores físicos pudessem acompanhar em cima da pinta o que se faz na elite e tivessem já um conhecimento prévio adquirido para implementar e fazer uma réplica no nosso futebol, claro respeitando nossas especificidades e características, já estaríamos dando um bom passo para a evolução.
 

Categorias
Conteúdo Udof>Colunas

A evolução do jogo no Brasil

O futebol brasileiro está na segunda divisão mundial. E se não abrir os olhos o quanto antes para a evolução será rebaixado para a terceira. E quando cito o futebol brasileiro me refiro a todos os seus ‘players’: gestores, treinadores, preparadores, jogadores e porque não falar de torcida e imprensa. Estamos atrasados na maioria dos aspectos dentro e fora de campo se compararmo-nos com a elite mundial. Mas quero nesse texto me fixar mais em alguns pontos de dentro das quatro linhas, mesmo sabendo que é difícil separar ‘campo e bola’ da gestão.
A discussão por aqui ainda está presa a esquema tático. Valorizamos e damos ênfase a disposição dos jogadores no espaço de jogo: falamos de 4-4-2, 4-3-3, 3-5-2 (obs: me permito aqui cometer o erro de não colocar o número 1 antes da primeira linha, pois infeliz e erroneamente não contamos o goleiro nesse dito ‘esquema’). Ao fixarmos um time em posições pré-determinadas não estamos sendo fiéis ao que de fato acontece em um jogo. Por exemplo, no mais alto nível são as transições (ofensivas e defensivas) que compõem boa parte das ações. E nelas é impossível visualizarmos esses esquemas táticos tradicionais iniciais e engessados que ainda tanto falamos no Brasil.
Para evoluirmos temos que pormenorizar as ações individuais e coletivas. Em grandes clubes europeus já há muitos anos a discussão está em como ganhar micro-segundos com e sem a bola, em como gerar situações de vantagens numéricas e qualitativas para defender e atacar, criar treinamentos que melhorem a posição corporal do jogador para dar e/ou receber um passe, desenvolver a inteligência do jogador para tomar melhores decisões, fazer com que os atletas consigam resolver os problemas do jogo com os dois pés e outras pequenas partes do jogo que estão em um nível extremamente avançado.
Não devemos rasgar o que já fizemos no Brasil. No ‘futebol antigo’, fomos bem sucedidos. Entretanto, é necessário olhar para o mundo e ver o que se faz entre os profissionais que mais se destacam atualmente. Para termos resultados novos precisamos também de atitudes novas. Definição de insanidade para mim é fazermos as mesmas coisas e esperarmos resultados diferentes. Não sei se você tem percebido, mas o mundo mudou. E o futebol também…
 

Categorias
Conteúdo Udof>Colunas

Sobre a digestão no futebol em tempos de pausa

Hungria de 1954: em parte, nascida da reflexão sobre os saberes disponíveis. (Foto: Reprodução/Divulgação: goal.com/Getty Images)

 
Outro dia, o Jonathan Wilson (que escreveu, dentre outros livros, o conhecido ‘A Pirâmide Invertida) publicou um artigo interessante, no qual ele discute, desde o título, como a quarentena oferece um tempo fundamental para a inspiração de treinadores e treinadoras. Ele cita como exemplo Marton Bukovi, treinador húngaro do século passado, que teria criado o que chamamos hoje de falso nove justamente durante a Segunda Guerra Mundial.
Para muita gente, este é um período de atualização, ou mesmo de reciclagem. Sinceramente, não sou muito chegado no verbo atualizar (porque nem eu e nem vocês somos softwares), assim como não sou muito chegado no verbo reciclar – nem eu e nem vocês somos resíduos. Das palavras disponíveis, embora me agrade falar de inspiração, também acho que podemos falar de reflexão. Este é um período em que podemos muito bem refletir sobre os nossos saberes profissionais, sobre as coisas que nós sabemos e, principalmente, sobre as coisas que não sabemos (que são em maior número, afinal).
Deixem-me falar um pouco melhor sobre isso.

