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Daniel Destro, ex-árbitro e autor do livro “Grandes árbitros do futebol brasileiro – o desenvolvimento do futebol pelo olhar da arbitragem”

O advento do VAR (sigla em inglês para árbitro auxiliar de vídeo) é uma das grandes novidades da Copa do Mundo de 2018, disputada na Rússia. A tecnologia, contudo, não encerrou as polêmicas em torno da participação dos mediadores do jogo. Ainda que dúvidas tenham sido dirimidas, as decisões finais continuam nas mãos de pessoas que sofrem com uma pressão muito maior do que o nível de preparação ou as condições de trabalho.
O uso da tecnologia é uma evolução considerável para o dia a dia da arbitragem, mas não encerra algumas das principais questões do segmento: os profissionais seguem precisando dividir o cotidiano com outras áreas de atuação, fazem uma preparação que depende mais de seus esforços do que de entes externos e sofrem com a falta de um protocolo de feedback.
“Esse, creio, é o ponto crucial para a maioria dos árbitros: ter que se dividir entre sua atividade profissional e a arbitragem. Quem tem mais rotina treina de manhã ou à noite. Outros treinam quando dá. Eu tinha que planejar minha semana de treinos e estudos e com muita dedicação e usar meu tempo livre para me preparar. Ser árbitro demanda parte do descanso ou hora livre. É preciso abdicar de parte de sua vida pessoal, familiar e profissional”, relatou o ex-árbitro Daniel Destro em entrevista à Universidade do Futebol.
Formado em ciências da computação, Destro já tinha carreira em tecnologia em 2004, quando foi convencido por um amigo a estudar para atuar como árbitro. Integrou o quadro da FPF (Federação Paulista de Futebol) de 2005 a 2016.
Neste ano, o ex-árbitro lançou um livro chamado “Grandes árbitros do futebol brasileiro – o desenvolvimento do futebol pelo olhar da arbitragem”. A proposta da obra é fazer um apanhado sobre a evolução do esporte nacional a partir de um olhar para os profissionais da arbitragem. A conclusão: ainda que a categoria tenha evoluído, há muito a caminhar.
“Corremos o risco de ter uma geração de árbitros que será esquecida no futuro. Acho que há toda uma conjuntura que nos fez chegar a este ponto. Entendo que o futebol mudou e, consequentemente, a cobrança sobre os árbitros também mudou. Tudo evoluiu no meio, mas a arbitragem evoluiu em um ritmo menor, com preparação e investimentos aquém do que o esporte demanda hoje em dia. Além disso, o árbitro perdeu espaço e respeito no futebol, e não foi por culpa dele. Antigamente eles tinham voz, mais autonomia e valorização. Vejo que é reflexo de um futebol que se esqueceu da importância dessa categoria”, completou Destro.

