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Sérgio Raimundo, coordenador técnico do Étoile Lusitana

O jovem Sérgio Raimundo costuma repetir um ditado que o acompanha. De modo sintético, a analogia budista diz que pensamentos, palavras, ações, hábitos e caráter tornam-se no destino de cada indivíduo. Formado em Motricidade Humana (FMH), na famosa Faculdade Técnica de Lisboa, o ex-treinador da Escola de Futebol do Sport Lisboa e Benfica não duvida do valor da universidade na abertura das portas para a ciência atual, mas tem uma certeza: o que vem fazendo a diferença na vida é a curiosidade sincera, a busca de conhecimento, o contato com gênios nas mais diversas áreas e a disposição em compartilhar informações.

Atual técnico e coordenador do Étoile Lusitana, clube senegalês fundado há pouco mais de quatro anos cujo padrinho é José Mourinho, Sérgio Raimundo está vinculado também ao Núcleo de Futebol da Futebol da FMH, criado com o intuito de “saber mais, ouvir mais, falar mais” e trocar ideias para melhorar os pensamentos interdisciplinares da modalidade, da comunicação social ao treino, passando pela observação de jogo, gestão e agenciamento.

Na temporada 2011/2012, ele recebeu ainda o convite do professor Manuel Sérgio para integrar o Gabinete de Inteligência Competitiva que o próprio iria implementar no Benfica, onde mais tarde voltou para ser treinador adjunto dos juniores do clube português.

Nesta entrevista à Universidade do Futebol, o profissional que foi moldado também no Brasil e na Bélgica fala mais profundamente sobre a experiência vivida no continente africano e explica que a metodologia no Étoile Lusitana é transversal a todos os escalões de categorias de base, com pressupostos semelhantes na área técnico-administrativa.

“Damos importância redobrada ao caráter e aos valores dos jogadores e trabalhamos isso também nos exercícios, pois sabemos que quando saem para a Europa, representam a nossa academia, que queremos que seja referência na África”, revela.
 


 

Universidade do FutebolQual é a sua formação acadêmica e como se deu seu ingresso no futebol profissional?

Sérgio Raimundo – Licenciatura com base em Ciências Humanas, ditas ciências do Desporto, e Mestrado em Motricidade Humana, dito “Educação Física”, tudo isto pela Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa.

Recordo como pontos altos na minha formação acadêmica os intercâmbios realizados no CEFID da UDESC em Florianópolis (“Futebol Brasileiro – tecnicismo”) e na Universidade de Medicina de Florença (“Futebol Italiano – rigor tático e parâmetros biomédicos [homem máquina]”). Para além dos conhecimentos adquiridos, a adaptação cultural fez crescer e evoluir, as amizades acrescem valor à vida, o network aumenta.

Curiosamente, também foi a estadia no Brasil em 2008 que me permitiu, em grande percentagem, o ingresso no futebol profissional – uma escolha do “passado” condicionou em larga escala um acontecimento futuro, o destino. Há um ditado budista que diz:

“Cuidado com os teus pensamentos porque eles se tornam palavras,
Cuidado com as tuas palavras pois elas tornam-se ações,
Cuidado com as tuas ações porque se tornam hábitos,
Cuidado com os teus hábitos porque eles se tornam caráter,
Cuidado com o teu caráter porque se torna no teu destino”.

Recordo-me como se fosse hoje de um momento no final do intercâmbio no Brasil, no qual o Professor João Batista Freire nos deixou (a mim e aos colegas portugueses) perplexos e curiosos: “Vocês querem ser treinadores de futebol? Já conheceram o Professor Manuel Sérgio? Sabem que o Mourinho fala muito nele? Deviam ir falar com ele porque ele é uma pessoa maravilhosa e com certeza podem aprender muito com ele”. Esta afirmação deixou-nos muitos curiosos…

Primeiro porque em Portugal nunca tínhamos ouvido falar de uma pessoa que é portuguesa e idolatrada no Brasil e depois porque desconhecíamos a ligação de tal pessoa ao futebol e aquele que era (ainda é) para nós a grande motivação e referência pelos seus êxitos como treinador de futebol, José Mourinho. A verdade é que chegando em Portugal, procuramos o professor Manuel Sérgio e desde então não mais deixei de comunicar frequentemente com ele e de ler os seus livros que tão atenciosamente fez questão de oferecer.

Encontrei na sabedoria do professor o elo ligação entre todas as disciplinas que tinha aprendido na Universidade, como disse Federico Mayor, antigo Diretor Geral da UNESCO entre 1987/1999 :“Devemos reconsiderar a organização do conhecimento. Para ele, devemos derrubar as barreiras tradicionais entre as disciplinas e conceber a maneira de voltar a unir o que até agora estava separado”.

Desde que conheci o Professor, as coisas passaram a fazer sentido, a exaltação do humano, a intencionalidade humana, o fato de a mesma fisiologia atuar de forma diferente em sujeitos diferentes, isto é, indivíduos com as mesmas características e o mesmo treino produzirem diferentes respostas em competição muito devido às suas crenças e motivações.

Sempre fiz desporto de competição desde os meus 8, 9 anos, entre os quais o Futebol que foi o meu primeiro e que deixei com 16, 17 anos, mas acabei por encontrar algo que já conhecia mas que passei a ver como o fator de desequilíbrio na balança do desporto e da vida – o humano. Na verdade, era assim em todas as coisas da vida.

Mesmo na Faculdade, de um ponto de vista pessoal, pois cada um tem as suas motivações, os professores que mais gostava eram aqueles que transmitiam mais do que matéria, que conseguiam criar empatia nas aulas como a professora Filomena Vieira, que, sem a mesma saber, me fez estudar bastante para um teste teórico de Cinantropometria só porque não a queria desiludir com a nota, ou o professor Paulo Martins, de Luta e Pedagogia, eleito várias vezes professor do ano pelos seus alunos e com o qual cheguei a fazer publicações e que me levou mesmo a pertencer à equipa de Luta da Faculdade. O próprio professor João Rasoilo, de Fisiologia do Desporto, apesar da disciplina que leciona, sempre conseguiu transmitir os conteúdos de forma prática e obrigando as pessoas a pensar (ainda hoje me lembro perfeitamente dos conceitos que nos “obrigava” a entender, mais do que decorar). A professora Ana Santos, de Sociologia, o professor Pedro Pessoa, de Natação, o professor Sidónio Serpa, de Psicologia, a professora Filipa Cavalleri, de Judo, dava gosto ir a estas aulas, entre outros.

Eu próprio tenho motivações “divinas”, a crença de que a alma do meu grande amigo e colega de faculdade, que teria sido certamente um dos melhores treinadores do mundo, o grande Bruno, está olhando por mim…

Por isso não posso negá-las aos jogadores, não posso deixar de jogar com esses fatores para conseguir alcançar o máximo de cada um deles. Como diz o ilustre professor Antunes de Sousa numa frase marcante: “A crença gera biologia”.

 

 

José Antunes de Souza, presidente da Sociedade Portuguesa de Motricidade Humana

 

 

Posso partilhar um poema de António Gedeão que chegou ao meu conhecimento pelo professor Manuel Sérgio, o qual nunca me esqueci e que esclarece bem as limitações da fisiologia, quando usada isoladamente sem associação ao pensamento/motivações/sentimentos das pessoas (não querendo retirar total importância à mesma):

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

Houve pessoas que no campo, no futebol, me fizeram evoluir bastante desde os Escolas até aos Seniores, como os treinadores Paulo Piedade, António Fonte Santa, João Mendes, Hugo Vicente, Lino, Vitor Estêvão, João Tralhão, Miguel Miranda, Pepa, Hélder Fontes, Eric Dehaeseleer, Patrik Thairet, pessoas com quem trabalhei diretamente e com quem tive muitas conversas sobre o jogo e que, em geral, sempre me apoiaram e me deram liberdade para aplicar livremente a minha forma de pensar o jogo e o treino, ou que me fizeram encontrar, na discórdia, algo novo, anos que foram determinantes para a evolução pessoal que continua até ao final da vida.

Além dos treinadores mencionados, há um com quem tive o prazer de trabalhar, que é a minha referência pessoal, um modelo de conduta, de motivação: o grande treinador profissional Luís Norton de Matos, atualmente treinador do SL Benfica B, equipe que joga na segunda divisão do Campeonato Português.

Trata-se de uma pessoa com muita experiência, discreta, inteligente, atualizada, sempre aberta ao novo, com enormes qualidades humanas e elevadíssima qualidade de discurso, capaz de “gerar a tal biologia” através da crença e da motivação.

Também o Núcleo de Futebol da Futebol da Faculdade de Motricidade Humana que criamos com o intuito de saber mais, ouvir mais, falar mais, trocar ideias, contribuiu e contribui de forma decisiva para a troca de informações e melhoria das ideias interdisciplinares do futebol, da comunicação social ao treino, passando pela observação de jogo, gestão, agenciamento, etc.

De forma mais redutora, após alguns anos como treinador na Escola de Futebol do Sport Lisboa e Benfica e ao mesmo tempo num clube amador chamado Beira-Mar Atlético Clube de Almada, estágios no Brasil e na Bélgica, uma experiência e da participação como treinador adjunto para torneios internacionais no clube profissional Étoile Lusitana do Senegal, onde atualmente sou treinador e coordenador técnico, surgiu na temporada 2011/2012 o convite do professor Manuel Sérgio para integrar o Gabinete de Inteligência Competitiva que o próprio iria implementar no SL Benfica. Mais tarde, surgiu também o convite para ser treinador adjunto dos juniores do clube.


Quem é José Mourinho

 

Universidade do Futebol Como é feito o acompanhamento escolar dos atletas das categorias de base do Benfica, clube pelo qual você passou? Quem faz este controle?

Sérgio Raimundo – Como foi já possível ver várias vezes na Benfica TV e em notícias oficiais, o clube tem uma pessoa responsável pelo acompanhamento sócio-escolar dos jogadores-alunos e que faz a ligação entre clube e escola. Uma notícia divulgada em 24 de janeiro de 2009 no Diário de Notícias mostra uma afirmação curiosa da coordenadora de apoio socioescolar do clube:

“Eles quando chegam aqui vêm completamente deslumbrados. Só pensam que vão ser o próximo Cristiano Ronaldo, ou o Figo, ou o Rui Costa. O estudo nem entra muito na cabeça deles (…) Não permitimos essa atitude. Temos um relacionamento estrito com a escola. Se um atleta for neste momento para a rua, o meu telefone toca. Eles ficam a saber desse controle e têm de entrar na linha, pois em casos extremos podem ser expulsos. Isso já aconteceu”, avisou.

A notícia refere também que “a direção da formação é regularmente avisada do que os jogadores fazem na escola, seja positivo ou negativo” e que “Os jogadores portugueses e os oriundos de países de língua portuguesa estão na escola. Os restantes ficam no centro estudando português”.
 


 

Universidade do FutebolO trabalho realizado pelas comissões técnicas é interdisciplinar? Como se dá a interação entre as diferentes áreas pedagógicas e científicas?

Sérgio Raimundo – Sendo atualmente profissional de outro clube, gostaria de falar do trabalho desenvolvido no mesmo. O Étoile Lusitana nasceu oficialmente no Senegal, em abril de 2008. O treinador José Mourinho foi o “padrinho” e grande símbolo da estreia oficial do clube, tendo-se deslocado a Dakar para este feito. O nosso objetivo principal é a detecção e formação de jovens talentos senegaleses, possibilitando a sua posterior transferência para as grandes equipas de referência no futebol mundial.

Das transferências efetuadas, contamos com Abdou Camara, atual jogador do Valenciennes, da 1ª Liga Francesa, Ibrahima Mbay, jogador que já se estreou pela equipe principal da Inter de Milão, Demba Camara, goleiro da Seleção Olímpica do Senegal e que recentemente assinou contrato profissional com o Sochaux, da elite francesa, Luciano Teixeira e João Mário, que transitaram dos Juniores do Benfica para a equipe de reservas e Idrissa Câmara, hoje no CS Visé, da segunda divisão da Bélgica.

O clube está organizado em três categorias: Cadetes (sub-16), Juniores (sub-19) e Seniores e todas as categorias jogam no campeonato nacional do Senegal, sendo o nosso objetivo primordial a realização de torneios na Europa que sirvam de amostra para os nossos jogadores.

Temos uma metodologia transversal a todos os escalões, com pressupostos semelhantes (objetivos de clube, sistema tático e suas dinâmicas, organização estrutural dos treinos, feedback, intensidade sempre máxima em todos os exercícios, alterando-se apenas o tempo de repouso e tipo de solicitações, regras, etc.).

Depois, há adaptações que temos que fazer à realidade social e cultural. Por exemplo, quando um jogador se lesiona, vai ao médico e depois vem recuperar conosco. Não temos psicólogo. Os treinadores têm na metodologia alguns tópicos de intervenção, fruto da formação possível e ajuda de colegas da área. É óbvio que se existirem casos clínicos há maior dificuldade de detecção que pode mesmo levar à exclusão de atletas do clube (atos de violência, comportamentos negativos repetidos em treino/jogo/no relacionamento cotidiano com os outros).

Damos importância redobrada ao caráter e aos valores dos jogadores e trabalhamos isso também nos exercícios, pois sabemos que quando saem para a Europa, representam a nossa academia, que queremos que seja referência na África.

Exigimos dedicação máxima, esforço máximo, respeito pelos colegas, pelas pessoas que com eles trabalham, por todos os intervenientes no jogo. Como está sempre se referindo o professor Manuel Sérgio, o desporto por que nos batemos é “um desporto de extensa e sólida cultura humanista”. É um orgulho para todos nós no clube falarem positivamente sobre o homem que é o Ibrahima Mbay, da Inter de Milão, e a dedicação e o bem-estar que tem no seu trabalho, com os torcedores, colegas e responsáveis do clube. Ou do Abdou Camara, que é um trabalhador incansável com excelente relação com os treinadores e colegas. Ou do Demba Camara e da sua facilidade de trato e do seu excelente sentido de humor. Ou do Luciano e do João Mário e da dedicação deles em todos os treinos/jogos, do fato de colocarem sempre o máximo em cada momento de jogo e a elevadíssima capacidade de trabalho.

Além de estes jogadores terem uma oportunidade para melhorar a sua vida e realizar o seu grande sonho, o nosso grande orgulho e vitória advém da boa integração e felicidade para onde quer que vão e eles já mostraram estar preparados.

 

 

Universidade do FutebolNo futebol português, de modo geral, quais os critérios utilizados e como funciona o processo seletivo para a contratação de treinadores para as categorias de base do clube (ex-jogadores, formação em Educação Física, indicação, etc.)?

Sérgio Raimundo – Quanto ao Benfica, nos sub-19 e sub-15, pode-se verificar que o treinador é Licenciado em Educação Física, o que não acontece com o treinador do sub-17, que também não foi ex-jogador. Pode-se também verificar que há pelo menos um ex-jogador do clube pertencente à estrutura técnica (treinador adjunto).

O Porto conta com treinador e adjunto, ex-jogadores profissionais no escalão de sub-19, nos sub-17 com um Professor Universitário que já foi adjunto da seleção portuguesa, estando também nessa equipe técnica um adjunto ex-jogador do clube que é o treinador principal dos sub-15.

O Sporting sofreu uma reestruturação recente e atualmente conta com treinadores ex-jogadores nos escalões de sub-19 e sub-17, sendo que o treinador dos sub-19 é também licenciado em Educação Física. O treinador dos sub-15 é Licenciado em Educação Física.

Aproveito para falar do caso da Étoile Lusitana, que sendo um clube criado em 2008, ainda não se pode dizer que tenhamos ex-jogadores do clube, pois todos eles ainda jogam, nem que seja em outras equipes. Por causalidade e não por ter sido estritamente definido dessa forma, nas três equipes os treinadores têm formação em Educação Física e o treinador de goleiros foi jogador senegalês.

Acreditamos na qualidade moral das pessoas e na sua capacidade de trabalho antes de fazer distinções – “licenciado” ou “ex-jogador”. Penso que essa é uma falsa questão visto não se poder generalizar que todos os ex-jogadores serão ótimos ou péssimos treinadores ou que todos os licenciados serão ótimos ou péssimos treinadores. Como me lembro de ter visto o Mourinho dizer numa entrevista: “acredito em treinadores que ganham”.

Na minha humilde opinião, um ex-jogador é limitado quando se limita às experiências pelas quais passou e não abre a porta ao novo, quando não se distancia dos “modismos passageiros” e do fazer por fazer sem perceber o porquê.

Um licenciado é limitado quando vem impregnado do determinismo do número de séries, tempo de exercício e pouca sensibilidade ao humano.

É óbvio que sinto que a universidade me abriu a porta da ciência atual, etc., mas o que tem feito a diferença na vida tem sido a curiosidade sincera, a busca de conhecimento, o contato com gênios nas suas áreas (ex-jogadores, jogadores, treinadores, professores, escritores, empresários), gente com caráter enorme disposta a partilhar informação!

Mais uma vez o ditado budista: pensamentos, palavras, ações, hábitos e caráter tornam-se no nosso destino!

Formação de jogadores de futebol: as ações e as consequências

 

Universidade do FutebolQual a sua avaliação sobre o trabalho de José Mourinho? O que ele representa em termos simbólicos para o país?

Sérgio Raimundo – Eu não sou ninguém para avaliar o seu trabalho, os títulos falam por si. Goste-se dele ou não, chegou ao topo em Portugal, Inglaterra, Itália e Espanha, tendo sido o primeiro treinador a vencer estes três últimos campeonatos, considerados os melhores da Europa.

No caso recente do Real, venceu num campeonato (competição de regularidade) um impressionante Barcelona, chegando à fabulosa marca de 100 pontos, com 121 gols marcados. São números impressionantes.

José Mourinho bate recorde atrás de recorde em todo o lugar onde vai. Há quantos anos o Chelsea não ganhava um campeonato? Há quantos anos a Inter não ganhava a Champions? E ainda assim há e haverá sempre quem tenda a criticá-lo.

Cada um faz e diz o que quer, mas neste caso os números são incontornáveis. É um Special One, um treinador vencedor, e aconselho vivamente a leitura dos livros sobre Mourinho escritos pelo seu biógrafo oficial, o Luís Lourenço. Há histórias fabulosas.

 


Manuel Sérgio, filósofo do futebol

 

Universidade do FutebolO Mourinho defende um modelo de treino integrado, em que não há separação entre o que é físico, técnico, tático e psicológico. O que você pensa a respeito disso? Essa filosofia de trabalho já era aplicada no futebol português por outros treinadores?

Sérgio Raimundo – Eu não posso falar muito objetivamente do trabalho dele porque nunca o vi trabalhar. Independentemente do que faça, resulta, ganha títulos, é um treinador vencedor, por isso o que quer que faça deve estar certo!

Acredito fortemente no princípio de Bolletieri (fundador da famosa academia de tenistas da Flórida) descrito no livro “Bounce” de Matthew Syed: “Cada tentativa, perseguida com paixão, produz uma sequência de sucesso, independentemente do resultado. Porque não tem a ver com ganhar ou perder – mas sim com o esforço investido para se produzir o resultado. O melhor modo de predizer o futuro é criá-lo – assim, acreditamos que temos os melhores métodos de treino para ajudar cada atleta a alcançar os seus sonhos e objetivos e, em última análise, a alcançar o seu nível de capacidades na arena do desporto e da vida.”

Veja que esta frase pressupõe antes de mais uma forte mentalidade de trabalho, de entrega, de dedicação; então, a mentalidade precede tudo o resto, é nisto que acredito.

Mais concretamente, posso dar exemplos em relação aos tipos de trabalho que se podem facilmente observar no futebol, não querendo colocar fronteiras entre eles, visto que se podem mesmo cruzar e/ou complementar segundo a metodologia de quem os aplica. O trabalho mais direcionado para a preparação dita “física”, mas que também é mental/social e tudo o resto, onde a “preparação física” tem enorme preponderância e depois se trabalha a tática na “peladinha”, 11X11.

O trabalho integrado foi aquele que mais vi quando estive no Brasil, no qual se colocava a bola para realizar exercícios mecânicos, mais de nível técnico a que chamavam “fundamentos”, em que dois jogadores, frente a frente, passavam de pé esquerdo, depois de direito, depois de cabeça. Depois passava-se a exercícios de passe e no final realizava-se o 11X11. No meio deste trabalho, havia sempre lugar para um dia de treino sem bola na praia.

O trabalho com preponderância tática, em que tudo se trabalha no campo, em que se trabalham os princípios de jogo intra/inter-setores e corredores, dentro do sistema delimitado, mas com qualidade de decisão aberta/tomada de decisão constante, nos quais os jogos reduzidos ganham preponderância, a intensidade é sempre máxima e só varia o tempo de repouso e os efeitos do treino são medidos também em nível emocional e não apenas condicionados ao lactato/VO2 máx. Com qual concordo mais? Com este último e é assim que trabalhamos na Étoile Lusitana, mas há outros fatores muito influentes no rendimento das equipes.

O que falta nisto tudo? O humano, que não pode estar fora do processo, o conhecer o jogador, saber lidar com ele, saber do que ele precisa e o que tem para nos dar, transformá-lo com uma palavra, criar ligações com o grupo, saber gerir o grupo, aprender a gerir o grupo, otimizar o grupo, “a crença gera biologia”.

Se outros treinadores já trabalhavam assim? Penso que sim, mas não tenho como confirmar. Pergunte ao professor Manuel Sérgio que ele sabe, acompanhou muitos treinadores ao longo da sua vida e foi dirigente durante 28 anos, mas tem que haver gente trabalhando com qualidade. Há uns melhores numas coisas e outros noutras, agora Mourinho é o português mais bem sucedido, na minha opinião pessoal, por ter ganho tantos títulos em países com enorme expressão no futebol mundial. Independentemente do fator sorte que algumas pessoas gostam de acrescentar à sua personagem, isso tem que querer dizer alguma coisa.

Em relação a Mourinho, lembro-me de um ex-jogador profissional falar sobre os treinadores que teve, e dizia que, para ele, Mourinho tinha sido o melhor líder, uma pessoa muito perspicaz, capaz de saber exatamente o que um jogador pensa e precisa ouvir em determinado momento, mas também referiu Scolari como o melhor motivador que já teve, e outros como melhores no trabalho tático.

Obviamente que isto é variável consoante a cada um, mas para este jogador, o que distinguiu Mourinho dos outros foi a sua liderança. Para mim, Mourinho tem ainda mais mérito por ter feito um corte com o que era tradicional – as pré-temporadas sem bola e fora dos campos de futebol.

Não sei se foi o primeiro, ou o segundo, ou em que lugar o fez, mas parabéns pela sua coragem de realizar “o novo”! Mas este novo também só tem sentido porque ele felizmente teve bons resultados para sustentar as suas ações, e não é imitável!

