Poupar jogadores prejudica o modelo de jogo?

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Tenho um grande amigo que é da polícia. Mais especificamente de um grupo de elite da polícia que se envolve com ações táticas especiais. Sua equipe tem vinte homens que se revezam em operações das mais variadas. Em geral agem em quinze policiais. Através de um rodízio de trabalho cinco “descansam” em estado de alerta. Nos treinamentos os vinte treinam em formações que geralmente compõem um grupo de quinze ou em números reduzidos, múltiplos de três. Todos estão sempre bem preparados, prontos para qualquer chamado, alertas para qualquer ação.

Dia desses, conversando com “Mano Basílios” (mais um dos notáveis do Café) me lembrei desse meu amigo da polícia. E como conversa vai, conversa vem, como lembrança vai, lembrança vem, as reflexões sobre a organização e logística das ações policiais me levaram a reflexões futebolísticas sobre os recorrentes surgimentos dos times “tapa buracos de revezamento” (os “expressinhos”, os “times B” e os “catados”).

A primeira vez que assisti a um treinamento de uma equipe de futebol profissional no Brasil fiquei surpreso. Onze jogadores faziam um trabalho tático em campo com o treinador, enquanto os demais atletas da equipe, realizavam treino de “sprints” atrás do gol.

Como sempre digo aos meus alunos, não podemos avaliar o trabalho de um treinador fazendo simples observações de um dos seus treinos (sem compreender o processo e seus objetivos). Então voltei dias seguidos para observar novos treinos da equipe.

Quando o treino não era “físico”, lá estava o grupo separado. Algumas vezes junto dos onze (ou dez quando o goleiro não participava), alguns “sparrings” (entendamos sparrings por “jogadores que colaboram para a evolução do treinamento dos outros”).

Indo além nas minhas observações, conversando, perguntando, pesquisando e colhendo informações descobri que tal “modelo” de trabalho não era característica comum apenas daquela equipe. Era quase praxe no meio.

Interessante no Brasil, os desdobramentos gerados por tal prática.

Muitas das principais equipes brasileiras acabam por participar de mais de uma competição ao mesmo tempo. Para poucas todas as competições são muito importantes. A maioria das equipes acaba por privilegiar essa ou aquela. Em função disso é cada vez mais comum poupar jogadores em um jogo (de uma competição “menos importante”) para poder aproveitá-los melhor em outro (de uma competição “mais importante”).

Isso traz à tona rótulos que acabam por “taxar” as equipes que têm dois ou mais de seus “principais jogadores” poupados; e daí surgem os “expressinhos”, os “times B”, os “catados”, etc e tal. Pura e exclusivamente para salientar que a equipe em campo não é aquela mais forte, mais apta, a principal.

O rótulo é sempre reforçado quando a “equipe B” apresenta rendimento abaixo do esperado (e tem resultado negativo);e isso aumenta a cobrança para que as equipes joguem sempre com os seus principais atletas (o que leva a desgastes maiores, maior número de lesões e a óbvia performance a desejar).

M

as é claro! Como esperar bons resultados se o próprio processo de treinamento empregado corre em detrimento da idéia de se ter mais do que onze jogadores, aptos, entrosados, prontos e preparados para entenderem o mesmo jogo e jogarem pelo mesmo modelo de jogo?

Se não se prioriza o grupo como um todo, não se conseguirá, ao se substituir um certo número de jogadores, manter um nível de excelência.

Muitas vezes culpa-se aos jogadores que acabam entrando (para poupar outros) pelo baixo rendimento da equipe. Porém, se enquanto os poupados estão dentro de campo recebendo instruções táticas nos treinamentos os substitutos estão atrás do gol realizando treinos de sprint, fica inconcebível imaginar que terão eles a mesma competência dentro do jogo.

Então, acabam sendo os próprios treinadores, vítimas dos seus próprios desconhecimentos; e os seus “expressinhos” os filhos de seus próprios descuidos.

Muitos dirão que não é possível manter o nível de jogo substituindo jogadores que são titulares por jogadores de menor potencial. O fato é que a abordagem de treinos como é feita só serve para amplificar as possíveis diferenças já existentes no nível de jogo de atletas que são ou não titulares.

Aliás, os conceitos de titular e reserva deveriam ser revistos. O pensamento deveria ser “quais são os melhores onze para iniciar o próximo confronto” e não “quais são os onze melhores jogadores do meu grupo para todo o campeonato“.

Mais uma vez poderia eu, dar diversos exemplos de equipes fora do Brasil, que por compreenderem melhor o processo competitivo, jogam qualquer jogo de qualquer campeonato com força máxima mesmo com um sem número de jogadores diferentes de uma partida para outra (vide como exemplo mais recente a equipe do Manchester United enfrentando a Roma pela Liga dos Campeões 2007/2008 nas quartas-de-final, levando a campo no segundo jogo uma equipe com cinco jogadores diferentes daqueles que participaram do primeiro confronto – venceram os dois confrontos).

Todos sabem qual é a diferença entre as grandes equipes, como o Chelsea (na época de Mourinho), e as equipes de sucesso ocasional, como o Liverpool de Rafael Benitez: é que umas lutam pela vitória em qualquer terreno, sabendo que a derrota é um risco, e outras esgotam as suas energias numa competição, sabendo que, no resto, a derrota é o preço a pagar pela impotência de lutar por esse grande desígnio de dar sempre uma boa luta em qualquer competição que apareça pela frente” (trecho do livro do jornalista José Marinho (2007): José Mourinho, vencedor nato. pág. 75).

Como diz meu amigo policial, ninguém do seu grupo pode estar “mais ou menos” apto ao trabalho. Ou se está pronto, ou não. E se não está não pode estar no grupo, nem em ação, nem descansando em alerta. Afinal de contas, em qualquer missão, cada um dos escalados tem nas mãos a vida do seu companheiro, um pelo outro, o tempo todo. Não há titulares ou reservas. Há quem está de serviço e quem não está. E ponto final!

Para interagir com o autor: rodrigo@universidadedofutebol.com.br

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