Divulgação: Arquivo Pessoal

 
Confira a seguir os principais trechos da entrevista:
Universidade do Futebol – Quando e por que você decidiu trabalhar com arbitragem?
Daniel Destro – Sempre gostei de futebol, mas nunca imaginei ser árbitro. Um amigo apitava pela FPF (Federação Paulista de Futebol) e eu, curioso, sempre perguntava a respeito. Ele então me incentivou a fazer o curso e tentar a carreira, pois ele dizia que eu gostava de futebol e tinha um bom perfil para ser árbitro. Dois anos depois resolvi fazer o curso e me apaixonei pelo ofício.
Universidade do Futebol – Como foi sua capacitação para a área? Você fez apenas uma formação inicial ou continuou estudando?
Daniel Destro – Em 2004, o curso de árbitros da FPF tinha duração de um ano, uma vez por semana, incluindo sala de aula, algumas aulas práticas em campo e orientação de preparo físico. Após formado, a FPF sempre manteve encontros bimestrais ou trimestrais para ajudar no desenvolvimento dos árbitros, discutindo pontos da regra, orientações de conduta e atuação em campo, interpretação das regras e acompanhamento físico. Mas, basicamente, o árbitro também deve estudar e se desenvolver sozinho, uma busca constante pelo aperfeiçoamento profissional.
Universidade do Futebol – O que você achou dessa formação? Na sua opinião, que tipo de conteúdo deveria ter sido valorizado e não foi?
Daniel Destro – O curso que fiz foi muito bom, completo em muitos aspectos. Na época deu-se pouca atenção a questões psicológicas e da nutrição (alimentação). Porém, creio que o curso atual cubra a formação do árbitro de maneira mais integral, em diversos pilares do árbitro e do ser humano, incluindo orientações no plano financeiro pessoal (eu mesmo dei aulas para algumas turmas da FPF). Mas ainda assim, entendo que o árbitro precisa de um acompanhamento mais próximo durante sua carreira, com o intuito de desenvolver e preparar melhor o profissional para os desafios, e corrigir eventuais falhas. Algo como uma tutoria ou mentoria.
Universidade do Futebol – Você seguiu trabalhando com tecnologia após ter iniciado carreira como árbitro. Por quê?
Daniel Destro – Nunca deixei minha profissão no mundo corporativo de lado, que era minha atividade principal. Por alguns motivos. O árbitro nunca sabe quando será escalado, principalmente por causa da lei que impõe sorteio, e também não há garantias que será escalado frequentemente. Se o árbitro erra ou se lesiona, fica fora das escalas de jogos. Não há garantia mínima de ganhos financeiros. Ou seja, o árbitro vive quase que à mercê da sorte. Outro ponto é que uma carreira sólida em tecnologia me dava ganhos financeiros muito maiores e eu tinha uma projeção de futuro melhor.
Universidade do Futebol – Como a dupla jornada afetou sua carreira na arbitragem? Em que momentos você treinava, estudava e se concentrava?
Daniel Destro – Esse, creio, é o ponto crucial para a maioria dos árbitros: ter que se dividir entre sua atividade profissional e a arbitragem. Quem tem mais rotina treina de manhã ou à noite. Outros treinam quando dá. Eu tinha que planejar minha semana de treinos e estudos e com muita dedicação e usar meu tempo livre para me preparar. Ser árbitro demanda parte do descanso ou hora livre. É preciso abdicar de parte de sua vida pessoal, familiar e profissional.
Universidade do Futebol – No período em que você atuou como árbitro, que tipo de feedback recebeu de dirigentes de clubes, federações e confederação? Qual é sua opinião sobre esse modelo de retorno?
Daniel Destro – Esse, para mim, foi e é o ponto mais falho na relação entre as federações (FPF ou CBF) e os árbitros. Eles deveriam ser acompanhados mais de perto, ter feedback frequente e mais claro, além de um trabalho específico e individualizado de desenvolvimento e aperfeiçoamento. Cansei de ir a jogos, inclusive televisionados, e nunca ter recebido um feedback sequer sobre minha atuação ou pontos de melhoria. Você fica cego e não sabe se está na direção certa. Os árbitros de jogos da primeira divisão até têm certo acompanhamento hoje, com tutores e assessores na avaliação da partida, mas os árbitros da base têm pouco ou quase nenhum acompanhamento. Se você não trabalha bem o árbitro desde a base, não terá árbitros bem preparados no futuro e nas principais competições. Quanto aos clubes, a única coisa que chega até os árbitros são a reclamações.
Universidade do Futebol – Por que você decidiu se afastar da arbitragem? Sua mudança para a Europa teve alguma coisa a ver com isso?
Daniel Destro – Com a alteração na direção da arbitragem em São Paulo, que entrou em 2016, com a chefia do diretor Dionísio Domingos, as coisas mudaram muito lá dentro. Muitos árbitros acima dos 32 anos foram deixados de lado por causa da idade e acabaram desistindo da carreira. Seus métodos e a maneira que gerencia a arbitragem não são bem vistos pelos próprios árbitros, que estão descontentes em sua maioria. As mulheres foram esquecidas, infelizmente. Com esse cenário todo, vi que perdi espaço e seria mais difícil evoluir na carreira. Coincidentemente, recebi um convite de uma multinacional para me mudar para a Europa e decidi ir. Felizmente, sempre privilegiei minha atividade profissional principal. Muitos árbitros se esquecem disso e terminam a carreira sem opções.
