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Na última terça-feira aconteceu o maior clássico do futebol contemporâneo, e entenda a contemporaneidade mencionada como algo de três anos pra cá. Jogaram pela Champions League – até porque esse jogo não pode acontecer em nenhum outro campeonato (por favor esqueça a Copa da UEFA, se é que alguém se lembra dela) – Barcelona e Chelsea, o sexto confronto entre os dois times nos últimos três anos.
 
A grandeza desse confronto fica explícita na formação em campo, quando é possível enxergar boa parte da nata dos jogadores de todo o mundo. Além disso, as duas equipes são as atuais campeãs, e líderes, de seus respectivos campeonatos nacionais, que são também dois dos mais importantes campeonatos do planeta.
 
A rivalidade é nítida, e os últimos jogos entre as duas equipes têm correspondido à expectativa que se cria em torno dos grandes clássicos. Os jogos são pegados, corridos e nervosos. São dois times com características bem diferentes. O Chelsea é um time que faz um jogo muito físico e relativamente técnico, muito estruturado na mistura entre a escola européia com a escola africana. O Barcelona, por sua vez, faz um jogo muito técnico e relativamente físico, baseado na mistura entre a escola européia e a escola sul-americana. O conflito, entretanto, vai muito além do gramado.
 
Chelsea e Barcelona representam hoje duas realidades distintas e conflituosas existentes no mundo do futebol. São dois modelos de clubes baseados em estruturas e representações bastante diferentes.
 
O Barcelona gosta de dizer que é muito mais do que um clube, e talvez seja mesmo. São poucos os exemplos atuais que assumem tanta representação da comunidade na qual está inserido. O Barcelona é a Catalunha e a Catalunha é o Barcelona.
 
O Barcelona não tem dono, é comandado pelo corpo de mais de cem mil sócios, e não tem torcedores, tem membros. Quem torce pro Barcelona, de verdade, torce por um ideal, e não apenas pelo simples sucesso futebolístico. Sinal disso é que os jogadores que atuam no Barcelona são contratualmente obrigados a aprender catalão. Oleguer, jogador barbudo do clube que é meio zagueiro e meio lateral, é um atuante na política catalã de esquerda e em sua biografia recém lançada chega a fazer alguns devaneios a respeito da intromissão da Espanha nas guerras do Golfo. O Barcelona é a representação extrema do sucesso do modelo associativo dentro do futebol.
 
O Chelsea, por sua vez, não é nada mais do que um clube de futebol. Sequer isso. Mal possui torcedores, diga-se bem a verdade. A torcida do clube do bairro de Fulham nunca foi das maiores, e parte dela hoje rejeita o clube devido ao rumo tomado nos últimos anos. Uma nova leva de torcedores surgiu, mas mais influenciados pelos efeitos cosmopolitas de tantas estrelas reunidas em uma mesma camiseta do que exatamente por aquilo que o clube significa, que – como eu disse antes – é quase nada.
 
Um clube de relativamente pouca história e tradição, principalmente quando comparado ao exemplo citado no parágrafo acima, a equipe londrina estava afundada em dívidas e ameaçada de falência quando foi abocanhada por um bilionário russo que viu ali uma grande oportunidade de comprar simbolicamente sua cidadania inglesa e, dizem, o seu seguro de vida. Abramovich comprou o clube, os jogadores, e – indiretamente – os torcedores.
 
O Chelsea é um clube de um homem só, e se bobear pode virar o clube de uma mulher só. A esposa do bilionário russo descobriu esses dias atrás uma escapadinha sua e entrou com processo de divórcio que pode custar algo em torno de cinco bilhões e meio de libras ao décimo primeiro homem mais rico do mundo. Isso pode eventualmente incluir o clube de futebol. Por causa de uma loira de vinte e três anos, o Chelsea pode mudar de dono, e de rumo. Mas, no momento, ninguém contesta a solidez financeira do clube. O Chelsea é a representação extrema do sucesso do modelo empresarial contemplado com o investimento de um benfeitor.
 
Chelsea contra Barcelona é um contra a rapa. É o dinheiro do suor dos trabalhadores das indústrias siderúrgicas da Rússia contra o dinheiro do suor dos trabalhadores da Catalunha. É a nova onda do futebol contra o seu sentido tradicional contemporâneo.
 
Chelsea contra Barcelona é, de longe, o maior clássico do planeta.
 

Pelo menos enquanto a mulher do Abramovich não ganhar seus bilhõezinhos na justiça.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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