José Mourinho: um treinador pós-moderno

 

 

Universidade do FutebolO professor Manuel Sérgio diz que Mourinho tem como diferencial o apoio de seu trabalho nas ciências humanas. Mesmo com o sucesso dele, porém, ainda são poucos os treinadores que usam esse modelo de trabalho como referência. O que falta para esse modelo ser mais aceito e o pensamento acadêmico ganhar mais espaço no meio esportivo?

Sérgio Raimundo – A minha opinião espelha-se nesta frase que o professor Manuel Sérgio escreveu no livro “Filosofia do Futebol” citando Edgar Morin: “Existe a inadequação cada vez mais ampla, profunda e grave entre os nosso saberes separados, partidos, compartimentados entre disciplinas e por outro lado as realidades ou problemas cada vez mais polidisciplinares, transversais, globais, planetários. Nesta situação, tornam-se invisíveis: os grandes complexos, as interacções e retroacções entre as partes e o todo, as entidades multidimensionais, os problemas essenciais”.

Nesta dita inadequação encontra-se também o pensamento acadêmico e essa é a grande questão: o que se aprende e se transporta da universidade para o campo atualmente? Quantas pessoas falam em abordagens multidimensionais? E dessas, quantas realmente aplicam? Será que não falam mais nos lactatos, limiares aeróbios e anaeróbios, tipo de treino de força, endurance, etc.? É isso que é quantificável? Se não for isso, tem-se medo de perder espaço de intervenção no futebol; mas como diz o grande mestre Manuel Sérgio, “o psiquiatra quando fala com os doentes também está a fazer ciência e no entanto está apenas a conversar”.

Neste momento não penso que seja o pensamento acadêmico que esteja ganhando espaço, nem que deva obrigatoriamente ganhar espaço enquanto não reformular a compartimentação a que se assiste no saber científico/universitário. Penso que as pessoas que estão a triunfar com os seus métodos são pessoas que, através de várias influências na vida, conseguiram perceber o real sentido do saber científico e o tornaram transversal à realidade da vida cotidiana. Ou pessoas que nunca tendo tido contato aprofundado com as universidades, perceberam a importância de saber mais, das relações humanas, etc.
 

 

Carta aberta ao Doutor José Mourinho

 

 

Universidade do Futebol Você enxerga uma falha na detecção de talentos locais por parte dos clubes europeus? E o que extrai do pensamento de Manuel Sérgio, em que “a identificação e desenvolvimento de talentos, actualmente não é mais do que um espelho da nossa sociedade, da nossa cultura, do contexto ‘hipercientificado’ e ‘hipermercantilizado’” ?

Sérgio Raimundo – Williams e Hodges referiram que é mais fácil avaliar a efetividade dos programas de condicionamento da aptidão física, alterações nas capacidades aeróbia e anaeróbia e características antropométricas como a composição corporal e o peso, do que intervenções ao nível comportamental. Se algo estiver falhando, penso que seja por aí, pela supremacia do quantitativo sobre o qualitativo.

Em relação à frase, ela refere-se às imposições da sociedade de consumo, do “homem-máquina”, do determinismo em que queremos viver sendo que depois acontecimentos como, por exemplo, a catástrofe econômica de 1929, apelidada de “Black Tuesday” ou “Wall Street Crash”, aparecem sem pedir licença, quando tudo parecia matematicamente controlado.

Luís Lourenço, biógrafo do treinador José Mourinho

 

 

Universidade do FutebolNa sua avaliação, o que é um jogador de futebol inteligente? E de que maneira os jovens podem ser estimulados a exercer o processo de autonomia e tomada de decisão nas atividades de treino e nos jogos oficiais?

Sérgio Raimundo – Faço analogia com o ponto de vista do treinador José Mourinho relatado no livro do seu biógrafo Luís Lourenço “Mourinho – A Descoberta Guiada”: “A velocidade no futebol tem a ver com a análise da situação, de reação ao estímulo e capacidade de identificá-lo. No futebol o que é o estímulo? É a posição no campo, a posição da bola, é o que o adversário vai fazer, é a capacidade de antecipar a ação, é a percepção daquilo que o adversário vai fazer, é a capacidade de perceber que espaço é que o adversário vai ocupar para receber a bola sozinho (.) o homem é um todo complexo no seu contexto.” Faz tanto sentido!

Como podem ser estimulados? Acredito que com o referido trabalho com preponderância tática em que nunca se esquece o humano. Em que tudo se trabalha no campo, em que se trabalham os princípios de jogo intra/inter-setores e corredores, dentro do sistema delimitado, mas com qualidade de decisão aberta/tomada de decisão constante, nos quais os jogos reduzidos ganham preponderância, a intensidade é sempre máxima e só varia o tempo de repouso e os efeitos do treino são medidos também em nível emocional e não a

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André Rocha, jornalista e autor do blog “Olho Tático”

No Brasil, há uma espécie de cultura da brincadeira, algo que é analisado com mais profundidade pelo jornalista inglês Tim Vickery, radicado na América do Sul há alguns anos. Segundo ele, o torcedor vibra a favor de seu time e contra o adversário apenas para tirar o sarro, para fazer uma gozação no dia seguinte com seus companheiros. Isso, claro, existe no mundo todo, mas no país pentacampeão é algo ainda maior.

Quem cita Vickery é André Rocha, outro representante da imprensa esportiva nacional. O carioca que administra o blog “Olho Tático”, um dos espaços mais acessados no site Globoesporte.com, entende que a preocupação com o resultado é demasiada.

“A análise mais complexa do jogo, a busca pela beleza, pela qualidade do desempenho, fica em segundo plano. E os treinadores têm que ganhar mesmo que a equipe dele esteja jogando bem e não alcança as vitórias em um período”, resume o profissional que aos 10 anos “decorava escalações de times, desenhava esquemas táticos nas últimas páginas dos cadernos escolares e narrava partidas imaginárias no chuveiro”, conforme descrição pessoal em sua página virtual.

André acredita que a visão sobre o futebol brasileiro deve passar por uma reciclagem: não ser completamente tecnicista, mantendo seus traços culturais, mas com a essência do jogo sendo valorizada. Os grandes clubes e as seleções brasileiras da modalidade só irão rever seus momentos especiais quando o trabalho coletivo novamente funcionar em benefício do talento. E a contribuição deste jornalista e escritor passa diretamente pela plataforma de conteúdo.

Antes do “Olho Tático”, onde ele “encara o desafio de tornar interessante, de forma simples e didática, um tema considerado ‘difícil’, mas fundamental para entender o futebol”, André já escrevia e chegou a comentar partidas na TV a partir de uma indicação do amigo Mauro Beting, com o qual construiu uma relação muito positiva.

O fruto da parceria se apresentou em dois livros: “As melhores seleções estrangeiras de todos os tempos” e “1981”, sobre o Flamengo campeão da Libertadores e do mundo, time que despertou no então menino André a paixão pelo esporte. E no hoje pesquisador, o interesse por entender as razões de aquele grupo comandado por Zico ter sido tão fantástico e eficiente.


 

Universidade do Futebol – Fale um pouco sobre como surgiu sua relação com o futebol e o nascimento da ideia do Olho Tático.

André Rocha – Minha relação começa desde criança, aos 7, 8 anos de idade. Acompanhava o futebol de forma apaixonada, e os dois grandes times que me chamaram mais atenção foram o Flamengo de 1981, com Zico, Leandro, Junior, e a seleção brasileira de 1982, com eles três, e mais Falcão, Sócrates, etc.

A partir de 2005, quando trabalhava com outras coisas, comecei a participar de redes sociais e descobri um espaço de discussão no Orkut, chamado “Doentes Por Futebol”. Por ele cheguei a uma comunidade do Mauro Beting.

Lá, havia a oportunidade de comentar, apresentar opiniões, análises, etc. A forma como eu me colocava começou a chamar a atenção do Mauro, e começamos a trocar figurinhas. Quando ele foi contratado pelo Lance!, no final de 2006, me convidou para ser colaborador do blog dele.

Gostei da experiência, e pouco tempo depois fui indicado pelo próprio para uns testes na TV Esporte Interativo. Era um comentarista convidado, e aprovei muito a experiência, apesar de não ter sido contratado.

Depois disso, fiz faculdade de Jornalismo e criei um blog próprio, o Futebol & Arte, no qual escrevi sobre tudo – inclusive, futebol.

A Abril Digital, à época, estava formando um grupo de blogueiros e recebi o convite para participar do projeto. Meu público começou a ser construído aí, especialmente por causa do futebol.

Mantive contato neste período com o Lédio Carmona e o Gustavo Poli, ambos do Globoesporte.com, e surgiu a ideia de criar um blog específico sobre análises táticas, algo sobre o que eu sempre gostei de escrever.

Propus a criação de uma página especial sobre esta temática, e o Poli, editor-chefe do site, se interessou pela iniciativa. Estou lá desde marco de 2010, e hoje o “Olho Tático” é um dos blog mais acessados do GE.com – são aproximadamente 10 mil acessos por.

Com o Mauro, ao lado do Dassler Marques, participei como colaborador do livro “As melhores seleções estrangeiras de todos os tempos”. E pouco tempo depois, surgiu a possibilidade de parceria, proposta por mim, com o Mauro, de escrever sobre os 30 anos da conquista da primeira Libertadores e do primeiro Mundial pelo Flamengo.

Confira todas as colunas especiais de Mauro Beting publicadas na Universidade do Futebol

 

Universidade do Futebol – O Flamengo de 1981 foi despertou em você a paixão pelo futebol, virando, inclusive, mote de uma reflexão literária. O que você destacaria naquela equipe?

André Rocha – Há o que chamava a atenção do menino de 8 anos e do pesquisador. Do menino, toda a capacidade de mobilizar multidões que aquele time tinha. De envolver as pessoas não apenas com o futebol, mas aquela questão da técnica aliada à vontade. Aquele time dava a impressão de que sempre iria conseguir o resultado positivo de alguma maneira.

Como pesquisador, destacaria a capacidade – e é por isso que o time conseguiu as conquistas que nenhum outro obteve dentro do clube – de não se envolver com a panela de pressão interna na Gávea. Seja por causa das crises, das cobranças da torcida, da imprensa, etc.

Aquele time não se abalava nos momentos negativos, nem entrava com salto alto em um maré positiva. Foram jogadores que criaram uma redoma de profissionalismo que fez com que nada os abalasse.

O Flamengo ganhou o Estadual, a Libertadores e o Mundial, todos em 1981, virou o ano e em abril de 1982 já era Campeão Brasileiro. Isso é inimaginável hoje, primeiro por conta da questão do desmanche: um jogador como o Zico, ou como o Júnior, provavelmente sairia para algum clube europeu.

Tratou-se de um time que venceu de uma forma diferente. E, obviamente, por causa da grandiosidade da torcida, o impacto dessas conquistas acabou sendo ainda maior.


 

Universidade do Futebol – Você trata do tema “tática” com muita propriedade, apontando aspectos muito tecnicistas, especialmente termos, mas com uma linguagem muito receptiva ao público. Qual é a importância da adaptação dessa linguagem para chegar ao público geral de modo mais facilitado? E como vê a importância da teoria e da prática para a capacitação profissional do jornalista esportivo?

André Rocha – Realmente, o objetivo é este: ser o mais simples, didático e direto possível. Até para tirar essa “carga” da análise tática. A linguagem dos treinadores muitas vezes é professoral demais, específica demais.

Existe hoje uma questão dentro do meu blog, para exemplificar: eu “criei” o contexto do “4-2-3-1 torto” para analisar a formação de determinada equipe. Seria um esquema 4-2-3-1 em que a linha de três meias ficaria na diagonal: um meia mais recuado, o armador central e o jogador do lado oposto como se fosse um ponta. A exemplo da seleção brasileira de 2010, com o Elano mais próximo dos volantes, o Kaká centralizado e o Robinho mais à frente. Algo diferente do 4-3-1-2 do Boca Juniors, em que há um losango no meio.

O uso desse “torto” é mais funcional do que se eu usasse “assimétrico”. Visualmente o leitor irá perceber. E procuro evitar todos os termos que possam criar uma noção elitista, intelectual: “Eu sei e estou ensinando”. Não é isso que eu pretendo e o debate não termina no ponto final do post. Todos os comentários são respondidos e a discussão é muito aberta. Essa é minha preocupação: tirar a carga da questão tática.

O Mano Menezes sofre um pouco de preconceito em relação a isso. As pessoas acham que ele está enrolando, sendo muito tecnicista, quando ele vai explicar alguma situação.

Em relação à segunda parte, existe uma questão no Brasil que é o passado da escola de Jornalismo, criado em cima de grandes cronistas, como Nélson Rodrigues. Ele era mais interessado no drama e nos grandes personagens do jogo. Ele ainda tinha um perfil que qualquer coisa ligada a tática, estratégia, estava vinculada aos “bárbaros”, e isso ficou no imaginário popular.

No confronto recente pela semifinal da Libertadores, era o “Santos do Neymar” contra o “Corinthians tático”. Isso nunca cativou o jornalista brasileiro, que sempre se preocupou mais em contar o drama, as belezas, valorizar os craques, as individualidades, sem se atentar ao jogo coletivo. Algo natural, até.

Mas ao longo do tempo, quando o futebol internacional passou a estar mais presente nas transmissões brasileiras, aí se começou a criar um perfil de profissionais mais interessados em análises táticas, estatísticas, e na busca de um diferencial.

Dessa escola, destacamos o PVC, o Mauro Beting, e alguns outros. Mas mesmo assim eles são vistos com preconceito por algumas pessoas – imagem que está sendo quebrada aos poucos.

No próprio livro “Jornalismo Esportivo”, o PVC cita a diferença de tratamento em relação a Garrincha e Pelé, nos títulos mundiais de 1958 e 1962, e a Romário e Ronaldo, em 1998 e 2002. Os dois primeiros são vistos como heróis, e o dois últimos, de um modo mais crítico, analítico, com menos passionalidade.

O Dia da Independência Corintiana

 

Universidade do Futebol – As análises gerais de jogos de futebol realizadas pela mídia reforçam a tese de que olhamos apenas para a parte, sem compreender o todo e a complexidade da integração entre todos os fatores do desempenho esportivo?

André Rocha – Sim, porque o analista muitas vezes não se preparou voluntariamente. Ele chega no jogo e vai comentar sobre o que chamou a atenção dele: quem jogou bem, quem jogou mal, etc.

O Adriano, do Santos, por exemplo, só vai aparecer de forma positiva quando ele marcar o Martinuccio, do Peñarol, na final da Libertadores do ano passado. Ele foi útil em outros jogos, assim como o Arouca, como o Elano, etc. Mas sem o devido valor.

Na semifinal da Copa do Brasil deste ano entre São Paulo e Coritiba, não vi ninguém comentando sobre uma prática comum dos treinadores e que se reproduzia em campo: a marcação individual do setor. Esse tipo de coisa acaba passando batido.

Era algo que eu via de forma clara, mas não era avaliado durante as transmissões. Muito por que não interessa para o comentarista abordar esse tipo de temática.

Isso, claro, envolve outras questões, também: audiência, tempo da TV, preocupação em minimizar alguns tipos de debate para o grande público, etc. A abordagem técnica e tática muitas vezes fica restrita por esse aspecto comercial.

“A tragédia do Sarriá”, em livro e post

 

 

Universidade do Futebol – O Sócrates costumava dizer que se as pessoas acharem que o futebol é “aquele da TV”, o mesmo iria paulatinamente acabar. Você concorda com esta opinião?

André Rocha – Hoje em dia, a tecnologia permite que a gente observe muita coisa. O que tem de dificuldade no Brasil é o enquadramento que é feito nas nossas transmissões. E aí o Sócrates está certo. Aqui, a imagem não é ampliada e não vemos o maior número de jogadores possível. Na Europa, o privilégio é outro, e a observação do conjunto é valorizada.

Isso é muito reflexo do hábito brasileiro de individualizar as ações: é o time do Neymar, o time do Lucas. A câmera fecha em cima do cara da bola, e a movimentação dos demais é subjugada.

No Brasil, não dá para trocar a observação de um jogo no campo por um da TV. Mas ele quis pegar no pé um pouco também é da geração videogame, que observa o jogo sob outro prisma, sem considerar todas as nuances que percebemos em campo.

O próprio Paulo Calçade comenta com muita propriedade que existe o jogo do campo e o jogo da TV. Nossa análise é feita cinco minutos sobre a parte técnica, tática, e 20 minutos sobre a arbitragem.

Isso tem a ver com a complexidade do jogo. É isso que faz o futebol mais apaixonante. É óbvio, também, que a arbitragem tem de ser a mais justa possível, e o investimento em tecnologia é necessário. Mas o futebol é muito maior do que saber se a bola entrou ou não.

 

“Como Ensinar Futebol”: faça agora mesmo o curso online da Universidade do Futebol; a primeira aula é gratuita

 

 

Universidade do Futebol – O Calçade, citado por você, tem uma tese de que o jogo está muito vertical por causa do videogame, ambiente de aprendizagem inclusive para os atletas. “Os garotos costumam pegar a bola e reproduzir no campo aquilo que fazem no jogo virtual”. Você enxerga da mesma maneira?

André Rocha – Nossa sociedade sempre foi individualista. Quando eu jogava futebol na rua, também era assim. O garoto vai querer decidir sozinho, porque isso é próprio do jogador brasileiro. A jogada coletiva só é valorizada quando o craque a inicia e serve seu companheiro.

Ninguém lembra, nos gols do Neymar, de uma parede do Borges, ou de um suporte do Arouca, etc. É algo cultural. Mas essa questão do videogame, colocada pelo Calçade, é precisa: o garoto é seduzido por aquele macete, de fazer uma jogada diferente, de dar uma bicicleta, fazer uma embaixadinha, uma pedalada, etc.

O Mano, junto com o Ney franco e os clubes, gostaria de mudar isso. Lá fora, a marcação está tão bem preparada, bem feita, que não há muitos espaços. Tanto que o Neymar está sendo realocado para uma posição mais centralizada, com a capacidade de distribuir a bola e jogar coletivamente. Ele tem de marcar e atacar. É assim que ocorre com o Messi no Barcelona.

A reação será em cadeia: os times também precisam ser mais táticos, para se adequar a esta realidade. Quem vai trabalhar com o jornalismo esportivo não precisa ser um especialista, mas também deve entender esse processo.
 

 


Entrevista: Paulo Calçade, jornalista e professor

 

 

Universidade do Futebol – Em sua opinião, qual é a importância do treinador brasileiro receber uma formação especializada para exercer sua funções no futebol?

André Rocha – A base é que irá formar o jogador, e dificilmente o treinador conseguirá corrigir os problemas no ambiente profissional.

No Brasil, e isso está começando a mudar, entregava-se esse departamento de formação ao ex-jogador. Um erro. Sem formação, apenas pelo fato de “ter estado lá”, não adianta. Uma coisa é executar. Outra é saber executar.

No jornalismo, ex-jogador comentando não é uma garantia de que ele sabe exatamente sobre todas as situações envolvendo o jogo. O mesmo vale para o treinador.

Ninguém consegue formar um atleta, e muito menos uma equipe, sem conhecimento, sem base acadêmica, sem um curso qualificado. Isso vale não só para se formar treinadores, como também gestores técnicos, coordenadores, jornalistas, etc.

Aquele que administra tem uma forma de absorver o legado de dívida do clube. Com um trabalho integrado, baseado em formação e informação, a coisa caminha. Mas ainda capengamos nisso.

O Santos, quando foi jogar o Mundial contra o Barcelona, passou por uma situação constrangedora. Talvez o único time no país que não iria sofrer tanto contra o Barcelona seria o Corinthians. Por quê? Porque o Tite tem esse jeito, essa formação, esse entendimento mais complexo.

E gente como ele, como o Mano Menezes, etc., em quem você percebe um preparo especial, diferente, deve conduzir o desenvolvimento desse processo no Brasil.

Os treinadores hoje são responsabilizados por tudo. Ao mesmo tempo em que se fala que eles estão defasados, etc., se cobra muito deles. É uma multidisciplinaridade das funções: ele tem de ser técnico, gestor, psicólogo, assessor de imprensa, etc.

Para assumir um cargo deste tipo, em um grande clube, ele tem de estar preparado.

“Ninguém consegue formar um atleta, e muito menos uma equipe, sem conhecimento, sem base acadêmica, sem um curso qualificado. Isso vale para todos”, avalia André Rocha

 

Universidade do Futebol – Você acredita que os treinadores europeus ou que trabalham na comunidade européia são mais bem preparados que os treinadores brasileiros?

André Rocha – Sem dúvidas. Justamente por conta disso que comentei anteriormente. Eles tiveram formação, cursos consistentes, etc.

Hoje se valoriza o trabalho tático da equipe do Corinthians. E o Tite muitas vezes já falou sobre o tempo que ele passou na Europa para aprender sobre marcação, as duas linhas de quatro, a compactação dos setores, etc.

O Corinthians é um dos poucos times que conseguem jogar em 30 metros. Os outros atuam espaçados, com a zaga muito próxima dos zagueiros, e os dois volantes muito próximos deste setor, com os meias lá na frente e um grande buraco.

O Barcelona deitou e rolou em cima do Santos neste espaço. Neymar, Borges e Ganso mal pegaram na bola. Aquela situação deveria ser muito mais pensada. Depois daquele jogo, deveria haver um seminário para entender o que aconteceu ali.

 

 

Santos FC vs FC Barcelona: choque de realidade

 

 

Mas se preferiu dizer que “o Santos teve medo do Barcelona”, “ninguém bateu no Messi”, etc.

É aí que falta a formação geral. O Brasil tem de sair da parte do talento, do folclore, e partir para o profissionalismo. Nossa economia é forte, crescemos, somos referências em diversos outros setores, aprendemos muito, mas no futebol demonstramos resistência. Nos consideramos detentores do talento – e até com certa razão.

Muitos dos avanços do futebol mundial tiveram o Brasil como pioneiro. Fomos os primeiros a jogar no 4-3-3, com o recuo do Zagallo; a linha de quatro na defesa foi desenvolvida primeiro aqui; o 4-5-1 nasceu com o Flamengo de 1981. A seleção de 1970 trouxe inovações táticas, com a plantação de um lateral e a liberdade a outro, etc.

Mas tudo mais na base da criatividade. A escola brasileira se baseia nas compensações táticas para privilegiar o talento. É o jogador que marca para que o outro apareça e decida. Isso hoje é o que tem de morrer. Todos têm que marcar e jogar. A qualidade técnica é fundamental. Mas temos de ter a humildade de querer aprender.

Exemplo da seleção brasileira de Dunga, no 4-2-3-1 “torto”; na final da Copa do Brasil, equipes se comportaram de modo semelhante

 

 

Universidade do Futebol – Qual sua avaliação sobre a edição de 2012 da Eurocopa? Houve alguma mudança em termos táticos, em uma comparação à última Copa do Mundo, por exemplo?

André Rocha – Os jogos foram mais interessantes do que na Copa do Mundo e eu percebi as seleções menos esgotadas do que no período da África do Sul. Trata-se de uma competição de tiro curto, e então as seleções devem chegar jogando tudo, pois não há possibilidade de recuperação.