Universidade do Futebol – Como você iniciou o projeto de estatística e informação para árbitros? Em que estágio está isso?
Daniel Destro – Comecei em 2005 reunindo dados para acompanhar minha própria carreira. Pela facilidade com tecnologia, decidi criar um sistema e acabei fazendo a análise de todos os jogos da FPF desde 2007. Com o tempo, inclui também dados da CBF. Hoje possuo um sistema, o Progols, com mais de 50 mil partidas, das categorias de base até o Brasileirão, que apresenta estatísticas e perfis dos árbitros de futebol. Ele dá uma visão de informações aos clubes, aos árbitros e à gestão da arbitragem. Ainda não está sendo comercializado, mas pretendo em breve.
Universidade do Futebol – Que avaliação você faz da arbitragem no Brasil atualmente? Que comparação é possível fazer com o restante do planeta?
Daniel Destro – Temos bons árbitros, mas acredito que não temos tantos nomes de peso como antigamente. Corremos o risco de ter uma geração de árbitros que será esquecida no futuro. Acho que há toda uma conjuntura que nos fez chegar a este ponto. Entendo que o futebol mudou e, consequentemente, a cobrança sobre os árbitros também mudou. Tudo evoluiu no meio, mas a arbitragem evoluiu em um ritmo menor, com preparação e investimentos aquém do que o esporte demanda hoje em dia. Além disso, o árbitro perdeu espaço e respeito no futebol, e não foi por culpa dele. Antigamente eles tinham voz, mais autonomia e valorização. Vejo que é reflexo de um futebol que se esqueceu da importância dessa categoria.
Comparando ao restante do planeta, acredito que a diferença está fora das quatro linhas. Claro que em alguns países há maior investimento nos árbitros, mas me chama atenção a questão cultural das diferentes sociedades. Na Europa há um senso maior de esportividade e um respeito maior com as pessoas. Aqui no Brasil isso é diferente. Por isso vejo tanto agressividade no discurso e nos estádios.
Universidade do Futebol – Você escreveu um livro sobre os grandes nomes da arbitragem. Olhando para o passado, quais foram as maiores evoluções que o segmento teve e a que elas se devem?
Daniel Destro – A arbitragem como ciência evoluiu, sem dúvida. Hoje existem métodos, procedimentos, conhecimento e estudo sobre a atuação do árbitro em prol do futebol. Fisicamente os árbitros são atletas em campo, pois correm de 11 a 12 quilômetros por jogo. Essa evolução do árbitro foi para acompanhar o futebol de hoje, que está em uma velocidade alucinante. Porém, há um risco aí: o de se criar árbitros “robotizados”, que acabam tão preocupados com toda essa parafernália de procedimentos, pois são avaliados por isso também, que ficam sobrecarregados e acabam dando menos atenção ao que importa, que é apitar o jogo. Não há base estatística para dizer se os árbitros de hoje erram mais ou menos que os de antigamente, mas hoje existem mais maneiras de você comprovar o erro, com as inúmeras câmeras, replays, imagem congelada em três dimensões, etc. Somente a tecnologia vai proporcionar ao árbitro a chance de poder acertar mais no jogo. Caso contrário, será humanamente cada vez mais difícil.
Universidade do Futebol – Quais árbitros de futebol no Brasil tiveram mais impacto para a profissão no país? Por quê?
Daniel Destro – Na minha investigação, vi que alguns nomes tiveram de fato um impacto enorme na arbitragem e no futebol no Brasil. Armando Marques talvez tenha sido aquele que mais se destacou nesse ponto. Ele marcou uma era e revolucionou a arbitragem, não apenas pela maneira que apitava e pelos importantes jogos em que atuou, mas ele ajudou a valorizar a arbitragem, inclusive no aspecto financeiro. Apesar de polêmico, ele conseguiu ser um árbitro respeitado e de grande projeção nacional e internacional. Um profundo conhecedor do ofício. Arnaldo Cezar Coelho e Romualdo Arppi Filho são outros, sem dúvida, pelas grandes carreiras e por terem apitado finais de Copa do Mundo. Temos muitos outros nomes que contribuíram e muito na história. No livro eu biografei apenas 50 deles.
Universidade do Futebol – Olhando para a profissão hoje, pensando no quanto os árbitros são massacrados pela mídia e sofrem com problemas de preparação e remuneração, por que um garoto se animaria em seguir na área?
Daniel Destro – Independentemente de todos os problemas que o futebol e a arbitragem possam sofrer, há um denominador comum nessa equação: a paixão pelo esporte. Se fosse pensar apenas na questão financeira ou de carreira, eu incentivaria um garoto a ser engenheiro, médico ou ir para o mercado corporativo. Mas acredito que nenhum desses segmentos traz mais satisfação do que pisar no campo de jogo e poder sentir a emoção de fazer parte do futebol. Seja em que nível for, aquela atmosfera é inebriante. Adrenalina pura. E o árbitro gosta mesmo é de ver o estádio cheio, sentir o barulho da torcida, ouvir grito de gol e saber que no fim fez um bom trabalho. Não é só um jogo!
Universidade do Futebol – Quais são seus planos para o futuro?
Daniel Destro – Agora, de volta ao Brasil, continuo minha carreira em tecnologia e pretendo em breve disponibilizar o sistema de estatísticas para a arbitragem. Porém, não descarto a possibilidade de atuar na arbitragem em outra esfera, seja no seu desenvolvimento ou mesmo como especialista para clubes e na mídia.
 