***

Na minha pesquisa de mestrado, que estou prestes a terminar, tenho estudado justamente o processo de construção das filosofias de treinadores de futebol. A meu ver, este período de quarentena permite exatamente isso, refinar as nossas próprias filosofias. Assim como um carpinteiro talha a madeira, às vezes indefinidamente, em busca da perfeição, me parece que assim devemos nós tratar as nossas próprias filosofias. Aliás, este é um dos motivos porque tenho usado a palavra filosofias, no plural: estou convencido de que não é um processo singular, que uma filosofia estática e fechada não dá conta da complexidade da vida e que a construção de filosofias profissionais anda de mãos dadas com a vida que se vive, o que significa que, enquanto há existência, haverá filosofias.
Como filosofia, tenho adotado um conceito apresentado pelo francês Andre Comte-Sponville, na introdução de um livro chamado Apresentação da Filosofia. Ele diz, textualmente: ‘A filosofia não é uma ciência, nem mesmo um conhecimento; não é um saber a mais: é uma reflexão sobre os saberes disponíveis. É por isso que não se pode aprender filosofia, dizia Kant: só se pode aprender a filosofar.’
Me parece que com esse conceito podemos ir longe. Chamo a atenção, especialmente, para essa parte que diz que fazer filosofia não significa saber a mais. Basta olharmos à nossa volta (e olharmos no espelho) e veremos o quão ávidas e ansiosas as pessoas estão para saber cada vez mais, como se os saberes que nós carregamos conosco sempre fossem inadequados e insuficientes, mas também como se funcionassem como uma conta bancária, que será (supostamente) tão melhor quanto mais zeros tiver. Mas, na ânsia de acumular conhecimentos, nós nos esquecemos, como escreveu certa vez o Nietzsche, dos riscos da taça que acumula demasiado mel. Ou, se você preferir uma analogia do Schopenhauer, brilhantemente colocada no livro A Arte de Escrever, de nada adianta empanturrar-se de conhecimentos (de futebol ou de qualquer outra coisa) se não nos dermos o direito de digerirmos. A comida mal digerida pouco acrescenta ao corpo. As leituras mal digeridas, ou que não degustamos com a devida atenção, não nos fazem nada, saímos delas do mesmo jeito que entramos. A quantidade não basta.
Digerir, neste caso, pode muito bem significar refletir. Mas de novo, não é exatamente refletir sobre coisas novas, mas fazer como novas as coisas que estão mofando em nós mesmos: refletir sobre os saberes disponíveis! Neste período podemos retrucar a nós mesmos, encontrar as lacunas do nosso próprio modelo de jogo, dos nossos próprios métodos de treinamento, das nossas próprias análises de desempenho, das nossas próprias relações com os atletas e os profissionais que nos cercam. Se você preferir (e aqui recorro novamente ao Nietzsche, numa alusão que está no livro Sociedade do Cansaço, do Byung Chul-Han), este momento, na medida do possível, permite a contemplação, exercer a vida contemplativa, suspender os pensamentos. Não um momento de produtividade doentia, não um momento de explorarmos a nós mesmos, não é disso que se trata: é um momento em que, aos que podem, é dado do direito de parar, sentir a passagem do tempo, sentirmos a nós mesmos e, exatamente por isso, refletirmos sobre as coisas que sabemos e – de novo – sobre as que não sabemos. Outro dia, lendo um ótimo artigo do professor Desidério Murcho, me senti persuadido a admitir que, do ponto de vista lógico, é claro que as chances de estarmos equivocados sobre qualquer assunto são bem maiores do que as chances de estarmos inteiramente certos – não existem argumentos irrefutáveis, afinal.
Assim como vários colegas, tenho aproveitado as horas livres para assistir alguns jogos antigos. Outro dia mesmo, assisti a Real Madrid x Barcelona (2×6), de 2009, o jogo em que Lionel Messi foi de fato apresentado ao mundo como… falso nove! É muito interessante perceber não apenas o estrago que os seus movimentos fizeram na defesa do Madrid, especialmente nos zagueiros (Cannavaro e Metzelder, salvo engano meu), mas também como mesmo o jogo de posição mais ortodoxo talvez precise de pelo menos uma ponta solta, de um elo livre que circule por diversas alturas do campo, criando superioridades no setor da bola e atraindo a marcação para espaços valiosos. Talvez o exemplo definitivo disso esteja precisamente num outro jogo do Barcelona, a final da Champions League de 2010/2011, contra o Manchester United, em que o FCB jogou num nível de fato superlativo e Messi transitava tranquilamente por zonas muito mais baixas do campo.
Mas perceba que assistir jogos ou lives nas redes sociais, ou ler outros livros e artigos, ou escrever outras coisas, não precisam ser atividades que fazemos para empilhar conhecimentos. Devemos fazer nos relacionando com as coisas, construindo ativamente, de criarmos afinidade com o jogo a que assistimos, o livro que estamos lendo, as coisas que escrevemos, o modelo que construirmos (que nunca estará pronto), os nossos comportamentos em transição defensiva, os nossos procedimentos de recuperação e prevenção de lesões, enfim: não é uma questão de saber mais, é uma questão de saber melhor. Saber melhor sobre os saberes que não sabemos, mas também e especialmente saber melhor sobre os saberes que já sabemos – são esses os que nos dão as maiores rasteiras.
Por fim, reparem como este tempo de pausa no futebol escancara as bizarrices dos calendários em geral. Não é possível exigir do profissional do futebol que tenha tempo e condições de refletir com qualidade quando há jogos em cima de jogos, viagens em cima de viagens, críticas em cima de críticas (via de regra, sem muito fundamento). Some a isso o fato de que profissionais do futebol (e do esporte, em geral) são pessoas absolutamente normais, com uma vida normal, com família e amigos e responsabilidades particulares, e é claro que as horas do dia não serão suficientes para pensar com qualidade (e isso não se restringe ao futebol, diga-se) No calendário, segue a lógica da digestão, de que falamos acima: estamos empanturrados e comendo.
E a indigestão, como se sabe, talvez não seja exatamente amiga da inspiração.
 

