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15/01/2018

Verdadeiro ou falso

"Entre as muitas coisas que o esporte precisa discutir para evoluir, e não apenas no Brasil, está a relação de responsabilidade com notícias"

Foi extremamente simbólica a promessa de Emmanuel Macron, presidente da França, em seu primeiro pronunciamento de 2018. Quando falava sobre uma nova legislação para ambientes online e transparência em redes sociais, o mandatário nacional avisou que pretende banir das eleições gaulesas as chamadas “fake news” (“notícias falsas”, em tradução livre). Foi o suficiente para gerar polêmica até em território local – toda tentativa de cerceamento de liberdade de expressão provoca debate acalorado, afinal.

Independentemente das acusações direcionadas a Macron ou das comparações entre o comportamento do político francês e o controle de mídia característico de regimes ditatoriais, contudo, o simples fato de esse tema ainda dominar o noticiário é prova inequívoca de que o planeta ainda não aprendeu a lidar com o tema.

No fim de 2016, quando Donald Trump foi eleito para presidir os Estados Unidos, as “fake news” também dominaram a campanha. O então candidato já demonstrava naquela época uma verborragia pouco comprometida com a veracidade. Apenas para citar um exemplo, o jornal “Washington Post” fez um levantamento em 2017, numa entrevista que durou 30 minutos: o político empilhou 24 afirmações falsas ou parcialmente falsas (ou uma mentira a cada 75 segundos, em média).

O uso de falácias para contar histórias não começou com Trump, e a preocupação com o tema tampouco floresceu apenas depois de Macron. É prática recorrente no jogo político, independentemente do país ou da época. A diferença é que hoje existem dois instrumentos que potencializam as coisas: se por um lado as redes sociais facilitam a disseminação de notícias que nem sempre podem ser levadas a sério, houve um nítido desenvolvimento no mercado de checagem de dados durante os últimos anos. As duas lógicas abrangem também o cenário brasileiro.

O advento das agências de checagem e o desenvolvimento de núcleos dedicados ao tema em grandes veículos de mídia, contudo, não foram suficientes para que essa lógica transformasse em igual medida a relação de produção de conteúdo em todas as searas. Se mudou as regras do jogo na cobertura política, por exemplo, não serviu para instigar mais a editoria de esporte.

Houve um exemplo claro disso com o tenista brasileiro Thomaz Bellucci. No dia 4 de janeiro, o atleta revelou que estava suspenso por ter sido flagrado em exame antidoping. A pena relativa ao consumo de um diurético foi notificada ao estafe dele em 18 de setembro, mas Bellucci não disputa uma partida oficial desde 30 de agosto. Com conivência da ATP (Associação dos Tenistas Profissionais) e proteção de um acordo de confidencialidade, o brasileiro vinha sustentando que tratava um problema no tendão de Aquiles.

Casos de doping são sempre delicados, e a revelação de dados sobre esses episódios também tem uma série de facetas. Expõe à condenação pública alguém que ainda não passou por um julgamento adequado, por exemplo, e de certa forma até atribui publicidade aos medicamentos que podem afetar o desempenho. Há muitos aspectos a discutir, e todos podem ter contribuído para o comportamento de Bellucci. Não cabe aqui um julgamento do mérito, portanto, mas uma simples constatação: o tenista sustentou durante pelo menos três meses uma história de uma lesão fictícia e influenciou de forma negativa o trabalho de todos que acompanham o dia a dia da modalidade no país (jornalistas, torcedores, dirigentes e etc.).

No futebol há várias histórias similares, e a época em que a janela de transferências está aberta apenas potencializa o noticiário distorcido. Com menos jogos e menos histórias concretas, o cotidiano de quem acompanha os clubes passa a ser uma chuva de “fulano interessa”, “beltrano foi sondado” ou “sicrano tem negociação em andamento”.

Novamente, assim como no caso Bellucci: não estou acusando alguém de má intenção. Não tenho fundamento para isso. Minha questão é que o esporte ainda é uma seara em que fontes que podem ter acesso a apenas parte de uma história ou se beneficiar de uma publicação encontram muito espaço para manipulação. A janela de transferências apenas deixa isso mais claro.

Pense em quantos jogadores o seu time “quis contratar” e que depois receberam belo aumento para seguir onde estavam jogando. Pense na quantidade de negociações que um empresário disse que poderiam vingar ou que um jogador disse que seriam um sonho. Pense nos negócios que foram gerados a partir disso e em quanto dinheiro essas possibilidades adicionaram ao jogo. Existem muitos interesses envolvidos em movimentações financeiras tão significativas quanto as que são feitas no futebol.

No Brasil, a história recente que ilustra melhor essa história é a dos controladores da JBS, que fizeram uma venda milionária de ações antes de vir a público a delação que seus acionistas haviam feito à Justiça brasileira. Havia um enorme interesse, portanto, no vazamento do conteúdo exatamente naquele momento.

Essa relação de perdas e ganhos é menos óbvia no esporte, o que torna o ambiente mais suscetível à aparição de “fake news”. Existe uma noção menor de responsabilidade (contar um detalhe sobre os bastidores de um clube pode influenciar no andamento de uma eleição ou nos valores de uma transação, mas tudo isso é menos tangível do que o sobe e desce de ações ou de produtos, por exemplo).

Dizer que Bellucci tinha uma lesão no tendão ou que o time A pretende contratar fulano é praticamente um crime sem vítimas. Depois, sempre é possível dizer que o tenista se recuperou ou que o rumo de uma transferência foi alterado – até porque isso muitas vezes acontece, mesmo.

Entre as muitas coisas que o esporte precisa discutir para evoluir, e não apenas no Brasil, está a relação de responsabilidade com notícias (o que é bem diferente de censura prévia ou de controle de mídia, diga-se). Enquanto especulações ou versões enviesadas tiverem espaço nobre em noticiário e alimentarem discussões de torcedores, toda a profundidade do jogo seguirá sendo subestimada.

É difícil pensar no que acontece em um contexto tão dinâmico quanto o futebol se a maioria dos formadores de opinião – ou influenciadores, para usar um termo da moda – prefere apenas alimentar o óbvio.

No Brasil ou no exterior, há muito conteúdo bom para quem gosta de entender esporte ou quer saber o que acontece no segmento. Entretanto, também existe um espaço indesculpável para a notícia não responsável: enquanto até as redes sociais pretensamente abertas estão criando filtros e discutem há anos uma série de caminhos para limitar esse tipo de conteúdo, ainda aceitamos muito placidamente um noticiário que tem mais ego e pressa do que compromisso.

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