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Por que no futebol tanto se fala em união e pensamento positivo?

Antropologia, Misticismo e Comportamento

A visão antropocêntrica e anímica do ser humano leva-o a supervalorizar sua condição em relação ao universo, mas não o conduz a uma atitude consentânea com sua crença.
União x Cooperação

O ambiente do futebol dá abrigo a uma série de crenças que, além de com ele não se coadunarem por inteiro, também não são aproveitadas, nem mesmo pela mais elementar abordagem metafísica.
A mais comum dentre essas concepções é a UNIÃO, conceito que deve ser substituído com premência por COOPERAÇÃO. O cooperar pressupõe estarmos ou não de acordo; o unirmo-nos, por sua vez, exige afinidade como condição essencial e insubstituível.
Se sentados a uma mesa estiverem vinte pessoas e não houver sequer entre duas delas coincidência na maneira em que pensam, não é desunião que estará havendo, e sim desigualdade no pensar.
A maneira de contornar as diferenças de apreciações entre as pessoas, é a promoção do diálogo, como busca pela descoberta de pontos comuns e para o estabelecimento de um consenso mínimo.
A cooperação, intrinsecamente, encerra o poder de superar as divergências de pensamentos entre as pessoas, para construir fora delas um ambiente produtivo de atitude e ação. Esta a razão por que a COOPERAÇÃO é imprescindível, a UNIÃO, nem tanto.
Pensamento positivo x Pensamento negativo

O maior embate entre os que veem o futebol como torcedores, é a refrega entre os desejos e interesses adversos das equipes que lhes representam. Logo, firmar pensamento não deve constituir, no caso em questão, uma ação relevante e muito menos produtora de quaisquer resultados significativos. Esta é uma situação típica em que os contrários se anulam.

 
De outra parte, a crença na lei da atração é uma disposição de cunho íntimo, e nem mesmo entre aqueles que a cultivam há uma atitude estruturada e planejada para seu melhor aproveitamento. Até porque, para isso, é necessário que se tenha instrução adequada e experiência. Numa palavra mística, ‘iniciação’.
Se quisermos atribuir valor a fatores como ‘pensar sim’ (+) ou ‘pensar não’ (-), antes valorizemos sobremaneira o trabalho enquanto atividade física e mental, empreendido segundo uma organização, um planejamento e uma metodologia – componentes de uma verdadeira ação didático-pedagógica.
Valorização da pluralidade de ideias
Por mais que as pessoas, em sua maioria, não alcancem o real valor da crítica, é irrefutável sua importância no processo de avaliação e reavaliação das nossas ideias, de construção e reconstrução dos nossos conceitos e juízos de valor.
Enquanto o elogio é uma atitude, por essência, unilateral, tendo muito de sectarismo, de dogmatismo, e, por vezes, servilismo, a crítica, filosoficamente, representa o verdadeiro critério da verdade, embora que uma verdade no mais das vezes relativa. Ou seja, a crítica é o mais elevado critério que nos permite apreendermos a verdade.
É evidente que as ferramentas para que possamos exercitar uma boa crítica, estão atreladas à qualidade do saber de cada um de nós, bem como à natureza do nosso caráter individual. Sim, porque de quase nada adianta nosso conhecimento, se tivermos um caráter deformado.
Se o direito ao elogio é legítimo – e na verdade o é -, da mesma legitimidade se reveste o direito à crítica. Até porque é a crítica que contém o elogio, pois, como de todos é sabido, o todo é que contém todas as suas partes e não o inverso. Logo, o elogio é filho da mãe crítica. Até gosto de elogiar, reconhecer e, acima de tudo, agradecer. Afinal, a gratidão e a atração são tidas como ‘leis’ que regem o Universo, visto a partir da metafísica. Isto, no entanto, não me impede de identificar a natureza meramente passiva e a atitude apenas reativa do elogio.
Por outro lado, é forçoso admitirmos que, na análise, na formulação da crítica, há implícita uma atitude proativa, havendo também um evidente desejo de reconstrução. Ao invés, pois, da passividade do elogio, há, imanentemente à crítica, uma manifestação de sua natureza ativa, que se expressa pelo aspecto de depuração da análise.
Ainda assim, é preciso que se observem dois importantes critérios para uma maior validação da crítica. São eles, de um lado, a verdade; de outro, o respeito.
Quanto ao elogio, o melhor critério para sua formulação é o mérito.
 
