Universidade do Futebol

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11/02/2016

Treinador: competência técnica ou relações humanas?

Permita-me, inicialmente, fazer uma breve apresentação. Meu nome é Rafael Ferreira e atualmente sou assistente técnico da equipe sub-15 do Coritiba Foot Ball Club.

Sou Bacharel em Treinamento em Esportes pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Iniciei meus trabalhos como profissional do futebol no Paulínia Futebol Clube, sob as orientações do professor Dr. Alcides Scaglia. Tive uma rápida passagem pela Associação Atlética Ponte Preta, retornei ao Paulínia FC, onde completei um ciclo passando por todas as categorias de base e equipe principal, sempre como treinador adjunto. E no ano de 2015 mudei-me para a capital paranaense, atraído por um grande projeto de transformação das categorias de base no Coritiba Foot Ball Club, onde enfrentamos a árdua tarefa diária de melhorar o processo de formação de atletas. Apresentação feita, vamos ao tema!

O mundo do futebol vem percebendo aos poucos a necessidade de constante atualização profissional, além de implementação da ciência e profissionalização em todos os seus segmentos. A profissão de treinador, enigmática e concorrida, talvez seja uma das mais julgadas (mesmo que na maioria delas empiricamente). É comum, e é da na nossa cultura, a discussão em cada canto da sociedade sobre qual é o melhor treinador, o que deveria ser feito numa situação-problema no jogo, qual o treinador ideal para sua equipe.

E o que é mais determinante, partindo de um lema conhecido nos ambientes de discussão: um treinador com competência técnica ou muito bom em relações humanas?

Todos aqueles que permeiam no futebol sabem que, para alcançar esta concorrida função, há de se construir bons laços humanos. Isto porque, via de regra, quem toma decisões de contratação (em sua maioria) não são profissionais formados para o futebol, e muitas vezes, sequer são remunerados. Logo, o critério para escolha raramente é técnico, e quando o é, tende a ser superficialmente embasado em conceitos (talvez o mais usado seja o critério de “vitórias” – não discuto aqui o mérito de se usar este critério, pois acredito que em alguns ambientes este seja sim o critério determinante, principalmente em equipe profissional).

Ocorre que, uma vez posto no cargo, este treinador será indubitavelmente um líder. Líder de pessoas, em seus mais diferentes níveis hierárquicos – atletas, comissão técnica, equipe de apoio. Terá que lidar com diretores e torcedores, e apresentar resultados. Deverá conhecer a cultura do clube onde está inserido. E obviamente, fazer o time jogar bem – ou vencer – ou os dois.

Sendo líder, precisará construir um ambiente de produtividade e desenvolvimento comum a todos e ao trabalho – medido pelo desempenho da equipe. Precisará, e muito, de cada um de seus assistentes, se quiser atingir um nível de excelência. Terá que oferecer as melhores condições para que um atleta suplente esteja pronto para jogar e sinta-se importante no grupo, assim como fazer com que o atleta titular tenha consciência que sua condição é temporária e por mérito. E isto tudo se constrói, entre outros, com uma boa gestão de grupo.

Logo, parece sim ser necessário construir relações humanas favoráveis ao seu crescimento pessoal e profissional, mas faço um alerta para os princípios que utilizará para construir tais alicerces – recomendo a leitura da coluna do Eduardo Barros para fazer esta reflexão em https://universidadedofutebol.com.br/a-sua-melhor-versao-te-leva-alem/.

Porém, na opinião deste que vos escreve, para manter-se na função e crescendo profissionalmente, será necessário alicerçar seu trabalho em princípios bem fundamentados – ou seja, ter muita competência técnica e buscar atualização constante.

E uma última reflexão que faço em minha conclusão vem de uma discussão com um grande amigo. Um dos maiores entraves para continuidade no desenvolvimento de um trabalho ganha corpo na “rivalidade” de competências: profissional acadêmico ou ex-jogador, líder técnico ou gestor de grupo, foco em formar jogadores ou vencer nas categorias de base, priorizar a teoria ou prática, treino analítico ou sistêmico. Talvez ainda não tenhamos superado estas dualidades e conseguido evoluir com as mais diferentes competências, mas isso pode ser um próximo assunto!

E você, leitor, o que acha deste tema? Escreva para rafael@universidadedofutebol.com.br e vamos debater!

Um grande abraço e até a próxima!

Comentários

  1. Reinaldo disse:

    Boa abordagem! Creio que, no fundo, o que mantém um treinador em sua função são os resultados. Alcançar metas pré-definidas além de manter o bom relacionamento não só com jogadores mas com toda a equipe são pontos fundamentais. É claro que, por ser uma profissão de um esporte tão passional, ter o ‘aval’ do torcedor pode ser outro ponto decisivo, mas que na minha opinião, não deve estar entre as maiores preocupações do treinador. Abs,

    • Bom dia Reinaldo!
      De fato, há que se ter um equilíbrio entre as competências, e no alto nível, entender as maneiras de conquistar resultados para que possa ser consistente. Obrigado pela colaboração.
      Abs

  2. Cristina Camargo disse:

    Rafael não entendo nada de futebol mas gostei muito do seu texto. Esse é o primeiro de muitos.