Em termos técnicos e táticos, havia as seleções mais poderosas. Espanha, Alemanha, um pouco da França e a Holanda, que acabou sendo decepcionando, além de Portugal após a explosão do Cristiano Ronaldo. Havia as favoritas e as que jogaram de acordo com as favoritas.

A própria Itália atuou de modo mais defensivo contra a Espanha, assim como a Croácia e a Irlanda. A França desvirtuou completamente suas características diante da Fúria.

É óbvio que o talento sempre vai fazer a diferença. Cristiano não conseguia render não porque ele “amarela”, mas porque ele está mais presente em seu clube, em uma estrutura mais conhecida. Não há tempo para treinar, para se adequar a uma lógica de jogo, etc.

O treinador luso Paulo bento, então, buscou armar uma proposta para que o Ronaldo não ficasse preso apenas do lado esquerdo. E ele passou a circular e a funcionar mais ao time.

Todos os times jogaram com meias abertos ou pontas: ou no 4-3-3, ou no 4-2-3-1, ou no 4-1-4-1 – modo como a Itália impôs dificuldades, com quatro jogadores no setor de meio-campo, em formato de losango: Pirlo, Marchisio, De Rossi e Thiago Motta.

Os meias europeus marcam, mas os times estão acostumados a jogar contra adversários cujo volante se limita a desarmar, e não armar, apesar do bom passe. Na Itália, o armador, no caso, o Pirlo, vinha de trás. E isso causou problemas a todos que a enfrentavam.

Tem o “Trequartista”, e o “Regista”, que é o Pirlo, um dos responsáveis por conduzir a Itália mais longe do que se esperava, ainda mais por conta dos problemas externos vividos (manipulação de resultados).

Itália finalista: muito além da tradição e do “contropiede”

 


Universidade do Futebol –
Os sites da Uefa e da Fifa fornecem muitas informações online durantes as grandes competições internacionais. Como você manipula os dados estatísticos para compor uma análise e preparar seu texto?

André Rocha – Eu procuro sempre fazer com que estes números estejam a serviço da minha análise, mas nunca condicionando a análise àqueles dados. Posso achar que a Espanha jogou mal e que errou passes importantes contra a França, mesmo que as estatísticas tenham dito que isso não aconteceu. Ela maquia um pouco as situações.

Um exemplo: o Cristiano Ronaldo fez uma jogada espetacular e serviu o Nani, que perdeu um gol contra a Holanda. Aquilo deixou de ser assistência e vira um passe, como foi um na região central, do Miguel Veloso para o Fábio Coentrão. Entende?

Acho que deveria existir a assistência e o passe para gol, mesmo que ele não saia. Ou a tese fica furada.

A Espanha toca muito e evita o passo profundo. Mas situações-chave não podem ser quantificadas da mesma maneira. Quando o Xavi pega a bola e lança para o Iniesta, nas costas do marcador adversário, após uma longa troca de passes, mas a bola vai para fora, isso tem um valor muito grande. Porque ambos pouco erram quando dialogam entre si no campo de jogo.

Qual foi a vez que você viu eles errarem um passe um para o outro? Isso tem peso quando ocorre. Para o adversário, para quem está vendo, para o próprio jogador, mas não existe uma forma de quantificar.

Essa informação sempre serve de amparo. Mas nada substitui a análise do jogo visual, do todo, para captar os detalhes de cada um dos times.

Espanha: a bicampeã da Euro pode tudo

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Daniel Gamba, cônsul do Grêmio em Los Angeles (EUA)

O Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense possui representação consular em mais de 30 países ao redor do mundo, fazendo-se presente em quase todos os continentes. E Nos Estados Unidos – mais especificamente em Los Angeles – não poderia ser diferente. Na maior cidade do estado da Califórnia, Daniel Gamba trabalha diariamente para fazer com que o tradicional clube gaúcho se torne cada vez mais reconhecido, a partir do estabelecimento da marca própria.

A inserção deste gremista de coração no ambiente do futebol, porém, começou dentro das quatro linhas do campo de jogo. Ele atuou no São Paulo, clube amador de Bento Gonçalves-RS, passando a jogar mais tarde no Clube Esportivo de Bento Gonçalves e ainda no próprio Grêmio. Sempre em categorias de base.

Ao obter o diploma em Comércio Exterior pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, recebeu uma bolsa para estudar e jogar futebol universitário nos Estados Unidos. Lá, graduou-se em Gestão Esportiva na Alliant International University de San Diego, CA, e fez um estágio para uma marca de material esportivo na Copa do Mundo da Coréia do Sul e do Japão em 2002.

Desde então, Gambá vem se aprimorando por intermédio de estágios e trabalhos em diversos projetos e eventos esportivos de grande porte relacionados ao esporte, mas principalmente ao futebol. Em 2009, ingressou na Cartan Global, agência que possui os direitos de comercialização dos ingressos para as Olimpíadas e dos pacotes de hospitalidade com ingressos para as Copas do Mundo da Fifa em diversos países, mas na grande maioria da América Latina – onde trabalha até hoje.

“Meu único objetivo sempre foi, e será, de colaborar com o Grêmio na medida do possível, através dos meus contatos no futebol mundial, sempre em busca de uma aproximação de marcas mundiais investindo no esporte com o clube, além de apresentação de novas oportunidades no exterior para expandir a marca Grêmio em novos mercados e na esperança de conquistar novos sócios-torcedores”, afirmou Gamba, nesta entrevista à Universidade do Futebol.

De acordo com ele, cada consulado do clube tricolor tem basicamente uma função representativa: em outras palavras, deveria ser a imagem do clube em respectivo país, estado e cidade nos quais os mesmos estão localizados.

A atuação de cada um destes núcleos varia, passando pela organização de eventos de confraternização, atividades em busca de novos sócios na comunidade local e até excursões para jogos oficiais do Grêmio. Tal planejamento estratégico, diz Gamba, depende unicamente do respectivo cônsul e de seus adjuntos, uma vez que em grande parte os consulados não recebe um aporte financeiro para a realização dessas ações.

“Infelizmente, até hoje, poucos projetos saíram do papel, em grande parte por falta de interesse do próprio Grêmio em explorar esses mercados no exterior. Recentemente, o atual departamento de marketing do clube demonstrou maior interesse em buscar novos mercados, sendo assim, já estamos buscando viabilizar alguma oportunidade para o Grêmio principalmente aqui nos Estados Unidos”, revelou o especialista em marketing esportivo.

Gamba entende que o Grêmio deve, sim, buscar uma expansão de sua marca e conquistar novos sócios-torcedores nos países vizinhos da América Platina, mas o foco deveriam ser os “mercados emergentes do futebol” e potencialmente os de gigantesca força na economia mundial, como a China.

“As oportunidades estão batendo na porta dos clubes brasileiros, não só do Grêmio. Quem acordar primeiro e souber capitalizar isso o mais rápido possível estará abrindo uma vantagem considerável em se comparando aos outros times do Brasil”, acrescentou Gamba.

Relacionamento com a área esportiva: de cima para baixo, Gamba com Guardiola, Francescoli e Havelange

 

Universidade do Futebol – Daniel, em primeiro lugar, fale um pouco sobre a sua formação acadêmica e sua atuação profissional no ambiente do futebol.

Daniel Gamba – Em primeiro lugar, eu gostaria de agradecer à equipe da Universidade do Futebol pela oportunidade. Espero em breve ver mais entrevistas nesse sentido de proporcionar aos leitores uma visão diferenciada sobre os aspectos extra campo, mas que influenciam de uma maneira geral, o esporte mais praticado no mundo.

O meu envolvimento e a paixão pelo esporte, principalmente o futebol, começou desde os cinco ou seis anos de idade jogando futebol nas categorias de base do São Paulo (um clube amador de Bento Gonçalves-RS, onde o Grêmio realiza suas pré-temporadas), passando a jogar mais tarde nas categorias de base do Clube Esportivo de Bento Gonçalves e ainda no próprio Grêmio.

Depois de obter o meu diploma em Comércio Exterior pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, recebi uma bolsa para estudar e jogar futebol universitário nos Estados Unidos. Estudei Gestão Esportiva na Alliant International University de San Diego, CA, e fiz um estágio para uma marca de material esportivo na Copa do Mundo da Coréia do Sul e do Japão em 2002.

Desde então, eu venho me aprimorando através de estágios e trabalhos em diversos projetos e eventos esportivos de grande porte relacionados ao esporte, mas principalmente ao futebol. Além dos trabalhos de consultoria, eu estou desde o início de 2009 na Cartan Global, uma agência que possui os direitos de comercialização dos ingressos para as Olimpíadas e dos pacotes de hospitalidade com ingressos para as Copas do Mundo da Fifa em diversos países, mas na grande maioria da América Latina.

Universidade do Futebol – Como surgiu a ideia de criar um consulado do Grêmio nos Estados Unidos? Há outros consulados ligados às cores preta, azul e branca pelo mundo?

Daniel Gamba – Quando fiz minha mudança em definitivo aos Estados Unidos há mais de 10 anos, já havia alguns consulados do Grêmio por aqui. Anteriormente, eu, mesmo muito jovem, já era muito atuante no futebol no interior do Rio Grande do Sul, como cônsul adjunto do Grêmio em Bento Gonçalves-RS, minha cidade natal. Desde então, solicitei minha transferência para começar a representar o Grêmio aqui em Los Angeles, CA, onde estou vivendo já há alguns anos.

O Grêmio, um clube de reconhecimento mundial, possui representação consular em mais de 30 países ao redor do mundo, fazendo-se presente em quase todos os continentes.

Gamba na final da Copa do Mundo da África do Sul (acima) e na premiação dos melhores do Mundial do mesmo ano

 

Universidade do Futebol – O que representa um consulado ligado a um clube de futebol brasileiro em um país estrangeiro e qual é a sua função cotidiana à frente dele?

Daniel Gamba – Cada consulado do Grêmio ao redor do mundo tem basicamente uma função representativa – assim, deveria ser a imagem do clube em respectivo país, estado e cidade nos quais os mesmos estão localizados. O objetivo primordial é fazer do Grêmio um dos clubes mais reconhecidos do mundo, tendo sua marca presente nos mais diversos países.

Alguns consulados são muito mais atuantes do que outros, organizando eventos de confraternização, atividades em busca de novos sócios na comunidade local, e até excursões para jogos do Grêmio ao redor do Brasil e do mundo, entre outras diversas ações. Esse trabalho depende unicamente do respectivo cônsul e de seus adjuntos, uma vez que em grande parte os consulados não recebe um aporte financeiro para a realização dessas ações.

Universidade do Futebol – Como se dá a integração entre você, como representante oficial do clube, e a diretoria tricolor?

Daniel Gamba – No meu ponto de vista a relação é muito boa, não somente com a atual diretoria, mas também com diretorias de anos anteriores. A grande maioria dos clubes brasileiros é de grande influência de grupos políticos dentro do próprio clube. Imagino que, devido ao fato de eu não fazer parte de nenhum grupo político, posso ter esse diálogo aberto com distintas diretorias dos mais diversos e diferentes grupos políticos.

Meu único objetivo sempre foi, e será, de colaborar com o Grêmio na medida do possível, através dos meus contatos no futebol mundial, sempre em busca de uma aproximação de marcas mundiais investindo no esporte com o clube, além de apresentação de novas oportunidades no exterior para expandir a marca Grêmio em novos mercados e na esperança de conquistar novos sócios-torcedores.

Infelizmente, até hoje, poucos projetos saíram do papel, em grande parte por falta de interesse do próprio Grêmio em explorar esses mercados no exterior. Recentemente, o atual departamento de marketing do clube demonstrou maior interesse em buscar novos mercados, sendo assim, já estamos buscando viabilizar alguma oportunidade para o Grêmio principalmente aqui nos Estados Unidos.

A perspectiva é muito boa, uma vez que o mercado de marketing esportivo no Brasil vive um momento de muita euforia e entusiasmo com as possibilidades de crescimento nos próximos anos. Essa evolução do mercado deve-se a diversos fatores, dentre eles o mais importante é o iminente, e em alguns casos até já em andamento, fluxo de investimentos que serão gerados por conta da Copa de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, e de como os esses eventos globais podem impactar positivamente na geração de novos negócios no esporte brasileiro, principalmente no futebol.

Mas precisamos estar preparados com administradores capacitados para saber receber e tirar melhor proveito desses investimentos internacionais.

Em interação com dirigentes gremistas, Gamba revela que pretende viabilizar alguma oportunidade para o Grêmio principalmente nos Estados Unidos

 

Universidade do Futebol – Ações ligadas ao departamento de marketing também são discutidas em conjunto?

Daniel Gamba – Na teoria, isso seria fantástico, mas na prática, lamentavelmente, não é bem assim com o consulado daqui em Los Angeles, e também com outros consulados com quem eu mantenho contato aqui nos Estados Unidos e no Brasil.

Imagino que possa haver uma consulta do departamento de marketing com o nosso departamento consular, o qual representa todos os consulados de um modo geral, mas isso não é o suficiente, nem representa o conhecimento local de cada consulado e suas respectivas regiões.

O ideal seria ter um diálogo aberto com os principais consulados em mercados emergentes do futebol de alto poder aquisitivo, buscando oportunidades de novos negócios nesses países.

Universidade do Futebol – Em recente entrevista, o Paulo César Verardi sinalizou que “quem é do Sudeste não tem muita ideia do tamanho do apelo que o Grêmio tem no país”, e previu uma expansão de marca – não apenas de lojas – na Argentina e no Uruguai. Como você avalia isso?

Daniel Gamba – De que a marca Grêmio é forte, eu acho isso indiscutível. Mesmo com a escassez de títulos de expressão nos últimos anos, basta você verificar as diversas pesquisas com o número de torcedores e de reconhecimento de marca publicadas nos mais diversos meios de comunicação do país, e você irá quase sempre constatar que o Grêmio é, de um modo geral, a quinta maior marca do futebol brasileiro, sempre como o primeiro clube fora do eixo RJ-SP.

Sendo assim, imagino que possa haver uma expansão da marca Grêmio, não apenas de lojas, na Argentina e no Uruguai, mas mesmo assim, na minha opinião, não vai ser muito significativa em termos de um aumento significativo em receitas para o clube.

O Grêmio deve, sim, buscar uma expansão de sua marca e na esperança de conquistar novos sócios-torcedores nos países vizinhos da América Platina, mas o foco deveriam ser os mercados emergentes do futebol e potencialmente os mais opulentos na economia mundial, como os Estados Unidos e a China.

 

Universidade do Futebol – Nos Estados Unidos haveria espaço e mercado consumidor para ideia semelhante?

Daniel Gamba – Sem sombra de dúvidas o mercado americano é um dos mais propícios para isso, afinal o seu povo é altamente consumista. Como já falei anteriormente, uma boa estratégia de marketing, combinada a uma ação estratégica direcionada aos consumidores locais, tem tudo para na prática ser um sucesso.

Se a tudo isso pudéssemos agregar o fato de abrir franquias globais com a marca Grêmio no mercado local, combinada à negociação do licenciamento da marca Grêmio, atrelada a uma parceria com um clube local da MLS, além da realização de uma pré-temporada no exterior, a receita é, no papel, de sucesso.

As oportunidades estão batendo na porta dos clubes brasileiros, não só do Grêmio. Quem acordar primeiro e souber capitalizar isso o mais rápido possível estará abrindo uma vantagem considerável em se comparando aos outros times do Brasil.

 

 

Universidade do Futebol – A questão do licenciamento é uma cultura que não é forte no Brasil, muito pela dificuldade de negociação, dos pontos de venda e da pirataria. Como você avalia o trabalho desta ferramenta pelo departamento de marketing do Grêmio?

Daniel Gamba – Eu também acho que os clubes estão deixando de faturar, e muito, com o licenciamento no Brasil. Além dos fatores mencionados, de dificuldade de negociação dos pontos de venda e da pirataria, eu adicionaria o fator qualidade dos produtos licenciados como outro fator que também afeta esse processo.

Muitas vezes, certos produtos licenciados são de qualidade muito baixa, e em alguns casos até inferior a produtos similares que não são licenciados. Cabe ao clube supervisionar esses produtos, afinal, é a marca do clube que está em jogo, e na minha opinião, é inconcebível e inaceitável ver a marca dos clube mais populares do país atrelada a produtos de baixa qualidade.

O consumidor brasileiro tem poder de compra e está cada mais exigente, sempre em busca de produtos de qualidade – cabe ao clube exigir dos licenciados produtos de acordo com a grandeza do clube.

Em relação ao Grêmio, o clube vem fazendo um trabalho bom na área de licenciamento, mas assim como alguns outros clubes, alguns dos seus produtos licenciados, são de preços elevados e não condizem com a nobreza do clube, uma vez que são de acabamento de qualidade duvidosa e de baixíssima categoria.

 

Grêmio projeta expansão na Argentina e no Uruguai

 

Universidade do Futebol – O Grêmio prevê arrecadar R$ 100 mi anuais com sua nova arena – número este que engloba desde a venda de camarotes, cadeiras cativas e espaços comerciais para restaurantes e lojas, por exemplo, até ingressos. É possível alcançar este patamar?

Daniel Gamba – São números bem otimistas e em até certo ponto viáveis a longo prazo. Acredito que nos próximos três, quatro anos, o Grêmio possa alcançar esse patamar de faturamento com a sua nova arena, mas esse salto de faturamento, se comparado aos números atuais, não virá da noite para o dia, e sem um trabalho árduo.

Além da venda dos camarotes e dos espaços comerciais, a ideia é maximizar o uso da arena nos dias que não haja jogos, com distintas atividades. A receita do “matchday” também será importante, uma vez que o torcedor busca conforto e qualidade, e até não se importa em pagar bem por um serviço, se o mesmo for de qualidade.

O que me deixa tranquilo quanto a isso é o fato de que a Grêmio Empreendimentos, empresa gestora da nova arena em conjunto com a construtora OAS, possui um planejamento estratégico bem definido aliado a excelentes ideias e conceitos, além de ser administrada por vários profissionais capacitados.

A transição dos sócios do Olímpico para a Arena será uma tarefa árdua, mas tenho certeza de que num futuro muito próximo o clube ainda vai arrecadar muito mais com seus novos clientes sócios-torcedores, afinal, já é um fato evidente de que se o torcedor não for sócio, dificilmente assistirá a jogos na arena mais moderna do Brasil.

Os torcedores precisam se conscientizar de que não haverá espaço para todos e vale muito a pena se associar, afinal, além de estar colaborando com o clube do coração, o sócio-torcedor tem inúmeras vantagens e descontos com empresas associadas, além de estar adquirindo ingressos a preços mais acessíveis, sem depender dos “temerosos” cambistas em tempos de jogos decisivos.

Grêmio prevê arrecadar R$ 100 mi anuais com arena

 

Universidade do Futebol – Que paralelo você traça entre a Indústria do Futebol e a Indústria dos Esportes Americanos?

Daniel Gamba – O mercado de futebol nos Estados Unidos é o que mais cresce localmente. Além do número de praticantes aumentar a cada ano, a liga local, MLS, já ultrapassou a NBA em média de público por partida, sendo agora a terceira liga que mais leva público em média aos seus estádios.

A tendência é de que isso venha ainda a melhorar nos próximos anos, uma vez que a chamada “geração futebol” nos Estados Unidos, que cresceu vendo o desenvolvimento do esporte desde criança, está entrando num período de geração de novos consumidores, ou seja, as crianças e adolescentes da década de 90 já se tornaram ou estão se tornando pais, e os seus dependentes irão crescer num ambiente familiar futebolístico, uma vez que seus pais já cresceram vendo futebol, muito diferente das gerações anteriores.

O esporte nos Estados Unidos, assim como em diversos lugares do mundo, é uma tradição familiar, em que o fanatismo histórico dos torcedores dos times de beisebol e de futebol americano passa de geração para geração. Vejo essa “tradição” com bons olhos, e espero que o mesmo possa ocorrer com essa “geração futebol” que já está formando novos torcedores para dar sequência a essa filosofia.

 

A globalização do futebol brasileiro

 

Universidade do Futebol – Um dos problemas da gestão do futebol brasileiro é a falta de qualificação profissional no comando dos clubes. Ainda esbarramos na falta de administradores capazes de romper a barreira da saturação mercadológica local na busca da consolidação das estruturas e das marcas no exterior? Como avançar nesta questão?

Daniel Gamba – A política que impera nos ambientes futebolísticos do Brasil é um atraso para o nosso futebol. Sou ciente de que na teoria a política deveria ser eliminada do futebol, mas que para isso acontecer na prática é muito difícil, ou até impossível.

Atualmente, o futebol brasileiro movimenta bilhões de reais anualmente, e na minha percepção é inadmissível que o mesmo continue sendo administrado por “voluntários”. O futebol brasileiro tem que ser administrado por pessoas capacitadas, com diploma em suas respectivas áreas, sob o supervisão de um Conselho.

O ex-jogador de futebol quer assumir cargo executivo no clube em que ele atuou e foi ídolo pode fazer isso sem problemas, mas desde que ele vá primeiramente se aperfeiçoar e estudar para obter o conhecimento necessário para ser um administrador, afinal, a história dentro de campo foi de sucesso, mas é passado, e isso não significa que o mesmo ocorrerá fora dele.

Há vários casos de jogadores extraordinários dentro de campo, mas medíocres como treinadores ou gestores de futebol. A política atrapalha essa profissionalização, afinal, precisamos de pessoas capacitadas e especialistas em administração esportiva para comandar os nossos clubes. As mesmas, estariam sujeitos a normas e regras de uma empresa qualquer, onde o bom trabalho realizado é devidamente recompensado, enquanto que as falhas e os erros são cobrados perante risco de demissão.

A fórmula parece simples, mas o difícil é colocá-la em prática: o nosso futebol ainda é político demais para isso. Alguns clubes, já possuem executivos especializados em cada área administrativa, com cargos remunerados, mas a grande maioria deles ainda é “administrada” por voluntários, e enquanto isso for praxe, dificilmente conseguiremos mudar esse cenário. Quem mais perde com isso é o futebol brasileiro.

A política que impera nos ambientes futebolísticos do Brasil é um atraso para o nosso futebol”, acredita Gamba

 

Universidade do Futebol – Em um artigo de sua autoria, publicado na Universidade do Futebol –, você questiona a razão pela qual ninguém se preocupa em divulgar os clubes brasileiros em mercados emergentes, bem como explorar a captação de novos “torcedores” ou fãs. Por que isso ocorre e quais estratégias podem ser criadas?

Daniel Gamba – O mercado brasileiro no futebol está praticamente saturado. Quem nasce gremista, por exemplo, dificilmente trocará de time. E isso ocorre em diversos times em todo Brasil, onde o futebol é paixão, quase uma religião.