*Cronista Esportivo, Rosacruz, Gestor Esportivo autodidata, Membro do Conselho do Desporto do Estado do Ceará

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Marina Vidual – psicóloga na Associação Atlética Ponte Preta

A psicóloga Marina Vidual, 26, costuma dizer que o futebol ajuda a desenvolver no mínimo a resiliência. Afinal, é difícil sobreviver num meio que ainda vê com ressalvas o trabalho de uma série de profissionais – o dela, por exemplo – e que tem peculiaridades em quase todas as relações pessoais – como a permissividade com o machismo ou as portas fechadas para mulheres.
Há dois anos, contudo, Vidual sobrevive. Trabalha como psicóloga das categorias de base da Ponte Preta, time de Campinas (SP) – lida diretamente com atletas dos times sub-13, sub-14, sub-15 e sub-17. Adepta de análises de comportamento, tenta lidar com a resistência do meio e participar de intervenções que não sejam apenas focadas na evolução de desempenho dos jogadores.
“Queremos um atleta vencedor no esporte, mas principalmente na vida. Além da formação esportiva, um atleta que seja um cidadão de bem e um agente de transformação social. Com valores, hábitos saudáveis, formação educacional e esportiva adequada, desenvolvidas de forma integral”, disse a psicóloga em entrevista à Universidade do Futebol.
O caminho até os objetivos de Vidual tem uma série de intempéries. Ela precisa superar, por exemplo, a desconfiança sobre o trabalho de sua área, a falta de investimento nessa seara em times de base e a própria relação de jogadores com agentes externos (famílias, agentes e relacionamentos amorosos, por exemplo). No bate-papo a seguir, a psicóloga explica um pouco as diretrizes do que está sendo construído na Ponte Preta e as dificuldades que o departamento tem encontrado.
 
Leia a seguir os principais trechos da conversa:
Universidade do Futebol – Quais são as bases teóricas de seu trabalho?
Marina Vidual – Sou analista do comportamento. Temos alguns importantes teóricos da psicologia do esporte, como Weinberg e Gould e Garry Martin, que trabalha na vertente comportamental.
Universidade do Futebol – E no futebol, quais são suas referências?
Marina Vidual – No Brasil temos algumas referências de psicólogos do esporte – tanto aqueles que estão mais relacionados com a pesquisa, como Brandão, Machado, Rubio e Samulski, quanto alguns profissionais da prática (Samia Hallage, Eduardo Cillo e Carla de Pierro, por exemplo). Tenho bastante contato com outros psicólogos que também trabalham com futebol de base, e sempre que podemos conversamos e trocamos algumas experiências. Outra fonte de inspiração é minha orientadora, Paula Fernandes, professora vinculada a FEF-Unicamp, que coordena o GEPEN (Grupo de Estudos em Psicologia do Esporte e Neurociências). Realizamos encontros semanais e diversos profissionais relacionados ao esporte participam. As discussões são muito ricas.
Universidade do Futebol – Quais são os conteúdos/temas discutidos com atletas que trabalham com você?
Marina Vidual – O trabalho do departamento de psicologia no clube tem como objetivo a melhora do desempenho esportivo, sendo que o principal foco está no auxílio para o desenvolvimento integral do atleta/indivíduo. Em todo ano realizamos uma avaliação psicológica com os atletas que é pautada em diferentes métodos: aplicação de instrumentos; observação em treinos e competições; entrevistas individuais. O principal objetivo dessa análise é o levantamento de dados e aspectos particulares dos atletas, o desenvolvimento das habilidades psicológicas e a obtenção de uma avaliação global, compreendendo o desenvolvimento, capacidades e habilidades dos atletas. Durante a observação de treinos e competições buscam-se dados referentes a alguns aspectos importantes: comunicação, emoções, comportamentos alvos e atitudes, persistência, intensidade, áreas de conflito. É na entrevista individual do atleta que aplicamos uma espécie de anamnese, buscando informações referentes a seu percurso no futebol, história de vida, questões familiares, de saúde, escolar. Com relação às intervenções, ocorrem atividades em grupo, que podem ser conversas informativas e reflexivas, dinâmicas de grupo e algumas intervenções com vídeos e filmes. Também realizamos o acompanhamento da rotina dos atletas em treinamentos e competições. Ocorre o treinamento de habilidades psicológicas com os atletas (através de intervenções com práticas e ensino de técnicas), buscando desenvolver os aspectos psicológicos que estão diretamente relacionados ao seu desempenho, além de psicoeducação de temas importantes, intervenções individuais e atendimentos pontuais. Afora o trabalho direto com os atletas, temos ações em conjunto com as comissões técnicas, prestando orientação e assessoria e ao mesmo tempo discutindo alguns casos.
Também temos estruturado no clube o “Projeto Valores na Macaca”. Trata-se de um projeto interdisciplinar que envolve as áreas de serviço social, pedagogia e psicologia. Os encontros ocorrem quinzenalmente e são realizadas palestras com temas diversos como sexualidade, respeito e convivência, prevenção de drogas, doping, regras do futebol e também algumas atividades práticas como a vivência de entrevistas esportivas, nas quais os atletas assumem papel de entrevistador e entrevistado, e encontros, conversas e trocas de experiências com atletas profissionais e ex-atletas.