Categorias
Conteúdo Udof>Colunas

O Corinthians e suas aflições

Que Tiago Nunes teria dificuldade nesse início de trabalho no Corinthians já escrevi, falei, repeti e tudo mais…porém, assusta muito a dificuldade de a equipe evoluir em aspectos básicos do jogo. Não há nem a possibilidade de reclamar de falta de treinos, já que a equipe fez apenas dois jogos em dezoito dias. E, quando não há evolução mesmo com tempo e treinamentos é porque há mais coisas envolvidas.
Os jogadores corintianos compraram a ideia de Tiago Nunes. Eles querem uma equipe mais ofensiva. Agrada, dos mais jovens aos mais experientes, a ideia de ter um time que privilegie o ataque. Está descartada qualquer possibilidade de corpo mole – possibilidade levantada por muitos sempre que o resultado não vem. Porém, os conteúdos ofensivos apresentados nos jogos ainda carecem de muitos ajustes. Princípios básicos como apoio, mobilidade, penetração e profundidade não aparecem no jogar corintiano. E o que é pior: os bons conteúdos defensivos, deixados de herança por Fábio Carille, não são mais vistos, por talvez não serem mais estimulados.
Tiago Nunes chegou com carta branca da diretoria para realizar as mudanças que julgava corretas. Vale lembrar que ele foi contratado em novembro, mas só assumiu em janeiro. Dispensas de jogadores consagrados como Ralf e Jadson foram aceitas, porque empolgava a todos – incluindo a direção – a ideia de uma equipe dinâmica, intensa e ofensiva. Tiago também realizou ajustes na relação com diversos setores como análise de desempenho, departamento de inteligência e na comunicação com as categorias de base.  A tal da ‘cartilha’ já tão falada, que organiza horários de refeições e sono dos atletas, também foi instituída com o aval de quem está acima do treinador.
Tudo isso não interfere diretamente no resultado de campo. Mas entra na relação do treinador com o ambiente do clube em que ele está. Tiago Nunes tem que ter a flexibilidade para ‘conversar melhor’ com o que é o Corinthians. Inclusive, as próprias entrevistas dele tem que ser mais ‘corintianas’. Quando Tite, por exemplo, entendeu isso seu trabalho cresceu. Tiago não deve nunca abandonar suas convicções. Mas adapta-las ao que foi e ao que é o Corinthians é fundamental para que no futuro o treinador e o clube formem um só, aliando desempenho e resultado.
 

Categorias
Conteúdo Udof>Colunas

A prova de fogo de Tiago Nunes no Corinthians

O trabalho de um técnico de futebol é muito complexo. E, ao mesmo tempo muito específico. Cada ambiente de trabalho, a cultura de cada clube, pede um tipo de liderança e um tipo específico de jogo. Cabe ao treinador, que é sempre o condutor maior do processo, ter a flexibilidade e as competências necessárias para identificar corretamente cada cenário e conseguir interferir nele de maneira eficaz.
Tiago Nunes não conseguiu ser bem-sucedido neste primeiro ‘micro-ciclo’ no Corinthians. O desafio era enorme já que o resultado teria que vir no curtíssimo prazo em função da Libertadores da América e ao mesmo tempo o contexto pedia uma ruptura com um conceito de jogo mais defensivo, sepultado com a demissão de Fábio Carille no ano passado. Todos esses ingredientes somados a pouco tempo de treino, viagem para torneio amistoso nos Estados Unidos e elenco sendo trocado, com chegadas e saídas de jogadores. Repito: cenário conturbadíssimo. E Tiago não conseguiu ser eficiente na gestão desses elementos.
Começa agora, porém, um outro momento. Com a eliminação na Libertadores, o Corinthians terá tempo para trabalhar e treinar. Neste primeiro semestre, apenas o Paulista e o início do Brasileirão para disputar. Tiago Nunes poderá, então, mostrar suas habilidades não só para criar e ajustar comportamentos táticos, mas também para gerar conexão e laços com – e entre – os atletas. É um trabalho que exige tempo para ser implementado. E tempo, o Corinthians terá de sobra…
Os próximos jogos do Campeonato Paulista serão fundamentais e até decisivos. É imprescindível que o Corinthians apresente uma melhor performance. O desafio de Tiago Nunes continua sendo dificílimo, afinal se trata de um dos maiores clubes do mundo. Só que a justificativa da falta de tempo deixará de existir…