Você sempre vai encontrar algumas pessoas que no decorrer da vida até trocam de time, mas as chances de obter sucesso são maiores se você tentar conquistar novos consumidores que ainda não foram “tocados”. Consumidores os quais são apaixonados pelos atletas brasileiros, amantes da nossa seleção, mas de conhecimento quase nulo sobre o nosso campeonato local e os nossos times tradicionais.

Os clubes devem buscar novos mercados no exterior, e há muitos mercados emergentes no futebol ainda carentes de ídolos e de identidade com equipes locais, vide a América do Norte e a Ásia. Mas de nada adianta você contratar um jogador americano ou chinês na esperança de consolidar a sua marca nesses mercados, se não houver uma estratégia correta e forte de marketing.

Em minha opinião, o clube deveria primeiramente tentar conquistar os consumidores nesses mercados com ações voltadas especificamente a esses clientes potenciais, para depois fazer uma ação nesse sentido de contratar um jogador, dando sequência, assim, à ação inicial. A busca por um jogador de qualidade, também é muito importante. Não se pode esquecer que o objetivo é fortalecer a marca no exterior, mas não se pode ignorar que isso será mais viável, se a equipe for de qualidade e estiver disputando títulos.

Outro fator importante seria a adaptação ao mercado internacional. Parabenizo o pioneirismo e a iniciativa do Corinthians na contratação do chinês Chen Zizao, entretanto, tenho receio de que a iniciativa possa ser um tremendo sucesso. Primeiramente, achei equivocada a ação de colocar um apelido no atleta, “abrasileirando” o jogador, quando na realidade você teria que estar internacionalizando o Corinthians, adaptando o mesmo ao mercado asiático. Em segundo lugar, as informações que nos chegam pelos meios de imprensa é de que o objetivo do Corinthians é vender mais camisas no mercado asiático, mesmo que duvide da afirmativa.

Desde os tempos em que o Manchester United contratou o coreano Park, jamais os seus executivos e diretores falaram em uma aquisição para aumentar as receitas do clube nesses mercados, mesmo que na realidade era evidente que esse fora um dos objetivos primordiais. Além de ser um dos maiores clubes do mundo e de forte reconhecimento no mercado asiático, o United conseguiu contratar um excelente jogador e de qualidade diferenciada se comparada à de alguns de seus conterrâneos asiáticos.

O fato de o clube tratar a contratação do jogador como um acréscimo de qualidade ao seu elenco colaborou para aumentar a confiança e o reconhecimento do povo asiático com a agremiação, uma vez que os mesmos enxergavam os ingleses confiando no potencial do jogador asiático.

O clube brasileiro que souber capitalizar isso e focar em uma ação pioneira nesse sentido estará, de certa forma, ganhando presença vital em mercados importantes. Agora, se o projeto é contratar um jogador chinês, só com o objetivo de vender mais camisas no mercado internacional, realmente, não acho um esforço viável, nem recomendável.

Para Gamba, clube brasileiro que souber capitalizar e focar em uma ação pioneira com a contratação de um grande jogador estrangeiro estará, de certa forma, ganhando presença vital em mercados importantes; Zizao é o caso?

 

Universidade do Futebol – Certa vez, o Grêmio teve a possibilidade de realizar uma de suas pré-temporadas nos Estados Unidos, mas o processo acabou não sendo concretizado. Por quê?

Daniel Gamba – O que realmente ocorreu foi uma questão de datas, uma vez que a oportunidade chegou muito tarde ao Grêmio, e os investidores nos Estados Unidos precisavam de uma resposta imediata. Não foi possível no ano passado, mas a perspectiva pro futuro é boa.

A ideia seria incorporar a pré-temporada no exterior com um conjunto de ações voltadas ao marketing global do clube no respectivo país. Imagino que o departamento de marketing do clube esteja trabalhando para isso, e espero que em breve o Grêmio possa anunciar algumas novidades bem interessantes aos seus torcedores.

Universidade do Futebol – A rivalidade com o Internacional pode render frutos comerciais ao Grêmio, ou a animosidade potencializada por alguns dirigentes inviabiliza, por exemplo, ações administrativas e de marketing conjuntas entre estes clubes?

Daniel Gamba – Eu sou da opinião de que a rivalidade tem que ficar para a torcida e dentro de campo quando um esteja enfrentando o outro. Fora isso, os dois deveriam estar unidos. A grandeza de um só existe por causa das façanhas do outro.

Porto Alegre deveria se orgulhar do fato de ser a cidade brasileira, juntamente com São Paulo, com maior número de títulos (4) da Libertadores, o torneio mais importante em nível de clubes em toda a América, sem falar nos títulos mundiais e nas inúmeras conquistas nacionais dos dois clubes mais importantes da região Sul do país.

O que inviabiliza um maior investimento “estrangeiro” no estado, na minha opinião, é de certa forma o pensamento muitas vezes bairrista e provinciano do povo da região. Uma prova disso são os patrocínios regionais nas camisetas dos dois clubes desde 1995 – ou seja, há quase 20 anos os dois clubes expõem patrocínios regionais. De 1995 até 1997, o Inter teve o Grupo Aplub e o Grêmio as Tintas Renner como seus patrocinadores. A partir daí começaram os patrocínios em conjunto.

Para uma marca investir no futebol do Rio Grande do Sul é praticamente seguro afirmar que a mesma tem que estar fortemente associada com a cultura gaúcha. A partir da instalação de sua fábrica naquele estado, a General Motors se “tornou gaúcha” (numa visão do povo local), e a mesma passou a investir em patrocínio conjunto aos dois maiores clubes de lá de 1998 até 2000.

Desde 2001, os dois clubes gaúchos possuem o Banrisul, um banco regional, como seu patrocinador máster. Eu, na minha modesta opinião, não acho que os clubes gaúchos souberam capitalizar de uma melhor maneira a grandeza dos dois maiores clubes do Brasil fora do eixo RJ-SP. Se os dois clubes se unissem mais fora do campo, poderiam apresentar para as marcas “internacionais” com potencial de patrocínio um estado forte, de elevado poder aquisitivo (se comparado com algumas outras regiões do Brasil), com muito potencial vencedor (justificado pelo passado de muitos títulos importantes de ambos), onde mesmo fora da mídia nacional e apoio do eixo RJ-SP, consegue resultados fantásticos dentro de campo. Sem falar no fato de que o custo de patrocínio para uma marca no Rio Grande do Sul ser muito abaixo dos valores cobrados para cariocas e paulistas.

O potencial é grande, as oportunidades são muitas, e os resultados são quase garantidos; não se sabe se são as marcas “de fora” que não estão se dando conta do fato que o estado possui dois grandes clubes, sempre brigando por grandes títulos, com alta exposição na mídia nacional e mundial, além de um valor de patrocínio muito abaixo do mercado nacional; ou se são os clubes que não estão unidos o suficiente para fazer o seu “sales pitch” (espécie de argumento de venda) para essas marcas “multinacionais”.

É fato que devido a essa cultura provinciana que predomina no Rio Grande do Sul, dificilmente uma marca de fora investirá somente num clube, deixando de investir no outro. Os dirigentes da dupla precisam deixar a “corneta” para a torcida e focar em ações em conjunto que serão benéficas aos dois clubes. Exemplos ao redor do mundo não faltam (vide o Bayern Munich chegar ao extremo de doar dinheiro para evitar a falência do Borussia Dortmund há alguns anos, mantendo assim a alta competitividade da Bundesliga), mas para isso os dirigentes precisam deixar essa animosidade de lado e trabalhar coletivamente.

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Oliver Seitz, gerente de marketing do Coritiba

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Vinícius Eutrópio, treinador de futebol

Vinícius Eutrópio é um comunicador por excelência. O papo tranquilo e cadenciado desse mineiro da cidade de Mutum talvez tenha relances de sua postura como atleta. Profissional por mais de uma década, tendo passado por categorias de base e defendido uma seleção de juniores do seu Estado, encerrou sua carreira nos campos quando era capitão do Náutico, aos 33 anos.

Naquele período, Vinícius já colocava em pauta o anseio de retomar seus estudos, em curso na faculdade de Educação Física, e transitar para a área técnica do futebol. Ao receber o convite do treinador Artur Neto para se tornar um auxiliar técnico da equipe principal pernambucana, não pensou duas vezes.

“Já não sentia mais tanto prazer pelo jogo, em si, apenas pelos treinamentos. A mudança foi bem tranquila, e passei a tecer um olhar como um membro do corpo técnico, em tom mais administrativo, preocupado com a gestão e o planejamento”, revelou Vinícius.

O hoje treinador, que viveu sua primeira experiência na Europa há pouco mais de um ano, dirigindo o Estoril Praia, que disputa a segunda divisão da Liga Portuguesa, está de volta ao Brasil. Certo de que sua formação como auxiliar técnico de 14 treinadores, coordenador do CT de formação de atletas do Atlético-PR e ótimo trabalho no Fluminense o credenciam para um novo desafio.

“Em 90% dos nossos jogos, tivemos mais posse de bola que o adversário e criamos mais oportunidades de gol, com um bom aproveitamento dos pontos disputados. O trabalho foi muito consistente”, justificou Vinícius – sua saída se deveu algumas questões político-administrativas envolvendo a Traffic, empresa que passou a gerir a agremiação lusitana.

Em Portugal, porém, o brasileiro avançou em diversos sentidos. Além do convívio com a Faculdade de Motricidade de Humana (FMH), onde até foi convidado para ministrar uma palestra sobre a escola de formação de jogadores, teve aprendizados sobre modelos de jogo diferentes aos quais estava acostumado e mergulhou no estudo da Periodização Tática.

“Me perguntavam em Portugal: ‘por que o futebol no Brasil é lento?’. Questionava, dizendo que não era assim e que, em uma umidade do ar alta, com temperaturas elevadas, campos ruins e viagens continentais, sem tempo de preparo e jogadores com uma alimentação deficitária desde a infância, diferentemente de boa parte da Europa, a influência era muito grande”, relembrou.

Para ele, a partir do momento em que o país que receberá a Copa do Mundo de 2014 possuir um calendário mais racional – ou uma adaptação dos profissionais da modalidade a ele -, tanto a Periodização Tática, como a intensidade dos treinamentos, podem ser muito úteis e reduzir o desgaste dos atletas.

Nesta entrevista à Universidade do Futebol, Vinícius fala ainda com mais propriedade sobre as suas funções no Atlético-PR, pelo qual faturou três títulos estaduais e os vice-campeonatos brasileiro e da Libertadores, e como se deu a quebra de uma série de paradigmas a partir da unificação das equipes técnicas e implantação da área cultural e da introdução da área acadêmica. E, claro, sua relação de trabalho com Carlos Alberto Parreira, a quem serviu como assistente no Fluminense e observador na seleção da África do Sul.

Universidade do Futebol – Como se deu a transição da carreira como atleta profissional para o início dos trabalhos na gestão técnica de campo?

Vinícius Eutrópio – No decorrer de minha carreira como jogador, e por ser de uma família com irmãos e pais todos com ensino superior, eu me senti motivado e necessitado a também cursar uma faculdade, num complemento natural das coisas.

Quando atuava no União São João, de Araras, já cursava Educação Física em Sorocaba, mas não foi possível completar por conta das mudanças de cidade, contratado de um clube ao outro.

Aos 33 anos, capitão do Náutico, recebi o convite do treinador Artur Neto para mudar de função e me tornar um assistente técnico dele no próprio clube. Não pensei duas vezes e em uma semana ocorreu essa transição – já não sentia mais tanto prazer pelo jogo, em si, apenas pelos treinamentos.

A mudança foi bem tranquila, e passei a tecer um olhar como um membro do corpo técnico, em tom mais administrativo, preocupado com a gestão e o planejamento.

O Artur Neto, então, recebeu o convite para ser o treinador do Atletico-PR e me convidou para segui-lo.

O clube foi meu grande professor. Lá, no contato com diversos profissionais, como Antonio Carlos Gomes, além de vários treinadores e diretores, há um conceito bem arraigado que te permite e te estimula a novos projetos e desafios.

Tudo que tinha em minha cabeça consegui colocar em execução e fazer funcionar na prática ao longo dos seis anos de Atlético-PR.

Passei por todas as funções antes de me tornar treinador. Fui jogador de categoria de base, profissional durante 16 anos, fui auxiliar técnico de 14 treinadores, coordenador do CT da base do Atlético-PR até chegar ao atual patamar, como um autêntico gestor de futebol.

No Criciúma, capitão do Náutico e integrante da seleção mineira de juniores em 1984: Vinícius vestiu algumas camisas antes de preparar sua transição

 

Universidade do Futebol – Como foi a separação entre você e o Artur?

Vinícius Eutrópio – O nosso trabalho durou justamente três meses no Atlético-PR. Já havia a filosofia de uma comissão técnica permanente há seis anos, e somente treinador e auxiliar técnico chegavam ao clube.

Quando houve o fim do ciclo do Artur, para minha surpresa, a equipe técnica, bem como alguns atletas, foram à diretoria pedindo para que eu ficasse e passasse a integrar aquele staff fixo – prova da aceitação da minha conduta e do trabalho desenvolvido.

O Artur tem princípios muito fortes, é uma pessoa muito leal e de um caráter muito digno. Assim que recebeu a notícia da rescisão, ele me ligou e disse que, se houvesse a oportunidade de eu ficar, era para ser feito dessa forma, visto que eu estava em princípio de carreira.

Somos muito amigos até hoje e nossa “separação” acabou ocorrendo de maneira muito tranquila.

Universidade do Futebol – E o cotidiano de trabalho no Atlético-PR?

Vinícius Eutrópio – Foi interessante, pois estava há seis meses como auxiliar e não tinha experiência nenhuma com formação, muito menos como coordenação de um departamento deste porte.

Quando recebi o convite, a resposta era “sim” ou “sim”. Algumas metas foram traçadas e me foram apresentados os históricos do clube nas categorias de base.

Em quase 84 anos de história, desde a fundação, o Atlético-PR não tinha nenhum atleta convocado para uma seleção brasileira de base; há quatro anos, o clube não figurava entre os quatro mais bem colocados na categoria júnior do Campeonato Paranaense; e havia necessidade de formar atletas para vender e angariar lucro.

Com nosso método de trabalhar, em integração com todos os outros profissionais envolvidos nessa área técnico-científica, demos início à construção de uma filosofia diferente, com todo o aval do presidente Petraglia.

Os treinadores trocavam de funções e se ajudavam. Eu mesmo ia a campo, recebíamos as famílias, unificamos o modo de jogar em termos de características dos jogadores, eliminamos os preparadores físicos no infantil e colocamos coordenadores motores, dando ênfase à construção e capacitação do ser humano e do atleta, assim como levávamos grupos de atletas para teatros, eventos culturais, etc.

Ao término de três anos do projeto, fora os títulos, que são consequência, tivemos 17 jogadores convocados para seleções brasileiras de base; 23 jogadores levados ao grupo principal (a meta era de apenas um por ano); cerca de seis atletas da equipe principal titulares no vice-campeonato brasileiro de 2004 eram provenientes da formação; e alguns de milhões de dólares por causa da venda de jovens abaixo de 21 anos.

A sequência ocorreu com o Marco Antônio Biasotto e ficou estabelecida uma estrutura forte, a grande guinada da história do Atlético-PR. Muitas pessoas compraram essa ideia diferente e todos se empenharam muito. Atuei por lá até 2004, antes de migrar para o departamento profissional, trabalhando com diversos treinadores, como Abel Braga, Antonio Lopes, e o preparo da equipe em 2006 antes do Lothar Matthäus assumir.

Depois de seis anos de clube, com uma troca muito justa entre as partes, acabei me desligando e dei sequência à minha carreira.

Universidade do Futebol – No Fluminense, você atuou tanto no departamento de formação de atletas, quanto no grupo principal, primeiro com o Carlos Alberto Parreira. Relembre essa passagem.

Vinícius Eutrópio – Ao sair do Atlético-PR, criei uma nomenclatura e, no Fluminense, passei a atuar como “coordenador de apoio técnico”. Eu seria um auxiliar técnico permanente, mas que teria influência direta nas categorias de base, para formação de elenco e contratação.

Participei da montagem do time de 2007, campeão da Copa do Brasil, em parceria com o Sérgio Gregório, que também tinha passagem pelo Atlético-PR.

Montamos uma sala de musculação, outra de reuniões, para análise de jogos e conversa, e uma área de lazer e descanso, para manter os jogadores no clube quando havia treino em dois períodos.

Fiz também um link com Xerém, que era muito abandonado. Uma ou duas vezes por semana ia até lá, fazíamos reuniões, e participava inclusive dos treinamentos. Naquela leva, realizamos a transição de cinco jogadores, em quem apostamos, e obtivemos sucesso: Maurício, Tartá, Bob, Maicon e Alan.

Com eles, não houve interferência do treinador – eu mesmo que desenvolvia um trabalho específico com eles. O Mauricio foi para a Rússia. O Bob é do grupo principal hoje. E Maicon e Alan também foram para o exterior.


 

Universidade do Futebol – Em sua opinião o que deve mudar no trabalho das categorias de base nos clubes brasileiros? De forma geral, você acredita que o trabalho é bem feito, pelo menos nos grandes clubes?

Vinícius Eutrópio – Eu acredito que os talentos do futebol no Brasil são fruto muito da quantidade de jovens potenciais – além, claro, da qualidade dos profissionais que trabalham na base. Talvez não tenhamos um padrão, uma estrutura montada, para definir o perfil desses jogadores. Em especial, o processo de captação de jogadores.

No Atlético-PR, para citar, tínhamos um protocolo de avaliações e testes. Mas o fundamental para que pudéssemos aproveitar os talentos desde o início foi que as aprovações eram realizadas por todos os treinadores e por mim.

Normalmente, o comandante do sub-15 vai fazer uma escolha de um jogador mais forte, já pronto, para ajudá-lo na vitória na partida do próximo domingo. Mas nós, como coordenadores, temos de entender o atleta e o planejamento de forma mais global. As avaliações, então, tinham como critério o departamento principal, e todas as questões ligadas à maturação.

Um fator primordial que acontece em nosso cotidiano é a exigência que os clubes fazem para que os treinadores ganhem, por si só. Há muita pouca preocupação, ainda, com a formação mais ampla, contextualizada. Os treinadores, hoje em dia – e as faculdades estão ajudando isso -, possuem cada vez mais uma base acadêmica e passam a entender que a melhor formação ajudará diretamente no preparo mais qualificado de atletas inteligentes.

Universidade do Futebol – Como você se atualiza e qualifica hoje?

Vinícius Eutrópio – Mais estabilizado em Curitiba, desde a minha aposentadoria como atleta profissional, recomecei o curso de Educação Física. Passei quatro anos trabalhando como coordenador da base do Atlético-PR e simultaneamente estudei em uma faculdade. Foi uma experiência maravilhosa e que me rendeu muitos frutos, pois convergia a minha área de atuação com a vivência acadêmica. O trabalho era também meu laboratório.

Nós montamos um projeto no clube em que todos treinadores e preparadores de goleiros também eram formados em Educação Física.

Para me manter ativo, assino revistas de futebol, acesso sites, assisto a muitos jogos, e dentro deles pesquiso sobre espaços, aspectos táticos, utilizo bastante a tecnologia esportiva para auxiliar no meu treinamento. E a busca pelo conhecimento não pode parar.

 

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Universidade do Futebol – Durante quase dois anos você dirigiu a equipe do Estoril Praia, da segunda divisão portuguesa. Como foi essa experiência estrangeira?

Vinícius Eutrópio – Tive um ano e meio muito bom, logo após o fim do meu ciclo na Copa do Mundo de 2010, com a seleção da África do Sul. De lá, fui direto para a Europa, e assumi o Estoril Praia.

Tinha a intenção de buscar algo mais em Portugal e também oferecer algo. Fiz muitos contatos com treinadores, procurei me aproximar da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa, mas se trata de um país bem fechado, muito por conta da cultural local, em relação à oportunidade para atletas, acadêmicos e jovens profissionais.

Conseguimos dentro de um protocolo com essa faculdade receber quatro alunos pós-graduados para nos ajudar no clube, com análise de jogos e estatísticas. A troca foi muito positiva, e busquei dentro do modo de cada jogador aprender sobre as especificidades do treinamento esportivo, em especial questões ligadas ao microciclo – era necessário entender todo esse processo esportivo cultural de um continente diferente.

Outra coisa é jogar contra aquelas linhas bem estreitas e compactas. Isso me fez desenvolver muitos princípios e mudar um pouco meu pensamento em relação a busca de espaço no campo, como superar barreiras, etc.

Em 90% dos nossos jogos, tivemos mais posse de bola que o adversário e criamos mais oportunidades de gol, com um bom aproveitamento dos pontos disputados. O trabalho foi muito consistente.


 

Universidade do Futebol – E por que retornou ao seu país natal?

Vinícius Eutrópio – O convite para treinar o Estoril partiu da empresa Traffic, que tem esse projeto muito interessante, e eles viram uma necessidade de mudança de rumo e de objetivos. Mas aí seguem várias hipóteses que não quero citar.

Não foi por causa do desempenho esportivo, sem dúvidas. Até porque traçamos algumas metas e executamos dentro do combinado. E também houve a necessidade de eu sair.

Na própria temporada passada, quando estava contratado pelo Estoril, recebi convites para dirigir algumas equipes da primeira divisão portuguesa, mas recusei.

Estou no Brasil agora, e não diria que não voltaria para a Europa. Mas pelo atual momento do nosso país, e apesar das resistências, com a organização da Copa-14, vivemos um momento excelente e minha aposta é me fixar por aqui. Me preparei durante 11 anos e tenho a expectativa de assumir uma equipe em breve.

Universidade do Futebol – Qual é a sua visão sobre a Periodização Tática, algo mais bem consolidado no ambiente português, e como você enxerga uma eventual adaptação desse conceito pelos gestores técnicos brasileiros nos clubes?

Vinícius Eutrópio – Em primeiro lugar, é bom frisar que uma minoria, mesmo, que se utiliza da Periodização Tática com sucesso.

No Brasil, devemos preparar mais os profissionais e não forçar nada. Eu mesmo não classifico meu trabalho como a Periodização Tática, mas uma mescla de tudo o que vi e vivi ao longo de minha carreira, ao lado dos outros companheiros de comissão técnica.

Há 10 anos se faziam 10 km de corrida em uma reapresentação pós-jogo na terça-feira. Hoje isso é muito raro. Da mesma forma, a Periodização vai ser inserida aos poucos, pelo nosso calendário, pelo nosso clima, pelos nossos campos, etc. Esse enfrentamento irá ocorrer, não como forma de cópia, mas de entendimento e facilitação.

Me perguntavam em Portugal: “por que o futebol no Brasil é lento?”. Questionava, dizendo que não era assim e que, em uma umidade do ar alta, com temperaturas elevadas, campos ruins e viagens continentais, sem tempo de preparo e jogadores com uma alimentação deficitária desde a infância, diferentemente de boa parte da Europa, a influência era muito grande.