Imagem: Arquivo Pessoal

 
Universidade do Futebol – Do ponto de vista da sua área de atuação, o que você considera necessário desenvolver em jovens atletas de futebol?
Marina Vidual – O principal objetivo do psicólogo do esporte é entender como os fatores psicológicos influenciam o desempenho físico e também compreender a via oposta (como o esporte pode influenciar e desenvolver os aspectos psicológicos). Quando nos referimos aos aspectos psicológicos estamos falando de habilidades que são cognitivas – atenção, raciocínio, tomada de decisão, processamento de informação – e emocionais – ansiedade, estresse, agressividade.  O primeiro ponto importante é que não podemos e não temos como separar o indivíduo do atleta. Se o indivíduo se desenvolve pessoalmente, com certeza isso também terá influência no atleta. No trabalho com as categorias de base precisamos ter um olhar especial para a formação desses jovens, com foco na formação global e integral do ser humano como um cidadão de bem e agente de transformação social. A partir do momento em que se investe numa formação sólida (valores, hábitos saudáveis, autoconhecimento, educação, obviamente aliados ao desenvolvimento esportivo), é maior a probabilidade de sucesso esportivo alicerçado no benefício pessoal. Precisamos entender o atleta de forma integral, levando em consideração emocional, cognitivo, social, fisiológico, comportamental. Acredito muito que com o desenvolvimento global o desenvolvimento esportivo é otimizado, proporcionando assim que o atleta alcance seu rendimento máximo.
A psicologia aplicada desde a base aumenta a qualidade de habilidades psicológicas na vida do jovem que está se formando como atleta, mas principalmente como pessoa. Proporciona também desenvolver seu autoconhecimento – existe uma relação direta entre o papel do atleta e a formação de sua identidade.
Universidade do Futebol – Como é a relação entre seu trabalho e as outras áreas que lidam com os atletas?
Marina Vidual – De um modo geral essa relação é boa. A psicologia ainda é vista com certa resistência por alguns profissionais e pessoas relacionadas ao futebol (alguns técnicos, dirigentes, atletas). Acredito que essa resistência está relacionada, principalmente, com a falta de conhecimento e de informações referentes à área e ao trabalho que é realizado. Ainda é bastante comum a confusão entre prática clínica e prática da psicologia do esporte. Em outras modalidades, vejo que a psicologia do esporte já está um pouco mais consolidada em comparação com o futebol. Percebo também que nas categorias de base essa cultura e essa visão estão em transformação: os profissionais com os quais trabalho sempre buscam informações comigo, perguntam sobre alguns atletas, e algumas vezes até os encaminham (quando percebem algum tipo de mudança de comportamento, queda de desempenho). Podemos perceber que os atletas, quando têm esse tipo de acompanhamento durante a formação, chegam ao sub-20 ou à equipe profissional mais críticos com relação ao trabalho e com menos preconceitos com relação à psicologia no futebol.
Imagem: Arquivo Pessoal

 
Universidade do Futebol – E a relação com os pais de atletas? Quais diretrizes norteiam esse contato?
Marina Vidual – É uma relação muito boa. O departamento que possui maior interação com os pais é o departamento psicossocial, e esse primeiro contato ocorre através da entrevista de admissão do atleta. Nesse momento, acontece uma conversa com os pais/responsáveis pelo atleta explicando como será a rotina no clube, apresentamos o CT e realizamos uma entrevista psicossocial abordando alguns temas que consideramos importantes, como relação familiar, gestação e desenvolvimento do atleta, questões relacionadas à saúde, questões escolares, condições financeiras da família. Esse primeiro contato estabelece um importante vínculo entre clube e família. Alguns atletas vão muito cedo morar em um alojamento (a partir de 14 anos), e esse contato com as famílias é muito importante. A família precisa ter confiança no clube e nos profissionais envolvidos com a formação de seu filho.
Na reapresentação dos atletas neste ano, tivemos o I Encontro Família e Escola: “Base para Ponte”, no qual convidamos pais e responsáveis, além de diretores e coordenadores das escolas parceiras, para apresentar o projeto de trabalho do ano.