  3. Hans Zelly Sousa disse:

    Rafael, há uma inconsistência nos trabalhos das equipes brasileiras quanto às dualidades citadas no texto. Perdem-se ótimos trabalhos por conta de resultados. Acho que, a base não deveria ser cobrada quanto à produção de resultados mas sim por desenvolver jogadores para que esses cheguem ao profissional em condições de produzir melhor para seu clube. Abraço!

    • Olá Hans!
      Concordo que o principal sentido das categorias de base seja formar e desenvolver pessoas/atletas para a equipe principal.
      Há muitos detalhes que tiram o foco deste objetivo principal na formação.
      Penso que o tema é um pouco mais complexo, vamos discutir juntos estes detalhes por aqui.
      Abraços

  4. Vladimir Felix disse:

    Bom dia!

    Esse tema vem sendo bastante discutido em palestras, congressos, enfim, eventos que trate sobre o Futebol. No entanto, penso que tais dualidades só não foram ultrapassadas culturalmente aqui no Brasil. Creio que, principalmente por todo um sistema que necessita fazer com que o senso comum ainda pense de forma retrógrada e conservadora.
    No entanto, acredito que no meio esportivo, como um todo isso está quase superado, no que se refere à importância de uma formação integral do treinador de futebol. A Europa é exemplo disso, se tivéssemos avançado nesse quesito, com a enorme possibilidade de atletas, com certeza ainda seríamos uma potência mundial.

    Parabéns Professor pelo tema!

    Grato.

    Vladimir Felix
    Professor de Educação Física

    • Olá Vladimir!
      Concordo com você, e penso que nós temos importante papel neste processo de mudança.
      A “quebra de paradigmas” envolve tempo, conhecimento e dedicação.
      Obrigado pela contribuição.

      Abraços!
      Rafael

  5. Hans Zelly Sousa disse:

    Vladimir, vc tem toda a razão, vemos hoje nisso quando os treinadores brasileiros são questionados sobre a presença de técnicos estrangeiros em nosso país, pois existe um corporativismo e demonstra que os técnicos daqui querem se perpetuar nos seus cargos mesmo sem se preocupar em adaptarem-se aos novos conceitos globais do futebol. Abraço.

    Hans Zelly Sousa
    Prof de Educação Física tbm.

  6. Marcelo disse:

    Vladimir, bem posto suas colocações. As decisões tomadas são em tese técnicas. Seja por uma avaliação financeira, seja por rentabilidade, por performance do atleta. A grande incongruência se trata da divergentes visões entre setores de um clube que é composto por: dirigentes, sócios, atletas, funcionários. Além de um grupo externo que é o torcedor. Essa relação será basicamente conflituosa mesmo em dimensões diversas. Além de ter recursos definidos e sua utilização correta, o que seria o mais simples, há de gerir os conflitos ou ampliar o campo mental de todos para que se tenha um bom desempenho. O conflito é positivo quando convertido ao objetivo. Essa gestão poucos sabem fazer ou quando o fazem, é empírico e isolado.

    Abraço.

    Marcelo
    Master Coach

  7. João Paulo disse:

    Boa tarde!!
    Acredito que um dos grandes problemas no desenvolvimento do futebol é tratar as competências como por exemplo profissional acadêmico ou ex jogador como “rivais”. Se ao invés de discutir qual das duas maneiras é a melhor e começar a pensar em unir as duas maneiras, com certeza os resultados seriam muito melhores, todas as maneiras seja como ex jogador ou profissional acadêmico tem as suas vantagens e desvantagens, assim como todas as outras citadas. Não acredito que uma seja melhor que a outra, mas que as duas juntas podem contribuir muito mais para o futebol do que cada uma isolada.

    João Paulo
    Ex atleta profissional de futebol e cursando 2 ano de Ed. Física.

    • Olá João Paulo!
      Acredito justamente nisso que você pontuou, ou seja, precisamos superar as rivalidades e construirmos novos conhecimentos a partir das mais diversas competências.
      Conto com você nas discussões por aqui.
      Grande abraço!

  8. Caio disse:

    Olá Rafael!
    Me chamo Caio, tenho 20 anos, moro em Curitiba também, apesar de minha família ser do Rio de Janeiro, na verdade queria te pedir algumas dicas, quero trabalhar nessa área, é o que eu gosto e aonde me sinto bem, além da faculdade que vou fazer, cursos,estudando diariamente, o que tu me recomenda para uma pessoa que esteja no inicio dessa carreira, aonde posso procurar algo para ter uma primeira experiência no futebol, além de ter jogado?
    Grato se responder.

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