A partir do momento em que tivermos um calendário mais racional, ou uma adaptação nossa a ele, tanto a Periodização Tática, como a intensidade dos treinamentos, podem ser muito úteis e reduzir o desgaste dos atletas.

Periodização, crê Vinícius, vai ser inserida aos poucos, muito por conta do calendário, do clima e dos campos brasileiros

 

Universidade do Futebol – Hoje em dia se discute muito a eficácia de se usar uma metodologia de treinamento que parta do Modelo de Jogo pretendido pelo treinador, ou seja, preparar a equipe (nos aspectos físicos, técnicos, táticos e até psicológicos) a partir das ações táticas, sem fragmentar muito os treinamentos. José Mourinho e André Villas Boas são dois treinadores que adotam essa metodologia. O que você acha dela?

Vinícius Eutrópio – Eu entendo que ela é corretíssima e procuro trabalhar dessa forma. Todos meus treinamentos, até no individual, são feitos dentro dos modelos táticos. Utilizo princípios de movimentação nos aquecimentos, inclusive, sempre ligando a prática ao Modelo de Jogo. E você consegue tirar do atleta o “desempenho físico”, para que ele leve isso para o jogo.

Universidade do Futebol – Isso demanda um suporte político, com o entendimento de dirigentes e profissionais envolvidos com a gestão administrativa dos clubes, ou é possível se realizar independentemente da relação, apenas pelo staff técnico?

Vinícius Eutrópio – Eu acho que é fundamental partir de cima para baixo. Equipes em que eu era o coordenador, como no Atlético-PR, visualizava o trabalho desenvolvido no profissional e procurava criar uma linha integrada com as equipes de formação.

Se houver o amparo de dirigentes à implementação dessas ideias, claro, a evolução tende a ser mais consistente e rápida.

 No Atlético-PR, coordenador visualizava trabalho desenvolvido no profissional e procurava criar uma linha integrada com as equipes de formação; buscou repetir isso no Estoril (foto)

 

Universidade do Futebol – O que você acha do jogador de futebol brasileiro atual em termos técnicos e de inteligência de jogo? E qual o paralelo você faz com o jogador português?

Vinícius Eutrópio – A diferença que vejo é em relação à improvisação. O brasileiro tem um poder maior, por causa da necessidade de se ajustar a várias plataformas de jogo e das constantes trocas de treinador em uma mesma equipe, mas não necessariamente tem a melhor tomada de decisão. Este aspecto é mais apurado no atleta português, que possui uma percepção maior.

Dentro de um sistema tático, se houver a necessidade de efetuar um drible ou operar algo que não foi planejado, o português encontra mais dificuldade. Fruto do “pragmatismo” dos jogos e dos esquemas táticos locais.

A capacidade do jogador brasileiro é muito grande, e ele está mais bem preparado. Mas ainda há muita coisa a evoluir, em diversos aspectos, para o salto ser maior.

Universidade do Futebol – Como você vê a relação entre treinador e atleta neste quesito da tomada de decisão e da autonomia? Você estimula seu grupo?

Vinícius Eutrópio – O jogador atual sempre quer saber as razões das atividades a se fazer. A partir da relação de confiança criada e do entendimento dos treinamentos e a absorção da forma de trabalho, o grupo irá avançar. Liberdade é diferente de libertinagem, e entender o processo de treinamento, modificando-o, é válido e necessário. O grupo deve sempre marcar presença e apontar sua opinião.

“Liberdade é diferente de libertinagem, e entender o processo de treinamento, modificando-o, é válido e necessário”, diz.

 

Universidade do Futebol – Atualmente, faltam jogadores brasileiros protagonistas, com potencial ofensivo, nos principais clubes europeus? Qual a razão disso?

Vinícius Eutrópio – É difícil apontar o motivo certeiro. Eventualmente pode ser reflexo de uma nova geração. Também acredito na dificuldade do atacante brasileiro em se adaptar à Europa, desde aspectos culturais, passando por entendimento do jogo e aspectos táticos.

Surgiram muitos atletas de países que não tinham tanta tradição, como Chile, México, etc., nesse processo de globalização, com um nível de competitividade maior que os nossos e com menor preço no mercado. É preciso levar isso em consideração.

Quando o atleta vai à Europa, ele deve passar por um processo humano de adaptação. E talvez boa parte dos atacantes não passe por isso e encontre muitas dificuldades para superar as barreiras iniciais de um novo ambiente.

Universidade do Futebol – Qual é o peso da grande presença de jogadores brasileiros nas principais ligas de futebol de Portugal? Vê esse intercâmbio como algo positivo, ou é um impeditivo para o desenvolvimento de novos talentos locais?

Vinícius Eutrópio – Os dois lados. É importante a presença do jogador brasileiro nessas ligas para qualificar a disputa, mas também a liberação demasiada, pela ótica portuguesa, é ruim.

Um tema muito debatido é a liberação de estrangeiros nas categorias de base. Se não me engano, na seleção portuguesa sub-18, nenhum jogador de Porto, Benfica e Sporting teve convocações, justamente porque esses clubes não tinham nenhum destaque para oferecer.

Isso é muito ruim, e o país deve estabelecer um critério coerente, pois há muitos bons valores – é possível perceber. Mas os mesmos perdem espaço, desde jovens, para estrangeiros.

Sem contar que Portugal acaba sendo também uma porta de entrada para brasileiros que não estão tendo oportunidade no seu país natal.

Universidade do Futebol – De que maneira você costuma participar da montagem dos elencos das equipes com que você trabalha? Como se dá a definição do perfil dos atletas a partir das características do clube, os objetivos a serem alcançados, etc.?

Vinícius Eutrópio – Todo clube é uma empresa. E como empresa, há necessidade de planejamento com todos os funcionários envolvidos. Ao começar uma temporada, a parceria com diretoria e comissão técnica deve ser estabelecida. Dentro disso, está a avaliação do atual elenco, quais as buscas a se fazer, o orçamento previsto, etc.

Ser treinador no Fluminense é diferente de ser treinador no Caxias, por exemplo. Cada local tem sua característica e demanda uma adaptação. Há também o referencial sobre o número de atletas que serão promovidos. Quais as posições mais carentes, as expectativas, apostas, o número de jogadores ideal para uma equipe de acordo com as competições em disputa, etc.

Ter um banco de dados grande e atualizado é muito importante para, depois disso, entrar na etapa das características de cada jogador e estabelecer o grupo profissional: cada posição deve ter várias opções e, o mercado irá sinalizar quais contratações pontuais devem ser feitas.

Cabe ao gestor técnico de uma equipe o entendimento da realidade do mercado. Planejar é a palavra.

Para Vinícius, ao começar uma temporada, a parceria com diretoria e comissão técnica deve ser estabelecida: “planejar é a palavra”

 

Universidade do Futebol – Você também atuou durante muito tempo como assistente técnico. Qual é o seu papel neste caso e qual deve ser relação desse profissional com o treinador no estabelecimento da forma de jogar da equipe?

Vinícius Eutrópio – O primeiro ponto é ser extremamente fiel e aberto. Muitas vezes você não compartilha da ideia do Modelo de Jogo, mas irá fazer parte do mesmo a partir do momento em que você está nessa função.

Há vários auxiliares técnicos dentro de uma equipe. E apostar no método de trabalho do treinador e ter liberdade para intervir nas ações de treinamento é muito importante.

Sugerir mudanças táticas, técnicas e de treinamento são relevantes para o trabalho. E Ser fiel é diferente de ser submisso. A discussão é válida e temos de partir do princípio de que a honestidade prevalece.

O treinador tem de focar muito no jogo, e quando ele olhar para o lado, deve ter a sensação e a certeza de que está tudo funcionando. Os auxiliares devem resolver problemas, e não apresentar novas dificuldades.


 
Entrevista: Jairo Leal, assistente técnico de futebol

 

Universidade do Futebol – Você atuou como analista de seleções na última Copa do Mundo. Conte um pouco mais sobre esse trabalho.

Vinícius Eutrópio – O Parreira, com quem havia trabalhado no Fluminense, me fez o convite para ser observador da África do Sul e analisar os adversários. Passei 15 dias antes da Copa, observando especialmente o México, e me reuni com o grupo técnico para atuar em conjunto.

Apresentei dados, imagens, estatísticas, e compartilhava também ações na parte de treinamento, com o Jairo Leal. Foi uma experiência muito positiva.

Especial: Carlos Alberto Parreira, treinador de futebol

 

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José Teixeira, ex-treinador

São mais de cinco décadas dedicadas ao futebol. Praticamente uma vida, da qual o professor José de Souza Teixeira se orgulha imensamente. Não apenas pelo fato de ter sido um dos pioneiros da inserção da preparação física dentro da modalidade ou por ter participado ativamente de momentos importantes de clubes e seleções no Brasil e no exterior. Mas exatamente porque o experiente profissional não para de viver.

“Sempre fui muito exigente comigo. Procuro desenvolver novos planos, estudar, dar palestras, etc. Dou muito valor à base científica e às pesquisas”, revelou o senhor que tem uma jovialidade impressionante aos 75 anos e diversos causos para contar. Muitos deles estão publicados em “A história de um tabu que durou 22 anos”, livro de 2005 e que retrata os momentos mais adversos do clube paulistano que comemorou seu centenário nesta semana.

Pelo Corinthians, professor Teixeira atuou nas mais diversas frentes. Foi treinador de equipes de base e também do departamento de futebol profissional, seja como interino, ou efetivado – com o apoio irrestrito de Vicente Matheus. No momento em que viu o time do Parque São Jorge romper o hiato sem títulos, entretanto, ele era o preparador físico da comissão técnica comandada por Oswaldo Brandão, uma de suas grandes referências.

Além do saudoso treinador que brilhou também no arquirrival Palmeiras, Teixeira carrega as lembranças e as bases de outros companheiros, como Vicente Feola, Flávio Costa, Zezé e Aymoré Moreira, e Filpo Nuñez. Foi um rival mais “moderno”, entretanto, quem mais causou dificuldades em um momento de duelo estratégico de jogo – marca que sempre acompanhou o professor Teixeira. Trata-se de Vanderlei Luxemburgo.

“Ele tinha o costume de ficar esperando uma substituição do outro time para rebater na sequência, trocando de jogador, também. Perfil diferente do Telê Santana, por exemplo, outro vencedor, mas que preferia valorizar a sua formação em detrimento da do adversário”, comparou.

Remanescente de uma época romântica do futebol, Teixeira pode ser considerado um vanguardista. A busca pela análise constante e pelo amparo técnico-científico sempre permeou suas atividades, seja em campo, na preparação física e no treinamento desportivo, ou fora dele, ministrando aulas, prestando consultorias e desenvolvendo novos projetos.

“Se não ganhar, entretanto, nada tem valor. Mas se você fizer tudo perfeito dentro de estudos e análises, a chance de obter a vitória é bem maior. Por isso que os jogadores entendem. Pois você os trata como seres humanos, como pessoas capazes de entender uma informação e pensar na resolução dos problemas. O grupo de trabalho se faz por intermédio da união”, completou, nesta entrevista realizada à Universidade do Futebol.

Entre outros temas, Teixeira, que está prestes a lançar mais uma obra (“50 anos por dentro do futebol”, narrando de maneira didática todas as suas experiências profissionais), falou sobre sua passagem pelo Oriente Médio, como o empirismo ainda molda as relações no esporte e por que o título Sul-Americano Sub-20, conquistado com a seleção brasileira, foi tão marcante.

Universidade do Futebol No Corinthians, após algumas experiências como treinador interino, o senhor assumiu a equipe em 1978, substituindo Armando Renganeschi. Poderia relembrar um pouco sobre esse período?

José Teixeira  Quando eu saí do São Paulo – fiquei no Morumbi de 1958 a 1964 -, recebi o convite do Corinthians para ser preparador físico da equipe principal e técnico dos juniores. Estudei a razão pela qual não se conquistavam títulos naquele período e cheguei à conclusão: o time perdia para si mesmo, e não para os adversários.

Porque ao final de cada competição que não era vencida, a diretoria dispensava boa parte da comissão técnica e do grupo profissional de jogadores, reiniciando o trabalho inteiro no ano seguinte.

O argumento da cúpula era que não havia tempo para se esperar, e um título era necessário urgentemente. Sempre que jogávamos por outras cidades e estados, contratávamos os jogadores rivais que se destacavam contra nós.

Em 1977, dentro de um projeto com o Oswaldo Brandão, mantendo o mesmo grupo, disputamos o Brasileiro e o Paulista. Após perdermos o primeiro [naquele tempo, o campeonato nacional era disputado antes do estadual], o Edu foi devolvido para o Santos, o Rubens Nicola, para o Rio de Janeiro, o Givanildo, para o Santa Cruz, e o Darci, que era júnior, foi emprestado para o América, de Rio Preto. Resumindo: ficamos com 16 jogadores de linha e três goleiros para disputar o Paulista.

Garantimos que iríamos continuar com aquele elenco, e criamos uma forma de jogar e de dar combate por intermédio da luta pela posse de bola, tudo estudado de maneira detalhada. Quando chegou no fim do ano, o Brandão estava com problemas familiares – o filho dele, Márcio Eduardo, estava muito adoentado. Assim que ele saiu, com a morte do filho e o desgaste natural do campeonato, os outros membros da comissão técnica também deixaram o clube. Eu fiz o mesmo, e entreguei o cargo.

Na casa do Brandão, uns dias depois, ele não aceitou minha saída e me deu a responsabilidade de ficar e manter o trabalho. Acabei não aceitando, permaneci apenas com a equipe de juniores, e o Armando Renganeschi ficou comandando o principal. Após uma derrota, porém, ele não suportou a pressão e foi embora.

O presidente Vicente Matheus, então, me contatou. Eu era treinador das seleções brasileiras de base, da seleção paulista de novos, assessor do SESI e professor do curso de treinadores da USP, da PUC, de Campinas, e da Faculdade Santo André. Com a liberação de todos, em concordância, assumi o Corinthians em 1978.


 Professor Teixeira ao lado de Brandão: parceiro de Corinthians foi responsável por algumas histórias expostas no livro ao lado
 

 

Universidade do Futebol E como foi essa experiência no comando da equipe principal do Corinthians, após ter encerrado um jejum de títulos que perdurava mais de duas décadas?

José Teixeira  Como eu tinha uma vivência dentro do clube e eventualmente assumia de maneira interina a função, eu não tive grandes problemas quando fui efetivado. Havia me preparado para esse momento, na verdade. Minha ideia, quando parei de jogar no antigo São Bento, local onde hoje funciona o São Caetano, por volta de 25 anos de idade, era me tornar treinador.

Bem antes disso, quando termina a Copa de 1958, e o Brasil se sagra campeão do mundo, o Feola e o Paulo Amaral decidem reproduzir o mesmo modelo de comissão técnica no São Paulo. Eles convidaram algumas pessoas, como o Olten Ayres de Abreu, o Nelson Menoni e o Mario Miranda Rosa. Nenhum deles aceitou, e quando receberam o pedido para indicar alguém que quisesse trabalhar naquele novo projeto, meu nome acabou sendo apresentado por todos.

Em dezembro, o seu Manoel Raymundo me fez o convite: ser preparador físico do time profissional, e técnico do aspirante. Aceitei e no dia 20 de agosto de 2010 completei 52 anos ligados ao futebol.

Universidade do Futebol – Quais eram as principais referências do senhor na época?

José Teixeira  Tive muita sorte na vida. No início de São Paulo, trabalhei com um time cuja base era formada por: Poy, De Sordi e Mauro; Dino, Vitor e Riberto; Maurinho, Amauri, Gino, Zizinho e Canhoteiro. Dava treino para essas feras, eu com 23 anos, e alguns com mais de 30.

Queria pesquisar, mas não havia uma literatura consolidada. Fui o primeiro preparador físico do clube e não tinha referências bibliográficas ou outras pessoas da área para trocar ideias. Achei em um livro, de Alberto Langlade, do Uruguai, que fazia a seguinte questão: “como você se auto-avalia?”. E eu me reprovei.

Passei a detectar minhas deficiências. Primeiro: não sabia falar em público, e fui fazer um curso de oratória. Depois disso, outro de relações públicas, psicologia, de massagista, de árbitro, estudos específicos que me dessem condições de pelo menos entender melhor o meio.

Sempre fui muito exigente comigo. Procuro desenvolver novos planos, estudar, dar palestras, etc. Dou muito valor à base científica e às pesquisas.

Realizei um curso de biomecânica só para treinar goleiros. Tenho um levantamento que aponta que de 10% a 15% dos gols em todos os campeonatos do mundo saem de rebatidas dos goleiros. Procurei orientação para entender a razão pela qual isso ocorre.

Controlo atualmente os Campeonatos Inglês, Francês, Espanhol, Italiano, Alemão, Português, Argentino, Paulista, Brasileiro Séries A e B e Copa do Mundo.

O coração do mundo no futebol em organização está na Europa. O top de exigência técnica, psicológica e tática de uma equipe está na Copa. Se você tiver esses parâmetros máximos, qualquer torneio disputado abaixo disso tem de ficar naquele limiar.

Para se ganhar um título, uma equipe tem de ter em média 70% de aproveitamento na competição. Então, não importa o nível e o local: é necessário atingir uma porcentagem próxima dessa para obtenção de triunfo.

Tive a oportunidade de trabalhar com Feola, Flávio Costa, Zezé Moreira, Aymoré Moreira, Oswaldo Brandão, Filpo Nuñez, Renganeschi, Lula, e via o que eles tinham de bom. Procurei assimilar o máximo de positivo de cada um, mas o mais completo e que mais me inspirou foi o Zezé, pelo valor aos detalhes.

Universidade do Futebol – O senhor acredita que ainda hoje o empirismo molda as relações dentro do futebol, com as questões técnico-científicas ficando em um plano inferior?

José Teixeira  Essas questões não são relegadas às vezes – elas são sempre deixadas de lado. Justamente porque as pessoas que estão no comando de clubes e federações não se preocupam com esses detalhes. E essa ausência de preocupação é porque não se conhece ou não se dá valor à importância da ciência.

Cada época tem uma exigência e uma necessidade e você tem de estar preparado para estas necessidades.


 Em 2006, Teixeira comandou a seleção paulista de futebol feminino na Copa da Paz, disputada na Coreia

 

Universidade do Futebol – Atualmente, quais as principais “necessidades” que o senhor apontaria dentro de um clube de futebol?

José Teixeira  Primeiro, um planejamento. Ninguém faz um levantamento quando chega ao clube para detectar as razões pelas quais ele vai mal. Assim como, do outro lado, não se faz uma análise detalhada para saber o porquê se conquistou o título. As vitórias encobrem as deficiências. E as derrotas encobrem as virtudes.

Se não se definem parâmetros ao término de uma temporada, no outro ano o trabalho terá de ser começado do zero. A mescla é sempre importante e necessária, inclusive na formação de um grupo de atletas.

Universidade do Futebol – E a ineficácia nesse tipo de planejamento estratégico se deve a quê? Falta de recursos financeiros, profissionais capacitados?

José Teixeira  Por falta de um interesse dos treinadores, também, de se aperfeiçoarem. Fui fundador da Associação Brasileira de Treinadores de Futebol, em 1975, passando por diversas funções administrativas. Estamos na edição de número 37 do Curso Internacional para Treinadores de Futebol, já. E todo treinador que passou por lá não volta para ouvir – apenas está presente se for convidado para falar.

São raríssimos os que participam de mais de uma edição para assistir aos outros companheiros de profissão.

Sobre o comando administrativo, infelizmente faltam gestores qualificados. Quem geralmente fica como diretor de um clube é aquele abnegado que tem dinheiro, sem ser remunerado. Na empresa na qual ele trabalha, há uma filosofia racional, com previsão orçamentária. E no ambiente futebolístico, a emoção acaba falando mais alto.

Doutor Paulo Machado de Carvalho costumava dizer que os nossos clubes, infelizmente, realizavam planejamento “em cima do joelho”, na base da conversa e da troca de favores. E não é assim que deveria ser.


Preparador físico da seleção brasileira, Teixeira participou da Copa América de 1968; ao seu lado, Paulo Machado de Carvalho, chefe da delegação, com Salim Athalla, diretor jurídico da FPF, ao fundo 

 

Universidade do Futebol – O senhor já contou algumas histórias sobre o Vicente Matheus, presidente do Corinthians de então, colocando-o como um dos melhores dirigentes com os quais trabalhou. Como era a relação entre vocês?

José Teixeira  Pelo Corinthians, somando todos os períodos, trabalhei 12 anos. Estive com Wadi Helu, Miguel Martinez, Waldemar Pires, Matheus e com o Alberto Dualib. Meu conceito é que sou empregado do clube, e não do presidente.

De todos estes, cada um tinha sua virtude. Sobre o Matheus, ele era rico, espanhol, turrão e presidente do Corinthians. Era homem de uma palavra só, antes de tudo. Quando ele me convidou, na casa dele, para assumir o comando técnico do time principal, pedi um prazo de três meses para reformular o grupo. E ele avisou: “nem um dia a menos; mas também nem um dia a mais”.

Minha ideia era atuar com o Sócrates, que tinha sido contratado, um pouco mais centralizado, vindo de trás, com dois pontas abertos, para mexer com a estrutura de equipe que acompanhava o Corinthians há alguns anos. Trouxe também o Biro-Biro, o Peter, o Taborda, o Wilsinho, o Djalma, e coloquei alguns garotos no time titular – Mauro, Solito, Wágner Basílio, etc.

Nesses primeiros três meses, a torcida queria me matar, pois o time não andava bem. Quando perdemos para Palmeiras por 2 a 0 no Morumbi, com mais de 98 mil pessoas, e ampla maioria da nossa torcida, fui vaiado, com os corintianos pedindo minha saída.

No dia seguinte, o Matheus anunciou uma entrevista coletiva e avisou: “como nós demos um prazo para o ‘ténico’ (sic), não mudo o comando enquanto o prazo não vencer. O Corinthians muda de presidente, mas não muda de ‘ténico’ (sic)”.

Prestigiado, comecei a implementar algumas mudanças, e a equipe evoluiu. Esse era o Matheus, um dos dirigentes administrativos mais inteligentes que eu conheci.

Universidade do Futebol – Por boa parte da torcida e da imprensa, o senhor era visto como muito teórico e estrategista. Como foi lidar com isso? Atualmente, treinadores com esse tipo de perfil ainda sofrem com esse mesmo tipo de rótulo?

José Teixeira  Infelizmente, pouquíssimas pessoas se preocupam com estratégias táticas. Eu falei que tive uma auto-avaliação e sempre procurei me aperfeiçoar. Na época em que não havia uma comunicação tão avançada, lia muito referências sobre Napoleão, Alexandre, o Grande, Aníbal, e passei a compreender algumas lições sobre planejamento.

Eles traziam informações sobre pontos fortes e fracos do inimigo de guerra a fim de abastecer seus exércitos. No futebol, o princípio de vitória e derrota é o mesmo. Para vencer um jogo, é necessário entender a postura e as ações do seu adversário de maneira antecipada.