 
Universidade do Futebol – De acordo com sua experiência, quais são os pontos positivos e negativos da influência de agentes externos (pais, empresários, amigos, cônjuges etc.) no processo de formação dos jogadores? Como você atua nesse contexto?
Marina Vidual – Nas categorias em que trabalho, a presença, participação e apoio da família são fundamentais. Nesse caso, um ponto negativo é quando a família deposita todas as suas esperanças de ascensão financeira no atleta ou quando cobra excessivamente por resultado e desempenho. Tivemos um problema com o comportamento de torcer dos pais na estreia do Campeonato Paulista sub-13: fizemos uma reunião educativa e a construção de uma cartilha “Como torcer para meu filho?”. Na maioria dos casos, as relações com amigos e namoradas são bem estabelecidas e não apresentam muitos pontos negativos. Com relação aos empresários, por orientação do clube não temos nenhum tipo de interação. Nessa relação entre atleta e empresário, percebo que muitos empresários estão interessados apenas no desempenho do atleta, oferecendo ajuda de material esportivo, viagens para casa de final de semana e em alguns casos auxílio financeiro a atleta ou família. Poucos são os empresários que estão preocupados em investir na formação desse atleta como pessoa.
Universidade do Futebol – Existe algum documento orientador/diretriz metodológica no clube em que você trabalha?
Marina Vidual – Sim, é um documento que contém informações referentes à reestruturação da base a partir do método Ponte Preta de formação de jogadores. Esse documento aborda principalmente as questões técnicas e de treinamento, bem como o foco do trabalho a ser realizado com cada categoria. Estamos em fase de discussão para criar um documento orientador específico para o departamento de psicologia, algo estruturado do que é importante desenvolver e abordar com cada categoria.
Universidade do Futebol – Quais são as maiores dificuldades no exercício do seu trabalho?
Marina Vidual – Os maiores obstáculos encontrados acontecem pelas dificuldades de compreensão do trabalho. Muitas vezes tentam encontrar apenas um motivo determinante para uma derrota (por exemplo, “não estavam psicologicamente preparados” ou “não estavam fisicamente preparados”) em vez de ter uma visão mais sistêmica. Diferentemente dos atletas profissionais, com os atletas da base é mais fácil trabalhar a desconstrução de preconceitos relacionados à psicologia (“psicólogo é para louco ou para quem tem problema”). Outro grande desafio da prática profissional é saber interpretar um ambiente tão peculiar como o futebol, que além de ser exclusivamente masculino – muitas vezes passamos por situações machistas – funciona como um sistema vivo, possuindo um conjunto de relações que são fundamentais para entender as questões e relações de poder.
Imagem: Arquivo Pessoal

 
Universidade do Futebol – Do que você mais gosta no exercício do seu trabalho?
Marina Vidual – Sou muito realizada e tenho muito prazer de trabalhar com formação no futebol. É um aprendizado diário – brinco que no mínimo o futebol está desenvolvendo nossa resiliência e assertividade a todo momento. Como comentei anteriormente, o futebol possui um ambiente peculiar e por vezes é complicado, mas proporciona aprendizado e desenvolvimento pessoal e profissional enorme. Estou no clube há dois anos, mas parece muito mais por todo o aprendizado e experiências vivenciadas. É gratificante trabalhar com futebol de base.
Universidade do Futebol – Que perfil de atleta você pretende formar?
Marina Vidual – Queremos um atleta vencedor no esporte, mas principalmente na vida. Além da formação esportiva, um atleta que seja um cidadão de bem e um agente de transformação social. Com valores, hábitos saudáveis, formação educacional e esportiva adequada, desenvolvidas de forma integral. O processo de formação de atletas deve respeitar as fases de desenvolvimento global em uma visão ampla e de abordagem sistêmica.

