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No Brasil, o distanciamento entre a universidade e a sociedade impressiona. Não apenas pela escassez de instituições de qualidade ou pela falta de uma política mais apropriada para a área, mas principalmente pela pouca influência da produção acadêmica no cotidiano das pessoas.
 
Obviamente, esse problema faz parte de uma conjuntura deficiente muito maior. A falha não é concentrada apenas no ensino superior, mas isso não justifica o tamanho do desequilíbrio existente. Ao que me parece, e é bom frisar que eu não sou nenhum especialista no assunto, a universidade tende a se fechar nela mesma.
 
As já poucas pesquisas realizadas são muito mais focadas em agradar àqueles que fazem parte da estrutura acadêmica do que propriamente entregar algo de útil para o resto da sociedade, principalmente nas ciências humanas. Outras ciências, como as biológicas e exatas, tendem a entregar algo mais palpável.
 
No futebol, o exemplo é bastante claro. A universidade influencia, e muito, na produção de conhecimento para a prática de futebol, delegada principalmente à ciência da saúde. Os profissionais atuantes tendem a ter uma formação minimamente adequada, e existe um foco definido de atuação das pesquisas realizadas. Não à toa, o Brasil é – pelo que me disseram – uma das grandes referências do mundo no estudo dos assuntos relacionados ao jogo de futebol em si. Fora do limite do campo, entretanto, a coisa é bem diferente.
 
Existe muito, mas muito pouco conhecimento produzido que relacione o futebol às ciências humanas e sociais aplicadas. Talvez a exceção possa ser concedida ao estudo jurídico do futebol, uma vez que a situação não muito favorável em que boa parte dos principais clubes se encontra demandam bons advogados dos clubes e de quem firma contrato com eles, e ao estudo histórico e social do esporte, ainda que seja necessário aplicar uma série de ressalvas para esses últimos. Mas de resto, o cenário é decepcionante. Pouco é pesquisado e uma parcela ainda menor disso é realmente aproveitável. Na maioria das vezes, falta embasamento, fundamentação, referência e orientação.
 
Como a produção acadêmica é baixa e a qualidade deixa a desejar, as áreas que seriam afetadas por essas pesquisas ficam bastante comprometidas. Existe, por exemplo, uma clara e evidente carência de estudos mais aprofundados na área de administração do futebol.
 
Por causa dessa falta de teorias e conclusões que espelhem apropriadamente o cenário atual, o avanço fica deturpado e deficiente. Muito daquilo que se defende hoje para a administração do futebol brasileiro não foi seriamente estudado e fica baseado em reportagens da imprensa, que por sua própria natureza tende a fazer uma análise bastante superficial dos assuntos, e por tendências populares assumidas por legisladores.
 
Até hoje, por exemplo, não é possível achar um estudo que prove, com pouca margem de refutação, que o modelo empresarial é melhor para o futebol brasileiro do que o modelo associativo. O que significa, realmente, ser melhor para o futebol brasileiro? Alguém sabe dizer exatamente o que é o futebol brasileiro? O modelo empresarial é o melhor para o futebol de um modo geral? Existe uma forte vertente européia que diz que não, que o modelo empresarial significa na verdade o fim do futebol. Por quê? Quais são as variáveis que o conhecimento brasileiro está ignorando pra não ter chegado a essa conclusão? Estarão eles certos ou errados?
 
Não por acaso, a legislação pensada para a área tende a não emplacar. O discurso e as ações pela mudança da filosofia administrativa dos clubes já se alastram há duas décadas. Será que os dirigentes das organizações esportivas são tão intransigentes assim? Por que pessoas que defendem o discurso da modernização não atuam explicitamente nesse sentido quando assumem o poder decisório dos clubes? Existe tamanho cinismo? Ou será que o modelo apresentado como solução definitiva possui falhas na sua concepção?
 
É o mais provável.
 

É plenamente aceitado mundo afora que o futebol serve como uma das grandes metáforas da sociedade na qual está inserido. O explícito distanciamento entre a escassa produção universitária e o funcionamento real das coisas é só mais um exemplo disso.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br

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