Na minha vida, eu só tive um treinador no qual eu precisava prestar atenção o tempo todo para não perder a partida: Vanderlei Luxemburgo. Ele tinha o costume de ficar esperando uma substituição do outro time para rebater na sequência, trocando de jogador, também. Perfil diferente do Telê Santana, por exemplo, outro vencedor, mas que preferia valorizar a sua formação em detrimento da do adversário.

É necessário conhecer os adversários, mas não apenas a formação do último jogo, e sim o tipo de personalidade do treinador e dos jogadores. Amparar-se na ciência para fazer pesquisa e usar na prática.

Se não ganhar, entretanto, nada tem valor. Mas se você fizer tudo perfeito dentro de estudos e análises, a chance de obter a vitória é bem maior. Por isso que os jogadores entendem. Pois você os trata como seres humanos, como pessoas capazes de entender uma informação e pensar na resolução dos problemas. O grupo de trabalho se faz por intermédio da união.

Universidade do Futebol – De maneira geral, qual a análise do senhor sobre a formação do atleta brasileiro, desde as categorias de base, chegando ao profissional?

José Teixeira  O futebol está mais veloz, com os campos mais reduzidos. Tempos atrás, a análise passava pelo tamanho do jogador e as aptidões técnicas e físicas, sem fazer o uso da ciência para definir o tipo de personalidade de cada um.

Hoje, entretanto, temos esse embasamento, mas continuamos treinando os jogadores para um tipo de futebol que não existe mais. A preparação deve ser diferente, utilizando-se de todos os recursos técnico-científicos. Ainda pecamos nisso.

Universidade do Futebol – O senhor comentou sobre sua preparação dentro da psicologia. Como observou a inserção de um profissional específico dessa área no ambiente do futebol ao longo dos anos?

José Teixeira  O trabalho físico é essencial para preparar um jogador. O técnico, também, assim como o tático, de acordo com os interesses coletivos. E o psicológico deve ser trabalhado, mas ainda há uma aversão preconceituosa no futebol.

Psicólogo é confundido muitas vezes com psiquiatra, e o atleta fica confuso por falta de orientação. Especialmente nas categorias de base, a ação desse profissional em longo prazo é muito relevante. A maioria dos garotos vem de famílias pobres, sem estruturação.


Em 2001, quando o São Paulo foi campeão do Torneio Rio-SP (estreia de Kaká), Teixeira atuava como superintendente do clube no qual iniciou a carreira como preparador físico 

 

Universidade do Futebol – Atualmente, o senhor acredita que os clubes têm uma visão ligada aos aspectos sócio-culturais, pensando na formação do indivíduo antes de tudo?

José Teixeira  No geral, não. Para assinar o primeiro contrato profissional, você tem de possuir no mínimo 16 anos e apresentar uma declaração de vigência escolar. Infelizmente, essa declaração é às vezes falsa, pois os clubes querem aquele talento futuramente e não há possibilidade de conciliar as aulas, os treinos, os jogos e as viagens. Na Europa, há uma inversão: o homem, pronto, é moldado como atleta profissional.

Se nós temos o grande capital, que é a técnica individual do menino brasileiro, por que não começamos desde cedo a prepará-lo como cidadão?

O regresso precoce de muitos atletas do nosso país que vão viver uma experiência no exterior, por exemplo, está relacionado a essa má formação. Problemas simples são criados, como saudades da família, dificuldade de costume à comida local, etc., e a sequência da carreira é prejudicada.

Já levei muitos jogadores para o exterior e presenciei diversos desses empecilhos. O jogador começa a criar casos com os próprios companheiros de time, prejudicando o ambiente. Isso é reflexo de má formação e preparação.

Universidade do Futebol – O senhor acumula passagens por diversos clubes internacionais, como Millionários, da Colômbia, Al Nasr, da Arábia Saudita, Al Shabab, dos Emirados Árabes, Universitário, do Peru, e Tokyo Gaz, do Japão. Como foi a experiência sócio-cultural de viver em outros países e quais as principais diferenças em termos de metodologia de trabalho encontrada no Brasil o senhor poderia apontar?

José Teixeira  Todos os clubes do exterior para os quais fui contratado encontravam-se em situação problemática. No Millionários, montamos um plano e investimos em estrutura. Havia muitas dívidas, decidimos comprar um carro importado e fazer uma espécie de rifa para arrecadar um dinheiro extra. Com a verba, finalizamos a construção de um campo de treinamento. No Universitário, do Peru, outro exemplo, também não havia nada. O mesmo problema infraestrutural.

O Al Shabab, que não conquistara títulos e sequer cedia jogadores para a seleção, passou a ser referência. Com os jogadores trabalhados em nossa base, desenvolvemos um projeto muito interessante e acabamos tendo oito atletas convocados para a equipe que era então comandada pelo Carlos Alberto Parreira.


 Meados da década de 1980, nos Emirados Árabes: grupo de brasileiros antes de amistoso; destaque também para presenças de Parreira, Joel Santana, Marcos Falopa e José Roberto Portela

 

Universidade do Futebol – O senhor teve também uma passagem pelo Santos…

José Teixeira  Apresentei um documento com sugestões para o presidente do Santos da época. O item número 1 era o fechamento do estádio Vila Belmiro por seis meses para efetuar uma elevação do gramado em um metro, pelo preço de R$ 1mi. A análise era bem feita, assim como a argumentação.

Fui falar com o Narcício Vernisi – o saudoso Homem do Tempo, da rádio -, e com o profissional que fazia na base aérea de Santos a previsão para o litoral. Ele me informou que chovia de 50% a 60% dos dias do ano na região. Fui também até a prefeitura de Santos, falar com o departamento de engenharia, e concluí que o alagamento do campo da Vila Belmiro era reflexo da construção histórica daquele terreno. O lençol freático na Baixada Santista é muito alto, e não era possível realizar a drenagem da maneira mais eficiente.

Não sei se ajudei ou não, mas no ano seguinte a essa parada, o Santos foi campeão com o Luxemburgo. Acredito, porém, que a reforma no centro de treinamento iniciado, o alojamento para a base, a sala de musculação modernizada e o novo departamento médico tenham sido benéficos para a instituição. E é isso que me deixa feliz.

Universidade do Futebol – Qual a análise do senhor sobre a evolução dos esquemas táticos ao longo do tempo?

José Teixeira  Todo esquema tática vive em função de um único valor intrínseco: a qualidade do jogador. Você vive em função do valor individual, mas eu, Teixeira, nunca dei uma linha para que o atleta se limitasse. Sempre procurei estimular a criatividade particular de cada um dentro de uma zona de atuação específica.

Hoje o goleiro precisa jogar com os pés. Antigamente, não era tão necessário. Há mais de 20 anos, procurei colocar esse jogador na linha, durante alguns treinamentos, para que ele desenvolvesse essas novas habilidades.

Se você tolher a liberdade do jogador, ele “morre”. O espírito de criatividade é necessário, e isso não pode ser afunilado.

Universidade do Futebol – Atualmente, o que é necessário para ser um bom treinador: formação acadêmica, ter a experiência anterior como atleta profissional ou ser um bom gestor?

José Teixeira  Tudo. Se você passou por todas essas vivências, o desenvolvimento da função se torna mais fácil. Agora, a maioria dos treinadores não passa pelo crivo da formação acadêmica. Eles acreditam muito no conhecimento empírico, assimilado ao longo da carreira, como observadores.

Filpo Nuñez, por exemplo, que veio do Boxe, era um estrategista espetacular. Revolucionou o futebol em relação à saída de jogo e à cobrança de laterais e lances de bola parada. Nunca vi um treinador trabalhar esse quesito com tanta propriedade. Tive a sorte de trabalhar com ele e aprender muito.

Universidade do Futebol – Poderia também comentar um pouco sobre os outros treinadores com os quais o senhor atuou e que lhe serviram de base?

José Teixeira  O Aymoré Moreira era sensacional para organizar defesa. Era difícil ver os times dele sofrendo muitos gols. A base era ter sempre, no mínimo, dois jogadores a mais do que o adversário quando era atacado. E quando atacava, tentar estabelecer o mesmo número.

Zezé Moreira valorizava muito os detalhes e foi muito importante para mim. Já o Oswaldo Brandão era aquele estilo “paizão”. Ele “matava e morria” pelo jogador fora de campo. Foi sempre muito justo. Não aceitava erros, pois queria preservar o ser humano e o profissional.

O Flávio Costa era muito inteligente. Fazia conotações com táticas militares em suas preleções e contava muitas histórias, prendendo a atenção do grupo. E o Feola também adotava aquele comportamento paternalista, já que o São Paulo da época era praticamente uma seleção. Respeito a todos pelo passado brilhante e aprendi muito.


Na disputa da Copa América de 1979, Teixeira foi auxiliar técnico de Cláudio Coutinho 

 

Universidade do Futebol – Em uma entrevista, o senhor coloca o Campeonato Sul-Americano Sub-19, disputado no Chile, em 1974, como um dos grandes momentos de sua carreira. O que houve de especial naquele momento?

José Teixeira  O Brasil nunca havia vencido o Sul-Americano juvenil. E aqui em São Paulo montávamos seleção de novos – atletas que necessitavam de uma experiência antes de ingressar na equipe principal, para viajar pelo exterior. A Federação era quem realizava isso, e eu era o treinador.

Estudei o regulamento, as datas, procurei algumas informações dos adversários, e comecei a levantar os atletas do Estado que tinham condições de ser convocados para representar o país nesse torneio. No São Paulo, inclusive, avisei ao Muricy [Ramalho] que ele não seria chamado, por conta da série de cartões recebidos e atos indisciplinados que ele apresentava. Ele mudou o comportamento daquele momento em diante e esteve na lista final.

Oscar, que era reserva da Ponte Preta, e Ruben, zagueiro do Nacional, que disputava a segunda divisão, compuseram a zaga. Bessa, do Guarani, era o goleiro, com Mauro, na lateral direita, e Ricardo, na esquerda, ambos do Guarani, também. No meio, Muricy, Eudes, da Portuguesa, Zé Mário, do Noroeste, Mauro, do São Paulo, Maizena, da Portuguesa, e Marco Antônio ou Pita na ponta esquerda.

Para a semifinal, contra a Argentina, treinada pelo Menotti, muito exaltada pela imprensa, senti que meu time estava assustado. Gosto que o jogador brasileiro cante. Quando ele reproduz musicalmente algo, está exteriorizando algo de positivo. E na véspera pairava um silêncio, denotando uma contração geral. Fiquei preocupado.

A preleção foi realizada não no auditório, mas no meu quarto do hotel. Queria mais contato físico, todos sentados no chão, lado a lado, para que o contato emocional fosse mais perceptível. É uma estratégia de relacionamento.

Quando encerrei o discurso, abri para perguntas, e ninguém se pronunciou. Fique na porta do quarto e disse: “infelizmente não iremos ganhar o jogo hoje”. Impactou, e ninguém se mexeu. Repeti a mesma frase, e o Ricardo, lateral, rebateu: “por que não iremos ganhar?”. E eu afirmei que eles estavam com medo, pois do dia anterior para cá eles haviam parado de cantar durante nossos encontros.

Desafiei o grupo a cantar “Fio, maravilha”, que era a música que compunha o ambiente, e todos baixaram a cabeça. Depois de alguns minutos, em meio ao silêncio, começaram a batucar e a cantar baixinho, até que houve a libertação e um grito geral. Quando isso ocorreu, mudei o tom: “agora tenho a certeza de que vocês vencerão a Argentina”. Até arrepia ao lembrar.

Chegamos ao estádio Nacional, de Santiago, trocados, batucando e gritando, e vencemos por 2 a 0. Na coletiva após o jogo, ao ser questionado sobre o desempenho, falei que foi um acidente a vitória – pegaríamos ainda o Uruguai, no confronto adiante.

O Menotti agradeceu as palavras e afirmou: “hoje, mesmo que a Argentina atuasse com 22 jogadores em campo, perderia para o Brasil”. O golpe psicológico ajudou. Não havia garantia de triunfo com essa ação. Se não tivéssemos feito, entretanto, certamente não venceríamos o rival.
 

Confira a campanha completa do título do Brasil na competição

 


Equipe base do Brasil, na disputa do Campeonato Sul-Americano de 1974, no Chile: Teixeira no comando, e o “rebelde” Muricy, no alto, à esquerda 

 

Universidade do Futebol – O senhor teve a opo

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Alceu Neto, criador do “Futebol de Rua”

Em forma de poema, Luis Fernando Veríssimo buscou apresentar de forma sintética e divertida o que é o futebol de rua. Diferentemente da pelada, disputada em um campinho, o duelo ocorrido na via pública para circulação urbana é ainda mais rudimentar e, perto dele, “qualquer pelada é luxo e qualquer terreno baldio é o Maracanã em jogo noturno”.

Para o escritor gaúcho, torcedor acalorado do Internacional, qualquer homem, brasileiro e que fora criado em cidade sabe do que ele estava falando em seu texto. “Futebol de rua é tão humilde que chama pelada de senhora”, comparou, citando na sequência uma série de regras dessa modalidade específica*.

Para um projeto que busca a valorização do ser humano e a recuperação da auto-estima a partir do esporte, da civilidade, da educação e cidadania e leva em seu nome justamente esse tipo de jogo com bola, o ponto de partida em termos de norma e conduta é: a falta é proibida dentro da partida.

Criada em 2006, a ONG Futebol de Rua nasceu com o intuito de conferir oportunidade para que crianças carentes pudessem demonstrar seu potencial. Pela prática esportiva, os participantes desenvolvem o senso de respeito ao próximo, a convivência social e, dentro das quatro linhas, as habilidades técnicas. À frente disso, está Alceu Neto.

Advogado de formação e alguém que aspirou ao profissionalismo no futsal, ele acredita na convergência de todos aqueles atributos para fortalecer o jovem no enfrentamento dos desafios da vida. Independentemente de um de seus pupilos vingar ou não na carreira futebolística.

“Quisemos criar um jogo interessante, tanto para quem joga, que tem a habilidade, como para quem assiste, vislumbrado com um jogo bonito, sem falta, sem violência, enaltecendo a fraternidade. Com belas jogadas e golaços, o entretenimento se coloca dentro e fora de campo”, argumentou Alceu, nesta entrevista à Universidade do Futebol.

Além de explicar a trajetória do Futebol de Rua, uma maneira de relembrar o velho futebol, tornando-o uma nova tendência de entretenimento, ele fala ainda sobre o diferencial dos garotos envolvidos no projeto, as categorias de base em clubes tradicionais e o cerceamento da liberdade por alguns treinadores.

Universidade do Futebol – Quem é Alceu Neto? Apresente, por favor.

Alceu Neto – Sou um apaixonado por esportes, e em especial pelo futebol. Joguei futsal desde cedo, nunca profissionalmente – parei aos 18 anos, quando entrei na faculdade.

Eu me formei em 1998, pela Faculdade de Direito de Curitiba, com pós-graduação em Direito Empresarial e Direito Esportivo, pelo Ibej (Instituto Brasileiro de Estudos Empresariais e Jurídicos), além de MBA em Marketing Esportivo pela ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing).

Universidade do Futebol – O que é e como surgiu o projeto “Futebol de Rua”?

Alceu Neto – Sempre gostei do futebol bonito, dos dribles e das belas jogadas, dos autênticos “camisas 10”.

Quando morava em Liverpool, comecei a escrever um plano que já tinha na cabeça e nunca havia colocado no papel, de um modelo de jogo bonito, que privilegiasse esses quesitos que sempre me encantaram: assim nasceu o FdR (Futebol de Rua).

Lá na Inglaterra conheci também um projeto chamado Show Racism the Red Card, onde um ex-jogador negro ensinava algo parecido com o nosso futsal. Aí, juntei o jogo bonito com a inclusão social e a educação e nasceu o FdR.

Fui para estudar, mas muitas coisas no caminho aconteceram: acabei parando nesse projeto por alguns meses, com o Mr. Silky Skills, que descobriu que eu era brasileiro ao me ver jogando bola em um campeonato chamado Sunday League.

Fui convidado para participar e meus olhos se abriram para a importância do esporte na inclusão social, na educação, na formação do caráter, e para proporcionar algo melhor àquelas crianças negras que viviam à margem da sociedade.

Universidade do Futebol – O Futebol de Rua utiliza-se de um esporte coletivo para realçar a importância de cada indivíduo no todo, respeitando o conceito do jogo limpo, ou “fair play”. Explique um pouco melhor, por favor.

Alceu Neto – A regra número 1 do FdR é o “fair play” – basicamente o “jogue e deixe jogar”.

A falta é proibida; a primeira é punida com 2 minutos de exclusão; na reincidência, o jogador sai e não volta mais.

Usamos esse procedimento para incentivar o drible, a habilidade. O jogador sabe que pode efetuar uma finta que não sofrerá falta: é o respeito ao próximo. E quando o menino vai jogar o “futebol normal”, ele já faz o movimento do drible automaticamente, o que quase sempre resulta em uma bela jogada, uma falta ou um pênalti.

É isso que temos visto em amistosos que o FdR faz em campos maiores, em partidas de 11 contra 11**.

**Nota da Redação: o símbolo do Futebol de Rua é o jogador de futebol universal, um atleta sem identidade específica, sem objetivar qualquer raça, visando passar com simplicidade a ideia do talento e habilidade do jogador do Futebol de Rua. O conceito foi desenvolvido pelos criadores do jogo e o símbolo foi projetado em colaboração com um designer.


 

Universidade do Futebol – As equipes do FdR realizam “amistosos oficiais” com aquelas equipes de futebol “tradicional”?

Alceu Neto – Sim. Jogamos recentemente com o São Caetano, que fica ao lado de Heliópolis, onde temos um núcleo na cidade de São Paulo. Fizemos também uma partida contra a Fundação Cafu.

Jogamos a Copa Danone em São Paulo e em Curitiba, entre outras competições, às vezes com equipes sem expressão, mas só para mantermos os meninos praticando no campo, também.

No FdR usamos quadras de futsal, trabalhando em espaços reduzidos, valorizando o drible, e sabemos que há uma grande diferença para o campo. Daí a importância de atuarmos na plataforma maior, para mantermos os nossos jogadores em atividade e até para abrir oportunidades de eles irem jogar em algum time, eventualmente, que é o sonho de todo garoto.

Universidade do Futebol – Qual é a metodologia implementada nesse processo de integração, respeito ao próximo, liderança, coordenação motora e habilidade? Qual a preparação dos colaboradores envolvidos no projeto?

Alceu Neto – Temos a nossa metodologia e, para todos os novos núcleos que abrimos, os professores são capacitados pela equipe do Futebol de Rua, bem como semanalmente recebem as aulas a serem dadas, com o suporte dos coordenadores.

Nosso grupo é composto por pessoas das mais diversas áreas. Desde profissionais ligados à Educação Física, ex-jogadores de campo, boleiros de áreas suburbanas, até professores de escolas municipais e gente formada em marketing e administração.

Todos têm um pensamento em comum: a paixão pelo futebol bonito, pelos dribles, pelos representantes simbólicos da “camisa 10”.

Universidade do Futebol – E há uma linha de trabalho diferenciada para cada grupo de alunos dependendo da faixa etária? Como funciona esse aspecto?

Alceu Neto – Temos os grupos masculino, feminino e misto, divididos também em três categorias: de oito a 11 anos; de 12 a 14 anos; e a partir de 15 anos.

Dependendo da faixa etária, alguns exercícios se modificam, devido à coordenação motora, principalmente. Por exemplo, o “momento Freestyle” que temos nas aulas. Com os mais jovens, o nível de exigência é menor: valorizamos mais o aspecto lúdico, a brincadeira…

A aula se divide em treino físico, técnico, tático e coletivo. Entre a parte física e a técnica, temos o “momento Freestyle”, em que tiramos todas as bolas de futebol do campo e entregamos a eles outros tipos de esféricos, como bolas de tênis, de golfe, de basquete, enfim, qualquer coisa redonda.

Os garotos têm que ter o domínio de bola, fazer embaixadinhas e malabarismos com esses objetos diferentes. Esse período da aula é livre para eles criarem. Damos total liberdade para fazerem o que quiserem, com o intuito de aguçar a coordenação motora, a habilidade, o controle e a técnica.

Universidade do Futebol – De que forma são reconhecidos os líderes individuais entre as crianças e de que forma é trabalhada a liderança construtiva pelos professores, coordenadores e técnicos?

Alceu Neto – Notamos aspectos de liderança desde o momento em que fazemos a chamada oral de presença dos alunos até quando eles estão em campo e comandam os times, dando orientações coletivas.

Trabalhamos na forma positiva de detecção do líder. A liderança do atleta é adquirida também pela amizade e pela confiança dos demais meninos no comandante especifico. E damos total liberdade para que eles se descubram como líderes, de forma natural.

Notamos também aqueles que têm a liderança impositiva, pelo grito ou alguma palavra de ordem, o que coibimos no ato. O líder no FdR nem sempre é o mais habilidoso do time, mas sim o mais querido pelo grupo.

Universidade do Futebol – Walter Benjamin diz que o grande equívoco em relação aos brinquedos fabricados é o fato de que estes são sempre pensados como produções para as crianças e não como criações das crianças. Os brinquedos, atualmente industrializados e produzidos em séries, limitam a criatividade das crianças, mesmo quando estas não são totalmente servis a eles?

Alceu Neto – Sem dúvida alguma. Os brinquedos atuais menosprezam a inteligência da criança, são de movimentos mecânicos, os quais não exigem e não instigam as crianças a pensar e raciocinar.

Os videogames atuais mantêm os usuários presos à TV por horas e horas, sem interagir com ninguém, mergulhados em um mundo fictício. Em relação ao advento do Wii, entretanto, vi como uma forma mais interessante, ou menos pior, já que os garotos pelo menos se movimentam para jogar.

Sei que os videogames também contribuem no sentido de criatividade, na rapidez do desenvolvimento da mente, mas tornam a criança sedentária e viciada em um jogo virtual.

Por isso quisemos criar um jogo interessante, tanto para quem joga, que tem a habilidade, como para quem assiste, vislumbrado com um jogo bonito, sem falta, sem violência, enaltecendo a fraternidade. Com belas jogadas e golaços, o entretenimento se coloca dentro e fora de campo.

Universidade do Futebol – O jogo de futebol não é feito apenas de fundamentos, movimentos técnicos, sendo a relação com a bola apenas uma das competências essências dessa prática. Como se podem desenvolver esses mesmos jogos facilitando a aprendizagem da estruturação do espaço e da comunicação na ação?

Alceu Neto – Dentro do FdR valorizamos muito a habilidade com a bola, a coordenação motora, o desenvolvimento pessoal no jogo e fora dele.

Realizamos mensalmente palestras educacionais, assim como promovemos visitas de profissionais de diversas áreas para passar suas experiências de vida e uma perspectiva de futuro outra carreira, pois sabemos que nem todos ali se tornarão jogadores profissionais. Por isso visamos formar cidadãos conscientes de deveres e direitos.