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PROMOÇÃO 13o ANIVERSÁRIO UNIVERSIDADE DO FUTEBOL

Na semana de Aniversário da Universidade do Futebol quem ganha presente é você! Participe de nosso mini-campeonato e concorra a prêmios diários!!
COMO FUNCIONA 
Durante a Semana de Aniversário da Universidade do Futebol (entre os dias 25 a 29 de Julho) serão publicados em diferentes horários, 3 vídeos no Facebook, com integrantes da equipe da Universidade do Futebol fazendo perguntas relacionadas com futebol e com a Instituição (todas as respostas são encontradas no nosso site e redes sociais).
Somente pontuarão os 20 primeiros que responderem corretamente cada pergunta lançada.
Os 5 primeiros ganham 10 pontos
Do sexto ao décimo ganham 7 pontos Do 11o ao 15o ganham 4 pontos
E do 15o ao 20o ganham 2 pontos
Dessa maneira, quem obtiver a maior pontuação ao final do dia irá receber o premio. Caso haja empate, a rapidez em responder será critério de desempate (as respostas das publicações no Facebook, sempre tem a hora exata).
PRÊMIOS
1 (um) CURSO POR DIA
– De segunda-feira (dia 25) à sexta-feira (dia 29).
O prêmio será entregue à pessoa que mais pontos fizer entre as 3 respostas do dia. Não necessariamente devem ser respondidas as 3 perguntas, se com apenas uma ou duas respostas ela obter maior pontuação que os demais, poderá receber o prêmio.
Os pontos não são acumulativos de um dia para outro. Cada dia é uma nova pontuação que começa do zero.
Dia Prêmio – Cursos Valor 
25/julho Gestão em Marketing I R$129,90
26/julho Análise de Jogo I R$129,90
27/julho Treinando através de jogos: o Passe R$400,00
28/julho Jogos Reduzidos e Adaptados no Futebol R$500,00
29/julho Modelo de Jogo R$600,00
– O prêmio, uma vez concedido, é pessoal e intransferível.
– Os alunos que estão realizando algum curso da Universidade do Futebol, regularmente matriculados até a divulgação desta política, não são elegíveis às regras e condições ora ofertadas para o curso que realiza.
– Alunos que tenham estudado algum curso na Universidade do Futebol e que realizaram trancamento de suas matrículas, ou desistiram do curso, sem solicitação formal de cancelamento, não são elegíveis as regras e condições ora ofertadas.
– Já os alunos que cancelaram formalmente sua matrícula até 22/07/2016 são elegíveis as regras e condições ora ofertadas, desde que não possuam débito ou inadimplência com a Universidade do Futebol.
– Para fazer jus ao benefício do prêmio, a matrícula para inicialização nos cursos, deverá ocorrer, obrigatoriamente, até o final de 2016 (31 de dezembro).
Os prêmios serão oferecidos somente para os participantes que seguem nossa página no Facebook.
O cancelamento, desistência ou trancamento do curso não exime o aluno beneficiado da responsabilidade de comunicar a interrupção dos estudos por escrito e formalmente à Instituição. Ocorrendo qualquer uma das hipóteses acima listadas ou, ainda, ocorrendo o abandono do curso, o desconto promocional será cancelado automaticamente.

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Pernambuco fecha parceria com UdoF e UNICEF

Secretaria de Turismo, Esportes e Lazer de Pernambuco promove curso de capacitação em parceria com UNICEF, Universidade do Futebol e Fundação F.C. Barcelona

Com inscrições abertas, o curso “Educar pelo Futebol” visa aliar o bom ensino do futebol ao desenvolvimento integral das crianças e adolescentes.

A Secretaria de Turismo, Esportes e Lazer de Pernambuco lançou, nesta segunda (30), o Programa Mais que Futebol, que tem como finalidade capacitar 150 profissionais, sendo 80 professores de Educação Física da rede estadual de ensino, 30 acadêmicos do Curso de Educação Física e 40 representantes de projetos sociais e de escolinhas de todo o Estado. Os profissionais terão a oportunidade de participar de um processo de formação com aulas presenciais e on-line. O Programa é uma parceria da secretaria, o Fundo das Nações Unidas para Infância – UNICEF e a Universidade do Futebol, principal referência teórica e de formação sobre o futebol no País, com o apoio estratégico da Fundação F.C. Barcelona.
O objetivo é promover e oferecer a capacitação e atualização profissional de professores de escolas, escolinhas e projetos sociais, transformando o futebol em ferramenta com fins educativos, formando cidadãos e melhorando a qualidade de vida. “Por meio do Mais que Futebol, queremos trabalhar diretamente com a base, qualificando os professores e tornando-os formadores de atletas, mas, acima de tudo, de cidadãos que fazem a diferença. Estamos enxergando o futebol como uma forma de educar as crianças e adolescentes de todo o Estado”, afirmou o secretário Felipe Carreras.
“Muitas crianças e adolescentes sonham em ser atletas. Para nós o mais importante, é que o esporte seja uma oportunidade de um desenvolvimento integral de todos meninos e meninas. Estamos muito satisfeitos em ter mais profissionais como aliados do direito ao esporte, praticado de forma segura e inclusiva”, ressalta Rodrigo Fonseca, especialista de Esporte para o Desenvolvimento do UNICEF no Brasil.
O conteúdo que será trabalhado no curso foi formulado pela Universidade do Futebol e UNICEF, que têm levado a iniciativa para diferentes países, promovendo a capacitação dos professores e a qualificação das aulas e treinamentos.
De acordo com o CEO da Universidade do Futebol, Eduardo Conde Tega, o curso baseia-se em três pilares fundamentais: “Ensinar Futebol a Todos”, “Ensinar Bem Futebol a Todos” e “Ensinar mais que Futebol a Todos”.
Toda a capacitação será gratuita, com duração de três meses, e o início está previsto para o dia 15 de dezembro deste ano. Os interessados em participar devem acessar o edital de convocação no site oficial da Secretaria de Turismo, Esportes e Lazer de Pernambuco, o www.setur.pe.gov.br.