Universidade do Futebol

Eduardo Fantato

03/01/2012

Tecnologia para monitorar comportamento fora do campo: será necessário?

Olá, amigos!

Que este ano que se inicia possa trazer grandes frutos e conquistas a todos e que possamos seguir neste espaço a debater sempre com seriedade, conhecimento, trocando nossas experiências acerca de diversos temas que nos despertam as curiosidades relacionadas ao universo do futebol. Um grande 2012 a todos!

No texto desta semana, trago para discussão um aplicativo divulgado recentemente para que qualquer usuário possa se motivar e fiscalizar a prática de exercícios. É o GymPact.

Nesse aplicativo, a pessoa vincula o GPS às metas estabelecidas de sua presença a locais específicos para a prática de atividades físicas. Assim, se ela se ausenta num dia programado, o aplicativo debita um valor em dinheiro da conta da pessoa; se a pessoa freqüenta, ela recebe como prêmio.

“O usuário só pode se cadastrar fornecendo um cartão de crédito, e o GPS é usado o tempo todo para saber se você realmente está na academia. Se você falta à aula, o aplicativo tira US$10 de sua conta e coloca no “bolo”. É desse bolo – o bolo dos perdedores, aqueles que não foram à academia e ainda perderam o troco – que também sai o pagamento caso o pacto seja mantido. Os pactos são feitos semanalmente – bom para aqueles com ritmos bem inconstantes”.

É interessante e inusitada a proposta, porém quando recebi a indicação desta reportagem, enviaram-me junto o seguinte questionamento:

“Será que não vale a pena os clubes investirem nisso para que seus jogadores sejam mais controlados principalmente no período de férias?”.
 


 

Entendo a preocupação, dados os frequentes deslizes de muitos atletas quanto aos cuidados com suas condições físicas. Temos que deixar claro que o período de férias é importante na lógica do treinamento, já que se trata de um período transitório que deve ser respeitado. E complementamos ainda que tais deslizes não se dão só no período de férias – é possível observar tais fatos em pleno decorrer da temporada competitiva.

Acredito sempre que a tecnologia contribua com os processos desportivos, porém temos de separar bem, e sobretudo definir, o que é feito como imposição do que é feito com clareza e discernimento.

Assim como no futebol brasileiro muitos pregam que é impossível culturalmente liberar os atletas das concentrações (veja coluna em que debatemos o tema), pelo mesmo motivo se justificaria tal recurso tecnológico de fiscalização do atleta.

Seria possível se desenvolver diferentes níveis de controle, desde a presença ou não no local indicado, até mensurações de atividades realizadas, ou não. Ainda que alguns sejam criativos o bastante para burlar qualquer forma de controle, seja tecnológicou ou mesmo a famosa cartilha dos técnicos mais tradicionais, concordamos que poderia surtir algum efeito.

Entretanto, da mesma forma que defendo a tecnologia no esporte, defendo também o desenvolvimento de pessoas mais inteligentes (com o risco do termo não ser o mais adequado) nos quesitos de compreensão do grande campus esportivo (termo oriundo dos estudos de Bourdieu). Falamos tanto em formar atletas inteligentes, modelagem de jogo, capacitação dos profissionais do futebol, atualização tecnológica, enfim, em diferentes níveis discutimos uma valoração dos aspectos voltados a inteligência no futebol.

É nesse ponto que acredito a tecnologia deve ser pensada, para facilitar o controle de treinos, mensurações, diagnósticos e planejamentos. Mas à medida que se torna um instrumento de punição, de controle, de aposta na má fé, reforça-se cada vez mais o caráter descompromissado de quem já tem essa intenção.

A punição, na minha opinião, para o atleta que não adota uma postura profissional hoje, não é fiscalizar o que faz ou que não faz, e sim analisar o quanto isso afeta ou não seu desempenho em campo. A partir disso, tomam-se as medidas contratuais cabíveis, renegando o passar a mão na cabeça ou a bronca ao atleta.

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br
 

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