Em nosso trabalho técnico, usamos espaços reduzidos, provocando uma dificuldade ao aluno, mesmo, pois é isso que ele encontrará fora das nossas aulas.

As nossas ações têm como foco o futebol, sem dúvida, mas muito mais: miramos a vida, em si, de cada aluno que frequenta nosso núcleo, a realidade em que ele está inserido.


 

Universidade do Futebol – O fato de as crianças não brincarem mais tanto de futebol, desenvolvendo essa atividade majoritariamente em escolinhas ao comando de um professor muitas vezes tecnicista, pode acarretar em uma perda da identidade brasileira ao longo do tempo?

Alceu Neto – Sem querer generalizar, mas muitas vezes vemos nas categorias de base os meninos mal pegarem na bola e o técnico/professor já gritando: “passa, toca a bola!”.

Cada vez mais cedo está se tolhendo a criatividade da molecada, querendo incutir desde cedo uma “tática”, uma ideia de jogo coletivo, etc. Em minha opinião, isso a criança deveria ter mais adiante apenas.

Os menores, de inicio, devem encarar o futebol como uma brincadeira, pura diversão, sem obrigações. Devem curtir a aula e, assim, captar em seu imaginário a noção do futebol alegre, mágico.

Mas acredito que nunca o brasileiro perderá a identidade; jamais perderá a ginga, o drible, isso é nato, não se ensina, mas se aperfeiçoa, melhora-se. O brasileiro tem isso no sangue e será assim sempre.

Apesar das péssimas estruturas, das más administrações, da corrupção, dos dirigentes amadores e sem preparo, o Brasil será sempre um grande produtor de talentos.

Universidade do Futebol – Você comentou sobre esse “cerceamento da liberdade” a muitas crianças nessa fase de aprendizado. Quando os jovens do FdR vão atuar contra equipes do “modelo tradicional”, digamos, qual o comportamento dos seus alunos? O que eles comentam posteriormente? E quais as diferenças detectadas pelos professores, em um olhar externo?

Alceu Neto – Em todos os jogos, sempre incentivamos o jogo para frente, o drible, a bela jogada. Certamente armamos o time com defensores, mas no meio-campo todos sabem jogar bola, não tem aquele “volante tradicional”, vamos dizer assim.

Passamos a responsabilidade de que, se perder a bola, há necessidade de uma recomposição para recuperá-la, ajudando o parceiro. E todos têm bem clara essa ideia na cabeça.

Nas conversas após os jogos eles comentam a quantidade de faltas que ocorrem, o modo duro, forte, como se desenvolvem muitos lances.

Independentemente dessas divididas mais ríspidas, nossos garotos adoram a experiência e mantêm viva a vontade de querem se tornar jogadores profissionais.

O que notamos de diferente é a cobrança do técnico do time adversário, gritando, orientando. E como isso atrapalha o menino dentro do campo, atordoando o jogador com aquele fluxo de informação gigantesco em tão pouco tempo.

E pior: às vezes, nem sempre as indicações fazem sentido ou mudarão alguma coisa. Gritam para “mostrar serviço”, e não realmente para melhorar ou corrigir o que está errado.

Universidade do Futebol – Você comentou sobre o comportamento do treinador à beira do campo, atitude que também é vista nas beiras dos gramados em partidas que envolvem grandes equipes no Campeonato Brasileiro. Como você avalia essa “necessidade de mostrar serviço”? O fato de se gritar à beira do campo não é apenas um reflexo de que se treinou mal no período de preparação? Não seriam os jogadores quem deveriam estar preparados para solucionar as diversas situações apresentadas pelo jogo?

Alceu Neto – É bem dessa forma que eu penso. Não só em jogos dos quais o FdR participa, mas em muitos que assistimos, desde mirins até a categoria principal.

Isso tudo tem um porquê e vem de cima para baixo. Os técnicos “profissionais” passam esse mau exemplo para os demais das categorias de base.

Os fatores são vários: treinamento e preparação falhos para o jogo, desconhecimento de fato, diferenças de pensamento entre diretoria e comissão técnica, sujeitando seus times a isso, etc.

Quando se tem conhecimento e certeza do trabalho desenvolvido, na hora em que o time entra em campo, os atletas já sabem o que fazer e, caso contrário, os próprios atletas devem orientar-se dentro do campo – voltamos àquela questão do líder.

No máximo, o técnico pode chamar o jogador à beira do campo e dar orientações. Agora, quando o faz durante repetidas ocasiões, e em um tom muito duro, é sinal de que muita coisa está errada.

Universidade do Futebol – Quais as semelhanças e diferenças você consegue identificar entre uma pelada e um jogo oficial? O bom peladeiro será necessariamente um bom jogador do “esporte futebol”?

Alceu Neto – A pelada, para mim, é aquela jogada com os amigos, mas com certa competitividade, pois ninguém quer perder e ouvir gozações na hora da cervejinha (risos). Mas não tem aquele clima de rivalidade, de inimizade.

Quanto ao peladeiro, ele tem chances, sim, mas desde que seja detectado cedo, por volta dos 14, 15 anos de idade.

Hoje, o futebol profissional mudou muito. Há muita preparação física, pressão, e o menino tem de ser “modelado” desde cedo para isso.

Creio ser praticamente impossível um peladeiro de 18, 20 anos se tornar jogador. Ele está acostumado aos campos da várzea, não treina, joga com quem também não treina em alta performance.

Mas aquele moleque que você vê infernizando na pelada, aí sim, pode conduzi-lo à frente que as chances de vingar são bem maiores.

Universidade do Futebol – Do projeto FdR, algum garoto já migrou para as categorias de base de algum clube?

Alceu Neto – Tivemos um menino em São Paulo que foi para o São Caetano, mas depois se mudou com a família, perdemos o contato e hoje não sei se ainda continua jogando.

Mas tenho certeza de que temos meninos que com certeza teriam lugar nas categorias de base de grandes agremiações. Simplesmente pelo puro talento e pela dedicação que possuem.

Universidade do Futebol – A sua certeza se dá por conta de uma possível “adaptação” ao que é realizado no processo de formação dos clubes tradicionais, ou porque os jovens do FdR carregariam um diferencial?

Alceu Neto – Não posso dizer que temos os melhores talentos, isso seria muita presunção, mas acredito no potencial dos garotos pelo que vemos nos treinos e em jogos e apresentações. E vejo que uma adaptação ao campo para eles seria tranquila, pois já jogaram e ainda alguns jogam nos times formados dentro das comunidades onde temos os núcleos.

O que vejo neles de diferente, mesmo, é a falta de medo de inovar, de inventar, ousar nos dribles: considero esse o diferencial do FdR.

Universidade do Futebol – O FdR realiza uma série de seminários, apresentações e workshops. Explique um pouco sobre isso, por favor.

Alceu Neto – Fazemos diversas apresentações de jogos de FdR: montamos um campo, para partidas de três atletas contra três, em gols pequenos. Os meninos do FdR duelam entre si e, após isso, há o desafio do pessoal presente no evento, com a participação conjunta.

Fazemos também apresentações de Freestyle, e o funcionamento é da mesma maneira: apresentação própria da nossa equipe com consequente participação do público.

Damos clínicas de FdR e Freestyle em cidades e clubes, ensinando ao pessoal o jogo e algumas manobras do Freestyle – o SESC-SP é um grande parceiro nosso nesse projeto.

Temos alguns meninos que fazem propagandas, como recentemente dois meninos Freestyler de Curitiba, que apareceram na chamada de abertura do Campeonato Paraense de 2010, com inserções na transmissão da TV Globo.

Ainda há as Copas de FdR e Freestyle que fazemos em São Paulo e Curitiba anualmente, com a participação de dezenas de times.

Por fim, consolidamos em setembro a fundação da Federação Paranaense de Futebol de Rua e já estamos com a papelada encaminhada para a Federação Paulista.

Universidade do Futebol – Você comentou sobre essa questão da propaganda em TV. Há um envolvimento do departamento jurídico ou é algo estritamente ligado a esses dois garotos? E qual a contrapartida do FdR, em termos financeiros, de imagem?

Alceu Neto – Entrou no ar na última rodada do Campeonato Brasileiro. Esses dois meninos são maiores de idade e os direitos de imagem foram direto para eles, sem qualquer ganho ao FdR.

Nossa contrapartida será tentarmos agora “vender” apresentações deles aos times da competição e à própria federação, para que ambos estejam nos jogos realizando brincadeiras com o público.

Já fizemos isso em quatro oportunidades no Atlético-PR e no Coritiba, inclusive.

Em termos de imagem, nossa benefício é simplesmente o fato de termos em nossos berços esses moleques talentosos fazendo apresentações, trabalhando com o que amam, com a consciência de que pudemos dar essa oportunidade a eles.


 

Universidade do Futebol – O que seria esse projeto Feras na Escola, que está em destaque no site do FdR?

Alceu Neto – É uma parceria que fizemos com a Editora Vida & Consciência, para lançamento e divulgação do livro “Léo, o driblador”.

O Futebol de Rua fará apresentações do nosso jogo e de Freestyle em determinados locais para divulgar o livro e, em troca, a cada exemplar vendido, o valor de R$ 1,00 é revertido aos núcleos de São Paulo e Curitiba da nossa organização***.

*** Nota da Redação: Feras Futebol Clube é o título de uma coleção de sucesso mundial, que retrata a saga de um time de bairro. Reúne jovens amantes de futebol, que se vêem obrigados a enfrentar e superar grandes desafios. No decorrer das histórias, eles desenvolvem a auto-estima, a confiança, a solidariedade, o perdão, o senso de equipe, a força de vontade, o respeito às diferenças e outros valores essenciais para o desenvolvimento pessoal e a vida em sociedade.

Voltada para crianças de 8 a 14 anos, a coleção Feras Futebol Clube foi lançada há sete anos na Alemanha e já foi traduzida para 27 idiomas. Seus treze volumes venderam mais de 11 milhões de exemplares na Europa e na Ásia e já renderam cinco filmes para cinema, com 2,5 milhões de espectadores na Alemanha, Áustria e Suíça.

No Brasil, Feras Futebol Clube está sendo lançada pela Editora Vida & Consciência, que entende que o esporte e a leitura valorizam o homem, incentivando a formação de valores, a educação, a cidadania e o respeito social.

Título: Léo, o driblador
Autor: Joachim Masannek
Ilustrador: Jan Birck
Número de páginas: 144
Formato: 16 x 23 cm
Preço: R$ 24,90
ISBN: 978-85-7722-060-1

Sobre o autor

Joachim Masannek nasceu em 1960, em Bockum-Hövel (Alemanha), estudou filosofia germânica, filosofia e ciências audiovisuais. Foi roteirista em diversas produções para cinema, televisão e estúdios de gravação. É o treinador das autênticas Feras e pai de Marco e Léo.

Universidade do Futebol – O que se fazer para virar um voluntário do projeto FdR?

Alceu Neto – Para ser colaborador, a primeira coisa é saber que o FdR não precisa só de pessoas boas de bola e apaixonados por futebol. Temos todas as outras esferas necessárias ao bom funcionamento, como administrativo, marketing, financeiro, designers, jurídico, enfim, uma gama de serviços que faz toda essa engrenagem funcionar.

E o mais interessante é isso. As pessoas me procuram e falam: “pô, mas eu não sou muito bom de bola, tá?!”.

Respondo sempre que não há problemas e que o relevante é a vontade de nos auxiliar, qualquer que seja a área escolhida dentro do nosso plano estratégico.

Os interessados devem entrar em contato conosco, conhecer nosso trabalho nas quadras e depois escolher onde querem colaborar.

Universidade do Futebol – Em sua opinião, qual é a contribuição que um evento como a Copa do Mundo de 2014 pode trazer para o Brasil, mudando a maneira de se enxergar o futebol e de atuar dentro da modalidade?

Alceu Neto – Creio que o maior beneficio será em termos de estruturação, ou seja, quero crer mesmo que todas as obras de infraestrutura sejam feitas nas cidades, no transporte coletivo, nos campos e demais acomodações.

Não me iludo ao ouvir que tudo transcorrerá às mil maravilhas, pois o Pan-Americano no Rio, em 2007, nos deixou más lembranças e complexos esportivos sendo mal aproveitados, mal geridos e dando prejuízo ao erário publico.

Hoje, os estádios não são mais só para jogos: ou são multiuso, ou dão prejuízo. Vide o caso do Engenhão, construído para aquele evento, em relação ao Botafogo.

Teremos na Copa-14 enormes estádios, modernos, em cidades onde o futebol não tem público para isso, mas necessitamos nos adaptar às regras da Fifa para sediar. Não quero me enganar com a área esportiva.

Porém, se tudo mudar, para o que torço ardentemente, e todas essas estruturas esportivas que serão construídas forem utilizadas após o Mundial para projetos sociais, para lapidação de talentos, enfim, à população local, será fantástico.

No campo do futebol, mas fora das quatro linhas, espero que os clubes e os dirigentes tirem algumas lições administrativas, organizacionais. Apesar de sermos uma potencia em talentos, somos decepcionantes na forma de gerir uma instituição.

Serviço:

Futebol de Ruawww.futebolderua.org  

São Paulo: (11) 8152-3727 / (11) 9299-4696

Curitiba: (41) 9936-9113

Rio de Janeiro: (21) 8339-8449

Rádio: 92*22790

*Poema Futebol de Rua – Luis Fernando Veríssimo

Pelada é o futebol de campinho, de terreno baldio. Mas existe um tipo de futebol ainda mais rudimentar do que a pelada. É o futebol de rua. Perto do futebol de rua qualquer pelada é luxo e qualquer terreno baldio é o Maracanã em jogo noturno. Se você é homem, brasileiro e criado em cidade, sabe do que eu estou falando. Futebol de rua é tão humilde que chama pelada de senhora. Não sei se alguém, algum dia, por farra ou nostalgia, botou num papel as regras do futebol de rua. Elas seriam mais ou menos assim:

DA BOLA – A bola pode ser qualquer coisa remotamente esférica. Até uma bola de futebol serve. No desespero, usa-se qualquer coisa que role, como uma pedra, uma lata vazia ou a merendeira do seu irmão menor, que sairá correndo para se queixar em casa. No caso de se usar uma pedra, lata ou outro objeto contundente, recomenda-se jogar de sapatos. De preferência os novos, do colégio. Quem jogar descalço deve cuidar para chutar sempre com aquela unha do dedão que estava precisando ser aparada mesmo. Também é permitido o uso de frutas ou legumes em vez da bola, recomendando-se nestes casos a laranja, a maça, o chuchu e a pêra. Desaconselha-se o uso de tomates, melancias e, claro, ovos. O abacaxi pode ser utilizado, mas aí ninguém quer ficar no golo.

DAS GOLEIRAS – As goleiras podem ser feitas com, literalmente, o que estiver à mão. Tijolos, paralelepípedos, camisas emboladas, os livros da escola, a merendeira do seu irmão menor, e até o seu irmão menor, apesar dos seus protestos. Quando o jogo é importante, recomenda-se o uso de latas de lixo. Cheias, para agüentarem o impacto. A distância regulamentar entre uma goleira e outra dependerá de discussão prévia entre os jogadores. Às vezes esta discussão demora tanto que quando a distância fica acertada está na hora de ir jantar. Lata de lixo virada é meio golo.

DO CAMPO – O campo pode ser só até o fio da calçada, calçada e rua, calçada, rua e a calçada do outro lado e – nos clássicos – o quarteirão inteiro. O mais comum é jogar-se só no meio da rua.

DA DURAÇÃO DO JOGO – Até a mãe chamar ou escurecer, o que vier primeiro. Nos jogos noturnos, até alguém da vizinhança ameaçar chamar a polícia.

DA FORMAÇÃO DOS TIMES – O número de jogadores em cada equipe varia, de um a 70 para cada lado. Algumas convenções devem ser respeitadas. Ruim vai para o golo. Perneta joga na ponta, a esquerda ou a direita dependendo da perna que faltar. De óculos é meia-armador, para evitar os choques. Gordo é beque.

DO JUIZ – Não tem juiz.

DAS INTERRUPÇÕES – No futebol de rua, a partida só pode ser paralisada numa destas eventualidades:
a) Se a bola for para baixo de um carro estacionado e ninguém conseguir tirá-la. Mande o seu irmão menor.
b) Se a bola entrar por uma janela. Neste caso os jogadores devem esperar não mais de 10 minutos pela devolução voluntária da bola. Se isto não ocorrer, os jogadores devem designar voluntários para bater na porta da casa ou apartamento e solicitar a devolução, primeiro com bons modos e depois com ameaças de depredação. Se o apartamento ou casa for de militar reformado com cachorro, deve-se providenciar outra bola. Se a janela atravessada pela bola estiver com o vidro fechado na ocasião, os dois times devem reunir-se rapidamente para deliberar o que fazer. A alguns quarteirões de distância.
c) Quando passarem pela calçada:
1) Pessoas idosas ou com defeitos físicos.
2) Senhoras grávidas ou com crianças de colo.
3) Aquele mulherão do 701 que nunca usa sutiã.
Se o jogo estiver empate em 20 a 20 e quase no fim, esta regra pode ser ignorada e se alguém estiver no caminho do time atacante, azar. Ninguém mandou invadir o campo.
d) Quando passarem veículos pesados pela rua. De ônibus para cima. Bicicletas e Volkswagen, por exemplo, podem ser chutados junto com a bola e se entrar é golo.

DAS SUBSTITUIÇÕES – Só são permitidas substituições:
a) No caso de um jogador ser carregado para casa pela orelha para fazer a lição.
b)

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José Carlos Asbeg, diretor de ‘1958’

“Não jogo mais futebol! Quem joga futebol são esses brasileiros!”. A declaração, mais em tom de desabafo do que raiva, foi feita pelo lateral-esquerdo Kuznetsov, da Rússia. A prévia: uma série de dribles desconcertantes aplicados pelo seu oponente, em partida pela Copa do Mundo de 1958. Tratava-se de Garrincha.

Após o jogo em que a seleção verde-amarela derrotou os rivais por 2 a 0, com um desempenho grandioso do ponta-direita, o jogador do Leste Europeu arremessou suas chuteiras contra a parede do vestiário, decretando que não era possível parar aquela formação que daria, partidas adiante, o primeiro título mundial da modalidade ao Brasil. Viktor Tseriav, companheiro de equipe de Kuznetsov, fez a revelação.

O depoimento é apenas parte de 1958: o ano em que o mundo descobriu o Brasil, obra dirigida pelo jornalista e cineasta carioca José Carlos Asbeg. Aos oito anos de idade, o autor não tinha a compreensão da representatividade daquela conquista esportiva para o momento e o futuro do país. Mas fez questão de corrigir a rota e produzir um filme que chama a atenção pela coleção luxuosa de lances e falas dos legítimos participantes daquela saga.

“São percepções em um olhar, um gesto, uma passada de mão no cabelo, pelas quais se consegue notar o controle emocional do rival, quem pode decidir um jogo, quem pode colocar tudo a perder. Essa experiência literal, de vivência, é insubstituível”, explicou Asbeg, nesta entrevista à Universidade do Futebol.

Durante todo o processo de produção – foram sete anos, até a exposição ao público -, o documentarista garante ter vivido os melhores momentos profissionais de sua trajetória. Afinal, naquele grupo, que “somente” revelou Pelé ao planeta da bola, havia nomes como Gylmar dos Santos Neves, Nilton Santos, Didi e Zizinho. Eis o Brasil inteiro apresentado ao resto dos povos.

“O título mundial torna compreensivo para o brasileiro o que era ser um pouco brasileiro diante do mundo. Éramos monocultores do café, exportadores de matéria-prima, como somos hoje, apesar das diferenças, e o futebol abriu as manchetes do mundo”, argumentou Asbeg.

Por intermédio do futebol, e também do samba, da poesia musical, os habitantes do país se viram mais libertos e projetados. E “1958” traz à tona novamente um tempo mais visceral, o da Bossa Nova, de Juscelino Kubistchek erguendo Brasília, de uma gente apaixonada por sua localidade.

Universidade do Futebol – Quem é José Carlos Asbeg?

José Carlos Asbeg
– É sempre difícil falar de si próprio. Sou carioca, tenho 59 anos, comecei a carreira no jornalismo, trabalhei em jornais, como Diários Associados, Última Hora e Correio da Manhã e na sucursal do Rio da Folha de S. Paulo.

Viajei para a Inglaterra em 1973 e fui correspondente internacional de O Globo. Lá, estudei cinema na Polytechnic of Central London. Voltei em meados de 1977 e desde então trabalho com cinema no Brasil.

Tive ainda outras atividades: dirigi um programa de televisão na antiga TV Educativa, contratada pela Embrafilme, chamado “Cinemateca”.

Passei pela TV Globo, onde trabalhei com jornalismo internacional. Na TV Nacional de Brasília, fui diretor de produção ao lado do Toninho Drummond; implantei a TV educativa no Piauí, e passei alguns anos como produtor no Ceará; depois disso voltei ao Rio, em 2001.

No ano seguinte, dei início ao projeto do filme 1958. Sou basicamente um documentarista e minha preferência é por trabalhar com filmes de fatos, que tratam da memória do nosso país.

 

Universidade do Futebol – A sua relação específica com o futebol nasce de onde, e como você traduz essa relação do futebol com os documentários, pegando como base “1958”?

José Carlos Asbeg –
A paixão por futebol e cinema, de uma certa forma, eu devo ao meu pai, rubronegro, como eu, quem me levava aos estádios para ver os jogos do Flamengo. E, todos os domingos de manhã, nas matinês em Ipanema, após a missa, para assistir ao “Tom e Jerry”no Cine Pax.

Na adolescência, tentei ser jogador de futebol – não consegui ir muito adiante -, e o cinema acabou vindo alguns anos depois da minha trajetória no jornalismo.

A minha ligação com o tema específico do filme tem dois aspectos. O primeiro, o amor ao futebol, indubitavelmente. Em segundo, porque as lembranças daquele campeonato se transformaram ao longo do tempo em lembranças memoráveis não apenas para mim, mas para o país.

Pode parecer um pouco exagerado, mas eu não costumo medir muitas palavras para me referir àqueles jogadores, que deixaram um legado, uma herança. Creio que eles foram de uma contribuição sobre a qual o Brasil ainda precisa refletir e reconhecer mais.

Universidade do Futebol – Qual é o peso, o diferencial, de uma história contada não por jornalistas ou historiadores, mas pelos próprios jogadores brasileiros que participaram daquele triunfo, bem como por seus adversários?

José Carlos Asbeg –
Primeiramente, quem viveu, quem estava dentro de campo, percebe e relembra muitas intimidades. São percepções em um olhar, um gesto, uma passada de mão no cabelo, pelas quais se consegue notar o controle emocional do rival, quem pode decidir um jogo, quem pode colocar tudo a perder. Essa experiência literal, de vivência, é insubstituível.

Em segundo, o protagonismo: a história ganha uma outra relevância por não ter uma versão. É a própria história, com todas as imperfeições da memória, os lapsos, as trocas de tempos e pequenas lembranças.

Um exemplo é o Didi, quando ele se refere ao gol que ele marcou contra o Peru, no Maracanã, no segundo jogo pelas Eliminatórias de 1957. Ele relatou que faltavam cinco minutos para acabar a partida, que estava muito dura, de fato, contra a melhor formação peruana de todos os tempos. Mas o lance a que ele se referia, na verdade, ocorreu faltando mais ou menos 15 minutos.

A dramaticidade que ele atribui ao tempo que já havia passado ficou para o tempo que viria advir. Mas é uma visão de dentro, a história de quem colocou a bola na marca, chutou, deslocou o goleiro. A descrição dele em relação ao comportamento de um companheiro e de si próprio tem outro valor, certamente. É ele mesmo o construtor dessa trajetória.

Universidade do Futebol – Você chegou a comentar que a busca pelos jogadores, o fato de conversar, estar com eles durante um período, foi o seu momento profissional mais marcante. Conte um pouco sobre essa trajetória ao lado dos seus ídolos.

José Carlos Asbeg –
Eles foram mesmo meus ídolos. Eu havia completado oito anos e não tinha a menor ideia da dimensão daquele acontecimento. Meu universo era minha escola, minha casa e minha rua. Cresci na Ipanema bucólica dos anos 1950, jogando bola naquela própria rua, já que passava um carro só de meia em meia hora.

Houve um valor emocional muito grande para mim, mesmo, por ser um apaixonado por futebol e por poder estar com eles, dispondo de alguns momentos da vida daqueles heróis, abrindo suas memórias. Nem parecia que era verdade, que eu estava fazendo um filme.

Foram anos extraordinários. E no último, quando trabalhei sete meses na montagem do filme, vê-los todos os dias na telinha, praticamente conversando com eles, em um corte, examinando uma frase, colocando-a junto com outra, revisar no dia seguinte, enfim…

O filme não tem narração externa e é todo contado pelos jogadores ou por quem viveu muito de perto aquela saga. E, de fato, esses foram os anos mais prazerosos da minha vida profissional.


O capitão Bellini, eternizando um gesto: levantar trofeus para a seleção brasileira se tornaria uma rotina após 1958

Universidade do Futebol – A ideia básica do filme foi homenagear os primeiros campeões mundiais de futebol do Brasil. A produção e a divulgação não contaram com a participação da CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Qual a razão e que avaliação o senhor faz do papel dessa entidade representativa?

José Carlos Asbeg –
Essa frase feita de que “o Brasil e o brasileiro não têm memória” é, boa parte, culpa das instituições, culpa de um colonialismo cultural muito grande. Sabemos, talvez, mais sobre as sagas da Guerra de Secessão norte-americana do que sobre Tiradentes, Antonio Conselheiro, a Revolução Farroupilha.

O cotidiano do brasileiro é feito para ele esquecer que tem um pertencimento cultural, histórico. Nem digo que seja responsabilidade das instituições oficiais apenas, mas das que operam no âmbito da cultura, propriamente: imprensa, televisão, etc.

Nossa TV é inundada de documentários e filmes estrangeiros e nós temos um acervo enorme de material pronto ou a ser trabalhado sobre a nossa história. E isso não acontece.

A CBF se insere dentro dessa realidade de apagamento da nossa memória. Para a CBF, mas podemos colocar algo genérico, a única coisa que importa é o próximo. Vivemos um período não muito dedicado à inteligência, e sim da banalização.

Antes , para ser célebre, você precisava ter cérebro. Hoje, para ser célebre, você precisa ter pernas e talvez algumas frases feitas. A CBF se preocupa muito com o próximo campeonato, a próxima organização, a sua própria existência, como se ela fosse desvinculada de uma trajetória do futebol nacional.

Creio que ela, como instituição, e como o restante, não entende a cultura. Cultura é ler livro, ter título universitário – ainda são as Belas Artes. E, talvez, o futebol, como a música, seja a expressão máxima da cultura brasileira. A CBF não entende o futebol como cultura, por isso que não o valoriza.

Se um dirigente atual atribui valor a essa história que o levou até ali, soa como se ele estivesse se desvalorizando. A grandeza da modalidade no país deveria ser melhor compreendida. Mas é mesmo um caldo cultural brasileiro que não está bem formado. Até lá, muita coisa vai se perder.

Pequenos detalhes da história de 1958 foram sendo corrigidos quando entrei em contato com os jogadores daquela época. Um episódio mais eloquente é o da “barração” do De Sordi de última hora (*). Esse jogador não tremeu, não pediu para não jogar: ele simplesmente se machucou. E a história jornalística o condenou com a repetição justificativa de que ele teria tido um comportamento iníquo, fingido.

Além da homenagem para marcar a lembrança desses homens, acredito que a reposição da verdade em alguns casos tenha sido relevante na conclusão da obra.


(*) Nota da redação: titular durante toda campanha brasileira na Copa de 1958, o lateral-direito De Sordi acabou ficando fora da grande final por causa de uma lesão no joelho.

“Fiz tratamento, mas no dia da final senti que não dava para arriscar”, afirmou o atleta, em uma entrevista ao UOL Esporte.

Além de não ter participado da final e ter seu rosto “escondido” da foto do título, na qual aparece Djalma Santos, seu substituto, De Sordi teve de conviver com a acusação de que não entrara em campo porque teria “sentido o peso de decisão”.

“Quem me conhecia, sabia que eu não era assim. Nunca tremi, estava acostumado a jogar finais de campeonato. Fiquei com a consciência tranqüila”, justificou-se.

Universidade do Futebol – Alguns jogadores se recusaram a dar entrevista, outros pediram dinheiro. Qual foi o sentimento em relação a isso? Ficou decepcionado, frustrado?

José Carlos Asbeg –
Um pouco. Mas eu não condeno nenhum deles. O jogador de futebol é muito usado, explorado, e esses homens, que nos deram um título mundial, e alguns deles um segundo, quatro anos depois, não ganharam na vida o que um atleta mediano ganha em dois anos de carreira hoje.

Obviamente que existe sempre um cuidado, certa desconfiança, que não é nem um pouco paranóica, mas reflexo de uma exploração de muito tempo. Alguns queriam saber quem eu era, mas pouco depois a barreira foi vencida e as entrevistas foram feitas. A não ser duas, infelizmente.

Com o Orlando, pois foi o primeiro quem eu procurei – ele morava perto de minha residência no Rio. Avisei-o de que iria fazer um filme e pagaria um cachê simbólico, pois não saberia mensurar o preço de uma entrevista com a memória dele. Seria uma consultoria histórica, que eu acho mais do que merecida. Se eu pago um pesquisador, não vejo nada de antiético em oferecer a uma pessoa que tem a sua própria história guardada. Fui eu quem ofereceu, ninguém me pediu.

Acabei demorando para angariar recursos para o filme e, quando o procurei de novo, ele já estava acometido do Mal de Alzheimer. Lamento, porque outros concederam a entrevista e depois eu consegui honrar o compromisso. Já o Orlando havia me pedido para eu retomar o contato apenas quando obtivesse a parte financeira. Não deu tempo.

No caso do Pelé, eu acho que ele não é mais uma pessoa física. Além de ser uma entidade quase que próxima da divindade, é uma pessoa jurídica, e como tal, não administra mais o “Edson Arantes do Nascimento”.

Como era um filme, pensa-se que cinema corre o mundo, faturando cifras milionárias. Houve uma cobrança, mas nunca cheguei sequer perto do Pelé. O que lamento. O maior jogador da história, que teve aquela Copa como marco inicial na seleção e é admirado pelos companheiros e pelo país, não teve o comprometimento com a história.

O filme existe, mas deu um enorme prejuízo. Um prejuízo totalmente pessoal.


Cartaz do filme “1958”, que rendeu prejuízo financeiro a Asbeg, e uma lamentação pela ausência do depoimento de Pelé

Universidade do Futebol – O ano de 1958 foi a data em que o mundo descobriu o Brasil. Mas foi também a data em que o próprio país passou a se compreender melhor?

José Carlos Asbeg –
Eu creio que sim. Juscelino [Kubischek] foi um presidente muito bonachão, camarada, estava sempre aberto às coisas populares, com seu projeto desenvolvimentista. Tem uma imagem no filme, na posse dele, que, à frente do Palácio Tiradentes, os populares puderam cumprimentá-lo. Imagine como norma de segurança de um oficial nos dias de hoje.

Ele também teve uma contribuição para essa autoestima do brasileiro, que passou a se ver mais na musica, no cinema, na indústria, na economia, na mudança da capital. A própria classe média vivia bem.

Sempre houve a divisão de classes, mas era um momento em que o país estava indo em uma rota que foi abortada, com o golpe de 1964. E tenho certeza absoluta de que, se ela fosse levada adiante, o Brasil seria um outro país hoje.

O titulo mundial torna compreensivo para o brasileiro o que era ser um pouco brasileiro diante do mundo. Éramos monocultores do café, exportadores de matéria-prima, como somos hoje, apesar das diferenças, e o futebol abriu as manchetes do mundo.

A brincadeira do Nelson Rodrigues em relação ao “complexo de vira-latas” do brasileiro que acabou não era em relação ao povo, mas à elite. Elite que ainda hoje é complexada. Ganha dinheiro em São Paulo, Rio e Belo Horizonte e vai gastar em Nova York, Londres, Roma e Paris. Nossa elite queria viver longe daqui, mas seria apenas uma classe média nesses locais, pois não conseguiria se estabelecer diante da livre-concorrência, das oportunidades iguais, diante de uma democracia verdadeira e não virtual, como a nossa.

Através do futebol, e também do samba, da poesia musical, o povo brasileiro se viu mais liberto e projetado para o restante do mundo.

Universidade do Futebol – Qual a leitura que você faz entre o futebol enquanto arte, manifestação artística, mesmo, e o futebol enquanto negócio?

José Carlos Asbeg –
É um processo da depreciação, um processo colonial. O Brasil foi sempre um país de pilhagem. Desgraçadamente, estamos vendo um mensalão no Distrito Federal, nas esquinas do Congresso Nacional. O Brasil sempre padeceu, em todas as esferas, dessa pilhagem. E o futebol não poderia ficar fora desse processo.

Se tivéssemos uma classe condutora de dirigentes que amassem de fato o país e não quisessem apenas sugar o que a “pátria mãe gentil” tem, teríamos no futebol uma fonte de divisas, uma atração turística, uma diversão sadia, como é a industria do entretenimento americano.

Ninguém fala de Hollywood, da Broadway à toa. Ali, despejam-se bilhões de dólares anualmente, seja na indústria dos musicais, dos teatros, como na cinematográfica. Além da rentabilidade proporcionada aos produtores, pois atraem bilheteria do mundo inteiro, elas ainda são ponta de lança do modo de vida americano. Uma venda ideológica da cultura americana.

Se tratado com equilíbrio entre o negócio e arte, o futebol poderia ser o mesmo exemplar para nós. Fabricamos a matéria-prima (jogadores) e compramos o produto manufaturado (jogos). O processo de produção e venda da nossa riqueza obedece o mesmo do Brasil Colônia.

Universidade do Futebol – O documentário A construção da igualdade, também dirigido por você, relata a trajetória política dos negros e os movimentos de resistência no Brasil. Até que ponto uma conquista desportiva com a participação de cidadãos dessa etnia contribui para o desenvolvimento da consciência social como um todo?

José Carlos Asbeg –
É uma pergunta complicada. Eu não sou um sociólogo, um antropólogo ou um cientista social, mas respondendo como cineasta e, principalmente, como cidadão, eu diria que pouco. Acho que o Brasil não se dá conta da riqueza que é ser um país etnicamente tão diversificado.

A Copa de 58, como os demais Mundiais, teve uma presença fundamental do negro. Naquela ocasião, foram Pelé e Garrincha; em 1962, novamente Garrincha; em 1970, Pelé; em 1994, o Romário; em 2002, Cafu e Ronaldo, ilustres representantes da nossa miscigenação.

Apesar de se reverenciá-los, não acredito que eles consigam traduzir isso para as outras esferas nacionais, para os nossos hábitos, nosso dia-a-dia. Eles que são os fora de série, e são tão bem aceitos que quase viram embranquecidos.

Não vejo muito essa relação sendo transferida para o negro que trabalha no nosso escritório, na indústria, no comércio, infelizmente. Acho que acabamos olhando para o negro como aquele ser de sorriso farto, que tem ginga, malícia, mas não o vemos intelectualmente capaz e não o incorporamos nos nossos processos de transformação. Digo negro, mas o mesmo valeria para o índio.


Andrade, o primeiro treinador negro a se sagrar campeão na história do Campeonato Brasileiro: “transferência” improvável do reconhecimento para a sociedade como um todo

 

Universidade do Futebol – Em cultura negra, outro documentário assinado por você, são apresentadas as profundas influências da cultura negra nos mais variados aspectos da vida brasileira. Pelo Flamengo, Andrade foi o primeiro treinador negro a conquistar o Campeonato Brasileiro. Que reflexos históricos podem acarretar esse fato?

José Carlos Asbeg –
De novo algumas considerações, agora mais como fã do futebol. É extremamente relevante que o Flamengo tenha conquistado um título importante com um treinador negro. Treinador negro este que bradou recentemente que quase não chega lá. E por que isso?

Como diria a socióloga negra Lélia Gonzalez, há duas línguas no Brasil: o português e o “pretoguês”. Os negros falam um dialeto próprio deles. Não têm a língua sulista, os “esses”, como nós cariocas não temos os “esses” dos paulistas, dos gaúchos; como também não temos a conjugação verbal tão acurada quanto os maranhenses e paraenses, que usam a segunda pessoa do singular com muita propriedade.

Mas todos falamos a mesma língua. Todos somos brasileiros e todos nós deveríamos ter oportunidades iguais. O Brasil tem de romper com os silêncios dos preconceitos, da cumplicidade, da manutenção de certa ordem social, econômica, política e cultural.

Nesse sentido, a conquista do Andrade é igual à de 1958. É o único ser que possui seis títulos no Campeonato Brasileiro, entre todos [havia faturado em 1980, 82, 83 e 87 pelo próprio clube da Gávea, e em 1989, com o rival, Vasco da Gama].

Mas, de novo, não acredito que o Andrade vá transferir isso como uma credibilidade para outros treinadores negros.

A própria televisão: veja se você encontra na TV Globo repórteres com sotaque do Rio de Janeiro – nem digo do Nordeste. O Brasil fala um português de São Paulo para baixo. Parece que o Brasil tem vergonha do sotaque que não seja o sulista.

Como é que eu um país que pelo seu principal órgão transmissor e veiculador de noticias e de formação da opinião pública da massa vai olhar para os negros se não consegue nem olhar para si próprio?

Nem o Pelé realizou essa transferência. Para nós, ele é um Deus, um divisor de eras. Mas para nós, quando ele é “bom”, é “branco”; quando fala algo de que não gostamos, é “negro”. Serão precisos muitos Andrades, ou que este Andrade se transforme num extraordinário vencedor.

Quando ele abre a boca e fala o pretoguês, uma língua nossa, não gostamos: novamente queremos os “esses” muito bem colocados. Você pode até ter um discurso inócuo e vazio, mas tem de estar dentro de uma fala bem colocada. O Andrade às vezes pode não colocar os “esses” como gostamos: então, ele não é um grande treinador.

O reconhecimento pode até provir de uma imprensa especializada, a esportiva, aquela mesma que fala que o jogador é “articulado, sabe se expressar”, quando ele não comete falhas gramaticais. Por que não vamos falar sobre futebol com a ministra Helen Grace, do Supremo Tribunal? Ela vai ser uma analfabeta, vai falar barbaridade, mas não será questionada.

O jogador realizando lances fantásticos dentro de campo é uma forma de expressão na linguagem que ele domina, na qual é catedrático. É importante, é fundamental, mas repito: infelizmente, não acredito nessa transferência.

Universidade do Futebol – A concretização desse rompimento e um esclarecimento social se daria apenas a partir de uma sequência de resultados, ou seria necessária uma participação majoritária das instituições e da sociedade civil?

José Carlos Asbeg – Trata-se de inclusão, sem dúvidas. Vivemos uma democracia virtual no país. Temos todo o aparato, com Executivo, Legislativo e Judiciário, mas há a predominância da desigualdade, da impunidade. Operamos com os mais pobres não de uma maneira a torná-los cidadãos, mas a mantê-los sempre no âmbito do assistencialismo.

É preciso um processo nacional, uma transformação cultural, social, política e econômica para incluir os pobres e os negros. Quando o Caetano canta a canção de que nas prisões brasileiras iremos encontras apenas pretos e pobres, ele está absolutamente certo.

Você não vê brancos e ricos presos. É preciso de um processo de inclusão social. Uma vez que o povo pobre brasileiro estiver incluído, quase que naturalmente haverá a inclusão dos negros. Nesse ponto, veríamos revelado o nosso racismo, que ficaria mais explícito, ou não.

Até hoje, os negros ainda não receberam o perdão devido pelo período da escravidão. Os judeus não passam um dia sequer sem se lembrar do Holocausto. Milhões de negros foram trazidos à força de suas terras e milhares morreram no mar na travessia indigna de um porão, e outros milhões sobreviveram no Brasil como escravos.

Se houve um fator que impulsionou a economia brasileira lá atrás para que o Brasil pudesse chegar a um ponto de sua história e dar outros saltos, esse elemento foi o negro. Nos EUA, por exemplo, quando os negros foram libertados, eles receberam 40 acres e uma mula, nome que Spike Lee deu à sua produtora.

Aqui no Brasil, no Ceará, antevendo que os negros ganhariam a liberdade mais dia, menos dia, a elite local expulsou os mesmos de seus limites. O que é que você faz com sua liberdade quando se vêm de três, quatro gerações que não tinham quaisquer direitos? Onde você vai morar, o que vai comer, onde irá trabalhar, que oportunidades iguais você receberá?

Essa inclusão não é do esporte. É da sociedade brasileira, que tem de incluir os pobres e os negros.


Pelé chora no ombro de Didi, seu ídolo: dois negros fazendo história pelo país

Universidade do Futebol – Qual a análise que você faz sobre a produção cultural focada no futebol, especialmente em se tratando de peças e filmes? Essas obras atendem ao que você compreende como essência no esporte?

José Carlos Asbeg –
A avaliação geral é a melhor possível desses trabalhos. Vejo nesses realizadores, sejam autores, escritores, produtores culturais, como eles entendem a riqueza do futebol relacionada à nossa nacionalidade

O futebol está intimamente ligado a uma compreensão do país. Justamente pelo reconhecimento dos negros por intermédio das conquistas, ou da inclusão deles a partir de uma mudança da sociedade.

Hoje, o futebol inglês já se transformou com a presença de muitos negros e estrangeiros. O futebol se transforma muito no Brasil e começa a se dissipar no mundo pelo negro. Ele tem outra expressão corporal. Quando falamos de nosso país, sabemos que a modalidade não é nossa, mas a reelaboramos, a reincorporamos.

Todos esses autores demonstram em suas obras um grande amor pelo Brasil. Um amor por ver nosso país mudado, identificado com nossas essências. E o futebol é uma de nossas marcas mais indeléveis, como são a música, o jeito sertanejo, o jeito gaúcho, o jeito amazônico, o jeito paulista. São nossas marcas que pertencem a uma maior: o Brasil.

Todos esses “produtores de cultura” garantem, a partir de suas obras, a permanência da nossa história, da nossa trajetória. Todos são extraordinários.

Há pouco tempo fui incluído em um grupo formado pelos mais diversos profissionais unidos por um único elo: o futebol. Trata-se do Memofut, que foi uma das maiores descobertas da minha vida. Há uma generosidade, um respeito ao torcedor do outro clube. Uma admiração ao jogo, mesmo, à arte. E enxergo nessa comunidade o que o futebol representa para nós, cultural e socialmente. Fico muito feliz de ter uma obra inserida nessa categoria.

Universidade do Futebol – Na avaliação de um profissional envolvido na área como você, quais são os principais desafios para que tenhamos um mercado cinematográfico fortalecido no Brasil?

José Carlos Asbeg –
Para se ter uma ideia, e não são dados meus: em 2006 – hoje já superamos essa marca -, o Brasil vendeu aproximadamente 110 milhões de bilhetes de cinema. Dessa fatia, o cinema brasileiro ficou com 16%, algo em torno de 20 milhões. De ingressos. O que não significa 20 milhões de espectadores, por se tratar de um público que pode ter ido várias vezes ao ano às salas de reprodução.

O nosso país é um excelente mercado cinematográfico, por isso que a indústria cinematográfica americana entra avassaladoramente aqui. Primeiro praticando um dumping, que é anticonstitucional nos dois locais. Mas não reagimos a essa agressão.

E a segunda é a prática de uma maneira muito firme do marketing na venda dos produtos deles. O lançamento de um filme americano é cercado de uma campanha publicitária que nós não temos como fazer, pela impossibilidade de retorno garantido nas bilheterias.

Este ano, vários filmes brasileiros tiveram sucesso de bilheteria e deram retorno aos exibidores – os que primeiro tiram sua parte, quase 50% do total. Depois, entre 25 e 35% ficam com os distribuidores; e por fim, há uma parcela de remuneração aos produtores.

Os filmes da Globo Filmes em 2009 (Os Normais, Se eu fosse você 2, etc.) tiveram a marca da Globo – elenco com enorme empatia popular, por causa das novelas, uma campanha bancada pela emissora e entrada vigorosa em centenas de cinemas.

Houve um momento em 2007, com 78% dos cinemas do Brasil sendo ocupados por dois filmes americanos, o que dá uma ideia de como sofremos com a competição desigual. Qualquer produto nosso é sobretaxado lá. E o produto cultural deles que mais vende não é sobretaxado aqui; ao contrário, entra nesse processo de dumping comentado.

É vendido um pacote. Se você quiser comprar, por exemplo, Piratas do Caribe, tem de adquirir outros 10, 12 filmes naquele pacote. Se não comprou, eles vão em outros exibidores. Muito simples.

Nosso mercado é muito bom, mas não exatamente para nós, brasileiros. Por uma série de fatores. Não temos ainda a autoestima necessária para acharmos o nosso idioma, a nossa história, a nossa cultura, a nossa vida, interessantes e importantes para nos exibirmos e nos reconhecermos.

Sabemos mais sobre o faroeste americano do que sobre nossos heróis. O cinema seria um instrumento de veiculação dessa cultura, pois o audiovisual cria uma simplicidade de comunicação muito grande.

Nosso gargalo está na exibição. Produzir, até conseguimos, sem prescindir do apoio do Estado e das leis de incentivo. Mas para exibir, há poucas salas. Deveríamos quintuplicar o número – no mínimo umas dez mil por todo o país. O programa do Ministério da Cultura foi lançado de uma forma totalmente distorcida**. Escrevi um